SEMANÁRIO

O marxismo (?) de Badiou

Lucas Hernán

O marxismo (?) de Badiou

Lucas Hernán

Imagem: Juan Atacho

Sobre o recente ensaio de Alain Badiou O que eu entendo por marxismo.
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O livro foi pela primeira vez às livrarias no início de julho de 2019 e é parte da coleção Biblioteca do Pensamento Socialista de Horacio Tarcus. O ensaio é uma reprodução da conferência que se pronunciou durante 2016 no contexto do seminário “Leituras de Marx” na École Normale Supérieure de Paris. Os seminários surgiram com os movimentos universitários de 2009 com visam reunir estudantes e militantes em leituras com os clássicos do marxismo.

O que não é o marxismo

Por meio do método desconstrutivo, Badiou começa o ensaio com a tarefa de buscar argumentar contra as definições que seu professor Althusser elaborou em seu período estruturalista, assim como também contra o mecanicismo estalinista. Ambos como interpretações dominantes de um momento histórico onde se procurou enquadrar o marxismo em conceitos rígidos ou pré-estabelecidos. Contra todos esses discursos, Badiou propõe desenvolver porque o marxismo não é redutível a somente uma ciência da economia e da história, a uma política ou também por que o marxismo não é redutível a apenas uma filosofia.

Partindo do texto de O Capital, Badiou mostra como a obra não apresentava a si mesma como uma nova ciência da economia, mas como uma crítica da economia, sobretudo da tradição liberal inglesa de Smith e Ricardo, com um sentido marcado pela negação da visão geral da economia como ciência. Em um segundo argumento contra essa ideia, o autor se apoia em um texto de Mao Tsé-tung chamado De onde provêm as ideias corretas? onde ficaria explícito que as “ideias corretas” (ou seja, o marxismo), embora partam primeiro da luta de classes e então da luta política, também provém da experimentação científica. PAra Badiou, essa terceira fonte de experimentação científica é central sobre as outras duas e, nesse mesmo sentido, tomará emprestada uma definição em que Lênin afirma que “em certo sentido, o progresso científico e técnico está acima das classes”. Desta maneira, Badiou termina seu argumento propondo que, se o marxismo é equivalente em grande medida à experimentação científica e essa última tem relativa independência dos “resultados práticos do que se acontece nas relações de produção”, então não haveria possibilidade de reduzir o marxismo a uma nova ciência da economia.

Em relação à equivalência entre marxismo e ciência da história, Badiou busca desligar o marxismo do pressuposto mecânico de Stalin, quem o catalogou como a junção de materialismo histórico e materialismo dialético. Nesse sentido, o autor vai deixar uma questão central que se baseia em que “o materialismo histórico” (proclamado pelo estalinismo) tem como dado um sujeito que se historiciza em seu próprio desenvolvimento quase de maneira independente dos problemas concretos da prática política. Assim, a conclusão se dirige para a impossibilidade de uma equivalência mecânica, caso entenda-se o marxismo também como uma teoria do sujeito político ou ao menos como uma teoria de como se localiza o ator ou atores da prática política. Por outro lado, com esse argumento central se critica a ideia althusseriana do marxismo como ciência de uma história sem sujeito. No final, Badiou voltará a textos de Mao, quem faz do “proletariado” uma posição puramente subjetiva, como um todo indivisível entre “classe trabalhadora”, “amigos da revolução” e “massas”. Dessa forma, o autor tenta mostrar que o debate e as problemáticas acerca do sujeito da história são muito mais amplas que as hipóteses de equivalência.

Ainda que seja incomum usar o conceito de política “marxista” - muito mais comum o de política revolucionária ou comunista - o ensaio tenta descobrir se pode haver uma equivalência completa entre o marxismo e a política, essa última entendida por Marx no Manifesto Comunista como o fim político da tomada do poder pelo proletariado. Sobre isso, Badiou propõe que, “se ‘marxismo’ designa uma política, o faz com essa complexidade singular, em virtude da qual se descreve como o processo de sua desaparição” [1] [desaparição do proletariado, N. de A]. Ou seja, não pode haver equivalência absoluta entre marxismo e política porque a destruição do Estado burguês é apenas um meio para o fim político do marxismo que é o comunismo.

Com o valor particular que dá Badiou à filosofia como o estudo do dia após os acontecimentos, propõe que não pode haver equivalência absoluta entre marxismo e filosofia porque, ainda que a essência filosófica do marxismo seja a dialética hegeliana “invertida” e concreta, há uma relação de ruptura não apenas com Hegel, mas com toda a história da filosofia. Nesse sentido, as teses sobre Feuerbach iriam propor, para Badiou, que, enquanto a filosofia exista, ela deve comprometer-se com um projeto de transformação social e converter-se em “uma das dimensões pensantes da política revolucionária” [2] .

Sobre as fontes e as partes do marxismo, o que é o marxismo para Lênin?

Diferentemente das teses que sustentou Althusser, como também a escolástica estalinista, Lênin, em seu texto Três fontes e três partes constituintes do marxismo [3] propõe uma unidade dialética entre filosofia, ciência e política, que conformam as partes deste. Ao mesmo tempo, as três fontes principais de que Marx nutre seu pensamento não são fontes que ao somadas dão no marxismo, pois Marx, ao mesmo tempo que toma o melhor das três, tem um espírito de crítica radical e violenta. A partir de onde? A hipótese de Badiou é que a unidade destas três partes é o conceito de classe. A filosofia idealista alemã, que tem dificuldade em sintetizar a vida de milhões de pessoas que pertencem ao proletariado, definitivamente não é materialista. A economia inglesa de Smith e Ricardo explica como se relacionam as mercadorias, e Marx procura explicar que por trás de cada mercadoria há relações sociais de exploração e opressão, e que o socialismo proudhoniano, que dirige o movimento operário francês, tem uma estratégia pequeno-burguesa que é impotente para aniquilar o capital. Dessa forma, a crítica de Marx às fontes é desde um sujeito particular. Desde uma classe, o proletariado.

Então é assim que Badiou, por meio do malabarismo com o vocabulário clausewitziano, vai desenvolver em toda a seguinte parte do ensaio um aprofundamento, sempre no marco das abstrações de Badiou, da hipótese de que “o centro de gravidade do marxismo é a relação entre classe e política”.

A organização política e a irreversibilidade

Com um interessante retorno a Lênin, Badiou começa a olhar com a lupa como a tensão entre política e classe está mediada pelo desenvolvimento da teoria organizativa leninista. Algo que, em poucas palavras, consistiria em educar no exercício de discernir os interesses que têm as classes sociais em luta e organizar o discernimento. “Educar e organizar”, disse Lênin, “são quase sinônimos”. Enquanto admite que, na questão da forma, Lênin proporá a forma de Partido, “marcada por uma disciplina militar, porque está orientado para a ideia de ser a cabeça de uma insurreição vitoriosa” [4].

Ainda que não aborde muito o problema político da disciplina militar dentro da organização, já que não há uma distinção entre o partido de vanguarda e o partido-exército que se propôs durante o século XX por distintas correntes guerrilheiras, parece haver um reconhecimento de que Lênin quer uma organização de tipo “militar” no sentido de uma organização que retira lições de derrotas, particularmente de 1848 e da comuna de Paris. Sob esse conceito transversal de organização é que Badiou começa a “recuperar” as distintas dimensões do marxismo (como filosofia, ciência e política) que “desconstrói” no início do ensaio. Então, a filosofia se incorpora na ideia de que um pensamento pode existir apenas na forma prática de sua organização, a ciência aporta em dar fundamentos sobre os interesses das classes contra as fábulas que a classe dominante cria, enquanto que, na política, recupera no sentido de uma “figura da construção de uma organização que [...] é capaz de fazer setores inteiros da sociedade passarem do estado de discernimento ao estado da ação coletiva” [5].

No entanto, como a chave para Badiou passa por dar-se conta de que todos esses fundamentos estão contidos de uma ou outra maneira no desenvolvimento teórico de Marx, ele retorna ao Manifesto Comunista para argumentar que, ainda que os comunistas façam política não desde “fora”, mas desde dentro do proletariado, há três características centrais que os distinguem da classe: antecipar a etapa seguinte, o internacionalismo e, por último, a obstinação, ou melhor, o fim político à frente dos obstáculos.

Aprofundando sobre este último, a conclusão é que a organização é o que orienta ou dirige a situação política “em direção a um irreversível”, mas o que é o irreversível? Para Badiou, uma vitória não pode ser parcial, pois que uma

“...vitória é ter escrito na história um ponto de irreversibilidade”, então o marxismo deve ser “uma teoria que busca dotar o movimento geral de uma representação do que é irreversível e do que não é, e que evita esgotar suas forças imprimindo às circunstâncias uma orientação que, com plena evidência, seria muito facilmente contrariada ou revertida [6].”

É para concretizar uma definição final de marxismo que sintetiza o conceito de organização proposto no princípio e o peso que dá a uma orientação que conquiste posições que sejam irreversíveis. O marxismo - esclarecerá - é

Um pensamento que situa de maneira complexa, abarcando todos os níveis de análise e compreensão, a possibilidade de uma prática política ligada (sem dúvidas) à categoria de classe como uma categoria ativa, como uma categoria que anima o conjunto do dispositivo, mas apenas com o objetivo de inventar uma prática nova, cujo núcleo seja superar (na medida do possível) as divisões que aparecem no discernimento dos componentes da situação e, a partir disso, traçar as consequências unificadas do discernimento de acordo com uma orientação até o irreversível.

Na proposta final de definição de marxismo, Badiou dá uma centralidade ao conceito de irreversibilidade [7] . Tudo isso pareceria deixar colocado o problema da estratégia, porém, não há necessariamente uma equivalência entre “conduzir até o irreversível” e a estratégia marxista, mas, de fato, uma negação da última. Vejamos por que.

Existem vitórias táticas que não sejam reversíveis? Definitivamente não e é pouco dialético (e menos ainda marxista) pensar que pode existir na realidade concreta a irreversibilidade de uma posição. Na medida em que exista inimigo, há a possibilidade de reversão das posições conquistadas (uma comissão interna dentro de uma fábrica, parlamentares, a revolução em um país etc.). Leia-se aqui inimigo como burguesia em qualquer país do mundo.

Porém, na tática pode haver vitória. Claro que não “a vitória final”, ou seja, a última finalidade política, o comunismo. O que é importante é compreender que, se o fim é a irreversibilidade na tática e, no entanto, na medida em que exista burguesia, há possibilidade de reversibilidade, então não devemos abandonar a primeira norma, mas se deve buscar um tipo de estratégia política que busque aniquilar o inimigo.

Não se pode negar que exista alguma relação entre o conceito de irreversibilidade e o de estratégia, e se vamos ao campo da prática política, Badiou vem utilizando esse conceito para cobrir pela esquerda a falta de estratégia do Syriza, como também a queda dos “socialismos realmente existentes” [8]. O ponto nodal é que afirmar que faz falta uma estratégia não necessariamente significa apresentar uma em particular, e aqui está o grande limite que faz da sua proposta uma negação voluntarista da estratégia [9]. As armas da crítica acabam na situação de apelar à vontade geral dos leitores e militantes a que encontrem “a irreversibilidade” em sua realidade cotidiana e de repente façam a revolução. Propor uma solução ao problema político da “antecipação prática do futuro” na busca voluntária dessa abstração coincide com sua teoria do Acontecimento, particularmente no desenvolvimento lacaniano do sujeito, que não pode nunca preceder o acontecimento, pois sempre é o segundo em relação a este último [10]. Se antigamente Badiou eliminou a possibilidade de que uma organização possa prever elementos gerais de acontecimentos, agora parece ter girado para admitir a necessidade de tal previsibilidade, mas não de baixo das ferramentas da estratégia, como são o cálculo de probabilidades e sua relação das lições históricas, mas sob a grande centralidade de uma “vontade coletiva” que encontre sua abstração.

Sobre abstrações

Embora o ensaio contribua em diferentes progressivas a respeito de problemas gerais dos marxismos dominantes do segundo pós-guerra, até mesmo abrindo um debate estratégico dentro do marxismo, existe um grande limite ao longo de todo o ensaio que se encontra nas abstrações a respeito de conceitos como os de classe, organização, partido, revolução etc.

Em uma das perguntas que se faz a Badiou ao final da conferência, se pergunta se o nível de abstração sobre o qual desenvolve sua definição de marxismo não entra em contradição com o materialismo marxista. Badiou responde ao interlocutor:

De nenhum modo creio que possa caber contradição com o materialismo que o marxismo invoca [...] porque a ontologia que proponho, que se situa no mais alto nível de abstração, é uma ontologia da multiplicidade como tal [...] dou uma resposta de certo modo científica.

Se, de fato, “ontologia” significa “discurso sobre a multiplicidade de que se trata”, então “não há diferença entre ontologia e matemática”, e adiciona:

É claro, tudo relativo às leis do mundo natural, tal como conhecemos, tudo isso, vai ser competência da matemática, porque em qualquer um dos casos essas coisas são. E, por outro lado, isso vai competir à experiência empírica ou à experiência organizada por instrumentos científicos, já que é particular.

Em síntese, para Badiou não há contradição entre o materialismo marxista e suas abstrações porque em última instância a matemática oferece todas as leis do mundo natural, já que toda a realidade é matematizável. Então, sua lógica consiste em que não há contradição porque ele se propõe criar uma ontologia que abarca de forma (muito) geral todos os grandes problemas do marxismo, enquanto que qualquer detalhe particular (qualquer contradição) não é um problema de sua ontologia, mas um problema que corresponde a um estudo da matemática.

Essa última parte poderia ser interpretada como uma ideia de coexistência pacífica entre as lutas que se deram e se dão entre as múltiplas interpretações - não matemáticas, mas históricas e políticas - destes conceitos dentro do mesmo marxismo. Embora o questionamento a respeito da irreversibilidade ou permanência das vitórias seja saudável, prevalece uma visão de ler o marxismo a partir de uma teoria que supõe uma equivalência entre a prática política e a abstração matemática.

Na teoria da guerra, o general Carl von Clausewitz, ao mesmo tempo que dava conta da possibilidade de uma teoria que possa prever o combate, se perguntará “até onde deve chegar a teoria na análise dos meios” e sobre isso responderá que o alcance deve chegar “até saber empregar na guerra as propriedades peculiares de cada um”, assim, “deste modo se reduz muito o número de questões objeto da teoria, e se limitam também aos conhecimentos precisos da Direção da Guerra”, justamente por isso é que “a estratégia utiliza mapas sem preocupar-se com medições trigonométricas” [11]. Com isso, o que se quer justificar não é o nível mais alto de abstrações, mas que a teoria da guerra não necessariamente chega até a mais particular análise da natureza, como a matemática. Porém, ainda é importante esclarecer por que não é válida a equivalência entre matemática e prática política, a proposta de Badiou não é um ensaio de matemática. Então, por que consideramos que sua proposta estratégica acaba na metade do caminho? Porque Badiou tem a impossibilidade de fazer conclusões políticas dos debates históricos do marxismo, uma impossibilidade contida no método desconstrutivo, que enterra a história das internacionais socialistas e comunistas com a taxação de “fantasmas”. Nesse sentido, pode-se dizer que deixa levantado um problema com as mesmas ferramentas que o limitam de fazer sua superação. Se algo fica claro é que o marxismo não ressurgirá nem estudando matemática, nem levando a sua máxima abstração para evitar a história de seus combates, a estratégia não atua no vazio das ideias, mas toma da experiência (da luta de classes) o fim e meios que examina [12].

Tradução: Caio Reis

Lucas Hernán nasceu em Capilla del Monte (Córdoba) em abril de 1999 e estuda filosofia na Universidade Nacional do Sul. Em 2016, colaborou como correspondente do La Izquierda Diario na região de Coronel Suárez e desde 2017 milita na Juventude do Partido dos Trabalhadores Socialistas na cidade de Bahía Blanca.


[1] Badiou, Alain, Qué entiendo yo por marxismo, Argentina, Siglo Veintiuno, 2019, p. 30-31.

[2] Ibidem. p. 39

[3] A propósito do debate sobre o que é marxismo na atualidade e o texto de Lênin “três fontes e três partes constitutivas do marxismo” recomendo ler “200Marx?” de Gastón Gutierrez.

[4] Ibidem, pp. 52-53

[5] Ibidem p. 56

[6] Ibidem. p. 59.

[7] O conceito de irreversibilidade parece entrar em cena a partir de Ìñigo Errejón, um dos teóricos mais importantes do projeto neorreformista. Em meados de 2014 publica uma palestra ditada no Equador, onde propõe uma série de quatro pontos em que chama a “construir a irreversibilidade relativa”. Errejón, Iñigo, "Estados en transición: nuevas correlaciones de fuerzas y la construcción de irreversibilidad", 2014.

[8] “De Syriza a Nuit Debout: ¿se acabó la primavera de los pueblos?”, 2016.

[9] Albamonte, E. y Maiello, M., Estrategia socialista y arte militar, ob.cit. Prólogo: “La imperiosa actualidad de la estrategia”, p. 25.

[10] Sobre isso, Jorge Alemán bem coloca que nessa teoria, Badiou é “efetivamente lacaniano [...] o sujeito nunca é algo prévio ao acontecimento, o acontecimento sempre precede o sujeito, o sujeito é filho do acontecimento e o acontecimento o segura pela mão; o sujeito surge imprevistamente, o acontecimento é imprevisível, incalculável, e o sujeito é o segundo em relação ao acontecimento”. Aleman, Jorge, Conjeturas sobre una izquierda lacaniana, Buenos Aires, Grama Ediciones, 2013, p. 164.

[11] Em relação à tática, dirá que: “O alcance e eficácia das armas é muito importante para a Tática; porém sua construção, ainda que dela se derivam aqueles, lhe é completamente indiferente, pois à Direção da Guerra não lhe dão carvão, enxofre e salitre para que faça pólvora, nem cobre e zinco para que fabrique canhões, mas lhes entregam as armas construídas para que as use”, Clausewitz, von Carl, De la guerra, Tomo I, Buenos Aires, Círculo Militar, 1968, p. 184.

[12] Badiou, ob. cit., p. 183.

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