FRANÇA / MAIO DE 1968: UM LEGADO EM DISPUTA [PARTE III DE III]

O maio francês de 1968: legado e lições [Parte III-final]

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 30 de maio| Edição do dia

A novidade é revolucionária, a verdade também [Censier]
Todo poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente [Nanterre]
Melhor um fim espantoso que um espanto sem fim [Sorbonne]
A violência é a parteira da sociedade que nasce [Marx][Sorbonne]
O masoquismo de hoje toma a forma do reformismo [Sorbonne]
Tomem seus desejos pela realidade! [Sorbonne]

Conforme foi desenvolvido na nota anterior, onde analisamos o auge das lutas e mobilizações daquele maio, diante da postura das direções políticas de esquerda, eis que estava armado o cenário para o retrocesso.

O stalinismo, em acordo tácito com patronal, abriu caminho para brutal repressão contra a vanguarda operária e estudantil, que continuou resistindo em vários lados da França no declínio do maio de 68. Nesses marcos, a polícia de De Gaulle só aprofundou a repressão; assassinou dois operários e um estudante secundarista, e dia 12 de junho dissolveu todos os partidos de extrema esquerda [mas não o PC, obviamente] e se sentiu forte para finalmente desalojar a Sorbonne.

“Atomizado o movimento e divididas as greves, o governo se sentiu encorajado para proclamar a necessidade de acabar com o protesto universitário e operário enquanto a patronal tirava proveito da situação para sustentar posições cada vez mais intransigentes em relação às reivindicações dos trabalhadores naqueles setores nos quais os operários se negam a suspender a paralisação e a desocupar as fábricas, em particular na indústria automotora” [65].

As fábricas vão voltando ao trabalho, e as que resistem, vão sendo ocupadas pela polícia. O PCF e a CGT mergulham na passividade à espera das eleições.
A conjuntura do país já mudara – graças à política stalinista -, o refluxo vai se impondo e dia 23 de junho, De Gaulle ganha, nos dois turnos das eleições legislativas, com maioria absoluta dos assentos parlamentares.

“Não foram os antigreve os que pressionaram para retomar o trabalho; foi a CGT. Tínhamos que voltar a trabalhar em 15 de junho [ou próximo disso]. Já não havia comitê de greve nem nada, apenas a CGT e nós. Um volante da CGT anunciava que o comitê executivo da CGT estava organizando uma votação a favor ou contra a continuação da greve. Por voto secreto, fazendo votar a todo mundo; evidentemente, grevistas e não-grevistas. Lutamos, mas a votação secreta foi imposta massivamente e foi organizada pelos ´militantes do sindicato”. [...]

Só que para surpresa de todos, a maioria estava a favor da continuação da greve. Mesmo sob as condições nas quais a luta se desenvolvia, havia uma maioria de grevistas. Então ela continuou. Mas era evidente que, pouco a pouco, por todos os lados, as fábricas voltavam ao trabalho. O perímetro da greve geral começava a se reduzir seriamente” [p 248].

A desmobilização seguia em frente e a CGT não esperou muito: chamou a volta ao trabalho.

“A tática do PCF e dos sindicatos depois dos acordos de Grenelle, que foi de desarticular a greve a nível de cada fábrica individual, rendia seus frutos; havia empresas que abriam negociações por fábrica e, à medida em que cada patrão soltava algumas migalhas, a CGT chamava a retomar o trabalho. No total, Alsthom Saint-Ouen tinha estado em greve durante cinco semanas. Foi na segunda, 24 de junho, que ao não haver mais a moral geral, a CGT chamou a final encerrar a greve. Isso se deu dentro da fábrica. Havia gente. Não teve voto nem nada. apenas um discurso interminável do chefe do sindicato. Quando terminou de lavar sua cara, junto com um grupo de companheiros, subi para o palco. Mas os stalinistas cortaram o som; embaixo os operários gritavam contra eles. Falei então sem microfone em um silêncio total” [248].

Os stalinistas não perderam tempo: seu balanço era de que a greve tinha sido vitoriosa. Ganharam o que “era possível”.

Mas, no depoimento de um operário, “contrário ao que dizia a CGT, não tínhamos ganho a greve. Aqueles que aceitaram o jogo eleitoral contra a greve geral eram os responsáveis do fracasso. Era preciso retomar os combates futuros tirando as lições do que tinha ocorrido. E, sem entusiasmo, todo mundo voltou às máquinas” [p.248].

Em absoluto não foi um problema de falta de combatividade.

“Em escala de massa, e por todos os lados, os trabalhadores estavam a favor da greve. Mas na imensa maioria das empresas, o processo de amadurecimento de consciências para se lançar a um verdadeiro ataque planificado contra o sistema patronal não tinha se cumprido. [...] Isto é fundamental para compreender a ausência total de formas de organização independentes da classe operária em 1968. A partir do momento em que o PCF decidiu alentar a mobilização, de uma ponta a outra do país e quase sem limites, a CGT seguiu dominando o movimento de A a Z” [p 239].

Quanto ao general De Gaulle, pôde respirar aliviado. Não precisou recorrer ao golpe; o stalinismo tinha afundado o grande maio operário e estudantil.

“De Gaulle não teria que recorrer àquela solução extrema, em grande parte, sem dúvida, graças à preciosa ajuda brindada pelo PCF e a CGT. A desmobilização ativa do movimento, orientação impulsionada ativamente desde a Praça do Coronel Fabien, sede do partido stalinista em Paris, depois do fracasso dos acordos de Grenelle e seu rechaço de parte dos grevistas, deu oxigênio a De Gaulle para orquestrar uma saída formalmente constitucional e democrática pela direita da crise que terminou sendo exitosa” [p 63].

O mundo continuou sua efervescência [México, Japão, Tchecoslováquia, Vietnã, Estados Unidos, Brasil etc]. E também na França, mesmo tendo refluído o colossal maio de 1968, as greves operárias voltarão e, como parte desse processo, um ano depois, De Gaulle será obrigado a renunciar.

“Apesar daquela derrota-desvio, o maio francês dará passagem a uma época de ascensos operário-estudantis, como a Primavera de Praga [derrotada pelos tanques stalinistas russos], os estudantes do México [massacrados na Praça Tlatelolco] ou o Cordobazo na Argentina. Este processo terá seu momento culminante com a derrota ianque no Vietnã, a revolução em Portugal e o ascenso polonês em 1981.

Mas o imperialismo, ajudado pelos Partidos Socialistas e Comunistas e a Igreja, conseguirá desviar, com ´transições à democracia` ou derrotas operárias nos países imperialistas, deixando isolada a revolução nas semicolônias para dar passagem a três décadas de neoliberalismo capitalista”.

A França das maiores marchas de rua, das maiores greves operárias [muitas com ocupações e sequestro de gerentes], da marcha do 1 milhão, das barricadas operário-estudantis, a França revolucionária tinha plasmado, a céu aberto, uma lição sobre a derrota que significa a adoção de uma estratégia de conciliação de classe.

E também ficou afirmado o papel contrarrevolucionário da burocracia sindical e política do nosso tempo. Ontem como hoje.

Finalizando
Podemos finalmente retomar algumas questões iniciais sobre 1968, onde se vê de onde veio a mais profunda força daquele maio histórico. E onde também fica claro que a incapacidade de explicar a derrota de 68 tem a ver com a mesma dificuldade de perceber o conteúdo operário e revolucionário daquele fenômeno. Sua potência e também seu limite político.

Se até o todo-poderoso De Gaulle tinha que ficar confabulando golpe militar com as forças armadas, tinha que tomar medidas e recuar [como o referendum] teve que fazer a manobra de dissolver o parlamento, quem é capaz de sequer imaginar que a potência por trás desse efeito seria, basicamente, a dos estudantes na rua? Eles adiantaram o relógio do profundo rechaço operário e de massas contra aquele regime, ecoaram as greves operárias que já vinham se impondo contra o governo, mas o maio francês foi operário e estudantil.

E esteve muito além de uma luta “pela imaginação no poder”, embora foi, sim, uma luta pela “imaginação no poder”; como clamavam os estudantes: “Esqueçam tudo o que aprenderam, comecem a sonhar” ou então “Todo poder aos conselhos operários”. É um eco direto da potência do ascenso operário.

A rebelião estudantil na Itália e Alemanha daquela época, por ter-se desenvolvido descolada do ascenso operário, por exemplo, não pôde alcançar a potência do maio francês.

Em outras palavras, a chave, ontem como hoje, para explicar a força colossal do maio francês de 1968 e, ao mesmo tempo, seu fracasso, seu desvio, ainda é a classe operária, por um lado e, por outro, a antiestratégia de suas direções stalinistas. E, para o debate atual, a lição que também fica é a de que toda luta revolucionária que tente ignorar o papel nefasto e real das burocracias sindicais e políticas, está fadada ao fracasso.

A burguesia manobra contra o movimento operário através de sindicatos burocratizados. Ou seja, “acionando a burocracia como ´polícia política´, a burguesia tem a prerrogativa de determinar também os ´limites do permitido´ no próprio seio do movimento operário organizado. [...] Ora, se inclusive as próprias organizações do movimento operário estão ´ocupadas´ pelo inimigo, como articular a força material [e moral] para sair desse verdadeiro cerco que a burguesia estabelece?” [...] A resposta de Lenin foi a de que a luta pela hegemonia do proletariado passa necessariamente pelo desenvolvimento de correntes militantes-revolucionárias no seio das organizações de massas, começando pelos sindicatos. ´Frações´ que, por sua vez, não são um fim em si mesmo, mas destacamentos avançados para a disputa com a burocracia pelas massas” [Albamonte, Maiello, p. 553].

Tomemos um exemplo próximo: como fazer política revolucionária no Brasil, ignorando o papel da CUT e dos sindicatos burocratizados na luta de classes, seu papel de derrotar, conter toda luta operária importante e impedir a aliança com os terceirizados, com os estudantes, com o campesinato?

E mais: embora muita gente concorde com a centralidade da classe operária na revolução contemporânea, mas eventualmente não compreende isso até o fim, por exemplo, ao não desenvolver a luta para conquistar a classe trabalhadora que ainda está sob influência da burocracia. Trata-se de uma tarefa incontornável.

Caiu o muro, caiu o stalinismo, mas não declinou o papel dessa quinta coluna da burguesia no movimento operário e estudantil [veja-se o papel de conciliação de classe da UNE no Brasil, por exemplo]. E cujo papel é separar a luta pelas demandas econômicas da luta revolucionário pelo poder político.

Daqui decorre que, dentre os imensos legados políticos e culturais daquele maio histórico, uma pauta incontornável é o debate sobre a centralidade da classe operária para a revolução, a urgência, para a esquerda revolucionária, de construir um partido de massas com independência de classe e que acumule volume de forças na classe trabalhadora para vencer. Passando pela luta antiburocrática. Todos eles elementos que fizeram falta naquele memorável maio proletário e estudantil.

[Crédito de imagens: nodo50, pinterest, mundoestranho e situationniste.blog]

ALBAMONTE, Emilio, MAIELLO, Matias 2017. Estratégia socialista y arte militar. Buenos Aires: Ediciones Ips.
LISZT, Gabriela, 2017. El mayo francês: cuando obreiros y estudiantes desafiaron al poder. In La Izquierda Diário, 10/05/2017.
VIGNA, Xavier, KERGOAT, Jacques, THOMAS, Jean-Baptiste, 2008. Mayo frances: cuando obreros y estudiantes desafiraron al poder. Reflexiones y documentos. Buenos Aires: IPS. Selecionado por G. Liszt, J-B Thomas, G Gutiérrez.




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