MAIO DE 68 NA FRANÇA

O maio de 1968: as origens e o estopim daquele movimento

UM LEGADO EM DISPUTA [PARTE I DE III] Quais as condições q deram origem ao poderoso e histórico "maio de 68" na França?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 16 de maio| Edição do dia

O direito a viver não se mendiga, se toma [Nanterre]
Nas cavernas da ordem, nossas mãos fabricam bombas [Sorbonne]
A emancipação do homem será total ou não será [Censier]
A poesia está nas ruas [rua Rotrou]
A humanidade só será livre no dia em que o ultimo burocrata penda das tripas do último capitalista [Sorbonne]
Todo reformismo se caracteriza pelo utopismo de sua estratégia e o oportunismo de sua tática [Sorbonne]

As origens do maio de 68

Se um historiador explica a rebelião e a comuna agrária de Canudos, no Brasil, como se fosse a revolta de um reduto de monarquistas e fanáticos dirigidos por um beato e, diante da qual, cabia ao exército brasileiro impor a ordem a ferro e fogo, contra aquela ameaça, estamos claramente diante de uma operação ideológica, um implante de memória falsa.

Se historiadores da ordem falam que o maio de 68 foi uma luta estudantil “pelo impossível” ou que ali ocorreu uma revolta estudantil histórica, em defesa da contracultura, pela liberdade, pela imaginação no poder ou porque “é proibido proibir” e tentam reduzir aquele movimento revolucionário a uma espécie de utopia jovem, talvez possamos também falar de esvaziamento do conteúdo de um movimento. Movimento que, política e estrategicamente teve muitíssimo mais conteúdo político do que querem fazer crer.

Setores da elite burguesa – como Sarkozy – diretamente falam em “enterremos esse maldito 1968”, ou que “1968 é a causa dos males da França”, o que por si só já sugere que 1968 foi muito mais incômodo do que parece. Mas e o que dizer quando setores da esquerda também analisam 1968 como se fosse, fundamentalmente, uma onda histórica de barricadas estudantis com algumas greves operárias no meio? Ou quando se ocupam de mostrar um movimento contraautoritário, libertário em geral – que também foi – mas estudantil na essência?

Como no exemplo citado da rebelião camponesa de Canudos, em todo grande relato histórico existe disputa; e ela é expressão da luta de classes, entre os que querem que a sociedade fique como está e os revolucionários. Cabendo lembrar que, entre os revolucionários, também existem relatos que adotam um pensamento mais fenomênico, mais parcial, menos estratégico, mas também aqueles que, ao relatar, tentam ir para além das aparências ou dos relatos parciais.

Tomando esta perspectiva, o maio de 68 francês foi estudantil e operário, certamente; desde que se entenda que sem o protagonismo operário, nem a França e talvez nem o mundo teria sido abalado por aquele maio, muito menos De Gaulle teria cogitado um golpe militar, nem o parlamento teria sido dissolvido ou a França comovida pelas maiores paralisações operárias e marchas de rua desde a II Guerra, de um milhão para cima.

Em suma: sem o protagonismo ativo e massivo do proletariado, não existiria o maio francês com toda sua potência e influência internacional, inclusive na dimensão, claro, estudantil-cultural-revolucionária. E de luta contra a “miséria do possível”.

Pode-se afirmar mais que isso: caso o maio operário francês, confluindo com as mobilizações estudantis, não tivesse sido desviado pela burocracia sindical do PC stalinista [PCF], estaria dada a possibilidade de uma revolução proletária em um país imperialista; ou um avanço nesse rumo. Como também se demonstrou uma possibilidade revolucionária, quatro anos depois, em outro país imperialista, Portugal [pela ação da massa trabalhadora e bases do exército português]. Sem falarmos no “outono vermelho” italiano, pouco tempo depois do maio francês.

História
Naquele momento, a França já vinha em um processo de “fim de bonança” econômica, sob o governo do bonapartista De Gaulle, que levava dez anos no poder, surfando na bonança econômica do pós-guerra, em uma acumulação do capital baseada na superexploração da força de trabalho francesa e das riquezas coloniais [a França combatia com tropas para manter a posse da Argélia e também no Vietnã, neste caso perdendo posições para os Estados Unidos].

Em escala mundial, havia, em vários lados, a efervescência de um movimento jovem, estudantil, antiimperialista, por conta da guerra do Vietnã, da guerra da Argélia [no caso da França], de movimentos de massa no Leste europeu, contra o stalinismo, havia a revolução cubana e, em 1967, o assassinato do Che na Bolívia. E, também em 1967, a guerra dos 6 dias, de Israel avançando contra o povo árabe, assim como o stalinismo mostrava crises [Kruschev e também elementos de revoluções políticas no Leste]. Em suma, elementos mundiais apontavam para a emergência de um novo ciclo revolucionário. Na Alemanha, em abril de 68, eclodiram fortes mobilizações estudantis, contra o atentado ao dirigente estudantil Rudi Dutschke ecoando em marchas estudantis na França, aos milhares, já em abril, no bairro universitário parisiense, o bairro Latino.

De Gaulle pudera governar contando com a política de Moscou [acordo de Yalta; ver nota ao final] que garantira a passivização do movimento operário todo esse tempo, inclusive desarmando a resistência proletária francesa no imediato pós-guerra; na década seguinte ao pós-guerra, com o PC controlando a parte decisiva do proletariado politicamente, na base da política de conciliação de classe [“reconstrução nacional”], a patronal francesa enriquecera como nunca, até que, por determinações econômicas que não é possível discutir aqui, o boom econômico começou a se deter nos vários países imperialistas; este processo eclodirá em forma de crise estrutural do capital global, poucos anos depois de 1968.

De Gaulle era visto como o general que salvou a França na guerra [outro relato falso e bem inventivo], mas quando passou a descarregar a crise capitalista nas costas dos trabalhadores e estudantes, a conjuntura política mudou. Já vinham acontecendo greves e mobilizações estudantis pontuais, mas quando o governo baixou a reforma da previdência e do ensino [para elitizar e adequar as universidades aos interesses de mercado etc] a resposta eclodiu e o controle dos stalinistas sobre a UNE francesa [UNEF], adiantou muito pouco.

Desde antes daquele grande maio, já havia fábricas parando, como também o primeiro de maio já tinha sido o mais massivo desde a II Guerra.

As origens
Mas, de certa forma, o estopim do maio francês se deu em março, com o movimento estudantil reagindo à repressão do governo contra suas marchas em defesa do povo vietnamita.

“Há um acordo quanto ao papel de gatilho jogado pelo movimento estudantil, como observa Georges Séguy [burocrata-chefe da CGT]:

´Eles foram a faísca que acendeu a pólvora. A imagem é bastante justa, mas era necessário que houvesse pólvora; caso contrário, a faísca se perderia rapidamente no vazio´. Inegavelmente havia pólvora ... inegavelmente também, os dirigentes sindicais não tinham se dado conta até que ponto se acumulava a bronca e a combatividade operárias” [p 181; doravante, a fonte de todas as citações sem referência será o livro de VIGNA (2008)].

A “democracia” francesa [que já vinha descarregando sua crise no desemprego] governava através de um regime bonapartista, cuja resposta a toda manifestação era, sistematicamente, policial. Com seus lucros ameaçados de despencar, a grande burguesia francesa contou com a pronta resposta repressiva do regime de De Gaulle contra a “agitação social”. Mais mobilização, prisões, demissões e polícia.

Mas aquele 22 de março, com ocupação policial da Universidade de Nanterre, fez nascer um movimento organizado por fora da UNEF, o “22 de março”. O governo não recuou: em 4 de abril impôs a reforma do ensino na Universidade.

Eis que o elemento decisivo se fez presente! A classe trabalhadora, que levava combates pontuais nos meses anteriores, um dia antes da decretação da reforma do ensino, já havia começado a grande greve operária na Sud-Aviation que se prolongará até o início de maio.

Ou seja, as ações operárias, daí em diante, escalaram. Lembrando que em janeiro já tinha havido o confronto operários, estudantes e polícia em fábrica na Normandia. Com greves em sucessivas fábricas, todas em janeiro [mês da grande “ofensiva do Têt” no Vietnã]. Em fevereiro, nova greve em Marselha. Em março greves em distintas empresas, e confronto com a polícia em fábrica de material agrícola em 11 de março.

A influência das lutas mundiais era constante e patente.

Na verdade, na França, o proletariado já estava em movimento desde o ano anterior, 1967: greves pontuais e muito fortes já tinham ocorrido contra as demissões que a patronal vinha promovendo. Tampouco eram raras greves fabris com sequestro de patrões. Como também ocorrera o antecedente de greve e jornadas da burocracia sindical, das três centrais [CGT, CFDT, FO] contra a reforma da previdência.

O movimento estudantil vinha bem ativo: em dezembro em seguida da ofensiva governamental para aplicar o plano Fouchet [reformas reacionárias nas universidades], eclodiram várias manifestações estudantis, uma delas, em dezembro, com 10 mil nas ruas. Os secundaristas entram em cena [contra a mesma reforma que instalava censura política nas escolas] e todos marcham também contra a reforma da previdência.

Enquanto isso, na superestrutura política, controlando o aparato, nas eleições de dezembro, De Gaulle vence novamente. Sua linha reacionária seguiu em frente: a repressão policial contra a greve operária em Lyon [contra a supressão de 2 mil empregos], em 14 de dezembro foi brutal.

Portanto, a França vivia um protagonismo operário e estudantil desde bem antes do maio de 68. Com violência policial permanente contra as fábricas e também as ocupações e marchas estudantis.

[Só por esse início de relato, se pode observar que a tese do maio francês como uma “grande barricada estudantil que assaltou os céus” não dá conta de explicar o fenômeno; desde o início do processo de demissões e achatamento salarial, o ativismo operário, mais focal ou menos, só crescia].

Voltemos ao estopim. O governo reagiu à ocupação da Universidade de Nanterre naquele março com mais repressão e dali surgiu um movimento que o stalinismo não controlava. Em seguida, o grupo fascista Ocidente pôs a cabeça de fora e atacou a assembleia estudantil na Sorbonne. O “movimento 22 de março” faz uma assembleia geral e os estudantes seguem com as jornadas antiimperialistas.

Mais repressão: o governo prende um dos principais dirigentes desse movimento, em 27 de abril. A resposta do proletariado e da juventude foi de massas: o primeiro de maio foi o mais multitudinário de décadas recentes.

Dia seguinte: jornadas estudantis em Nanterre em solidariedade à Sorbonne atacada pelos fascistas. Reitor traz a polícia para a universidade, muita repressão, Nanterre é fechada.

Em resposta, a Sorbonne se levanta. As prisões continuam.

Dia 3 de maio ocorrerão os primeiros grandes confrontos de rua com a polícia. O grande maio está em marcha.

“A partir de meados de maio, a França viverá o maior processo de greves que jamais ocorrera na Europa ocidental” [p.41]. Serão 8 milhões de grevistas na estimativa mais modesta, e 10 milhões em outras estimativas. “Provavelmente esteve em greve a maioria absoluta dos assalariados [...] e as greves serão 5 vezes mais fortes nas empresas de mais de 10 mil assalariados [p.195]. A França tinha 15 milhões de assalariados.

E a ocupação de fábricas se deu como um “fenômeno geral” [p.196]. As mobilizações contra as prisões e a repressão se generalizam, estudantes chamam a parar as universidades e pela retirada da polícia do bairro Latino.

O stalinismo
É neste contexto de ascenso, que o PC abre seu combate contra as mobilizações estudantis.

O jornal, L´Humanité, do PCF, ataca as jornadas estudantis como obra de “grupelhos esquerdistas” e anarquistas. Essa foi sua política no maio francês como um todo.

O PCF tinha presença militante no país, com “ao redor de 400 mil filiados. Mesmo tendo perdido o controle da UNEF, a principal organização estudantil [...], sua hegemonia entre os setores mais concentrados da classe operária parece inquestionável e inquestionada. E se exerce através da CGT, sua correia de transmissão sindical, à qual estão filiados mais de dois milhões de trabalhadores, a grande maioria dos assalariados sindicalizados naqueles anos” [p.53].

“O PCF da época era uma enorme máquina militante. Praticamente hegemonizava a imensa maioria dos comitês de empresa. Todos os bairros industriais das grandes cidades, com poucas exceções, estavam nas mãos do PC. Os arredores de Paris, que, lembremos, estavam cheios de grandes empresas industriais, eram seu território. Mesmo tendo perdido uma parte de sua grandeza dos anos 1945-50, o aparato sindical-político influenciava em todas as partes nas grandes empresas; aquelas que eram importantes para a vanguarda operária” [p.238].

Teremos um processo no qual “o PCF e a CGT, depois de terem caluniado a vanguarda estudantil e feito de tudo para isolá-la do movimento operário, tentarão passivizar e canalizar [o movimento operário, GD] para manter de pé um regime que sem sua preciosa ajuda teria desmoronado completamente” [p.55].

Mas a luta operária e sua confluência com os estudantes mobilizados só escalava. Os combates de rua contra as forças de repressão eram intensos e frequentes.

“Até os trabalhadores menos revolucionários daqueles anos detestavam aos policiais e se alguém lutava contra estes, não poderiam estar errados” [p 229].

[Continua na próxima semana, na nota II de III]

Crédito de imagens, sites: jose maria sancho; sul 21; alamy.com
[Este artigo, aqui dividido em 3 partes, constitui a versão estendida de texto publicado na revista Ideias de Esquerda deste mês]

Nota - Yalta e Postdam: acordo entre a URSS e o imperialismo no pós-II Guerra, que permitiu a hegemonia norte-americana com base na colaboração contrarrevolucionária sem precedentes com a burocracia do Kremlin.




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