Teoria

KEYNES E TROTSKY

O lorde amedrontado: Escritos de Keynes sobre Leon Trotsky

O Esquerda Diário publica com exclusividade em português um artigo de John Maynard Keynes, influente economista burguês, sobre as posições do revolucionário russo Leon Trotsky

quinta-feira 14 de abril de 2016| Edição do dia

Dos tradutores: Esse texto, inédito em português, vem a tona num momento de crise econômica mundial, quando as ideias marxistas voltam a entrar em cena, mas também as respostas burguesas a crise, como o keynesianismo, tem forte influência, principalmente na academia.

Para o Brasil esse texto ganha uma importância única, onde hoje há uma crise política e econômica instaurada e a burguesia busca uma nova direção para os ajustes que vem aplicando mas que ainda não saciam sua sede. Dentre as perspectivas burguesas há uma forte influência do keynesianismo em alguns setores, que além de defenderem os ajustes do Partido dos Trabalhadores como “mal menor” para a crise, fazem malabarismos com a teoria para fundir Keynes e o marxismo como uma saída viável para o desenvolvimento neo-colonial brasileiro.

O texto traduzido ajuda na distinção entre keynesianismo e marxismo nos seguintes pontos: Keynes pressupõe o equilíbrio da sociedade capitalista, especificamente da Inglaterra, mesmo sendo um equilíbrio distinto dos liberais, que não supunham flutuações (ou crises como a de 1929, que ocorre 3 anos depois desses escritos), o assim nomeado Lord crê que o capitalismo inglês está em um equilíbrio que o permite resolver seus próprios problemas sociais, por isso a Revolução, em Keynes, é desnecessária. Já Trotsky deixa claro nos trechos citados que a Luta de Classes continua mais viva que nunca, inclusive na Inglaterra, e que por mais que o levante dos trabalhadores ingleses na década de 20 não tenha triunfado como na União Soviética, fruto das direções do Partido Trabalhista, os trabalhadores ingleses ainda enfrentariam duras batalhas mesmo no coração da Revolução Industrial, como já se mostraram em outras poderosas greves ao longo do século XX.

“Trotsky na Inglaterra”*

Lord Keynes, Março de 1926

Uma pessoa de nosso tempo revendo esse livro diria: ‘Ele gagueja baboseiras na voz de um fonógrafo com uma gravação arranhada’ Eu apostaria que Trotsky ditou isso. Em seu vocabulário inglês ele usaria um turbilhão de palavras ridículas com murmúrios intimidadores que são características da moderna literatura revolucionária traduzida dos russos. Seu tom dogmático sobre nossas tarefas, onde até os lampejos de insight são obscurecidos por sua ignorância inevitável sobre o assunto, não podemos recomendar isso para o um leitor inglês. Ainda assim, há um certo estilo em torno de Trotsky. Uma personalidade que é visível através das distorções da mídia. E disso não existem só besteiras.

O livro é, antes de tudo, um ataque ao líder oficial do Partido Trabalhista Inglês devido a sua “religiosidade”, e porque suas crenças são úteis para preparar o Socialismo sem preparar a Revolução ao mesmo tempo. Trotsky vê, o que provavelmente é verdade, que nosso Partido Trabalhista é o produto direto da burguesia radical, não conformista e filantrópica, sem uma gota de ateísmo, sangue e revolução. Então, emocionalmente e intelectualmente, ele acha que eles são profundamente insensíveis. Um pequeno trecho irá exibir seu estado da arte:

“A doutrina do líder do Partido Trabalhista é um tipo de amálgama de Conservadorismo e Liberalismo, parcialmente adaptada às necessidades dos sindicatos (...) Os líderes liberais e semi-liberais do Partido Trabalhista continuam achando que a revolução social é privilégio deplorável da Europa Continental.

‘Nos domínios do sentimento e da consciência’ MacDonald começa ‘ndomínio do espírito, o Socialismo forma a religião a serviço do povo’ Nessas palavras são imediatamente seduzidas pela burguesia benevolente, os Liberais de esquerda, que ‘servem’ ao povo, vindo de um lado, ou mais corretamente vindo de cima. Como um processo que tem suas raízes inteiramente no passado remoto, quando os intelectuais radicais vieram viver junto as classes trabalhadores nos distritos de Londres a fim de exercer uma educação e cultura do trabalho.

Junto com a literatura teológica, o Fabianismo é talvez o mais inútil e, em todo caso, a mais chata formulação escrita (...) O otimismo barato da época Vitoriana, quando parecia que o amanhã seria um pouco melhor que o presente, e o dia depois de amanhã seria ainda melhor que o amanhã, encontrou suas mais acabadas expressões nos Webbs, Snowden, MacDonald e outros Fabianos (...) Essas autoridades empoladas, pedantes, arrogantes e ruidosamente covardes, sistematicamente envenenaram o Movimento Trabalhista, apagaram a consciência do proletariado e paralisaram suas vontades (...) Os Fabianos, os I.L.P.s, a força mais contra-revolucionária na Grã-Bretanha, e talvez do mundo desenvolvido (...) Fabianismo, MacDonaldismo, Pacifismo, são os carros chefes da burguesia imperialista britânica e européia, senão do mundo. A todo custo, esses pedantes satisfeitos consigo mesmo, esses ladrões ecléticos, esses carreiristas sentimentais, esses carreiristas lacaios da burguesia, devem ser mostrado na sua forma natural aos trabalhadores. Mostra-los como eles são mostrará sua desesperanças e trará seu descrédito.

Bom, é assim que o gentil homem que muito alarmou o Sr. Winston Churchill toma verdadeiramente o artigo. E devemos esperar que o verdadeiro artigo, saído de sua cabeça, faça-o sentir melhor. Como poucas palavras precisam da mudança, deixem o leitor perceber, para permitir a atribuição da minha antologia a filosofia bruta do correto. E a razão para tanto é evidente. Trotsky é engajado nessas passagens com uma atitude voltada para o público amplo, não com alvos determinados. Ele está só exibindo o temperamento de um general de brigada para quem Ação significa Guerra, e de quem está vingativamente irritado pela atmosfera de relativa doçura, de caridade, tolerância e misericórdia, de como o vento sopra no Leste ou no Sul, de como Sr. Baldwin e Lord Oxford e Sr. MadDonald fumam o cachimbo da paz. ‘Eles fumam o cachimbo da paz onde não pode haver nenhuma paz’ Fascistas e Bolcheviques choram em coro, clamando emblemas imbecis da decadência, senis e morte, a antítese da Vida e da Força da Vida que existe somente no espírito da luta amigável. Quem dera ser tão fácil! Se somente um pudesse ser tomado pelo grito, enquanto ruge como um leão ou como qualquer marreco chato.

Os berros ocupam a primeira metade do livro de Trotsky. A segunda metade, que apresenta uma exposição sumária de sua filosofia política, que merece uma observação mais detalhada.

Primeira proposição. O processo histórico precisa da passagem para o Socialismo se a civilização quer ser preservada. “Sem a transferência para o Socialismo toda nossa cultura será legada a decadência e decomposição.”.

Segunda proposição. É impensável que esse passagem possa vir sob bases pacíficas e uma rendição voluntária. Exceto quando respondem ao uso da força, as classes possuidoras entregarão alguma coisa. A greve é uma demonstração de força. “A luta de classes é um movimento contínuo de forças abertas ou ocultas, que são reguladas em maiores ou menores níveis pelo Estado, que por sua vez representa o aparato organizado de mais força dos antagonistas, em outras palavras, das classes dominantes. A hipótese que o Partido Trabalhista subirá ao poder por métodos constitucionais e depois irá “atacar os negócios tão cautelosamente, tão taticamente, tão precisamente, que a burguesia não sentirá nenhuma necessidade de organizar uma oposição ativa” é “falácia” – por isso “é evidente o afundamento mais do que profundo das esperanças de MacDonald e companhia”.

Terceira proposição. Caso, cedo ou tarde, o Partido Trabalhista chegue ao poder por método constitucional, os partidos reacionários vão responder com força (grifo do autor). As classes possuidoras vão trazer a batata quente para métodos legislativos, enquanto os trabalhistas estarão no controle da máquina legislativa, mas se eles forem desarmados, então, das propostas de Trotsky, será absurdo supor que eles irão mostrar suas loucuras sobre um arsenal de força no seu lado. Suponha, ele diz, que uma maioria Trabalhista no Parlamento vai decidir na votação mais perfeita em confiscar as terras sem compensação, em por pesadas taxas ao capital, e em abolir a Coroa e a Casa dos Lordes, ‘não temos a menor dúvida que as classes possuidoras não vão aceitar sem uma greve, além da polícia, do judiciário, do aparato militar que estão em suas mãos.’ . Para além disso, eles controlam os bancos e todo o sistema de crédito, além dos equipamentos de transporte e comércio, então a alimentação diária de Londres, incluindo a própria comida do Governo Trabalhista, depende de decisões capitalistas. É óbvio, Trotsky argumenta, que esses métodos terroristas de pressão irão ser postos em ação com espetacular violência com objetivo de quebrar as atividade do Governo Trabalhista, para paralisar suas excursões, para amedrontá-los, para criar fissuras em sua maioria parlamentar, e, finalmente, para causar um pânico financeiro, trazendo dificuldades e lock-outs. Podemos supor, inclusive, que o destino da sociedade será determinado pelo momento que os Trabalhistas alcançarem a maioria parlamentar e não pelo atual balanço das forças materiais, o que seria “a escravização ao feitichismo da aritmética parlamentar”.

Quarta proposição. Em vista de tudo que já demonstramos, como seria uma boa estratégia para conseguir também um poder constitucional, é alegórico não organizar nas bases essa força material que será o fator determinante no final.

“Na luta revolucionária nosso maior objetivo é permitir que sejam tomadas as armas das mãos da reação, para limitarmos o período de guerra civil, e para reduzir o número de vítimas. Se esse caminho não é tomado é melhor que não peguemos em armas de jeito nenhum. Se as armas não estão disponíveis, é impossível organizar uma greve geral; se renunciamos a greve geral, não há espaço para nenhuma luta séria.”

Admitida a sua suposição, a maior parte do argumento de Trostky é, penso eu, irrespondível. Nada pode ser mais tolo do que ‘jogar’ na revolução - se é isso que ele quer dizer. Mas quais suas suposições? Ele assume que moral e intelectualmente os problemas de transformação da sociedade já foram resolvidos - que existe o plano, e que nada mais resta além de colocá-lo em operação. Mais além, assume que a sociedade é dividida em duas partes - o proletariado que é convertido ao plano, e o resto que por razões puramente egoístas se opõem. Ele não entende que nenhum plano poderia vencer até que tivesse primeiramente convencido muitas pessoas, e que, se realmente houvesse um plano, este atrairia apoio de diversas partes. Ele está tão preocupado com os meios que esquece de nos dizer qual o objetivo de tudo. Se o pressionássemos, suponho que ele mencionaria Marx. E ali vamos deixá-lo com o eco de suas próprias palavras - ‘junto com a literatura teológica, talvez a mais inútil, e de qualquer forma a mais chata forma de escrita’.

O livro de Trotsky confirma nossa convicção da inutilidade, a cabeça-vazia da força no presente estágio dos assuntos humanos. A força não resolveria nada - não mais na guerra de classes do que nas guerras das nações ou nas guerras das religiões. Um entendimento do processo histórico, para o qual o Trotsky é tão apelativo, afirmar-se não a favor, mas contra, a força na atual conjuntura. Nos falta mais do que um banal esquema de progresso, um ideal tangível. Todos os partidos políticos de forma parecida têm suas origens em ideias do passado e não em novas - e nenhum tão visivelmente quanto os Marxistas. Não é necessário debater as legendas do que justifica um homem promover seu evangelho através da força; porque ninguém tem um evangelho. O próximo passo é com a cabeça, e os punhos devem esperar.

* Originalmente publicado em ‘Essays in Biography’ na coleção “The Collected Writings of John Maynard Keynes” pela Macmillan Cambridge University Press




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