Gênero e sexualidade

100 ANOS DO VOTO FEMININO NO REINO UNIDO

O legado de Sylvia Pankhurst na luta sufragista

Faz cem anos da aprovação do voto feminino no Reino Unido. Na contramão das lembranças romantizadas, o movimento sufragista foi marcada pela luta e mobilização. O legado de Sylvia Pankhurst.

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

terça-feira 6 de fevereiro| Edição do dia

Só se passaram 100 anos da conquista do direito básico ao voto, negado as mulheres até 1918 no Reino Unido. Ao longo dos anos, se instalou a ideia de que o sufragismo foi um movimento de damas da alta sociedade e concessão de governos e parlamentos. Nada mais distante de uma luta onde as mulheres da classe trabalhadora foram protagonistas e onde se enfrentaram políticas e estratégias, como acontece hoje e se aconteceu ao longo da luta das mulheres pelos seus direitos e contra a opressão.

Em 1930, o primeiro ministro conservador Stanley Baldwin inaugurou uma estátua em homenagem a Emmeline Pankhurst. Em 1958, foi agregada uma placa que lembrava de sua filha Christabel. Sylvia, filha de Emmeline e irmã de Christabel, não tem estátuas nem placas. Recentemente em 2017, alguns sindicatos apresentaram um projeto para homenageá-la.

Seu nome é pouco conhecido na história da luta pelo direito ao voto feminino, que foi o pontapé para o que se conhece como a primeira onda feminista. Seu legado, longe da ideia de que o sufragismo era um assunto de damas da alta sociedade, inclui a organização das trabalhadoras, o enfrentamento com a guerra imperialista, a paixão pela Revolução Russa, a luta pela mais profunda igualdade e por uma sociedade livre de toda opressão.

A luta pelos direitos das trabalhadoras

Alguns anos antes da conquista do direito ao voto, Sylvia Pankhurst foi presa por se acorrentar nas portas do Parlamento. Seria a primeira, mas não a última vez que acabava sendo presa por exigir o direito ao voto para todas as mulheres. A repressão contra as sufragistas se endurecia à medida que o movimento crescia.

A polícia as expulsava dos atos oficiais, as multavam, as perseguiam e as prendiam. Em 1912, a polícia Scotland Yard adquiriu pela primeira vez uma câmera fotográfica para perseguir e prender as militantes.

As penas eram duras, as sufragistas não eram consideradas presas políticas, e para reclamar esse direito mínimo tiveram que fazer grandes greves de fome nas prisões, que resultaram na melhora das condições das presas comuns (a maioria pobre e trabalhadora). Mas nenhuma das medidas repressivas, nem sequer a morte de Emily Wilding Davison em 1913, no famosos Derby de Epsom, conseguiu frear o movimento.

Sylvia Pankhurst nasceu na Inglaterra em 1882, no seio de uma família acomodada, mas de tradição socialista. Junto a sua mãe Emmeline e sua irmã Christabel, conhecidas como “As Pankhurts”, se transformaram em um símbolo do movimento feminista, por sua luta pelo direito ao voto para as mulheres.

Em 1903, fundaram a União Social e Política das Mulheres que, entre suas ações mais conhecidas, organizou em Londres uma mobilização com 400 mil mulheres sufragistas que terminou incendiando igrejas e comércios no caminho. Depois de várias dessas ações Sylvia terminou como muitas de suas companheiras, na prisão. Se enfrentou com os tribunais com greves de fome, sede e sono, e atuou como sua própria advogada de defesa.

Hoje pode soar inocente, até ingênuo, arriscar a vida por um direito que parece tão restrito, tão limitado, como é o direito ao voto. Entretanto, até o início do século XX, as mulheres eram privadas de exerce-lo, tinham o mesmo status legal que uma criança ou uma pessoa com problemas mentais, não podiam ser donas da própria vida.

Isso motorizou a participação de dezenas de milhares de mulheres, incluindo as trabalhadoras, que coincidiam nesta demanda dos setores das classes média e alta, e exigiram ao mesmo tempo seus direitos nos locais de trabalho. Em 1901, como parte do movimento, as trabalhadoras de uma plantação de algodão levantaram o direito de votar como uma necessidade para acabar com a discriminação e a exploração.

Ninguém se atrevia a exigir o direito ao voto das mulheres. As sociedades sufragistas, com exceção da minha própria East London Federation... trabalhava por pequenas leis que garantiriam o direito a menos de 10% de nós” (Sylvia Pankhurst. A Life in Radical Politics). Sylvia estava convencida de que as demandas das mulheres deviam confluir com as da classe trabalhadora, já que tanto as mulheres quanto os trabalhadores estavam excluídos dos direitos democráticos elementares. As mulheres não eram as únicas a não poder votar, tampouco podiam faze-los os homens que eram trabalhadores com baixos salários (a maioria da classe trabalhadora) Isso marcava uma diferença no movimento sufragista: a maioria das organizações não questionava que se só se pedisse o direito a votar “nas mesmas condições” que os homens, se manteria uma lei restritiva que seguiria deixando privada de direitos a maioria da população, que era trabalhadora.

Guerra e Revolução

Aos 24 anos, Sylvia Pankhurst abandonou seus estudos universitários e, em 1911 publicou a História do movimento sufragista. Nesse momento começava a surgir diferenças com a União fundada por sua mãe. A Primeira Guerra aprofundou essas divergências.

Sylvia não estava de acordo em apoiar o governo britânico na guerra, como fez sua mãe Emmeline, que chamava as mulheres a se mobilizar pelo direito ao voto, mas sob o lema “Rights to serve” (Direitos para servir). Sylvia, anos mais tarde, se referiu a este período com essas palavras: “Para mim, isso era uma traição trágica ao movimento (...) Trabalhamos continuamente pela paz, enfrentando duras posições de velhos inimigos e, lamentavelmente, às vezes de velhos amigos também”.

Tanto era o patriotismo de Emmeline Pankhurst que ela muda o nome do periódico da União, de La Sufragette (A Sufragista) para o nacionalista La Brittannia, sob o lema “Pelo Rei, pelo País, pela Liberdade”.

Sylvia, finalmente, se separou da organização e a Federação de Sufragistas de East End começou a funcionar de forma independente, também fundou o Exército de Mulheres pela Paz, que trabalhava nos bairros operários tratando de amenizar as consequências da guerra que faziam sofrer as viúvas e as famílias. Batizou o periódico que editava para as mulheres trabalhadoras como O Encouraçado das Mulheres, em homenagem ao Encouraçado Potemkin da Revolução de 1905.

Sylvia se juntou a outras sufragistas socialistas no bairro operário East End para organizar as mulheres trabalhadoras e lutar pelas suas demandas. Seu objetivo era claro: “Estava ansiosa para fortalecer a posição das trabalhadoras para quando se conseguisse o voto... Olhava para o futuro. Desejava levantar as mulheres dessa classe submersa para que se convertessem em lutadoras por conta própria e não como meros argumentos nos discursos de gente mais afortunada... Que se rebelaram contra as absurdas condições em que viviam, exigindo para elas e suas famílias a parte que lhes correspondiam dos benefícios que podiam procurar a civilização e o progresso...”

No caminho oposto, a União dirigida pela sua irmã e pela sua mãe defendia que havia que suspender as demandas específicas das mulheres, para apoiar o governo britânico imerso na guerra mundial.

Mais tarde, Sylvia apoiou a Revolução Russa de 1917, visitou a União Soviética e quando retornou ao Reino Unido pagou com cinco meses de cárcere a simpatia “pró-comunista” que expressava em seus artigos. Em 1918, finalmente, se estendeu o direito ao voto a algumas mulheres maiores de 30 anos. Sylvia denunciou que o mesmo estava limitado, ainda, às mulheres da alta classe.

Foi fundadora do Partido Comunista inglês, ainda que tenha se distanciado anos mais tarde. Nos anos de 1930 apoiou a Revolução Espanhola e colaborou com as trabalhadoras e trabalhadores judeus perseguidos pelo regime nazista na Alemanha. Sendo uma ativa militante contra a ocupação italiana na Etiópia, se mudou para esse país com seu companheiro Carlo e seu filho Richard e morreu na África em 1960, aos 78 anos de idade.




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