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O legado de Leon Trótski e sua atualidade

Christian Castillo

Imagem: Sergio Cena

O legado de Leon Trótski e sua atualidade

Christian Castillo

É com emoção que publicamos aqui a tradução da apresentação ao livro El marxismo y nuestra época, que reúne alguns dos textos mais relevantes da obra de Leon Trótski, 80 anos após seu assassinato, recentemente publicado pela Ediciones IPS.

Neste ano se completa o 80º aniversário do assassinato de Leon Trótski. Em sua casa no exílio mexicano, em Coyoacán, um assassino de aluguel enviado por Stalin deferiu o golpe que deu fim à sua vida. Não foi um ato irracional, mas um cálculo político frio da burocracia dominante na União Soviética, que acreditava que Trótski era um grande perigo frente ao descontentamento que a guerra mundial poderia gerar na classe trabalhadora e entre os comunistas a nível internacional.

Da mesma forma que Stalin encarnou o nome próprio da burocracia contrarrevolucionária que se apossou a sangue e fogo do poder do primeiro Estado operário da história, Trótski foi o nome da alternativa marxista ao stalinismo.

Quando começou a luta contra Stalin, Trótski já tinha uma enorme trajetória revolucionária. Seu biógrafo Isaac Deutscher dizia que:

“Tão abundante e esplêndida foi a carreira de Trótski, que qualquer parte ou fração dela teria bastado para encher a vida de uma personalidade histórica excepcional”. [1]

Não lhe faltava razão: em 1917, ele já havia passado por dois exílios, após escapar das prisões e campos de deportação do czarismo. Foi o presidente do Soviet de Petrogrado na Revolução de 1905, um agitador contra a guerra imperialista e um dos mais brilhantes teóricos marxistas da época, que pôde prever com doze anos de antecedência e com grande precisão a dinâmica que ia tomar a Revolução de Outubro, quando proclamou a "heresia" de que era a classe trabalhadora, e não a burguesia, que deveria liderar o campesinato e derrotar o czarismo. Ele também antecipou que a classe trabalhadora não se deteria aos limites da propriedade privada, mas começaria a tomar medidas destinadas à construção do socialismo. A primeira formulação de sua teoria da "revolução permanente", um conceito com uma longa tradição revolucionária e que se utilizava nos debates dos marxistas da época, em Trótski, encontrou um significado claramente distinto.

Se Lev Davidovich Bronstein (esse era seu nome verdadeiro) tivesse falecido no início dos anos 20 do século passado, mais ou menos quando Lenin morreu, ele seria lembrado como um dos dois grandes líderes da Revolução de Outubro, como o fundador do Exército Vermelho, como líder na Guerra Civil e como mentor da III Internacional, que antes de sua burocratização, em seus quatro primeiros congressos, constituiu o escalão mais alto que já encontrou a construção de um Estado Maior da classe trabalhadora internacional.

Como também assinala Deutscher, as ideias que ele propôs e o trabalho que ele realizou como líder da Oposição de Esquerda na Rússia, entre 1923 e 1929, constituem a soma e a substância do capítulo mais transcendente e dramático dos anais do bolchevismo e do comunismo. Ele atuou como protagonista da maior controvérsia que o movimento comunista do século XX teve, como ideólogo da industrialização e da economia planificada e, finalmente, como porta-voz de todos aqueles que resistiram, dentro do Partido Bolchevique, ao advento do stalinismo. "Mesmo que ele não tivesse sobrevivido ao ano de 1927, escreveu seu biógrafo, teria deixado para trás um legado de ideias que não poderiam ser destruídas ou condenadas ao esquecimento permanente, o legado pelo qual muitos de seus seguidores enfrentaram o pelotão de fuzilamento com o seu nome nos lábios”.

Nessa controvérsia, a burocracia sustentou, a partir de 1924, a concepção reacionária de que era possível construir o "socialismo em um país", que serviu de base para o abandono de uma política consequentemente internacionalista. Contra os stalinistas que argumentaram que nos países coloniais e semicoloniais a classe trabalhadora tinha que ser rebocada por algum setor da burguesia, Trótski argumentou que, em certas circunstâncias, nesses Estados, a classe trabalhadora poderia chegar ao poder antes que um país capitalista avançado. Mas, ao mesmo tempo, afirmava que a construção plena de uma sociedade socialista necessita do triunfo da revolução nos principais países capitalistas, uma vez que o capitalismo é um sistema mundial e sua superação requer a conquista por parte da classe trabalhadora das suas forças de produção mais desenvolvida. Isso é, nada mais e nada menos, que a base do internacionalismo proletário, que já havia sido levantado por Marx no Manifesto Comunista.

No curso da luta contra o stalinismo, após a derrota da Oposição de Esquerda, uma parte dos companheiros de Trótski abjuraram de suas ideias e partiram para o caminho da capitulação, o que não os impediu de serem assassinados por Stalin anos depois, durante os grandes expurgos. Mas houveram muitos outros que resistiram bravamente a todos os tipos de pressão até o fim. As prisões de Stalin foram transformadas na escola de uma nova geração revolucionária que só poderia ser reduzida com a aplicação da “solução final”, ou seja, por meio de um massacre generalizado de opositores, feito nos mesmos anos em que se realizavam os tristemente famosos “Processos de Moscou”, onde a GPU, nome que tinha a polícia política de Stalin, arrancava falsas confissões dos acusados.

Já no exílio, primeiro na Turquia e depois perseguido no que para ele era "um planeta sem visto", como observou em sua autobiografia, Trótski se dedicou a organizar a Oposição de Esquerda em escala internacional. Depois que o stalinismo se recusou a convocar a frente única dos trabalhadores para enfrentar o nazismo, e a ascensão de Hitler ao poder não provocou nenhuma reação nas fileiras da Internacional Comunista, ele considerou esgotada a etapa de lutar por uma reforma do PC da União Soviética e da Internacional Comunista, e levantou a necessidade de construir novos partidos revolucionários e uma nova internacional, a IV. Ele também sustentou que na URSS havia um plano para realizar uma revolução política para varrer a burocracia do poder e restaurar o governo dos conselhos de trabalhadores e a democracia soviética; uma revolução que, ao mesmo tempo, acabaria com o regime despótico e manteria as relações de propriedade que surgiram a partir da Revolução de Outubro, sobre as quais a burocracia tinha de se apoiar, mas não sem minar suas bases passo a passo.

Cinco anos depois, em 1938, com Trótski já em seu exílio mexicano, a IV Internacional foi fundada em uma reunião clandestina, realizada nos arredores de Paris, com base em um documento conhecido como "Programa de Transição", que condensava as lições programáticas e estratégicas das internacionais anteriores e da luta contra o stalinismo, na tentativa de preparar a vanguarda revolucionária para enfrentar o advento da Segunda Guerra Mundial e as circunstâncias contrarrevolucionárias e revolucionárias que emergiriam de sua eclosão. Trótski considerou que, eliminada a velha guarda da Revolução de Outubro, seu papel na tarefa de manter a continuidade do marxismo revolucionário era muito mais importante do que aquele que ele havia tido à frente do Exército Vermelho ou na tomada do poder. Sua própria existência era um incômodo que Stalin não podia tolerar, e esse foi o motivo de seu assassinato.

Com Trótski, desaparece uma imensa personalidade revolucionária, possivelmente a do mais prolífico teórico e estrategista marxista do século XX. Quem soube manter a firmeza quando outros vacilavam, aquele que mesmo na situação mais adversa estava convencido de que o futuro comunista era o único destino progressista ao qual a humanidade poderia aspirar. Como ele declarou em seu Testamento:

“Fui revolucionário durante meus quarenta e três anos de vida consciente e, durante quarenta e dois lutei sob as bandeiras do marxismo. Se eu tivesse que começar tudo de novo, claro que tentaria evitar esse ou aquele erro, mas no que é fundamental minha vida seria a mesma. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e, consequentemente, um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente, embora seja mais firme do que na minha juventude.

Natasha se aproxima da janela do pátio e a abre para que mais ar possa entrar no meu quarto. Eu posso ver a faixa brilhante de grama verde se estendendo atrás da parede, o céu azul claro acima e o sol brilhando por toda parte. A vida é bela. Que as gerações futuras a libertem de todo mal, opressão e violência e a desfrutem plenamente“ [2]

Apesar do tempo passado desde a sua morte, o nome de Trótski continua evocando a perspectiva da revolução social.

Por ocasião do centenário da Revolução Russa, em outubro de 1917, o governo de Vladimir Putin patrocinou uma minissérie repleta de distorções históricas e calúnias sobre sua vida. Quando foi transmitida internacionalmente pela plataforma Netflix em 2019, gerou uma rejeição imediata e ampla, expressa no número de signatários que aderiram à Declaração "Netflix e o governo russo uniram-se para mentir sobre Trótski" [3], inicialmente impulsionada por Esteban Volkov, Neto de Trótski e o CEIP "Leon Trótski". Intelectuais de renome internacional, como Fredric Jameson, Nancy Fraser, Slavoj Zizek, Robert Brenner, Mike Davis, Michael Löwy, Michel Husson, Stathis Kouvélakis, Franck Gaudichaud, Eric Toussaint, Suzi Weissman, Kevin B. Anderson, Alexander V. Reznik, Paul Le Blanc e muitos outros aderiram a essa iniciativa, juntamente com uma multidão de dirigentes e referências da esquerda anti-stalinista de diferentes países.

A luta inabalável de Trótski contra a burocracia stalinista também o torna irritante para os liberais, que constantemente procuram identificar o comunismo com o totalitarismo burocrático. Pelo contrário, a perspectiva pela qual o fundador da Quarta Internacional foi assassinado é a de uma democracia mil vezes superior à mais ampla das democracias burguesas, cujos antecedentes vimos na Comuna de Paris e nos sovietes russos. Onde os trabalhadores podem diariamente deliberar e decidir sobre os destinos econômicos e políticos da sociedade, planificando de forma democrática a produção. Algo sem o qual a superação das contradições estruturais e as irracionalidades desse sistema é impossível. Essa democracia dos trabalhadores e trabalhadoras é um passo inevitável para passar do "reino da necessidade para o reino da liberdade" (Marx), isto é, para uma sociedade plenamente comunista.

Trótski e a crise atual

O 80º aniversário da morte de Trótski acontece em um mundo chocado com as consequências da pandemia do coronavírus. Em certa medida, esse não foi um evento imprevisível, mas estamos enfrentando o terceiro ou quarto episódio (dependendo dos critérios adotados) da transmissão de vírus incomuns de animais para seres humanos até agora no século XXI, um produto da combinação de uma série de fatores como desmatamento, criação intensiva de animais na produção de alimentos, novos hábitos de consumo e possibilidades de rápida disseminação. A própria Organização Mundial da Saúde havia alertado para a possibilidade de surgir uma pandemia desse tipo. No entanto, nenhuma medida foi tomada a respeito dos sistemas de saúde.

Ao mesmo tempo, eram evidentes as terríveis consequências das políticas para reduzir os orçamentos de saúde, a privatização e o controle oligopolista desse setor em nível internacional. Em particular, os ajustes no setor pioraram após a crise de 2008, pois muitos países direcionaram suas despesas aos pagamentos das dívidas contraídas para salvar os bancos. Quanto à indústria farmacêutica, os grandes laboratórios que a administram internacionalmente direcionam a produção para áreas mais lucrativas que as doenças infecciosas, enquanto as pesquisas estatais nesse campo também têm sido fortemente desfinanciada.

As empresas que compõem a "Big Pharma" nos Estados Unidos, por exemplo, deixaram de lado a pesquisa e o desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais para se concentrar em medicamentos mais rentáveis, como tranquilizantes viciantes. Agora, com a pandemia desencadeada, começou uma brutal competição entre estados e laboratórios para ver quem fica com o negócio de uma vacina contra o COVID-19.

Mas a pandemia desencadeou não apenas uma crise sanitária, mas também uma crise econômica e social com consequências duradouras. A falta de recursos de saúde e a imprevisibilidade do Estado levaram os diferentes governos a implementar medidas mais ou menos gerais de isolamento social, que implicaram o freio em uma economia internacional que já estava estagnada e com sinais de uma crise futura. O resultado foram milhões de novos desempregados e novos pobres. Em três meses, a queda da economia americana foi equivalente à dos três anos de 1929 a 1932, durante a Grande Depressão. Embora muitos Estados tenham destinado bilhões ao resgate dos capitalistas (em sua maioria) e ao direcionamento de recursos para a subsistência da população, a saída do confinamento não implicará um retorno à situação anterior. Ramos inteiros da economia continuarão sendo afetados por um bom tempo. Um trabalho conjunto da CEPAL e da OIT sobre as consequências do COVID-19 na região da América Latina e do Caribe é lapidário em relação ao que está por vir. O PIB regional se contrairia pelo menos 5,3% até o final de 2020 e o equivalente a 31 milhões de empregos em período integral seriam perdidos no segundo trimestre. O aumento da pobreza alcançaria 214,7 milhões de pessoas e a pobreza extrema 83,4 milhões [4]. Por sua vez, o fantasma do default é executado internacionalmente em estados e empresas. A soma das dívidas públicas e privadas em todo o mundo atinge 253 trilhões de dólares, três vezes o tamanho do PIB global. Um estudo de J. P. Morgan prevê que um em cada cinco países não pagará suas dívidas em um prazo curto.

Enquanto isso está acontecendo, alguns dos mais ricos aumentaram suas fortunas. Entre eles estão Jeff Bezos, dono da Amazon, o bilionário Elon Musk, Steven Ballmer, da Microsoft, John Albert Sobrato, magnata do setor imobiliário, Eric Yuan, fundador do Zoom, tal qual Joshua Harris, da Apollo Global Management ou Rocco Commisso, da Mediacom.

Essa situação nos permite prever que temos diante de nós um aumento de tensões entre os Estados e entre as classes. Os Estados Unidos e a China continuam sua escalada, em uma espécie de "guerra fria" de um novo tipo, com a peculiaridade de que, enquanto os primeiros praticamente não tinham trocas econômicas com a antiga União Soviética, no antigo Reino do Meio existem numerosas empresas estadunidenses instaladas lá ou com interesses diretos envolvidos. Não é muito arriscado prever que a tendência de rebeliões populares sentidas antes da pandemia em muitos países volte a aumentar, como mostram as manifestações nos próprios Estados Unidos após o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis.

A onda de rebeliões se estendeu por diferentes regiões do planeta. No norte da África, Argélia e Sudão. No Oriente Médio e Golfo Pérsico, Líbano, Iraque e Irã. Na Ásia, Hong Kong. Na América Latina, Equador, Chile, Colômbia e a resistência ao golpe na Bolívia. E antes, Porto Rico, Nicarágua e Costa Rica. Na Europa, Catalunha e França duas vezes, primeiro com os “coletes amarelos” e depois com a greve contra a reforma do sistema de pensões de Macron. Em conjunto, essas ações tenderam a expressar o crescente descontentamento de milhões com um mundo cada vez mais desigual.

Todo o ciclo neoliberal envolveu uma enorme transferência de recursos desde o mundo do trabalho até o capital. Com a crise dos Lehman Brothers em 2008, o equilíbrio capitalista neoliberal foi quebrado e, desde então, apesar de que diante do monumental endividamento dos Estados se evitou que essa crise atingisse os níveis dos anos 1930, um novo período de crescimento constante na economia internacional não foi alcançado. Essa tendência de estagnação econômica internacional estava na base da escalada das "guerras" e das disputas comerciais entre os Estados Unidos, a China e a União Europeia, das quais o Brexit é um episódio menor. Os partidos do que Tariq Ali chamou de " extremo centro" [5] tenderam a entrar em crise, sendo marginalizados ou encontrando líderes que expressam tendências à polarização política, como aconteceu com Trump no Partido Republicano ou no movimento desenvolvido em 2016 e 2020 em torno da candidatura presidencial, frustrada em ambos os casos, de Bernie Sanders nos reclusos do Partido Democrata. Com a magnitude da atual crise, as tendências à polarização social e política vão se multiplicar. Inclusive a realocação de certas áreas de produção nos países imperialistas envolverá ataques a salários e condições de trabalho nesses países, onde os empregadores desejarão impor padrões “chineses”. Isso dificilmente acontece sem resistência.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma nova e maciça irrupção do movimento de mulheres em diferentes países, que não pode ser separada do crescente caráter feminino da força de trabalho assalariada ou dos maiores sofrimentos que o capitalismo impõe às mulheres trabalhadoras. O trabalho doméstico gratuito, que recai principalmente sobre as mulheres, é uma parte inseparável do capitalismo. A emancipação total das mulheres só pode ocorrer com a eliminação deste sistema.

Nossa época também expressa em vermelho vivo, como nunca antes, a seriedade dos danos causados pelo uso irracional dos recursos da natureza. Para além da pausa nos níveis de emissões de dióxido de carbono gerados pela pandemia, estamos passando por uma verdadeira crise ecológica que não tem saída nos marcos deste sistema. No próximo período histórico, se não conseguirmos acabar com o capitalismo, o capitalismo poderá acabar com todos nós.

Os fenômenos políticos que vinham se formando antes da pandemia vão se ressignificar. É quase uma obviedade dizer que o mundo não será o mesmo de antes, mas o que se tornará não é algo definido previamente, mas será decidido no campo da luta de classes. No meio da crise que estamos enfrentando, tentar influenciar seu curso, apropriar-se das lições e do método expresso por Trótski no "Programa de Transição" é uma ferramenta insubstituível. Como ali se assinala:

“É necessário ajudar as massas, no processo de suas lutas cotidianas, a encontrar ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista. Essa ponte deve consistir em um sistema de reivindicações transitórias, partindo das atuais condições e da consciência de amplas camadas da classe operária e conduzindo a apenas uma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado.” [6]

Demandas como a nacionalização sob gestão dos trabalhadores das fábricas que fecham ou demitem, a nacionalização de bancos e do comércio exterior, a redução da jornada de trabalho sem afetar os salários e a distribuição do horário de trabalho entre os empregados e os desempregados, e escala móvel dos salários (seu aumento automático de acordo com a inflação) estão na ordem do dia em muitos países. É claro que os capitalistas e seus porta-vozes sempre representarão a impossibilidade de fazer essas demandas. Vale lembrar o que Trótski disse diante de argumentos desse tipo em meio a outra crise de magnitude histórica como a que estamos enfrentando hoje novamente:

“Trata-se de preservar o proletariado da decadência, da desmoralização e da ruína. Trata-se da vida e da morte da única classe criadora e progressiva, e, por isso mesmo, do futuro da humanidade. Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo criou, que morra! A “possibilidade” ou “impossibilidade” de realizar as reivindicações é, no caso presente, uma questão de relação de forças, que somente pode ser resolvida pela luta. Sobre a base desta luta, e ao lado de quaisquer que sejam os êxitos práticos imediatos, os operários compreenderão melhor toda a necessidade de liquidar a escravidão capitalista.” [7]

Veremos, sob o golpe da crise, emergir processos de mobilização que superem o estágio de rebelião e se transformem em revolução aberta? Embora todas as previsões históricas sejam sempre condicionais, devido à magnitude da atual crise é provável que tenhamos novas situações revolucionárias pela frente que colocarão governos e regimes sob controle. Alguns deles levarão a vitórias revolucionárias para a classe trabalhadora? Impossível saber, porque depende de uma combinação particular de elementos objetivos e subjetivos. Mas estamos convencidos de que, se isso não acontecer, o futuro da classe trabalhadora será sombrio. No entanto, não temos motivos para pessimismo histórico. Não há deus que tenha definido que, neste século XXI, os explorados nunca mais desafiarão o poder do capital. Os anos que passamos sem processos revolucionários liderados pela classe trabalhadora não podem nos fazer perder a perspectiva histórica. Nunca devemos esquecer que, no século XX, trabalhadores e camponeses conseguiram quebrar o poder do estado burguês em diferentes países. Mas essas revoluções tornaram-se burocratizadas, como aconteceu na União Soviética, ou implantaram praticamente desde o início regimes de partido único e burocracias dominantes que impediam o exercício real do poder pelas massas. E ao não derrotar o capitalismo nos centros do sistema imperialista, permitiram o contra-ataque do capital, incluída a restauração capitalista na ex-URSS, na China e em outros países. Esse resultado histórico e os eventos mais recentes se tornam essencial à atualização dos debates estratégicos que atravessaram a teoria da “revolução permanente”.

Em primeiro lugar, o papel comprometedor da burguesia nacional nos países oprimidos, incapaz de acabar com a dependência e o atraso. A América Latina mostra isso claramente. Os mesmos movimentos nacionalistas burgueses, que surgiram com retórica anti-imperialista, foram os aplicadores diretos das políticas neoliberais na década de 1990, como o peronismo na Argentina com Menem, o PRI no México com Salinas de Gortari e Zedillo, o Movimento Nacionalista Revolucionário na Bolívia ou APRA no Peru. E já neste século, os chamados "governos progressistas" começaram a se ajustar, nem bem a crise internacional chegou e os preços das matérias-primas exportadas pela região caíram. Apesar de toda a retórica sobre o "Pátria Grande" e a "Unidade da América Latina", eles não foram capazes de enfrentar como um bloco comum o flagelo da dívida externa. O que os “fundos abutres” e as organizações internacionais teriam feito se, conjuntamente, Argentina, Brasil, Equador, Venezuela, Nicarágua, Bolívia e Uruguai parassem de pagar suas dívidas fraudulentas e usurárias? Não existe uma etapa independente em que a independência nacional possa ser alcançada juntamente com a burguesia local, e um estágio posterior em que a luta pelo socialismo será levantada. Ou a classe trabalhadora, liderando o conjunto dos explorados, assume a liderança da luta anti-imperialista e toma o poder, ou nossos países continuarão na ladeira e no atraso que os caracterizam. Daí a importância de manter total independência política desses movimentos e, ao mesmo tempo, enfrentar qualquer ataque das forças de direita.

Em segundo lugar, a história mais do que deu razão a Trótski contra Stalin: o socialismo não pode ser construído nas fronteiras de um único país, mas deve ter como objetivo acabar com esse sistema em todo o planeta, algo que decorre do caráter internacional das forças produtivas geradas por ele. O internacionalismo, que inclui o anti-imperialismo consequente, é mais necessário hoje do que nunca.

Por último, a Revolução de Outubro foi pioneira em conseguir conquistas em amplas áreas da vida social. O aborto foi legalizado em 1920, enquanto nos Estados Unidos foi legalizado apenas em 1973 e na maioria dos países da América Latina ainda é um direito inexistente atualmente. Foram tomadas medidas para socializar o trabalho doméstico e questionar a estrutura patriarcal da família burguesa. Na nascente União Soviética, a homossexualidade foi descriminalizada, enquanto a Organização Mundial da Saúde só parou de considerá-la uma doença em 1990 e nos Estados Unidos, a atividade sexual consensual entre pessoas do mesmo sexo só foi legalizada para todo o território nacional em 26 Junho de 2003 (anteriormente dependia de cada Estado, com Illinois sendo o primeiro a anular as leis de perseguição em 1962). A ciência e a arte deram origem a fenômenos que ainda estão influenciando diferentes áreas da cultura. É verdade que a contrarrevolução burocrática stalinista foi acompanhada pela eliminação de grande parte desses direitos. O stalinismo e toda a esquerda que orbitava em torno dele cultivavam a homofobia e tinham a família patriarcal como modelo. Toda dissidência nos campos artístico e científico foi esmagada. Hoje, pensar a revolução é aceitar o que os bolcheviques fizeram no início da Revolução de Outubro, pensá-la em todas as áreas da vida, e a luta contra as diferentes opressões do sistema é parte integrante da luta para revolucionar o conjunto da sociedade.

Mas não foi dito que a classe trabalhadora perdeu o poder social - está desaparecendo, dizem alguns - e que não é mais capaz de realizar uma revolução? Essas declarações são, na verdade, parte da batalha ideológica travada pelo capital, com o objetivo de minar o moral dos trabalhadores, algo ao qual as várias burocracias sindicais se adaptaram. Se a atual crise evidenciou alguma coisa, é que sem trabalhadores a economia não se move. A classe trabalhadora não desapareceu, mas foi reconfigurada, como aconteceu tantas vezes na história do capitalismo e está acontecendo hoje sob os golpes da crise. Tem uma enorme força social potencial para dobrar o capital, seus governos e seus estados. É mais numerosa do que nunca em sua história. É mais geograficamente expandida, mais feminina, mais urbana, em média mais pobre e mais multiétnica do que há quarenta anos, embora mais precária. Nos Estados Unidos e nos principais países da União Europeia, suas “posições estratégicas” variaram, ou seja, os setores com maior capacidade de afetar a produção e a circulação de capital, ganhando peso os setores relacionados para transporte e logística. Grande parte da produção industrial mudou nas últimas décadas para a China e outros países do sudeste asiático e, mais recentemente, para a África, onde existe um proletariado em desenvolvimento. Em muitos países, setores precários e de baixos salários, considerados “essenciais” durante a pandemia, podem ganhar capacidade organizacional e de combate, especialmente entre os jovens. Ao mesmo tempo, centenas de milhões constituem uma espécie de subproletariado, vivendo miseravelmente nas periferias ou urbanizações precárias das grandes cidades, dependendo frequentemente para sobreviver com auxílio estatal, onde existe. Essa precariedade não significa que esses setores não possam se organizar. De fato, eles fazem isso em diferentes países, seja em movimentos por habitação, de desempregados ou de trabalhadores precários. Em nossa opinião, a falta de intervenção independente e liderança da classe trabalhadora não tem sido um problema sociológico, mas político-moral.

A ofensiva neoliberal, uma verdadeira guerra de classes do capital contra o trabalho, não apenas conseguiu abaixar o preço da força de trabalho em todo o mundo, mas também produziu níveis significativos de regressão na consciência e organização de classes. As burocracias sindicais e os partidos comunistas e socialistas se renderam praticamente sem luta, e também aplicaram políticas neoliberais. A burocracia dominante na União Soviética e nos países da Europa Oriental passou com armas e bagagem para o campo da restauração capitalista, verificando a hipótese de Trótski sobre seu caráter social. Na China, a abertura capitalista promovida de cima pelo próprio Partido Comunista foi central para a expansão neoliberal. Isso favoreceu a ideia de um capitalismo imbatível e dominante, bem como a imposição de um senso comum possível e de resignação. Mas desde a crise de 2008, onde foram mostrados os limites da hegemonia neoliberal e a expansão capitalista com a restauração nos estados operários burocratizados, algo também começou a mudar nessa área. Nos próprios Estados Unidos, Donald Trump incluiu em dois de seus discursos o socialismo "da União" como o mal a evocar. Diferentes pesquisas mostram como a preferência pelo "socialismo" sobre o "capitalismo" cresce entre os jovens americanos, mesmo quando a ideia de socialismo de que se fala é muito vaga. Muitos desses jovens estão agora na linha de frente dos protestos nos Estados Unidos, onde a população de origem afro-americana é acompanhada por jovens brancos que repudiam o racismo policial e estadual como um todo. No Chile, como apontamos, um dos paradigmas do capitalismo mundial foi questionado pela ação das massas. É verdade que, juntamente com esses fenômenos, vimos o florescimento de todos os tipos de ideologias e lideranças reacionárias que expressam fenômenos fascistas, como o de Bolsonaro no Brasil. Os nacionalismos anti-imigrantistas reacionários nos países imperialistas (e também em outros que não são, como Hungria e Polônia, a linha de perseguição a povos indígenas dos golpistas bolivianos ou toda a retórica anticomunista de Bolsonaro) são uma expressão à direita da crise da a hegemonia neoliberal que vimos desde 2008, uma das tendências à polarização política e social que caracterizam nosso tempo e que, como apontamos, é possível aumentar em meio a uma crise econômica e social com poucos paralelos históricos.

Sabemos que é apenas no calor da luta que a consciência de classe pode se recuperar e alcançar níveis mais altos, não apenas para a disputa diária no nível sindical, mas principalmente na luta política, a “verdadeira luta de classes” ao dizer de Marx, aquele que levanta a disputa pelo poder do Estado. E, ao mesmo tempo, sabemos que a luta por si só não é suficiente, que deve ser precedida por uma clara teoria revolucionária para ser vitoriosa. A teoria e o movimento revolucionários se alimentam um do outro e precisam um do outro. Teoria que nunca será obra de um indivíduo isolado, mas produto de deliberação coletiva entre aqueles que planejam acabar com esse sistema. Daí a necessidade de formar partidos revolucionários nacionais e uma internacional revolucionária, que só pode ser forjada participando ativamente da luta diária das massas e desenvolvendo constantemente a teoria e a estratégia revolucionárias.

Nesse contexto, esperamos que esses escritos de Leon Trótski que estamos apresentando não sejam apenas uma introdução para quem não conhece todo o seu trabalho prolífico e inestimável, mas uma contribuição fundamental para intervir nas lutas emancipatórias do presente.

Buenos Aires, 3 de junho de 2020

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FOOTNOTES

[1Tradução livre da passagem em espanhol: “Tan copiosa y espléndida fue la carrera de Trótski, que cualquier parte o fracción de ella habría bastado para llenar la vida de una personalidad histórica sobresaliente”. Deutscher, Isaac, Trótski, El profeta desterrado, México D. F., Ediciones Era, 1969, p. 460.

[2Tradução livre da passagem em espanhol: “Fui revolucionario durante mis cuarenta y tres años de vida consciente y durante cuarenta y dos luché bajo las banderas del marxismo. Si tuviera que comenzar todo de nuevo trataría, por supuesto, de evitar tal o cual error, pero en lo fundamental mi vida sería la misma. Moriré siendo un revolucionario proletario, un marxista, un materialista dialéctico y, en consecuencia, un ateo irreconciliable. Mi fe en el futuro comunista de la humanidad no es hoy menos ardiente, aunque sí más firme, que en mi juventud. Natasha se acerca a la ventana desde el patio y la abre para que entre más aire en mi habitación. Puedo ver la brillante franja de césped verde que se extiende tras el muro, arriba el cielo claro y azul, y el sol que brilla en todas partes. La vida es hermosa. Que las futuras generaciones la libren de todo mal, opresión y violencia y la disfruten plenamente”. Trótski, L., Mi vida, Buenos Aires, Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2012, pp. 651-652 (Obras Escogidas 2, coeditadas con el Museo Casa Leon Trótski).

[3Declaração: “A Netflix e o governo russo se uniram para mentir sobre Trotsky”. Consultado el 01/06/2020 em: https://www.esquerdadiario.com.br/A-Netflix-e-o-governo-russo-se-uniram-para-mentir-sobre-Trotsky-27771 (em português)

[4Dado retirado pelo autor da Coyuntura Laboral en América Latina y el Caribe N.° 22, mayo 2020: “El trabajo en tiempos de pandemia: desafíos frente a la enfermedad por coronavirus (COVID-19)”, CEPAL-OIT. Consultado el 01/06/2020 en: https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45557/1/S2000307_es.pdf

[5Termo que ele cunhou para definir a transformação dos partidos dos regimes bipartidários, entre conservadores e socialdemocratas ou partidos trabalhistas, em dois lados do mesmo bloco político neoliberal.

[6Programa de Transição. Leon Trótski. 1936

[7Programa de Transição. Leon Trótski. 1936
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Christian Castillo

Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
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