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O legado de Bob Dylan

No panteão da contracultura já existem muitos que fazem parte da cultura oficial. É o que acontece quando a rebeldia deixa de ser rebeldia e logo não atinge/não ameaça as forças materiais que regem a realidade. No caso de Bob Dylan, um dos artistas mais importantes do século passado, não vale a pena ficar procurando coerência ou cavando contradições. Se hoje Dylan é ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, cabe fazer uso da luz do holofote para entender como um dos maiores poetas americanos de todos os tempos, conseguiu elaborar uma obra aonde música, literatura e contestação social desaguam num rio que é referência.

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 14 de outubro| Edição do dia

Quando um garoto olha e pergunta qual é que é do vovô Bob Dylan, uma resposta fecunda passa obrigatoriamente pelos anos 60, ou seja, período em que o compositor embarcou numa tremenda efervescência cultural e política. Foi nesta década que Dylan gravou os álbuns que certamente fazem dele um dos artistas que melhor unificou as tradições artísticas progressistas dos EUA. Nos seus primeiros discos, encontramos o rosto politicamente contestador do trovador solitário; sobretudo em The Freewheelin´Bob Dylan , de 1963 e The Times They Are A- Changing, de 1964, observamos um cara que não tinha nada a ver com aquele papo de juventude carreirista e adoradora do american way of life.

Formado do cenário da folk song, Bob Dylan durante o final de sua adolescência, encarnou a figura do músico errante e logo do poeta inconformista. Trata-se do sujeito que perambulando de um lado para o outro com um violão debaixo do braço, faz da canção popular um discurso crítico que põe a olho nu uma América que não aparece na televisão: os sórdidos interesses da guerra, a pobreza, o racismo e a hipocrisia burguesa. Namorando com o blues amaldiçoado e atirando-se como clandestino num vagão de trem, ele depurou uma postura musical que combina(numa louca ponte entre gerações) a crítica social de compositores de esquerda como Woody Guthrie e a porraloquice mística da literatura beat.

Em Bob Dylan a canção de protesto aparece condicionada pela espontaneidade e pelas imagens atrevidas do legado beat. Nota-se que por volta de 1965 e 1966 o tom de protesto mescla-se cada vez mais com atmosferas oníricas. Bob Dylan seguia até então como símbolo da rebeldia juvenil no plano da música. Dylan não só foi um amigo chegado de Allen Ginsberg, como fez toda a lição de casa passada pelos beats. A exemplo de Ginsberg, reconheceu a energia transgressora e o potencial comunicativo do rock. Desafiando puristas da música folk, Bob Dylan meteu na sua estética guitarra, baixo e bateria. O resultado seria um processo de sofisticação poética do rock, como fica claro nos álbuns Bringing It All Back Home(1965), Highway 61 Revisited(1965) e Blonde on Blonde(1966).

Cabe dizer ainda que a música de Bob Dylan, realizada especialmente durante os anos 60, serviu não apenas para abrir a cuca dos músicos de protesto. Se o rock até então tinha como temas recorrentes namoricos e chororô adolescente, com Dylan várias bandas de rock começaram a prestar atenção no que se passava no mundo. John Lennon, por exemplo, levou um baita susto quando percebeu que os Beatles não tinham nada a dizer; sendo que a partir daí Lennon/McCartney passaram desenvolver composições mais sofisticadas.

Bob Dylan é um poeta que serve para ser lido e ouvido. Seja no disco ou no livro, através de um fone de ouvido ou numa boa e velha vitrola, as composições de Dylan mostram uma outra América, nem um pouco belicosa e sem nenhum pingo de caretice. Ouvir seus primeiros discos é uma experiência estética que ajuda a espantar o mal olhado deste momento tão conservador que atravessamos.




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