CAPITALISMO E GÊNERO

O inegociável direito de recriar o corpo

Virgínia Guitzel

ABC Paulista | @virginiaguitzel

quarta-feira 6 de julho de 2016| Edição do dia

A Gilson Dantas

Nosso pensamento consciente não constitui mais que uma pequena parte do trabalho das obscuras forças psíquicas. Sábios descem aos fundos dos oceanos e fotografam a fauna misteriosa das águas. Para que o pensamento humano desça às profundezas de seu próprio oceano psíquico, deve iluminar as forças motrizes, misteriosas, da alma e submetê-las a razão e à vontade.

Quando acabar com as forças anárquicas de sua própria sociedade, o homem integrar-se-á nos laboratórios, nas retortas do químico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-á a si mesma como matéria-prima e, no melhor dos caso, como semi-fabricação física e psíquica. O socialismo significará um salto do reino da necessidade ao reino da liberdade, no sentido de que o homem de hoje, esmagado sob o peso de contradições e sem harmonia, abrirá o caminho a uma nova espécie mais feliz. TROTSKY, Leon. A Revolução Russa (Conferência) 1932.

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Meu corpo estava negativo, negando-me por todos os poros. Não me deixava confortável, ainda que naquele momento não fosse ele uma condição determinante para minha afirmação da minha identidade. Cheguei ao CRT (Centro de Referência das Travestis e Transexuais), naquela data que ficaria marcada, 30 de Março. Quando assinei o termo de responsabilidade sobre os efeitos do tratamento hormonal, com um tremor que escondi tão bem que só viria explodir anos depois numa noite de inverno de fim de Junho. Recebia minhas primeiras "pilulas mágicas", quanta inocência de confiar na medicina capitalista, reacionária em toda linha no que tange as liberdades sexuais e identitárias, como se pudessem oferecer algum passo na batalha pela construção do meu ser. Depois descobri que estes médicos - representantes e aplicadores diretos da ideologia e moral burguesa - só possuem compromisso com a milionária indústria farmacêutica, seu conforto e status social. Representam a não-ciência pragmática, que busca esconder os sintomas, mas nunca combater a doença, pelo contrário, as perpetuam para fazer o mercado "girar". Mas pior é quando se tratam de corpos trans que questionam o domínio do Estado, da igreja, da família e destes charlatões, aí não há negociação. Estão determinados a nos punir: vendem nossa perspectiva de vida, nossa auto-preservação, matam nossa biologia enterrando nossa qualidade de vida em troca de nos construirmos pela metade. Odeiam nosso sonho libertário e como auxiliar da ordem e da moral burguesa cristã nos condenam ao inferno na terra. Eles se orgulham de nos privar a identidade, o direito ao corpo e a qualidade de vida. Estes são os homens e mulheres que escondem, por profunda alienação e covardia intelectual, um dos misteriosos castigos secretos forjados pela sociedade capitalista na curta perspectiva de vida de 35 anos de nós travestis.

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Doía falar, doía escrever. Mas de pouco em pouco, foi saindo. Devagar, ia remoendo a tão passageira sensação do começo da minha hormonização, que em cada segundo carregava uma eternidade de signos e desespero. Quando decidi tomar a Ciproterona, um anti-andrógeno que reduziria a produção de testosterona, parte de mim consciente buscava anular-me. Diziam que provocaria perda de libido, perda de orgasmo, perda de algo que não me parecia fazer falta, ou melhor, que a ausência provocada pelo que chamamos de "solidão da mulher trans", principalmente se não aceitamos ser meros objetos ou carne no mercado, me faziam crer que ser - e que poderia ser nesta sociedade - bastaria. Ou mais que não "sentir vontade" me traria menos angústia pela cruz que obrigam a carregar. Acreditava que quanto mais estrogenizasse meu corpo, mais rápido meu corpo seria reflexo do que estava construindo. Dei então o primeiro passo firme da minha transformação. Foram-se os cinco primeiros meses, longos, sem grandes alterações físicas, recompensados pelos efeitos do estrogênio - hormônio do stress - que provocava uma mudança profunda no meu modo de ver e sentir. Estava constantemente abalada e perseguida, e mergulhando numa solidão que experimentaria sozinha numa viagem sem nunca ter consolidado um lar para retornar.

Foi então, quando decidi por conta própria, contra a proposta dominante dos endocrinologistas de seguir um tratamento insuficiente e lentamente ineficaz que assinei mesmo sem contrato ou provas, arcar com o preço de lutar para ser eu mesma e não o que me quiseram feita. Combater individualmente essa medicina cruel e desrespeitosa não funcionou.

As consequências do tratamento hormonal são desconhecidas, ou ao menos, escondidas das pessoas comuns. As bulas, assim como os médicos, só oferecem respostas genéricas de que "cada corpo é um corpo", que podem desenvolver trombose, câncer e outros males a partir "da sua genética" ou "múltiplas condições". Nada científico, um bom e claro "foda-se" a quem decidimos ser e um mal desejo a nossa libertação.

Cada injeção despertava uma ansiedade das transformações, a leve tontura que dias comuns me visitava, enjoos nos dias ruim, e uma dor próxima da picada da Perlutan três dias após a aplicação eram já parte da rotina. Mas cada vez que estrogenizava meu corpo, também meu psicológico ficava mais bagunçado. As lentas mudanças físicas na tentativa de recriar o corpo não sobrepujavam o peso social combinado à profunda depressão provocada pelo único caminho que existe para nós travestis que não pertencemos a elite - os hormônios mais tóxicos. Quanto mais tentava cruzar a travessia, não almejando chegar "ao lado oposto", mas nessa tentativa de dar forma ao novo, parece que a lerdeza das minhas pernas caminharem não compensava os novos tijolos que eram colocados, aumentando o caminho para alcançar a satisfação do meu corpo.

A normas e os padrões de beleza cis, a tentativa de amenizar a opressão em cada espaço que precisasse me apresentar, iam formando um agouro também difícil de separar das mazelas do coquetel de tóxicos que ingeria. Ilusão pensar que quanto mais bombas, mais rápido seria o processo. O organismo já não poderia digerir as grandes quantidades de hormônios, enquanto a maneira que formatavam meu corpo ia desequilibrando o sistema hormonal no sentido das inflamações, das irritações e da perda de imunidade. Mas isso eu só descobriria um ano depois, quando também os anseios já seriam outros, já que a cada etapa dessa caminhada a perspectiva alegre bate a testa no muro dos limites dessa sociedade tão despreparada para a liberdade individual.

Quando abri a caixa de pandora estava me recuperando de um desamor. A proposta dominante de romance também não me convencia, mas, mais do que isso, se provava insustentável para mim. Ela havia despertado em mim, já nessa breve experiência, uma contradição amarga de ser e não poder amar. Do meu corpo de tão objeto tornou-se abjeto e em cada momento que se transformava, lhe faltava afeto. Decidida a pagar o preço que fosse - sabia dos ricos por alto - mas entre a morte e a vida, eu queria a vida, mesmo que fugaz. Então, que queimasse igual uma chama, que chegaria ou talvez não aos 35 anos. Mas tão cedo, aos 23, já encontrou-se um balde de água fria pra impedir este caminho.

...

Estou plenamente ciente do quão maldita e reacionária é a sociedade capitalista. Dos limites que ela impõe e que já são parte de mim. Sei que não há felicidade ou plenitude nesta ordem, e que é também verdade que a cada ser humano lhe cabe unicamente avaliar o peso que é viver em tamanha barbárie. O ódio alimenta, nos mantém vivas, porque somos conscientes que nossa miséria, morte e dor são friamente estabelecidas em mesas, salas de reuniões muito luxuosas e lucrativas. É então que se deve medir a razão e a vontade, encontrar um equilíbrio entre a perspectiva e a realidade determinada com que nos deparamos, a emancipação sonhada e a mínima condição de sobreviver, e a possibilidade de uma felicidade na perspectiva comunista. Sim, amar a vida como ela é, apesar do capitalismo. Então, estava ali, sozinha e humilhada esperando para ser atendida por outra médica que não saberia como lidar com a minha busca por emancipação.

- Virgínia - chamou a voz dentro da sala.

Levantei e entrei no consultório. Respirei fundo, mal imaginam que antes de espíritos, possessões, assaltos ou acidentes, meu maior medo era de médicos transfóbicos. Me apresentei como travesti, contei meu drama, as dores, a agonia que sentia. Pediram pra me despir, aceitei resignada. Ninguém imagina quantas vezes isso se repetiu e como todas as vezes era difícil e dolorido ficar nua para ser examinada. Sei que me olhavam a mim como um homem, o pênis sendo mais determinante que o resto do meu corpo e mente, como (não) pensa a medicina. Uma inflamação, suspeitou-se. Surgiu como? Como comprovar a hipótese? Como evitar seu retorno? Como cura-la? Nenhuma resposta além das que já sabemos: "cada corpo é um corpo".

Tomei um anti-inflamatório para suportar a dor. Amenizou. Na semana seguinte, tive uma das piores gripes, dores, tremor, febre e calafrios. Deixei de ir às manifestações, deixei de levantar da cama, e em meu peito só aumentava a agonia. Estava morrendo sem saber?

Procurei outro médico, num Pronto Atendimento, de madrugada, ele, já de idade e com um olhar tranquilo, me pediu alguns exames. Me perguntou há quanto tempo tinha essas sensações, contei que algumas eram recentes outras já tinham alguns meses. Ele questionou porque não me receitaram também antibiótico junto ao anti-inflamatório. Depois perguntou naturalmente porque demorei tanto para buscar ajuda. Confessei: "você sabe como é a discriminação". Ele riu, meio ofendido, e disse que era muito raro haver transfobia na saúde. Respondi que até em manifestação eu já tive que ir porque não quiseram atender travesti, que além de humilhada foi abandonada sem atendimento. Ele me passou os exames, mas não demorou nem 24 horas para se provar quem estava certa. Entreguei a urina coletada e fui informada que levaria quatro horas para pegar o resultado. Passei por outro médico, me mandou retornar no outro dia, e o desespero só aumentava, como era solitário e insuportável depender desses médicos para descobrir o que os sintomas significavam.

Quando retornei, aquele médico já não estava mais. Uma mulher, então, me atendeu depois de algumas horas de espera. Ela parecia mal humorada, fria e pouco interessada na minha recuperação. Viu os exames e disse "Está tudo OK". Eu respondi que ainda sentia dor. Ela disse "Mas seus exames estão bem, nenhuma alteração. Não há infeção, não tem nada que possamos fazer". Ela, não perdendo a chance, emendou "deve ser esses hormônios que vocês tomam". Mal sabíamos, ela e eu, que, apesar do instinto transfóbico, estava certa. Era a ponta do iceberg, começando a transparecer.

Me levantei revoltada, mas muito fraca. Na verdade, mais triste do que revoltada, como minhas forças permitiam. Fui pra casa, evitando pedir ajuda porque a solidão era tão grande que já não me permitia procurar mãos amigas. Deitei na minha cama e mais suor, calafrios e dores me impediam de me locomover. Permaneci na mesma posição, até a noite, quando um dos meus companheiros veio me fazer companhia. Era só uma gripe, mas meu peito amargava prevendo que não.

Três dias depois, voltei ao primeiro hospital pedir que me dessem algum antibiótico. Tentei também dessa forma, mas, com sete dias regrados de uso, não passou. Passaram mais duas semanas, e não passou. Faz mais de um mês, e não passou. O desespero começava pelo medo de ser um dano permanente, passava pela minha sexualidade já tão limitada pela transfobia social quanto pelo meu corpo já reconfigurado com a perda do orgasmo e do gozo e a desesperança de seguir meu tratamento hormonal.

Foi então quando corri para o CRT para falar com a endocrinologista, mas ao chegar pela manhã descobri que estavam em greve, ainda que nenhuma das pautas da mobilização colocassem em momento algum nosso atendimento, a saúde da população trans. Mesmo sendo este um dos dois únicos hospitais que oferecem "cuidados" para a população trans.

Estava só, sem equilíbrio algum entre a razão e a vontade. Mais que isso, com a razão abandonada e a vontade quase sendo vencida pela agonia. Cada vez mais sentia meu corpo definhando na busca por sua emancipação e a certeza de ser eternamente incompleta me trazia de novo os pensamentos de até onde chegaria. 12 anos com essa qualidade de vida física e psicológica? Eu escolhi a vida. Eu escolhi ser Virgínia. Isso é inegociável. Meu corpo, como nunca, um campo de batalha. Primeiro na guerra biológica, depois ideológica.

Então que me vi neste beco. Nenhum passo atrás, mas como é difícil caminhar em ovos buscando equilíbrio. Buscando a paciência necessária para manter a perspectiva acesa enquanto a realidade vai me matando aos poucos. Mesmo cercada de amigos, que amo e por quem me mantive viva em tantas noites, ainda uma solidão tão própria me consumia. Então, que outro camarada acendeu com um fósforo humilde uma pequena chama. Acendi um cigarro, a seu contragosto, para respirar, tem dias assim que sem fumaça não dá. Ele me contou dos seus estudos e me aconselhou com toda cautela, compartilhamos a solidão de rejeitar a proposta dominante. De não nos curvarmos a miséria do possível. De não aceitarmos o mundo em todas suas esferas tal como é. Que comunista! Que qualidade humana! Terminei o choro, sem ilusões de que não voltaria a molhar as páginas enquanto escrevia. Mas tinha voltado a escrever, sabia então que ainda haveria um caminho. Da vida, o que não cabe na poesia, se tornaria denúncia, de um sonho a ser realizado às futuras gerações. Não me senti só, apesar da distância, seu gesto doce me transmitia que apesar da insuportável dor de existir, há um germe dessa libertação, dessa possibilidade em perspectiva que não podem nos tirar.

E a luta continua...




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