Política

CONGRESSO DO PSOL NEGA ENTRADA DO MRT

O grupo revolucionário que o PSOL recusou no partido

Entenda por que o PSOL negou a entrada de uma corrente revolucionária como o MRT, que impulsiona o Esquerda Diário no Brasil e é o grupo brasileiro da organização internacional de Nicolas Del Caño, principal figura da esquerda na Argentina.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 15 de dezembro de 2015| Edição do dia

O Congresso do PSOL, reunido nos dias 04, 05 e 06 de dezembro, dentre outras deliberações definiu por recusar o pedido de entrada do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, grupo que impulsiona o Esquerda Diário no Brasil. O MRT também é o grupo brasileiro da organização internacional de que faz parte Nicolas Del Caño Nicolas Del Caño, principal figura da esquerda Argentina, que foi candidato a presidente pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT, pelas siglas em espanhol) e é atualmente deputado federal do PTS, nosso partido irmão no país.

Quando publicamos a notícia aqui, a partir da apuração feita pela redação do Esquerda Diário, uma vez que o PSOL até o momento não publicou nota oficial sobre o tema, centenas de pessoas do país inteiro nos procuraram para compreender o que essa informação significa. Afinal, por que o PSOL nega a entrada de um grupo revolucionário? Quem é este grupo que o PSOL não quis?

As respostas para essas perguntas dizem respeito à atual situação da esquerda brasileira e seu posicionamento ante a crise política e a crise econômica no país.

Nos últimos meses o PSOL, que aparecia para importantes setores de massas depois das eleições como portador de uma posição independente, capaz de aproveitar pela esquerda a crise do PT, decidiu por conformar uma frente com CUT, UNE, PT, PCdoB e outros partidos burgueses que se denomina "Povo Sem Medo". Para quem tem dúvida da presença do PT nesta Frente basta ver a participação elogiosa de Lindbergh Farias, senador petista denunciado na Operação Lava-Jato que esteve na mesa de lançamento desta frente no Rio de Janeiro, bem como participou do lançamento no Congresso Nacional.

Não fosse isso suficiente, o PSOL também no campo da crise política veio tendo como eixo apenas a bandeira de "Fora Cunha", renunciando ao combate a presidente Dilma e ao PT, responsáveis pela aplicação de um cruel plano de ajustes contra os trabalhadores. Combinado a isso defendem, pela via do deputado federal Chico Alencar, uma “Constituinte Exclusiva”, praticamente a mesma defendida por Dilma e pelo próprio PT para tentar conter as mobilizações de junho de 2013.

Estas políticas concretas vão na contramão de o PSOL se colocar como uma alternativa independente pra milhares de trabalhadores e jovens que resistem aos planos de ajustes e se preparar pra enfrentar a direita que o próprio PT abriu caminho. Além disso, não é prioridade deste partido construir um movimento nacional contra os ajustes, que signifique uma atuação concreta na luta de classes, girando sua força militante e de parlamentares para atuar nas ruas e nas greves pra cercar de solidariedade e ajudar a coordenar as lutas.

Neste sentido, é escandalosa a posição deste partido de negar a entrada de um grupo revolucionário, ao mesmo tempo em que abraça com alegria políticos advindos de partidos burgueses como Glauber Braga (PSB) e Brizola Neto (PDT). O MRT veio insistindo nestas críticas e chamando a que os militantes do PSOL neste Congresso votassem pela saída imediata do PSOL desta Frente Povo Sem Medo, bem como buscar um caminho de independência de classe, o que possibilitaria definir pela entrada do MRT.

Entretanto, a direção do partido insistiu com esta orientação política e por isso não quis aceitar a entrada do MRT no PSOL, diferentemente do caso da Esquerda Marxista, advinda do PT, que terá sua decisão final tomada em reunião do Diretório Nacional.

O MRT é uma organização revolucionária que reúne centenas de trabalhadores, jovens, mulheres, negros e LGBT em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Brasília e começa a se estender por outros estados do norte, nordeste e centro-oeste do país. Impulsiona há menos de um ano o diário digital Esquerda Diário, que já é o maior site da esquerda antigovernista no país, tendo atingido a marca de 1 milhão e meio de acessos em mais de 1000 cidades em 9 meses, sendo parte de uma rede latino-americana e internacional de diários digitais. É também impulsionador do conhecido grupo de mulheres Pão e Rosas, que publicou importantes livros sobre a luta contra a opressão às mulheres.

Somos parte da Diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da USP, um dos sindicatos mais combativos do país, e também compomos a diretoria da APEOESP pela Oposição Alternativa. Construímos a CSP-Conlutas e somos dezenas de delegados sindicais e cipeiros no Metrô de São Paulo, na Caixa Econômica Federal, nos Correios, na Petrobrás e em fábricas de regiões em São Paulo, Campinas, ABC paulista, Franca e em Contagem, Minas Gerais.

Com a Juventude Às Ruas e vários companheiros independentes, somos a direção de um dos maiores centros acadêmicos do país, o Centro Acadêmico do curso de Letras da USP (CAELL), numa eleição onde tivemos 358 votos, enquanto PSOL teve 30 e PSTU 19. Também ganhamos a eleição do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire do curso de Educação da USP, e somos parte do C. A. de Ciências Humanas (CACH) da Unicamp, e no C. A. de Filosofia (CAFCA) na UFMG, onde nos dois anos em que fomos direção conseguimos implementar a proporcionalidade, como método mais democrático de organização dos centros acadêmicos. No Rio de Janeiro somos parte do C.A. de Serviço Social da UERJ.

No último mês trouxemos para o Brasil a figura mais importante da esquerda argentina, Nicolas Del Caño, que teve 3,3% dos votos (o dobro de Luciana Genro nas eleições de 2014), que expressa uma esquerda de combate na luta de classes e que busca resgatar o mais avançado das lições do trotskismo mundial e dos grandes ascensos e experiências históricas da classe operária, em especial nos países da América do Sul como Argentina, Brasil, Chile, Bolívia e Uruguai. A Argentina é o único país do mundo onde há hoje uma esquerda hegemônica que não deixou de lado a luta revolucionária, como se pode ver rapidamente em comparação com as experiências decepcionantes do Syriza na Grécia e do Podemos na Espanha, que optaram pelo caminho da conciliação de classes.

Neste momento de crise política, defendemos uma posição independente contra o impeachment da direita. Abaixo os ajustes do PT. Abaixo esse regime que ataca os direitos das mulheres e da juventude. É preciso colocar de pé um forte movimento nacional contra os ajustes a partir dos sindicatos e entidades estudantis da esquerda, e como parte de coordenar e cercar de solidariedade todas as lutas precisamos mobilizar os sindicatos e entidades estudantis por uma posição independente, para impor pela força da mobilização uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana que se enfrente com este regime apodrecido, com deputados eleitos a partir da livre organização de todo o povo, por sufrágio universal, e que ganhem como uma professora e sejam revogáveis.

Uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana como esta deveria encarar os grandes problemas políticos, sociais e econômicos do país, portanto não pode ser "exclusiva" como queria o PT em certo o momento, e como defende o PSOL agora.

Pelo não pagamento da dívida publica para destinar verbas à saúde, educação e moradia. Estatização sob controle dos trabalhadores da Petrobrás, da Vale do Rio Doce e de todas as empresas privatizadas ou que ameacem fechar. Por uma educação gratuita e de qualidade, com acesso irrestrito e com controle da comunidade escolar. Redução da jornada de trabalho sem redução dos salários para que não haja mais demissões. Reajuste automático dos salários junto com a inflação. Pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Por uma reforma agrária radical, que acabe com o latifúndio equilibre finalmente a distribuição populacional e a produção agrícola no país. Essas e outras bandeiras urgentes para responder às necessidades emergenciais das massas poderiam ser debatidas amplamente na Constituinte.
Acreditamos que como parte desta luta, trabalhadores e jovens do país inteiro irão se deparar com os limites desta democracia dos ricos, e buscar construir seus próprios organismos de poder como os sovietes e um verdadeiro partido revolucionário, estratégia na qual apostamos de forma apaixonada.

Foi contra essa perspectiva que o congresso do PSOL votou, mostrando mais uma vez que a sua suposta “forma ampla” esconde na verdade o domínio do partido por alguns grupos que buscam impor sua linha oportunista. Vendem a ideia de um “partido amplo”, e de fato ampliam para os políticos tradicionais de partidos de direita, mas quando veem que poderia existir uma posição que questionasse as correntes petistas e esse rumo político reformista todos da direção, ou ao menos as correntes principais, rapidamente se unificaram para se colocar contra o MRT.

Chamamos a todos os que simpatizaram com nossa campanha a conhecer melhor o MRT e participar de nossa luta para fundir o marxismo com a classe trabalhadora na luta de classes e construir uma força revolucionária independente dos bandos burgueses, como faz o PTS na Argentina e nossas organizações irmãs em toda a América Latina, que buscam aproveitar a crise dos fenômenos pósneoliberais para emergir esta força independente dos governos e da direita.




Tópicos relacionados

PSOL   /    Política

Comentários

Comentar