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O grupo de Luciana Genro e suas alianças: tão perto de Marina Silva e tão longe de Lenin

Depois da divulgação da pesquisa que coloca Luciana Genro na liderança das intenções de voto, o MES adotou uma nova palavra de ordem, que define seus objetivos “Agora é pra vencer”.

Thiago Flamé

São Paulo

terça-feira 2 de agosto| Edição do dia

Em artigo recente Bernardo Correa, da direção estadual do MES/PSOL do RS, saiu em defesa das coligações com a Rede e o PPL. Para tentar defender sua política, vai até Lenin em uma argumentação nada original – para dar um exemplo recente, em comentário ao texto “PSOL, REDE e PCdoB juntos em Cachoeirinha – RS” o vereador Irani Teixeira do PCdoB de Cachoeirinha já nos recomendou a leitura do “Esquerdismo...”. Mas a não ser recorrendo a citações fora do contexto e distorcendo seu conteúdo, não existe nada no texto do Lenin onde o MES possa se apoiar para defender sua política.

“O caso concreto”– argumenta Bernardo no seu artigo – “é uma disputa eleitoral, na qual se busca a partir de um programa e uma confluência de setores plebeus e pequeno-burgueses dar um sinal positivo à esquerda, de que é possível experimentar uma fatia de poder local, como trincheira de esperança, mobilização e exemplo e é possível justamente ’não repetir o PT’. Não se trata de uma revolução social, na qual só se pode contar com as forças definidas claramente por ela, para combater quem está contra. Mesmo nesse caso a divisão das classes médias e da classe dominante seriam determinantes.”

Por mais que o MES negue, está percorrendo exatamente o mesmo caminho do PT (e não é de hoje, basta lembrar da coligação com o PV em 2008), que também deu seus primeiros passos na integração ao regime através da administração das prefeituras (entre elas a própria prefeitura de Porto Alegre). Até assinar a “carta ao povo brasileiro” em 2002, na qual se comprometeu com o neoliberalismo, o PT passou por uma grande escola de gestão capitalista do estado, através da administração dessas “fatias de poder local” que agora o PSOL gaúcho tanto busca. E o PT fez tudo isso se aliando com os PPL’s e REDE’s de então.

Em que bases programáticas seria o acordo? O texto não diz, mas como a própria Luciana Genro afirmou, as bases são a confluência na politica nacional com a proposta de Marina Silva de eleições gerais, uma variante do golpe institucional apoiada no seu momento pela Folha de São Paulo. Durante o auge da crise política o MES fez coro com a direita pró impeachment e ter corrigido a posição taticamente na véspera, sem fazer nenhum balanço, não altera o conteúdo da sua política, como mostra a aliança com a Rede e o fato de que até hoje segue como o campeão na defesa da lava jato.

“Setores plebeus e pequeno-burgueses”, assim o MES define um partido como a Rede, cuja direção tem relações intimas com a família que controla o Itaú, que apoiou nada menos que Aécio Neves no segundo turno em 2014 e que em Porto Alegre abriga parte da família Fortunatti. Ou seja, nenhum sinal à esquerda é dado com essa aliança que,ao contrário, dá muitos sinais à direita, percebidos tanto pelos setores de vanguarda quanto pelos setores burgueses. No final, tudo se subordina ao grande “combate” para provar fatias do poder local...

Que não se trata de uma revolução social é evidente. O que o texto não demonstra, por que seria impossível demonstrar, é por que uma aliança com a Rede, um partido apoiado pela grande burguesia, ajuda a separar as classes médias das classes dominantes e não o contrário, ajuda a submeter uma possível prefeitura do PSOL à burguesia. O mesmo vale para o PPL.

Mas calma, podemos ficar tranquilos. O caminho parece o seguido pelo PT e a argumentação parece a do PCdoB... mas no MES podemos confiar, por que a estratégia deles não é a do PT, “fiador dos interesses dos ricos, amortecendo as lutas sociais por meio de uma cooptação ativa de suas lideranças”, eles não, nunca seguirão este caminho “já poderíamos tê-lo seguido, convites nunca faltaram, justamente para isso é que fundamos o PSOL. São princípios que nos movem, não conveniências”. O que o companheiro Bernardo não percebe é que também a “cooptação ativa das lideranças” se dá pelo mecanismo eleitoral, por exemplo, ao aceitar rebaixar o programa e aceitar alianças com setores burgueses para estar nos debates da TV...

Parafraseando Lenin, podemos afirmar que a tentativa de aliança com a REDE e o acordo já selado com o PPL¹ não se tratam de um compromisso imposto pela situação objetiva, mas um compromisso “de traidores que atribuem a causas objetivas seu vil egoísmo, sua covardia, seu desejo de atrair a simpatia dos capitalistas, sua falta de firmeza ante as ameaças e, às vezes, ante as exortações, as esmolas ou as adulações dos capitalistas.” Em nome de ganhar a gerir a prefeitura de Porto Alegre.

O Lenin que o MES não reconhece

O artigo de Bernardo tem como epígrafe uma bela frase de Lenin “Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem os políticos da classe revolucionária que não sabem “manobrar”, que não sabem consertar “acordos e compromissos” a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável”. Mas o seu artigo é uma inversão completa do seu conteúdo.

No caso concreto Lenin se refere à guerra civil russa, ao acordo que a Rússia soviética foi obrigada a assinar com a burguesia alemã para salvar a revolução e a cidade de Petrogrado da invasão militar. Quando Lenin fala “combate”, tem em vista guerra, guerra civil, grandes enfrentamentos da luta de classes, greves. Mas o artigo de Bernardo ignora completamente a diferença entre um combate da luta de classes e sua expressão eleitoral ou parlamentar. Talvez por que seja nas eleições a única ocasião em que reúne e concentra toda militância e todas as suas forças.

Lenin define os compromissos e táticas em função de princípios e estratégias, que são o oposto dos objetivos do MES. “Já se fez o principal – claro que não se fez tudo, absolutamente, mas se fez o principal – para ganhar a vanguarda da classe operária para colocá-la ao lado do poder soviético contra o parlamentarismo, ao lado da ditadura do proletariado contra a democracia burguesa. Agora é preciso concentrar todas as forças e toda a atenção no passo seguinte que parece ser – e, de certo modo é realmente – menos fundamental, mas que em compensação está mais perto da solução efetiva do problema, isto é: procurar as formas de passar à revolução proletária ou de abordá-la”. Em função disso determinados acordos, não todos, são obrigatórios. A questão é distinguir entre os acordos necessários e os que consistem em uma traição.

Não queremos entrar nas enormes diferenças entre tal situação, em que a vanguarda proletária da Europa estava ganha para o poder soviético contra o parlamentarismo, e a que vivemos hoje. Tão distantes estamos de conquistar a vanguarda dos trabalhadores para tais posições. O que interessa ressaltar aqui é que enquanto o texto do Lenin é toda uma discussão sobre como abordar ou iniciar a revolução proletária, a direção do MES tem objetivos mais próximos dos adversários oportunistas que Lenin combate, de experimentar fatias do poder local com uma campanha eleitoral vitoriosa para a prefeitura.

Se agora aRede, por conta de seus interesses cruzados com a família Fortunati recusou a aliança com o PSOL, isso não diminui a necessidade de organizar um polo classista e combativo da esquerda gaúcha. Chamamos todos os setores de esquerda que se reivindica socialista e classista, de dentro e de fora do PSOL, a aprofundar as iniciativas como a do Manifesto e seguir a batalha para que nas eleições de Porto Alegre se apresente uma frente de esquerda, sem coligações com partidos burgueses como a Rede e o PPL.

¹ Tal citação referente ao PPL se mostra ainda mais acertada quando vimos o Juntos!, PPL, UJS e PT traindo os estudantes secundaristas ao firmar um acordo de desocupação com o governo Sartori pelas costas dos estudantes que ocupavam suas escolas.




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