Internacional

ESTRATÉGIA INTERNACIONAL | ARGENTINA

O governo dos CEO, o “decisionismo” macrista e os desafios da esquerda

Christian Castillo

@chipicastillo

sexta-feira 5 de agosto| Edição do dia

Com a apertada vitória de Mauricio Macri, candidato à presidência pelo Cambiemos (aliança entre Proposta Republicana-PRO, União Cívica Radial-UCR e Colisão Cívica-CC)[1], o panorama político da Argentina apresenta uma mudança copernicana. Chega ao governo o membro de um dos clãs empresariais mais paradigmáticos do paí[2], liderando um partido como o Proposta Republicana (PRO) que surgiu após a crise de 2001 e que configura uma espécie de “nova direita” que se apresenta como “a ideológica”, com um discurso de “gestão e eficácia”. Nesse aspecto muito diferente do discurso que tinha, por exemplo, a União do Centro Democrático (UCeDé) liderada por Álvaro Alsogaray[3], que reivindicava a defesa de um liberalismo econômico até as últimas consequências. Mas se o discurso é diferente, a composição do novo governo é, até agora, a mais abertamente empresária da história nacional. Tanto nos governos ditatoriais como constitucionais tivemos vários exemplos de empresários ou gerentes controlando áreas do governo, em particular, o Ministério da Economia, como ocorreu com Adalbert Krieger Vasena sob o governo de Onganía[4]; com José Alberto Martínez de Hoz no governo de Videla ou; com Cavallo no menemismo e a Aliança[5].

Às vezes eram quadros gerenciais impostos diretamente pelas empresas, como aconteceu com Nelson Rapanelli enquanto Ministro da Economia[6] de Menem, a partir de sua aliança com o grupo empresarial Bunge & Born. No entanto, a presença de empresários, gerentes e ex-gerentes de multinacionais no primeiro escalão do governo do Cambiemos supera tudo o que já foi visto anteriormente, inclusive o que foi feito no chile pelo governo de Sebastián Piñera, um amigo pessoal de Macri. Susana Malcorra (Chancelaria, ex CEO da IBM e Telecom, atualmente funcionária da ONU), Francisco Cabrera (produção)[7], Guillermo Dietrich (transporte), Pablo Avelluto (cultura), Esteban Bullrich (educação), Juan José Aranguren (energia e mineração, proveniente da Shell), Hernán Lombardi (comunicação), Ricardo Buryaile (agricultura, homem das Confederações Rurais Argentinas), Andrés Ibarra (modernização) e Gustavo Santos (turismo), dirigem ou já dirigiram empresas. Fernando Marín, também empresário está a frente do programa governamental “Futebol para Todos”, e Juan Cruz Ávila foi designado inicialmente a frente da Secretaria de Políticas Universitárias, embora teve que renunciar antes de assumir, por causa da rejeição que gerou sua designação para um cargo do qual a União Cívica Radical (UCR) considerava ser dela. A CEO da General Motors, Isella Constantini irá liderar por sua vez a Aerolíneas Argentinas. O Secretário do Trabalho, Miguel Punte, é o gerente de Recursos Humanos da Technit. Na província de Buenos Aires, um executivo da Monsanto, Leonardo Sarquis, estará a cargo do Ministério de Assuntos Agrários.

E a secretaria da economia está repleta de ex-gerentes de bancos, começando pelo Ministro da Fazenda e Finanças, Adolfo Prat Gay (JP Morgan) e o Secretário das Finanças Luis Caputo (Deutsche Bank). Gustavo Lopetegui, CEO da LAN Argentina, será o secretario da Direção de Gabinete. Ele será responsável pela coordenação dos ministérios vinculados com a área econômica junto a Mario Quintana do fundo Pegasus (Farmacity, Freddo e Musimundo), a cargo da Secretaria de Coordenação Administrativa e Avaliação Orçamentária da Direção de Gabinete. Os bancos públicos estarão controlados pelos economistas do establishment, como Carlos Melconian (liderando o Banco de la Nación) ou Federico Sturzenegger que comanda o Banco Central. Uma espécie de “CEOcracia”, como foi definido por um jornalista argentino[8].

Apesar desse caráter claramente de gabinete de “guerra do capital contra o trabalho”, não só o radicalismo, como distintas forças políticas que não integram a aliança Cambiemos - com exceção obviamente da Frente de Esquerda - forneceram ministros, secretários ou embaixadores do novo governo. O kirchnerismo deixou Lino Barañao no Ministério da Ciência e Tecnologia, de onde beneficiou os agronegócios e os laboratórios farmacêuticos que patrocinaram a sua continuidade. O partido Geração para um Encontro Nacional (GEN) de Margarita Stolbizer colocou Gerardo Milman como Secretário de Conselho de Segurança Interior. E o Partido Socialista da cidade autônoma de Buenos Aires apoiou a nomeação de Martín Lousteu (com quem divide a coalizão ECO) para embaixador nos Estados Unidos.

Não há muito mistério nas diretrizes econômicas centrais do novo governo. Em primeiro lugar a quitação das retenções às patronais agrárias, que desapareceram para o trigo, o milho, e outros produtos e baixaram cerca de 5% a soja nesse ano. Essa medida atrelada a uma desvalorização do peso argentino, que foi num primeiro momento de 40%, duplicou a rentabilidade dos produtores de trigo e milho e aumentou 50% a soja: de conjunto, uma transferência calculada ao redor de 60 bilhões de pesos argentinos (aprox. 4 bilhões de dólares) anuais para os latifundiários, capitalistas agrários e as exportadoras, com sua contrapartida nos aumentos do pão, leite e na carne para os consumidores locais, já que ao quitar retenções a tendência é o alinhamento dos preços internos com os preços internacionais.

Como aponta Alfredo Zaiat: “Os donos dos dólares comerciais ( grandes firmas multinacionais e locais) são os principais e imediatos beneficiários da mega desvalorização de Macri, fato anunciado com alegria por seu ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat Gay. O seleto grupo de privilegiados de um desproporcional aumento da paridade cambial está integrado pela Cargill, Bunge Argentina, Aceitera General Deheza, Louis Dreyfuss, Nidera, ACA cooperativas, Molinos, Noble Argentina, Vicentin, Volkswagen, Pan American Energy, Siderca (Techint), Aluar, entre as principais. A alteração brusca do tipo de cambio que impacta negativamente milhões de trabalhadores e aposentados, através da perda do poder aquisitivo, favorece a uma minúscula lista de grandes empresas.

Apenas 100 concentram 75% do total de exportações. Nesse ranking das 25 principais, doze se dedicam a grãos, oleaginosas e seus derivados; seis são automotrizes; duas vendem petróleo e gás ao exterior, duas são mineradoras, e outras duas de siderurgia e alumínio; e uma de alimentos. Desse lote, oito estão vinculadas com bens industriais de médio-baixo conteúdo tecnológico: seis firmas fabricam automóveis; uma de tubos de aço; e outra alumínio. São os grandes ganhadores da mega desvalorização de Macri. Também participam desse banquete aqueles que acumularam dólares em grande volume durante anos, e produtores agropecuários que especularam guardando grãos em silo-bolsa[9]. A desvalorização tem o objetivo central de liquefazer o salário, para o qual estes devem aumentar abaixo da inflação e beneficiar ao grupo dos exportadores. O efeito súbito da medida será encarecer os insumos importados para a produção industrial e baixar o preço dos salários medidos em dólares, produzindo, por sua vez, uma maior inflação e recessão. Para ter dois pontos de comparação, a desvalorização de 2002 produziu uma queda do salário real estimada em 30% e a de janeiro de 2014 em 5%. A essas medidas se deve somar o aumento das tarifas em eletricidade e gás, especialmente na área metropolitana.

Para a indústria, a principal medida anunciada beneficia com a queda das retenções para a atividade, primordialmente um setor: os exportadores. Tudo isso vai acompanhado de obter um acordo para pagar os “fundos oportunistas”(buitres) e o início de um novo ciclo de endividamento externo (começando por um empréstimo do BID). Como denunciamos na Frente de Esquerda durante campanha eleitoral: um ajuste em regra para descarregar a crise sobre o povo trabalhador.

Trata-se de uma crise que o kirchnerismo veio “empurrando com a barriga” e que se expressa em quatro anos de estancamento econômico, com uma queda muito forte das reservas existentes no Banco Central[10] e uma inflação que beira os 30%, a quarta mais alta do mundo. O déficit fiscal chega a quase 8% do Produto Interno Bruto (PIB), a metade se deve a subsídios para empresas, principalmente as privatizadas de serviços públicos, como as fornecedoras de energia elétrica e de gás. O certo é que com uma política econômica caracterizada pelo pragmatismo[11], o kirchnerismo foi incapaz de superar a chamada “restrição externa”, isto é, que a partir de certo nível de crescimento a economia argentina requer mais dólares do que gera[12], algo que ficou claro a partir de 2008-2009. Essa situação foi agravada pela grande quantidade de recursos destinados para o pagamento da dívida externa (cerca de 170 bilhões de dólares), o chamado “desendividamento”, e os dólares enviados ao exterior, seja pela fuga de capitais (calcula-se ao redor de 100 bilhões de dólares) ou por giro de dividendos das empresas multinacionais (mais ou menos 40 bilhões de dólares)[13] .

A situação social também veio se deteriorando, com salários que vão se perdendo em relação a inflação (a metade da classe operária argentina ganha 6.500 pesos, aprox. 435 dólares, ou menos), a continuidade do trabalho não registrado chega a 34% e índices de pobreza que vão entre 19 e 25% da população. Além disso, a não atualização do “mínimo não tributável” e das escalas da quarta categoria do imposto aos lucros que afeta os assalariados, provocou um aumento da quantidade de trabalhadores e autônomos dos quais se desconta esse imposto sobre seus salários e em somas cada vez maiores, gerando nessas camadas um descontentamento significativo com o governo anterior.

Da eleição de outubro ao segundo turno

O triunfo de Macri se construiu essencialmente na eleição geral de 25 de outubro, quando obteve a vitória no governo da estratégica província de Buenos Aires. Devemos lembrar que depois das PASO (eleições primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias) de 14 de agosto, Daniel Scioli apostava numa vitória por mais de dez pontos de diferença em outubro que lhe permitiria evitar o segundo turno[14].

Em seguida, Macri conseguiu ficar com a maioria dos votos daqueles que haviam optado pela candidatura de Sergio Massa (que obteve 21% em outubro), em uma proporção de seis para quatro em relação a Scioli. Porém, a diferença final foi menor do que previam as pesquisas e do que queriam as patronais. Isso se deveu em grande parte à mudança do discurso feito por Scioli, especialmente a partir do debate televiso entre os candidatos, onde centrou-se na denúncia do ajuste que seria aplicado por Macri, usando grande parte do que dizia a FIT na campanha geral[15]. Foi uma diferença nítida em relação à campanha anterior, em que Scioli competiu com Macri tentando ocupar o “extremo centro”, enquanto Sergio Massa combinava um discurso repressivo de direita e uma “mão de ferro” com medidas “sociais”, como o reajuste de 82% móveis para os aposentados, e o fim do imposto aos juros para os assalariados. Essa campanha demagógica permitiu a Scioli melhorar nas pesquisas e ficar muito próximo do candidato do PRO-Cambiemos. Dizemos demagógica porque se tivesse ganho, Scioli aplicaria uma política econômica muito similar à do candidato direitista (provavelmente apenas em ritmos diferentes, se a situação assim o permitisse[16]). Algo que declararam por vezes seus assessores econômicos mais importantes, como Miguel Beni, Mario Blejer ou seu irmão, José “Pepe” Scioli (com relação as retenções, prometeram rebaixamentos maiores do que os implementados por Macri) e que mostrava claramente o gabinete frustrado que apresentou o candidato do oficialismo durante a campanha de outubro, com Sergio Berni na Segurança, Osvaldo Granados na Defesa e Ricardo Casal na Justiça, um perfil claramente repressivo e de “mão de ferro”, ou suas declarações de que teria “tolerância zero” com os piquetes e bloqueios de rua. Também devemos levar em consideração o que ocorreu no Brasil em 2014, quando Dilma fez campanha contra o ajuste para depois terminar aplicando o mesmo, uma vez que ganhou a eleição[17]. Efetivamente Scioli se propôs a imitar Dilma, mas não conseguiu. Além disso, dois importantes integrantes do comitê de campanha sciolista, Jorge Telerman e Fabían Peredchodnik, passaram diretamente ao governo que entrava, este último para ocupar nada mais e nada menos que a Secretaria Geral de Governo da Província de Buenos Aires. Por sua vez, Scioli sustentou até o momento um discurso completamente conciliador com o novo governo, abandonando toda a retórica “antiajuste” da campanha.

A vertigem “decisiva” dos primeiros dias de governo

Nem bem assumiu, Macri confirmou que não chamaria sessões extraordinárias do Congresso, com o qual expressou sua vontade de impor de forma bonapartista suas primeiras (e em grande parte fundamentais) medidas de governo, fosse através dos Decretos de Necessidade e Urgência (DNU), resoluções ministeriais e outros artifícios. Por essa via, revogou as retenções, modificou a lei de meios, contraiu nova dívida, levou adiante uma desvalorização que elevou o dólar de 9,80 para 14 pesos; removeu as retenções industriais, anunciou aumento de tarifas; e em uma medida que só conhece antecedentes na formação original da Suprema Corte do governo de Bartolomé Mitre em 1862, designou “em comissão” a dois novos magistrados da Corte Suprema de Justiça da Nação. Essa medida foi tomada sem passar pelo Senado nem pela discussão pública, recorrendo a uma interpretação totalmente forçada do inciso 19 do artigo 99 da Constituição Argentina. A justificação política para tal medida, própria de um governo de fato, foi dada pelo senador radical Ernesto Sanz, uma das referências dessa força política que apoiou a decisão (outros como Ricardo Gil Laavedra e Julio Cobos se pronunciaram contra): sem maioria no parlamento, o governo se viu forçado a isso já que nos primeiros meses de governo não poderia suportar o risco de eventuais despachos adversos na Corte, um voto negativo no Congresso ou uma paralisação geral. Dito de outra forma, foram nomeações para se garantir uma Corte dependente que conceda as medidas tomadas pelo decreto e que apresentam controvérsia constitucional, como as modificações impositivas e a contração de novas dívidas. Essa maneira de agir do novo governo mostrou rapidamente a falsidade da crítica “republicana” aos governos kirchnerista. Disso decorre a justa decisão que tomamos no PTS de que Nicolás del Caño não fosse à reunião na qual Macri convidou os ex-candidatos a presidência para mostrar um perfil de “diálogo aberto”, enquanto governava por decreto, como foi denunciado por Nicolás del Caño em uma carta[18]. Com isso, Nicolás se converteu no único dirigente político nacional que não participou da manobra do governo que assumia, fato que teve uma enorme repercussão pública.

A explicação política dessa primeira inundação de medidas tomadas com métodos bonapartistas deve ser encontrada na tentativa de superar a debilidade de origem do governo em matéria parlamentar (e a estreita margem de seu triunfo eleitoral) com um “decisionismo inflexível” no primeiro plano, tratando de aproveitar a letargia e a cumplicidade tanto do peronismo (kirchnerista e não kirchnerista) como do massismo, que a principio apostam em deixar que o engenheiro Macri faça seu jogo, assim como uma flexibilização dos meses de verão. Ainda que a debilidade parlamentar do Cambiemos seja estrutural, ao menos por dois anos, até as próximas eleições legislativas, este ativismo decisionista inicial aponta também para o aproveitamento da expectativa que desperta a reorganização governamental para desfazer os aspectos do que poderíamos chamar de o “modelo kirchnerista”, tanto no terreno econômico como no regime político que Macri considera que atentam contra os interesses das grandes corporações empresariais que seu governo expressa (no mesmo sentido que teria feito Scioli, insistimos em ressaltar).

Essa maneira de agir, no entanto, não está isenta de custos, como está mostrando o rechaço à designação dos juízes da Corte, inclusive no seio da mesma coalizão governamental e setores do jornalismo adepto. De fato, essas designações provocaram uma crise política precoce no novo governo. A audácia para demonstrar “autoridade” derivou de um importante equívoco. Macri teve de retroceder parcialmente e tentar reparar o erro, mantendo a designação dos dois juízes, mas tardando a sua nomeação efetiva (juramento) para fevereiro, para que se cumpram os passos institucionais. Além disso, enquanto a aposta lógica de Macri provavelmente seria apontar para uma divisão do espaço peronista, variando os membros do Senado que devem aprovar a indicação de dois magistrados - nomeados por Macri - e onde o FpV-PJ tem maioria, o que levou a sua unidade, como também para a maioria do bloco de deputados macristas. O atraso do juramento abre caminho para obter uma negociação com o peronismo, que incluiria a convocatória de sessões extraordinárias desse tema em fevereiro, mas ainda é uma questão aberta.

Primeiro, é preciso levar em conta que pelo menos 17% adicional do eleitorado que votou em Macri no segundo turno (provavelmente, uma maioria eleitores de Sergio Massa e Margarita Stolbizer no primeiro turno) o fez mais por rejeição ao kirchnerismo que por adesão política ao Cambiemos. Isto significa, que tal adesão pode se perder rapidamente, dependendo das decisões que o governo tomar. E segundo que o discurso “republicano” foi um dos eixos da campanha opositora, com o qual a contradição entre o discurso e os fatos resulta em um flagrante. Essa situação demonstra que, seguir por esse caminho fará com que o governo possa enfrentar crises importantes há poucos dias de assumir e que perca legitimidade para impor um teto às paritárias que permita legitimar a redução dos salários causada pela desvalorização.

A “tendência decrescente” dos governos pós-neoliberais

Mas, quais são os fatores que explicam a vitória eleitoral de Macri? Em primeiro lugar a situação regional. A ascensão do PRO-Cambiemos é parte da recomposição das direitas (tradicionais ou recentes) latino-americanas diante da crise dos governos pós-neoliberais[19]. Em grande medida essa tendência de declínio se deve à queda dos preços das matérias primas que modifica um fator essencial que permitiu o auge desses governos. Especialmente na Argentina, a crise do Brasil (país para onde vai parte das exportações, principalmente na indústria automotriz) tem influência central, assim como a revalorização do dólar como moeda.

Esses governos expressaram em seu momento (com diferenças entre si) uma reestruturação generalizada das figuras políticas, a partir da profunda crise que as políticas neoliberais dos anos 90 deixaram na região e das respostas populares às mesmas (ou uma mudança preventiva, como a do PT no Brasil). Se assentaram a partir de uma situação favorável no que tange aos “termos de intercambio” para a região, invertendo nessa década a situação mais clássica de deterioração dos termos para a periferia em benefício das metrópoles imperialistas. Inclusive essa situação continuou, impulsionada, fundamentalmente, pela demanda Chinesa, após a crise capitalista ter sido desatada com a queda do banco de investimentos Lehman Brothers (com um freio conjuntural em 2008) até o último ano e meio, em que estamos vivendo uma clara inversão de tendência.

Normalmente, esses governos são agrupados em dois ou três blocos na América do Sul: os países que são parte da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) com maiores traços (sobretudo discursivos, mas também em algumas medidas) antiimperialistas (Venezuela, Bolívia e Equador fundamentalmente); e os mais “moderados”, que mantiveram o essencial do domínio do capital financeiro (Brasil, Uruguai, os governos da Concertação chilena); e Argentina e uma posição intermediária. Nos três primeiros houve modificações constitucionais e foram maiores as tensões com o imperialismo e com as oposições internas de direita, inclusive com tentativa de golpes de Estado. A Venezuela teve elementos do que Trotsky chamava “bonapartismos sui generis de esquerda” e a Bolívia um governo particular de “frente popular”, mas com o movimento camponês assumindo o papel que tinha o movimento operário nas frentes populares das décadas de 1930 e 1940, questão que gerou importantes enfrentamentos com as organizações operárias e o governo de Evo Morales.

O Uruguai e o Brasil (para não falar do Chile) tiveram governos burgueses “normais”[20]. Na Argentina os governos dos Kirchner tiveram que render uma espécie de homenagem à relação de forças deixada pela rebelião popular de dezembro de 2001, formando uma coalizão de governo heterogênea com a direção política da sua ala “progressista”, embora 80% de seus funcionários, incluindo os próprios Kirchner, haviam sido funcionários durante o menemismo.

Depois de estar no poder entre dez e quinze anos, as transformações estruturais realizadas por esses governos tem sido muito limitadas. O poder econômico mantive o central de suas posições. De conjunto foram parte do que alguns autores chamaram de “consenso das commodities”[21].

Disso deriva o estancamento ou queda econômica que impacta a maioria dos países da região. O avanço das direitas no continente se constrói sobre essa combinação de “promessas não cumpridas”, escassez de divisas e estancamento econômico. Por isso é que a grande vitória de Macri tem dimensões regionais, já que será uma nova tentativa governamental direitista, depois do fracasso de Piñera no Chile, com base em um maior alinhamento com os EUA, como ficou expresso nas primeiras declarações de “Maurício” para excluir a Venezuela do Mercosul.

Da “razão populista” à “razão neoliberal”

Dentro desse contexto na América do Sul, o certo é que o resultado não era “conhecido” antes da campanha. Pelo contrário: depois das PASO uma vitória do candidato oficialista, Daniel Scioli, parecia mais provável. Mas a campanha mostrou todas as contradições do oficialismo. Depois da derrota eleitoral sofrida pela Frente Pela Vitória na eleição legislativa de 2013 pelas mãos de Sergio Massa e da Frente Renovadora na província de Buenos Aires (que concentra 38% do colégio eleitoral do país, e é responsável por 40% da arrecadação impositiva coparticipativa), o kirchnerismo apontou que subiria Macri para debilitar as chances presidenciais do ex-chefe de gabinete de Cristina. Por sua vez, as possibilidades de Macri foram reforçadas depois da convenção da União Cívica Radical na cidade de Gualeguaychu (província de Entre Rios) que se pronunciou majoritariamente pelo acordo com o PRO de Macri e a Coalizão Cívica de Elisa Carrió, excluindo Sergio Massa, ainda que autorizando que participasse nos acordos em diferentes províncias. Scioli como candidato presidencial do oficialismo foi a opção não desejada de Cristina Fernández Kirchner. Mas isso se explica porque depois da derrota na província de Buenos Aires de 2013 não se tenha tomado nenhuma medida econômica para amenizar o descontentamento com o governo provincial e nacional, já que não queria fortalecer a figura do governador.

Mas nem o governo nacional, nem o da província tomaram medida alguma uma vez que ficou definido que Scioli seria o único candidato do oficialismo. Os baixos salários dos professores[22] e a profunda deterioração da infraestrutura educacional; o penoso estado dos hospitais das províncias; a falta de obras de infraestrutura que provocam desastres, tanto nas cidades como no setor rural, cada vez que chove forte; os baixos salários na administração pública; o mal estado das estradas... tudo isso é o resultado de oito anos da “gestão Scioli”. Tanto é assim, que a única “conquista” da campanha mostrada por “Daniel” foi ter lançado as “polícias locais”, na realidade um aumento dos efetivos da Polícia Bonaerense, mas recrutada em cada distrito. A esse fato agregamos o descontentamento de camadas importantes de trabalhadores e autônomos afetados pelo desconto do “imposto sobre os lucros” (muitos dos quais votaram por Massa) e das zonas rurais a partir da queda da rentabilidade, produto da baixa dos preços internacionais.

Nesse âmbito se insere como agravante a candidatura a governador do chefe de gabinete do governo de Cristina Fernández, Aníbal Fernández. À sua imagem negativa (pela esquerda e pela direita) somou-se sua impossibilidade de fazer campanha observando os pontos críticos da situação da província, já que isso teria sido um ataque direto à gestão de Scioli, seu candidato a presidente. Como Scioli, “Hannibal” foi um candidato por default, diante da negativa do Ministro dos Transportes, Florencio Randazzo (um candidato considerado mais “puro” no cristianismo, em referência à Cristina Kirchner) a sair como candidato a governador, após a presidente decidir que Scioli seria o único pré-candidato da FPV. Aníbal Fernandez, o preferido da ex-presidente, ganhou por muito pouco a interna de Julián Domínguez, chefe da bancada do FPV na Câmara de Deputados da Nação, que apresentava como candidato a vice-governador o intendente de La Matanza, Fernando Espinoza. De fato, o plano de Cristina era ganhar a província de Buenos Aires como lugar de refúgio para seus setores mais próximos (centrados em Unidos e Organizados), se Scioli fosse derrotado por Macri, e daí preparar o retorno para 2019 com um forte controle territorial. Mas o plano foi frustrado com o resultado de outubro e agora o FPV tem o desafio de não se fracionar e de se constituir como oposição com um poder territorial limitado e uma verba de “caixa” muito pequena.

Independente desses aspectos, o certo é que pouco mais de 51% do eleitorado que votou por um candidato que, para além do aggionarmento (atualização) do discurso de campanha[23], pertence a uma família empresária tradicional. Como destacamos no começo, Macri expressa uma “nova direita”. Construiu sua carreira passando primeiro pela presidência do clube de futebol Boca Juniors (como fez Berlusconi na Itália com a presidência do Milan, ainda que com um perfil de político “detalhista” e “eficiente”) e depois através da coalizão PRO chega à prefeitura da cidade de Buenos Aires, cargo que ocupou durante oito anos. Apesar de ter obtido bons resultados em algumas cidades do interior do país nas eleições legislativas de 2013, como partido, o PRO não conseguiu superar a etapa “municipalista” de desenvolvimento, ao ponto que teve que apoiar a lista de Sergio Massa na província de Buenos Aires em troca de praticamente nada.

Disso deriva o importante apoio obtido na Convenção da UCR em Gualeguaychú[24]. O PRO tem várias “afluentes” (radicais, peronistas, membros de ONG, empresários, etc.) dentro de uma condução fortemente personalizada em Maurício Macri, e um discurso que reivindica sua suposta falta de definição política, que questiona as mediações, tomando para seu próprio proveito parte da crítica à casta política mais tradicional. Com esse perfil, mais a moderação de seu discurso eleitoral (muito mais cauteloso em todos os terrenos que o de Sergio Massa), Macri conseguiu chegar à presidência. Seguindo os conselhos de marketing político de seu assessor, o equatoriano Duran Barba, apelou ao sentimento de “progresso individual” que permeia amplos setores das classes médias e também camadas da classe trabalhadora, uma espécie de “razão neoliberal” para explicar as desigualdades sociais (os que mais têm são os capazes, que chegaram onde estão por seu próprio esforço e por serem os melhores).

A estratégia macrista foi facilitada pelo cinismo e duplo discurso kirchnerista, desde a negação do aumento da pobreza e da inflação, aos casos de corrupção governamental e do enriquecimento dos funcionários, dizendo que vivíamos em um mundo perfeito, quando a deterioração da situação econômica e social era evidente para qualquer pessoa[25]. Um salto do discurso da “razão populista” para a “razão neoliberal” (entre as quais estavam sempre vasos comunicantes, já que a “razão populista” do kirchnerismo constitui grande parte de sua orientação no consumismo). Todas essas questões possibilitaram que a balança se inclinasse ao candidato do Cambiemos e são usadas como base para dar legitimidade a nova equipe política macrista proveniente do mundo empresarial. Em certo sentido estamos vendo a reiteração da operação político-midiática construída durante o menemismo para justificar as privatizações, só que agora colocando um eixo onde os CEO provenientes do setor privado serão mais eficientes na gestão estatal do que a burocracia política tradicional e não, pelo menos por ora, na reprivatização direta das empresas públicas parcialmente renaciolizadas pelo kirchnerismo.

Após a vitória, Macri deu ao governo, como ressaltamos, um caráter ultra empresarial, além de imprimir uma dinâmica inicial bonapartista. Nesse sentido, Macri desmentiu aqueles que argumentavam que a vitória apertada no segundo turno e seu fraco poder institucional no Congresso, o fariam ter um perfil mais moderado. Da mesma forma, é um fato que está mais condicionado do que se esperava. Estamos por ver se Mauricio não terminará como Piñera ou ainda pior. Macri é favorecido pelo apoio de toda classe dominante local e possivelmente pelo poder financeiro internacional, começando pelo FMI e pelo Banco Mundial, e temos que considerar até que nível é apoiado pelo governo norte-americano. Ao seu lado também está o poder midiático e o “partido judicial” e em contra, a situação mais geral da crise econômica internacional que, agora está afetando a periferia capitalista e a relação de forças mais geral entre as classes, que tornam difícil que o ajuste que prepara passe sem forte resistência pela classe trabalhadora, assim como foi sua vitória eleitoral apertada.

O fim dos governos de “desvio”

Na Argentina, o que vemos hoje é o fim do que chamamos “governo de desvio” que, após as jornadas revolucionárias de 2001 teve que adotar um discurso progressista, estranho aos próprios Kirchner, e estabelecer um vinculo privilegiado com as Mães e Avós da Praça de Maio, como única forma de manter um diálogo com uma parcela das classes médias e setores populares que haviam protagonizado ou apoiado as jornadas que derrubaram De la Rúa. A recuperação da economia capitalista foi um ponto chave para poder desativar a situação convulsiva vivida naqueles anos, com fortes movimentos de desempregados, setores das classes médias radicalizadas e fábricas ocupadas. A tarefa estratégica dos Kirchner foi reconstruir a autoridade do Estado capitalista e um regime que havia sido debilitado e instaurar um golpe burguês capaz de garantir a ordem. Os Kirchner conseguiram dar grandes passos na reconstrução da autoridade do Estado, mas nunca foram capazes de fazer um governo que pudesse ser totalmente independente dos efeitos da grande crise de 2001 e teve que render, em certo sentido, uma homenagem a essa relação de forças que se estabeleceu. A política de “não reprimir o protesto social” foi violentada em várias ocasiões, mas nunca promoveram um governo que não tivesse uma importante crise em sua coalizão, a cada tentativa repressiva, como visto no conflito de Lear e na luta dos motoristas da linha 60. O mesmo se pode dizer dos subsídios às tarifas elétricas e do transporte que se mantiveram até o final do governo de Cristina Fernández Kirchner que, se por um lado subsidiavam os grandes monopólios de serviço, por outro permitiam que a população trabalhadora pagasse contas baixas de luz e gás, e passagens de transporte público na Área Metropolitana de Buenos Aires. Desde 2007, Cristina Fernández tentou terminar com as características de origem do kirchnerismo e se converter em um governo de ordem. Cristina quis mostrar que podia ser um governo capitalista de ordem e de ajuste, desde as repressões a setores da vanguarda em 2007 à iniciativa da “sintonia fina” em 2011 quando tentou um ajuste “light” e a ruptura com Moyano que havia conseguido um importante peso na coalizão governamental, adotando um discurso contra os trabalhadores efetivos de salários mais altos, até a própria desvalorização de Kicillof e a nomeação de um ex cara pintada, Berni, como virtual ministro da Segurança. No entanto, isso nunca foi possível, fosse porque a crise do campo a impediu, ou pelas contradições de sua própria coalizão.

Finalmente Scioli foi “nomeado” como único candidato presidencial do FPV pela própria Cristina, que se propôs a essa tarefa e a culminar a longa etapa de desvio. Se antes Cristina Kirchner não tinha conseguido levar seu plano adiante, porque de alguma maneira estava muito comprometida com uma base de centro-esquerda e até lhe concedia parte de seu poder aos efeitos de 2001, tampouco poderia ser Scioli que quis fazer um equilíbrio para manter a base Kirchnerista e conquistar parte do espaço da direita opositora. E terminou derrotado.

Macri vem para fechar de forma decidida o ciclo aberto em 2001. No entanto, embora neste momento tenha conseguido reconstruir a autoridade do Estado, no essencial, a relação de forças entre as classes que deram origem ao kirchnerismo e que explicam o giro desse casal que foi parte do menemismo não mudou nada. Pior ainda, durante esse período a classe trabalhadora empregada que estava praticamente fora de cena em 2001 se recompôs social e sindicalmente. A debilidade e contradições do governo de Macri vêm em grande medida dai e a possibilidade de que se estabeleça surge de que consiga derrotar setores significativos da classe trabalhadora, como fez Menem entre os anos de 1989 e 1991.

Resta ver se o governo vai optar por um ataque em toda linha, de forma imediata, ou vai fazê-lo em cotas, esperando conquistar antes mais poder político. Seja como for, será um giro à direita que requer uma mudança mais ou menos profunda da relação de forças.

A situação do próximo governo dependerá do choque entre as classes e a esquerda classista que deu grandes passos nesses anos deverá se provar nesses combates.

O futuro incerto da Frente Para a Vitória e o peronismo

O governo que acaba de chegar ao fim expressa também o ponto culminante de um ciclo do peronismo[26]. Apesar dos Kirchner sempre terem sido parte orgânica do Partido Justicialista acompanhando, por exemplo todo o período menemista sem se oporem nem às privatizações, nem aos indultos aos genocidas, a relação entre os governos kirchnerista e o aparato do PJ não foi a mesma durante os doze anos de governos Kirchner. Depois de ter sido escolhido “a dedo” como candidato presidencial por Eduardo Duhalde, com a rebelião popular de dezembro de 2001, ainda muito recente, Néstor Kirchner impulsionou o falido projeto de “transversalidade”, com a ideia de seguir um sistema com base em duas grandes coalizões políticas: uma de centro-esquerda, que seria expressa pelo kirchnerismo, e outra de centro-direita constituída pela base - do então em crise - partido radical junto com outras formações mais à direita em desenvolvimento, como era o casa do recentemente fundado PRO de Macri. Esse plano atribuído a Torcuato Di Tella foi abandonado mais cedo do que se pensava. Depois que Cristina Fernández derrotou Hilda Duhalde (conhecida como “Chiche”) na eleição bonaerense de 2005, a grande maioria do PJ ficou ao lado dos Kirchner, e o “pejotismo” passou a ter um peso maior no governo. Em 2007 a aposta foi uma coalizão com os “radicais Kirchneristas”, na época os governadores que havia obtido a UCR, expressada na candidatura de Julio Cobos a vice-presidente, um projeto que morreu com o voto “não positivo” de Cobos no Senado no que concerne a Resolução 125 sobre as retenções às exportações agrícolas.

Depois da derrota nas eleições legislativas de 2009 - nas quais a liderança do PJ acompanhou Néstor com as “candidaturas testemunhais”[27] – em outubro de 2010 ocorre a morte de Néstor e o desenvolvimento das organizações diretamente “kirchneristas”, como La Cámpora, que se nucleou em Unidos e Organizados e que agrupava setores peronistas e não peronistas (como Nuevo Encuentro encabeçada por Martín Sabbatella, que inclusive em 2011 competiu por fora do FPV contra Daniel Scioli pelo governo bonaerense). Em todo esse período, Hugo Moyano foi um ator fundamental da coalizão do governo, e a partir da Central Geral do Trabalho da Argentina (CGT) mobilizou o “grosso” dos manifestantes dos atos oficiais durante o confronto com as patronais agrárias em 2008 (onde também surgiu a “Carta Aberta”, a junção de intelectuais próximos ao kirchnerismo). Em um artigo já mencionado fizemos um balanço sintético desse processo:

“Politicamente, o kirchnerismo foi uma coalizão entre setores do progressismo, do peronismo conservador dos governadores e prefeitos e setores da burocracia sindical, com predominância discursiva dos primeiros. Economicamente, isso significa um neodesenvolvimentismo limitado que seguiu os vais e vens do mercado mundial e que não superou a dependência e o atraso característico da economia nacional, nem a famosa restrição externa. Socialmente, nos deixa uma Argentina que manteve a herança dualizada dos anos noventa, com milhões de trabalhadores na precarização ou diretamente na pobreza, que dependem dos planos assistenciais para sua subsistência, e com outros setores que melhoraram sua situação nos momentos de crescimento econômico, mas que vem desgastando constantemente seu nível de vida pelos altos índices de inflação.”[28]

Essa coalizão pretendeu se prolongar com Scioli, mas cedendo a candidatura presidencial a um representante da ala mais conservadora do peronismo. Para o kirchnerismo, foi o destino quem trouxe o cineasta Nicolás Prividera: “se [o kirchnerismo] dilui-se no sciolinismo teria demonstrado que foi apenas uma estratégia a mais da razão peronista, como foi o kirchnerismo para o menemismo”[29]. Esse plano que incluía ficar com o controle da estratégica província de Buenos Aires (PBA) por parte do “kirchnerismo no sentido restrito”, foi abortado pelos triunfos macristas na PBA e no país. A ninguém passa desapercebido que, em grande medida, o alinhamento do peronismo com o gerenciamento de Cristina Kirchner se deveu aos recursos que vinham do governo nacional. Disso derivam as especulações sobre o racha do FPV, uma vez fora do poder. O governador do Província de Salta, Juan Mannuel Urtubey é uma das cabeças que encorajariam uma reorganização do peronismo sobre outras bases, excluindo ou subordinando por completo o kirchnerismo, na época, concorrendo com Sergio Massa.

Uma espécie de “neo renovação” (em alusão ao processo vivido pelo peronismo, depois da derrota eleitoral em 1933), porém claramente voltada para a direita, acompanhando os ventos políticos que começam a varrer a região. Entretanto, os quase 49% de votos que Scioli obteve no segundo turno, se contrapõe a manter alguma forma de unidade tendo em vista voltar ao governo em 2019, depois da batalha eleitoral legislativa de 2017. No momento, esta tendência prevaleceu em relação às novas autoridades no parlamento nacional, onde houve disciplinamento para aceitar os presidentes do bloco dirigido pela ex-presidente Kirchner. O que não ocorreu no Senado bonaerense, onde se formou dois blocos, uma com os senadores de La Cámpora e afins, e outro liderado pelo Partido Justicialista do distrito de La Matanza. Essas tendências a unidade e a fragmentação estarão presentes no próximo período, onde será decantado como ficou o peronismo depois de um ciclo de 12 anos no governo (com um discurso de liderança de centro-esquerda) e de um derrota com significados históricos, em especial pelo o que aconteceu na Província de Buenos Aires. Tudo dependerá do quão bem ou mal irá o governo direitista e do que acontecerá com a luta de classes.

A outra incógnita é, até que ponto se sustentará a militância kirchnerista, de maioria jovem, que se forjou “de cima para baixo” com cargos nos distintos níveis da burocracia estatal e paraestatal, e vários fundamentos, desde a pauta oficial para sustentar o sistema de meios oficialista até o manejo da assistência social para os setores mais vulneráveis. Conseguirão manter essa militância através do tempo sem os recursos do estado nacional, nem da PBA, nem das prefeituras perdidas para o Cambiemos? A importantíssima mobilização obtida no ato de despedida de Cristina na Praça de Maio apontaria no sentido de uma base social significativa que conhece a liderança política da ex-presidente, mas com a debilidade de não ter apoio estrutural. Como se viu a composição dessa mobilização foi predominantemente “cidadã”, de classe média, sem presença notável de sindicatos ou organizações de peso territorial.

Um aspecto particular é o que ocorrerá com a burocracia sindical, que se alinhou em sua grande maioria com Scioli (com exceção de Moyano que “pôs um ovo em cada cesta”). Uma ala vem trabalhando a possibilidade de uma unificação da CGT, onde se agrupariam o moyanismo e setores que até agora se aglutinam na CGT oficialista (ou “CGT Balcarce”). Esse bloco indica manter uma relação mais pragmática com o novo governo. No momento, os grêmios que tiveram um papel dirigente na CGT oficialista, como a União Operária Metalúrgica (UOM) de Antonio Caló ou o Sindicato de Mecânicos e Afins do Transporte Automotor (SMATA) de Ricardo Pignanelli não entrariam nessa tentativa.

Os desafios do PTS e da Frente de Esquerda

Desde o começo, no PTS e através da FIT mostramos nossa resistência à política macrista. Fomos os primeiros a denunciar a falácia da pose aberta ao diálogo inicialmente adotada por Macri e sua vontade de governar por decretos. A decisão de Nicolás del Caño de não participar da reunião com Macri, expressando claramente nossa posição (e a anterior de Myriam Bregman denunciando a Assembleia Legislativa da qual assumiu o novo presidente), teve uma repercussão de grande importância na mídia, assim como ocorreu com as denúncias posteriores dos “decretaços”. A presença da esquerda no debate político é a maior e mais importante em muitos anos.

A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (integrado pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas, Partido Operário e pela Esquerda Socialista) conformado originalmente em 2011, se consagrou como quarta força nacional, obtendo nas eleições presidenciais 812.530 (3,23%) para a fórmula presidencial composta pelos deputados nacionais do PTS/FIT, Nicolás del Caño e Myriam Bregman, o melhor resultado para a esquerda desde 1983 na época da eleição presidencial. Uma cifra importante considerando a forte polarização da eleição e o caráter executivo da mesma[30]. Superou assim a candidatura dos “Progressistas”, a frente constituída pelo GEN, o Partido Socialista e outros grupos menores, que delegou como candidata a deputada nacional Margarita Stolbizer e a candidatura de Adolfo Rodríguez Sáa. Na categoria deputados nacionais, a FIT obteve 1.062.000 votos (algo menos de um milhão e duzentos mil votos obtidos nas legislativas de 2013), com as porcentagens mais importantes para as candidaturas de Noelia Barbeito com 11,76% em Mendonza (por muito pouco não chegou a deputada nacional), triplicando a média da FIT e de Raúl Godoy em Neuquén com 8,26%, ambos do PTS. Néstor Pitrola obteve na província de Buenos Aires 4,46%, consagrando-se deputado nacional e permitindo uma ampliação da presença da FIT em quatro deputados nacionais na Câmara dos Deputados do Congresso Nacional. A essa conta devemos agregar uns 20 deputados provinciais: dois na Cidade Autônoma de Buenos Aires; um na Província de Buenos Aires; três em Córdoba; dois em Neuquén; 6 em Mendonza (incluindo dois senadores); um em Santiago del Estero; e quatro do PO em Salta. Também há a presença de vereadores da FIT em distintos municípios, principalmente na província de Mendonza. É um peso superestrutural que a esquerda nunca teve no país, uma base muito importante para enfrentar a etapa de resistência ao novo governo de direita[31]. Nosso partido em particular continuou a tradição do parlamentarismo revolucionário, com cada deputado e legislador recebendo como um professor e destinando o resto do dinheiro aos fundos de luta e iniciativas de organização da classe trabalhadora e dos setores populares, utilizando a tribuna parlamentar para aumentar as reivindicações dos explorados; estando nas ruas na primeira linha das mobilizações e convocando à luta extraparlamentar contrapondo o programa de luta operária e socialista aos planos capitalistas.

O peso da FIT não surgiu do nada, mas é a expressão de uma luta persistente da esquerda classista para delimitar-se tanto do kirchnerismo como da oposição de direita e de sua intervenção ativa na evolução da consciência política de setores da vanguarda e juvenil, para o qual teve um papel destacado nas principais lutas do período. Isso desmentiu a reiterada afirmação de Cristina Fernandez de que à sua esquerda estava apenas “a parede”. Na Argentina o processo eleitoral em 2015 durou praticamente todo o ano, a partir do desdobramento das eleições provinciais (e nas províncias como Mendoza também desdobramentos de eleições municipais, que levaram com primárias e gerais de cada categoria a sete eleições ao longo de 2015). Nas eleições provinciais, a FIT aumentou sua representação em várias províncias e obteve resultados muito destacados em Mendonza: 17% para Nicolás del Caño como candidato a prefeito da capital da província, ficando em segundo lugar sobre o candidato da Frente para a Victoria, e 10% obtido por Noelia Barbeito como candidata a governadora.

Pela primeira vez, desde a constituição da FIT em 2011, em agosto as candidaturas foram definidas nas eleições Primárias, Simultâneas e Obrigatórias (PASO), a partir da não aceitação do PO sobre as propostas unitárias realizadas pelo PTS. Duas listas se enfrentaram nacionalmente e nos distintos cargos em disputa (incluindo as candidaturas provinciais na Província de Buenos Aires, cujas eleições se realizam simultaneamente com as nacionais): a primeira lista (1A) “Renovar e fortalecer a frente” encabeçada pela fórmula presidencial de Nicolás del Caño e Myriam Bregman do PTS; e a segunda (2U) “Unidade” encabeçada por Jorge Altamira (PO) e Juan Carlos Giordano (IS-Esqueda Socialista), triunfando a primeira por 375.874 votos contra 356.978 da segunda.

A vitória da lista 1A foi esmagadora em Mendonza, com mais de 90% dos votos, onde a FIT obteve seus melhores resultados, algo mais que 9% de votação para a presidência. Também foi significativa em Jujuy, Neuquén e Santa Fé, entre outras províncias. A eleição foi similar em Córdoba, Cidade Autônoma de Buenos Aires e Província de Buenos Aires[32].

Apesar de que no PTS sustentamos que as diferenças existentes não impediam a apresentação de candidaturas comuns, o que esteve em discussão foram duas propostas para fortalecer a FIT. A Lista 2U fazia ênfase na incorporação de grupos populistas que não tinham acordo programático com a FIT, como reivindicação central para fortalecer a frente[33], ainda que a campanha se centrou em apostar na popularidade prévia da figura de Jorge Altamira, que havia sido candidato presidencial em numerosas ocasiões desde sua primeira candidatura em 1989. A lista 1A fez eixo na necessidade de uma renovação que permitisse à FIT obter a implantação social e um peso político superior: “renovar e fortalecer a frente, com a força dos trabalhadores, mulheres e juventude”, como dizia o lema da campanha[34]. Atacando a casta política governamental como gerenciadora dos negócios dos verdadeiros “donos do poder”, os grandes capitalistas, latifundiários e banqueiros, e insistindo na política de que “todo funcionário político ganhe o mesmo que um professor”, já difundido pela FIT nas eleições anteriores. A campanha da lista 1A se caracterizou pelo entusiasmo militante e a audaz utilização das redes sociais[35]. Por exemplo, na província de Buenos Aires se conseguiu mais de 1200 candidatos dos quais 40% eram operários industriais e uns 300 professores. Cada candidato fez uma espécie de “micro-campanha”, gravando vídeos pessoais e recorrendo às redes sociais para difundir as propostas da chapa. Nos espaços gratuitos de rádio e televisão se destacaram os spots em que Nicolás del Caño aparecia enfrentando a funcionários de governo no parlamento e nas ruas em luta com os trabalhadores, destacando na prática o parlamentarismo revolucionário dos deputados e legisladores do PTS. A isso devemos somar uma grande presença nas ruas e nas fábricas e locais de trabalho. O resultado foi considerada uma surpresa devido a maior popularidade prévia de Altamira, e outros candidatos da chapa 2U, como Liliana Olivero em Córdoba, ou Néstor Pitrola e Ruben “Pollo” Sobrero na província de Buenos Aires, mas expressou avanços reais realizados pelo PTS nesse período em relação às outras forças da FIT, com um crescimento da militância entre os trabalhadores, o movimento de mulheres (com a agrupação Pão e Rosas) e a juventude, e iniciativas políticas como o lançamento do primeiro diário digital da esquerda no país (como parte de uma rede internacional de jornais digitais de esquerda), La Izquierda Diario, a revista de política e cultura Ideias de Esquerda, as edições do Instituto do Pensamento Socialista “Karl Marx” (IPS) e o Centro de Estudos, Investigações e Publicações Leon Trotsky; ou um organismo de defesa dos trabalhadores e luta contra a repressão e impunidade, como é o caso do Centro de Profissionais pelos Diretos Humanos (CeProDH) apoiado na experiência do “Socorro Vermelho”. Em particular, nosso partido conseguiu uma importante inserção na classe trabalhadora industrial e de serviços, impulsionando a conquista de novos delegados combativos e comissões internas de esquerda e, também com um protagonismo nas lutas operárias mais relevantes de todo o período kirchnerista, como a ex Jabón Federal, Maffissa, Kraft, terceirizados ferroviários, LEAR e a ex Donnelley, para nomear as mais importantes[36].

A campanha das eleições gerais de outubro apresentava um cenário complicado, dado o forte consenso da mídia para reduzir a eleição aos três candidatos conservadores que mais votos haviam obtido nas eleições primárias: Daniel Scioli, Mauricio Macri, e Sergio Massa, todos como sendo a expressão do novo consenso direitista induzido pelas classes dominantes. A denúncia do ajuste que esses candidatos preparavam esteve no centro de nossa campanha, bem como um programa para que a crise seja paga pelos capitalistas. Esse programa não apenas defende demandas imediatas (salário mínimo de acordo com o custo da sobrevivência de uma família; fim do “imposto ao salário”; terminar com a precarização trabalhista; 82% móvel aos aposentados) como também a nacionalização dos bancos e do comercio exterior sob controle operário, assim como dos recursos estratégicos da economia e expropriação dos 4000 principais latifundiários que concentram a metade das explorações agrárias na Argentina e a luta por um governo dos trabalhadores como saída de fundo. Um dos destaques foi a intervenção de Nicolás del Caño no primeiro debate presidencial (ao que Daniel Scioli não compareceu), em que ficou clara a diferença das reivindicações da FIT em relação ao resto dos candidatos: Del Caño não só foi o único que denunciou o ajuste que estava por vir, como enfrentou as políticas de “mão de ferro” (colocadas com maior clareza por Sergio Massa que propôs lançar o exército nos bairros populares), os ataques aos professores e defendeu a legalização do direito ao aborto, junto com o programa que antes mencionamos para que a crise seja paga pelos capitalistas. A intervenção no debate permitiu ganhar popularidade e referência à formula da FIT e aumentar sua votação em relação as primárias em quase 100 mil votos, algo que não conseguiram nem Margarita Stolbizer, nem Adolfo Rodríguez Sáa, que não puderam resistir à campanha do “voto útil”.

A eleição da FIT se torna mais merecedora se consideramos os baixos níveis de luta de classes que se registraram no último período, em que apesar de terem havido em 2014 algumas lutas relevantes (com a grande resistência às demissões na LEAR – com um papel central do PTS – ou o conflito docente na província de Buenos Aires) e paralisações gerais importantes (ainda que passivas, com exceção dos piquetes impulsionados pela esquerda e o sindicalismo combativo) convocados pela burocracia opositora, a classe operária esteve em uma situação mais de expectativa, sendo ganha na política, majoritariamente pelo “mal menor”.

Em condições em que a crise capitalista não gerou até agora avanços relevantes na consciência política independente da classe trabalhadora; em que na América do Sul o descontentamento com o neoliberalismo no começo do século foi canalizado por dez ou quinze anos – segundo o caso – de governos com discurso “progressista” ou “antineoliberal”, a FIT tem o enorme mérito de ter constituído uma referência eleitoral pela independência de classe e por um governo dos trabalhadores, algo que não podemos verificar em outros países, onde na esquerda predominam as coalizões ou partidos com programas reformistas de gestão do capitalismo, como Syriza na Grécia, Podemos no Estado Espanhol, Die Linke na Alemanha ou o Bloco de Esquerda em Portugal. E na América do Sul partidos do governo que defendiam a subordinação dos trabalhadores e camponeses às burguesias nacionais, como o PSUV venezuelano ou o MAS boliviano. Inclusive no PSOL brasileiro prima a política das correntes reformistas que o integram e que são majoritárias, e impuseram o alinhamento atual com o governo de Dilma, ou acordos de ocasião com forças burguesas em eleições locais.

Na Argentina, depois de organizada para formar uma alternativa independente tanto ao governo kirchnerista como à oposição patronal, agora a FIT tem o desafio de encabeçar a resistência ao governo de direita, impulsionando as táticas de Frente Única das organizações operárias. Para nós do PTS o desafio é maior, devido a posição de liderança da FIT e o peso ganho por Nicolás del Caño, como principal referência da esquerda de conjunto.

Apesar que, de imediato, temos proposto utilizar o peso político obtido na campanha eleitoral para ampliar a estruturação e expansão de nosso partido[37], trata-se da perspectiva de construir uma ferramenta revolucionária capaz de permitir que os trabalhadores alcancem a vitória, ao calor da resistência operária contra os ajustes macristas. Um governo como o que acaba de ser formado, em que poucas vezes demonstra com clareza aquela definição de Marx com respeito ao Estado representativo moderno, como uma “junta que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa”[38], preanuncia choques de envergadura entre as classes.

Para isso, é indispensável nos basearmos nas experiências do movimento operário, não só a nível internacional, mas sim com o mais avançado da luta de classes em nosso país e na região, “o ensaio geral”[39] que foi para nós a ascensão revolucionária dos anos 1970. Não foi por casualidade que o kirchnerismo se valeu do ocorrido naqueles anos em sua versão reformista burguesa (“La Cámpora”) para construir suas referências militantes. Naquele período, como nunca em sua história, a classe operária da região mostrou seu potencial: com a Assembleia Popular boliviana[40]; os cordões industriais e os elementos embrionários de um duplo poder no Chile[41]; a greve geral e a resistência ao golpe no Uruguai; o “Cordobazo”, os “Rosariazos” e outros levantamentos semi-insurrecionais, e as jornadas de junho/julho de 1975 (quando se derrotou o ajuste do “Plano Rodrigo” impulsionado pelo governo de Isabel Perón y López Rega) com a formação das coordenadoras interfabris na Argentina[42]; as grandes greves contra a ditadura do fim dos anos 1970 e começo dos ‘80 no Brasil[43]. Dezenas de milhares de trabalhadores e jovens se radicalizaram defendendo a luta por uma sociedade sem exploração nem opressão. No entanto, a canalização dessa radicalização de forma majoritária pelas organizações reformistas ou guerrilheiras (e a debilidade e os erros cometidos por aqueles que se reivindicavam trotskistas) impediram o surgimento de um partido revolucionário que pudesse conduzir os trabalhadores à vitória. Traçar linhas de continuidade com aquela experiência é um ponto chave na hora de construir um partido revolucionário.

Hoje o governo direitista que assume o poder, não o faz porque houve derrotas na luta de classes, mas sim como produto do esgotamento de um governo de “desvio” e da debilidade da classe operária para se constituir como sujeito político independente. Onde a crise capitalista internacional se aproxima dos oito anos sem sinais de superação e o ciclo da alta dos preços das matérias-primas ficou no passado. Com um movimento operário que se recompôs socialmente e conta com uma minoria de esquerda que acumulou nesses anos experiências de luta[44]. Para além dos ritmos dos ataques e de como se desenvolverá a experiência com o novo governo de Macri, para a burguesia, colocar representantes diretos de seus interesses a frente do Executivo gera o inconveniente de pular etapas na hora de enfrentar o descontentamento popular e que os donos do poder sejam vistos como os responsáveis diretos pelos sofrimentos das massas.

Temos um grande desafio. Nos preparamos com toda energia para levar a nossa estratégia adiante. Denunciar desde o primeiro momento o caráter do novo governo, desmascarar a cada dia as contradições de seu discurso, enfrentando, como estamos fazendo, o método bonapartista dos “decretaços”. Nos preparar para as primeiras ações dos trabalhadores em defesa de seu salário, impulsionando o reagrupamento da vanguarda operária para lutar dentro dos sindicatos contra as tréguas impostas pelas direções burocráticas e por um programa para que a crise seja paga pelos capitalistas. Encorajar e apoiar a luta e a organização do movimento de mulheres da juventude combativa. Fazer todos os esforços necessários para que novas camadas de trabalhadores, trabalhadoras e jovens se somem à militância consciente para construir a ferramenta que necessitamos para vencer. Estes são os primeiros passos nessa direção.

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NOTAS

[1] De acordo com a apuração definitiva Macri obteve 12.988.349 votos (51,34 %) contra 12.309.575 (48,66 %) de Daniel Scioli, o candidato do oficialismo. A diferença foi de apenas 678.774.

[2] O clã Macri, liderado por Franco, o pai de Mauricio, como em numerosos grupos econômicos locais, se fortaleceu durante a ditadura genocida, passando de controlar 7 a 47 empresas. A dívida de suas empresas foi estatizada por mais de 200 milhões de dólares. Depois continuou fazendo bons negócios como parte da “pátria contratista” com todos os governos posteriores. Durante o kirchnerismo, Franco Macri foi um dos principais empresários a realizar negócios com a China, com perdão da dívida que tinha com o Estado nacional quando se reestatizou o Correio Argentino que tinha a seu cargo desde as privatizações levadas adiante pelo governo de Menem.

[3] A Unión del Centro Democrático (UCeDé) foi fundada em 1982 por Álvaro Alsogaray. Seu melhor resultado eleitoral foi obtido nas eleições presidenciais de 1989, em que obteve 6,87 % dos votos na aliança com o Partido Democrata Progresista, depois foi aliado do menemismo e foi se afastando até sua virtual extinção.

[4] Adalbert Krieger Vasena foi designado como Ministro de Economia pelo general Juan Carlos Onganía em 3 de janeiro de 1967 em lugar do democrata cristão Jorge Néstor Salimei. Em junho de 1969 foi substituído por José María Dagnino Pastore. Anteriormente, Krieger Vasena havia estado a cargo do mesmo ministério sob o governo do general Pedro Eugenio Aramburu, entre março de 1957 e janeiro de 1958.

[5] Domingo Felipe Cavallo ocupou o Ministério da Economia sob a presidência de Carlos Saúl Menem entre o 1 de março de 1991e 27 de julho de 1996. Com Fernando De la Rúa como presidente o fez entre 20 de março e 20 de dezembro de 2001.

[6] Ver Paula Varela e Gastón Gutiérrez, “¿Por qué triunfó la rebelión de los CEO?”, y Fernando Rosso e Juan Dal Masso, “Macri al gobierno, los dueños al poder”, em Ideas de Izquierda 26, dezembro 2015.

[7] Antes de exercer seu cargo como Ministro de Desenvolvimento Econômico do governo do PRO na Cidade Autônoma de Buenos Aires, Cabrera foi fundador e CEO da companhia de fundos de pensões Máxima AFJP; Diretor Executivo do diário La Nación e integrante do diretório dos diários Los Andes e La Voz del Interior. Desenvolveu a maior parte de sua carreira no holding financeiro Grupo Roberts, e depois no Grupo HSBC onde foi membro da Diretoria de La Buenos Aires Seguros, de Docthos e dirigiu o setor varejista do Banco.

[8] Zaiat, Alfredo, “La CEOcracia”, Página 12, 06/12/2015.

[9] Zaiat, Alfredo, “Muy pocos se llevaron todo”, Página 12, 20/12/2015.

[10] Nominalmente as reservas são de 26 bilhões de dólares, mas se estima que a disponibilidade real não supera os 3 bilhões da moeda dos EUA.

[11] O ciclo que conclui se caracteriza economicamente por ser “um período onde a combinação de golpes ao movimento operário com a desvalorização e condições internacionais favoráveis, permitiram uma relativamente rápida saída da crise de 2001-2002. O kirchnerismo adotou uma série de medidas pragmáticas que poderíamos sintetizar com o termo “neodesenvolvimentismo”. Os subsídios muito generosos para setores da burguesia “nacional” não foram contraditórios com medidas (e também todo tipo de subsídios) a favor das multinacionais que operam no país e que agrupam mais de 300 das principais 500 empresas, representando 80 % do valor agregado gerado por esse universo empresário. Por isso não estranha que após doze anos de governos “nacionais e populares” não se tenha alterado o poder econômico configurado entre a ditadura e o menemismo, e que a melhora dos índices sociais em relação aos níveis de 2002 apenas tenha alcançado a média da década de noventa” (Christian Castillo, Prólogo, em Esteban Mercatante, La economía argentina en su laberinto, Edições IPS, 2015).

[12] A dívida pública, sem contabilizar a dívida dos estados provinciais, continua sendo de uns 250 bilhões de dólares, mas só quase 10 % da mesma é em dólares. Disso deriva que toda a burguesia, apesar de que a proporção entre a dívida e o PIB seja similar em relação a que existia em dezembro de 2001, aposte por um novo ciclo de endividamento externo.

[13] Para uma análise minuciosa da economia sob o kirchnerismo e suas contradições atuais ver Esteban Mercatante, Op. Cit.

[14] Segundo o regime eleitoral argentino se o candidato mais votado obtém 45 % dos votos ou 40 % e mais de dez pontos de diferença com respeito ao segundo, fica eleito presidente sem necessidade de segundo turno ou segundo turno.

[15] No dia do debate presidencial para o canal a cabo TN (pertencente al Grupo Clarín, opositor ao governo kirchnerista) publicou durante vários minutos um tweet que dizia “Scioli devolva o power point a Del Caño”, em alusão aos argumentos antiajuste repetidos pelo candidato oficialista, que tomava parte da denúncia feita pelo candidato presidencial da Frente de Esquerda no debate presidencial de outubro e nos spots de campanha.

[16] A começo de novembro, diversos porta-vozes do candidato do FPV afirmaram que eliminariam as retenções ao milho e trigo, e com respeito à soja, a baixa seria de 35 a 25%.

[17] Este ajuste não freou a crise da economia brasileira e contribuiu para debilitar o governo, golpeado também por denúncias de corrupção e fraturas da coalizão governamental. Ver “Brasil: crise da ‘hegemonia invertida’” neste número de Estratégia Internacional.

[18] “No vamos a legitimar al Gobierno que se apresta a ajustar por decreto a los trabajadores”

[19] Ver Bach, Paula, “Claves de la crisis económica mundial y su refracción nacional”, em La Izquierda Diario, 14/09/2015

[20] No Uruguai e no Brasil, a Frente Ampla e o PT chegaram respectivamente ao governo expressando o descontentamento com os anteriores governos e suas políticas neoliberais mas sem viver crise dos regimes políticos. No Chile, Bachelet deixou o governo ao direitista Sebastián Piñera em 2010 e depois voltou ao poder após ganhar as eleições quatro anos depois.

[21] O ‘Consenso das Commodities’ sublinha o ingresso da América Latina em uma nova ordem econômica e político-ideológica, sustentado pelo boom dos preços internacionais das matérias primas e os bens de consumo demandados cada vez mais pelos países centrais e as potências emergentes. Esta ordem vai consolidando um estilo de desenvolvimento neo-extrativista que gera vantagens comparativas, visíveis no crescimento econômico, ao mesmo tempo que produz novas assimetrias e conflitos sociais, econômicos, ambientais e político-culturais” (Maristella Svampa, “‘Consenso de los Commodities’ e linguagens de valorização na América Latina”, en Nueva Sociedad, março – abril 2013.

[22] E inclusive a falta de cobrança do salário de centenas de docentes cada mês pelos problemas administrativos e demora de entre seis meses e um ano para cobrar as suplências.

[23] Quiçá seu maior acerto eleitoral tenha sido quando após da eleição do segundo turno pela chefia de governo portenho, em que o PRO derrotou por muito pouco a Martín Lousteau, Macri disse que defendia os planos sociais e que as aposentadorias a Aerolíneas Argentinas seguiriam sendo estatais, uma clara mudança do que vinha sustentando até o momento.

[24] A conquista anterior de Macri havia sido obter o passe de Carlos Reutemann desde as fileiras da Frente Renovador.

[25] Em um artigo recente dizíamos: "Em momentos de épica o kirchnerismo procurou expressar um projeto de transformação nacional e popular, o que teria como contrapartida uma" guerra cultural "contra o neoliberalismo dos anos 90. A construção da história foi baseada em um modus operandi característico: levar bandeiras à esquerda para ganhar apoio e, em seguida, distorcê-las. Eles tiraram o quadro de Videla para terminar adiante do exército o genocida Milani. Eles expropriaram a YPF para acabar pagando uma compensação pesada (mais de nove bilhões de dólares) e entregar petróleo e gás para a Chevron e outras multinacionais. [...]. Eles fizeram rios de tinta contra os latifundiários da soja, mas não tocaram um hectare dos proprietários agrícolas e nunca foi tão grande a ’sojização’ da terra. [...]. Encheram a boca com os direitos sociais, mas deixam três milhões de famílias em habitação de emergência, enquanto se constrói, como sempre, a especulação imobiliária e para os setores de renda mais alta. Eles protestaram contra os ’fundos abutres’ mas foram pagadores dívida externa’. Poderíamos continuar com dezenas de exemplos "(Christian Castillo e Eduardo Castilla," A década de histórias: ciclo de Kirchner, visto pela esquerda ", Journal of Political Economy Margens Ano 1, No. 1, agosto 2015.

[26] Para o período que vai de 2001 a 2011 ver Christian Castillo, La izquierda frente a la Argentina kirchnerista, Editorial Planeta, Buenos Aires, 2011.

[27] Candidatos que tinham cargos executivos, seja no Poder Executivo nacional, nos governos ou nas prefeituras, e iam nas cédulas eleitorais, ainda que anunciavam que não assumiriam se fossem eleitos. Daniel Scioli y Sergio Massa foram parte dessas candidaturas.

[28] Christian Castillo y Eduardo Castilla, Op. Cit.

[29] El Ojo Mocho n° 2/3 (nueva época). O parágrafo pode ser visto em elviolentooficio.blogspot.com.ar, blog de Fernando Rosso, onde se comenta criticamente a reportagem.

[30] Tradicionalmente na Argentina a esquerda aumenta seus resultados nas eleições legislativas.

[31] No segundo turno, a FIT chamou a votar em branco ou nulo, para rechaçar a ambos candidatos do ajuste. A soma de ambas categorias foi algo inferior aos 700 mil votos. Parte dos votantes da FIT terminaram apoiando a candidatura do Scioli como “mal menor” a partir do discurso “antiajuste” da última etapa da sua campanha.

[32] Nessas três províncias o PTS melhorou seus tempos dentro da rotatividade de cargos em cada banca, que é o método de funcionamento que caracteriza a Frente de Izquierda.

[33] Desde o PTS, discutimos publicamente a confusão do PO entre a tática da “frente única” da III Internacional e uma frente eleitoral pela independência política dos trabalhadores, como é a FIT. Ver por exemplo o artigo de Matías Maiello, “El PO y la distorsión del Frente Único para dividir”

[34] Sobre a incorporação de novas organizações de origem populista a FIT, o PTS sustentou que se tratando de grupos que não coincidiam com o programa da frente e que sustentavam ao chavismo, ao evomoralismo ou ainda o Syriza e Podemos, se tratava de começar uma discussão seria sobre o programa e uma prática comum, antes de começar a discutir sua incorporação com candidaturas. As atitudes de Carlos “Perro” Santillán, que apresentou candidatos contra a FIT em Jujuy e recorreu a métodos tradicionais da burocracia sindical e o stalinismo impulsionando a expulsão do SEOM (Sindicato de Empleados y Obreros Municipales) de Alejandro Vilca, delegado municipal de base e dirigente do PTS e referencia da FIT en Jujuy, mostra o correto dessa discussão.

[35] Alguns dos vídeos difundidos da campanha de Nicolás del Caño no youtube tiveram mais de 1 milhão de visualizações.

[36] Parte da influência da esquerda na classe operária através de um analista não vinculado à esquerda pode ver-se em Martín Rodríguez, “Las izquierdas emergentes”, Le Monde diplomatique, edição Cono Sur, Nº 190, abril de 2015.

[37] Nos colocamos o desafio de abrir 150 novos locais nos próximos meses e ampliar a presença militante em fábricas, empresas, escolas e faculdades. Ver Iniciativas do PTS/FIT frente ao novo Governo ajustador

[38] Karl Marx e Federico Engels, El Manifiesto Comunista, Ediciones IPS, 2014, p. 13.

[39] Fazemos referência a como consideravam os revolucionários russos à revolução de 1905, Lenin em particular.

[40] Ver Jean Baptiste Thomas, La Bolivia del Che (1966-67) y la Bolivia de la Asamblea Popular (1969-71). ¿Guerrilla o revolución obrera y campesina?

[41] Ver por exemplo trabalhos publicados em http://cordonesindustriales.ptr.cl/

[42] Ver Ruth Werner e Facundo Aguirre, Insurgencia obrera en la Argentina 1969-1976. Clasismo, coordinadoras interfabriles y estrategias de la izquierda, segunda edição ampliada, Ediciones IPS, 2009.

[43] Ver “A classe operária na luta contra a Ditadura (1964-1980)”, Cadernos de Estratégia Internacional – Brasil.

[44] Ver Fernando Rosso, “El nuevo poder de los trabajadores”, em Le Monde Diplomatique N° 196, Edición Cono Sur, Buenos Aires, outubro de 2015.




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