GOLPE MILITAR DE 1964 / 54 ANOS

O golpe de 1964: quatro lições sobre a intervenção militar reacionária de 1º de abril

Gilson Dantas

Brasília

domingo 1º de abril| Edição do dia

Bolsonaro, os atuais chefes das forças armadas e o jornalismo de direita falam em “revolução de 64”, e enchem o peito como se essa mancha sombria e reacionária na nossa história, tivesse algo de patriótico, de progressista, de nacional ou de popular.

Nada disso. O detalhe é que a história é, invariavelmente, escrita pelos vencedores; e o regime que manda no país, da Constituição de 1988, preservou o poder dos militares e - incluindo, Dilma, ex-torturada pelos militares -, jamais julgaram os crimes de Estado por eles cometidos; simplesmente anistiaram torturadorese ...torturados [!].

Resumidamente, pensemos em quatro lições que os trabalhadores e estudantes dos dias atuais podemos tirar daquela quartelada que colocou os generais no poder durante vinte anos, com suas atrocidades e rasgando todas as leis do Estado de Direito.

1 A classe dominante [e seus generais] não respeitam sequer seu Estado de Direito. Juram pela lei, pela Constituição todos os dias, mas rasgam as mesmas leis e a mesma Constituição quando lhes convém. E quando lhes convém? Quando a classe trabalhadora e seus aliados se levantam contra a opressão e a exploração.

A lição pode ser lida assim: 1º de abril de 1964 mostra que o juramento à Constituição feito pelos militares não tem valor de face. Quando o povo aceita passivamente a escravidão do trabalho – de viver e morrer trabalhando para engordar a patronal – então, tudo bem, dizem eles, eis que reina a “ordem”. Se esse mesmo povo se levanta contra a iniquidade da patronal e dos políticos, o bando de homens armados [como dizia Engels] entra em cena para impor a ordem ... burguesa. Isto é, a ordem de uma fração, rica e exploradora da sociedade, contra sua ampla maioria.

Lição número um, portanto: a cúpula militar reacionária não é confiável para o seu povo já que, acima de pátria e de todos os seus juramentos protocolares, defendem a ordem do grande capital. Que alguém tente demonstra que 1964 foi outra coisa.

2 O golpe de 64 não foi contra João Goulart e nem contra uma suposta “república sindicalista” ou “comuno-janguista”, coisa que jamais existiu. A verdade e´ que derrubaram um governo legalmente eleito pelo voto, rasgaram a Constituição, mas seu objetivo, de fato, era deter a classe trabalhadora. Impedir uma aliança entre os trabalhadores organizados, o campesinato e os estudantes rebelados.

O resto é ideologia ... de caserna, da mídia amestrada e do aparelho ideológico em geral. [Sobre isso, confiram o fac-símile da primeira página de O Globo ao final desta nota e vejam a festa da grande mídia aclamando os milicos como salvadores da pátria e – pasmem – da democracia].

Fica difícil imaginar que mídia existe para dar informação; não se trata de informação, olhando com calma, mídias como O Globo, a Veja, são pouco mais que panfletos ideológicos.

Ali, em 64, era preciso liquidar as organizações da classe trabalhadora, intervir contra elas, prender, torturar e assassinar suas lideranças, derrotar o crescente ativismo de massa para garantir lucros astronômicos para a burguesia local e internacional sem oposição popular.

Pretexto ideológico eles arrumam, ontem o comunismo, hoje Lula, amanhã qualquer coisa. A ideologia essencial dos generais golpistas: os trabalhadores precisam se calar, não podem exercer seus direitos democráticos de organização e greve, para que haja “ordem e progresso”. Tirando todos os véus, cá entre nós, não é isso que ensinam nas escolas, na caserna e obviamente nas igrejas [submissão na terra para ganhar o reino dos céus]?

3 O papel fundamental do exército está mais presente no que eles escondem, do que naquilo que revelam nos seus discursos. Senão pensemos: entre defender o seu povo, os direitos e aflições da classe trabalhadora, ou a grande propriedade privada, com quem eles ficam? Não será que ficam sempre com o grande capital?

E será que esta não é uma lição que vale para todo o nosso continente, para sua sequência histórica de golpes gorilas, onde as forças armadas se lançam a matar seu próprio povo para que ele não se organize e nem pretenda virar pelo avesso essas repúblicas de ricos?

Pátria? Que “pátria” estava sendo defendida quando o exército massacrou o povo baiano em Canudos? Em que a comuna agrária de Canudos ameaçava a nação ou as forças armadas? E as tantas intervenções sanguinárias do duque de Caxias, que valores de nobreza moral e nacional defendiam? E em 1930? E em 1964, que “pátria” estavam defendendo quando rasgaram a Constituição e derrubaram um presidente eleito?

[À esquerda, presidente eleito, Jango; à direita, pequena estatura, seu ministro que iria golpeá-lo, general Castello Branco]

4 Última e não menos importante lição do golpe de 64: não há NENHUM antídoto contra o golpe militar; a democracia dos ricos jamais ficará suficientemente “madura” ao ponto de se tornar imune ao golpe militar reacionário, através do voto, por exemplo. Esse é o blábláblá inclusive de certa esquerda [o PT vivia repetindo isso], para criar ilusões de que a burguesia decadente pode acalentar a democracia como “valor universal”.

O PCB [que tinha grande peso na classe trabalhadora em 1964] acreditou nisso, intelectuais de origem pecebista defenderam tese sobre isso – como Carlos N. Coutinho – mas não adianta: a burguesia não acredita nisso, acha tudo isso uma grande bobagem e ela tem as forças armadas. Ponto. Aliás, a esse respeito, que tal prestarmos atenção naquilo que sabiamente nos ensinou um dos generais golpistas? "A verdade é filha do poder. Nós, militares, nunca fomos intrusos na história”. A verdade é filha do poder? E veja que não estamos falando de um aforismo de Lenin nem de Karl Marx, os quais, nesse caso, falariam em poder da classe trabalhadora. Aquela frase é de um dos generais golpistas e ex-ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves.

A verdade do general é a verdade do sabre, alguém duvida?
E a nossa? A nossa é a de que o poder da classe trabalhadora, que cria toda a riqueza, que pode fazer a gestão direta e pública de toda a riqueza e sua distribuição justa, que pode planificar a economia democraticamente – ao contrário do stalinismo - e essa a verdade que prevalecerá, um dia, sobre o sabre, no dia em que o proletariado vencer, abrindo assim caminho para a emancipação dos povos.

E o que resume todas essas breves lições [para caber em uma pequena nota] pode ser também posto da seguinte forma: é a classe trabalhadora organizada e lutando por um novo poder político o único antídodo para varrer do horizonte qualquer golpe militar, qualquer sabre que se volte contra seu próprio povo.

Como? Com os trabalhadores organizando o poder de Estado, democraticamente, com base nos seus órgãos, dissolvendo a polícia, organizando seus corpos comunitários de autodefesa, reorganizando o seu exército [agora sem poderes políticos] e estendendo a revolução a um punhado decisivo de países; aí sim, ninguém precisará perder o sono porque um grupo de gorilas fardados possa vir a lançar os tanques nas ruas para bater de frente contra as organizações operárias, como aconteceu com o golpe militar de 1964.

[Crédito de imagem da nota: www.blog marcosantonioserido.blogspot.com.br]




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