Teoria

ESPECIAL COLÓQUIO MARXENGELS

O golpe de 1964 e a disputa da memória

Das três mesas-redondas que iniciaram o Colóquio, uma teve como tema “A crítica marxista ao revisionismo historiográfico em torno do golpe de 1964”. Contou com a participação de Carlos Zacarias de Sena Júnior (UFBA), Gilberto Calil (Unioeste) e Demian Bezerra de Melo (UFF). Todos os três teceram duras críticas à interpretação dos eventos da ditadura por parte de Elio Gaspari, Angelina Figueiredo e Daniel Aarão dos Reis Filho.

quarta-feira 15 de julho de 2015| Edição do dia

Gilberto Calil iniciou a mesa colocando uma polêmica a famosa coleção, de quatro volumes, “As Ilusões Armadas” de Elio Gaspari, autor segundo o qual a ditadura teria durado apenas o período de 1968 a 1977, tendo iniciado apenas com o Ato Institucional Nº 5, e não com a derrubada de João Goulart; quando Figueiredo assume a presidência, já não havia mais ditadura, para este autor. Esse ponto foi bastante combatido por todos os presentes na mesa, sendo talvez um dos principais reflexos do que foi polemizado como “revisionismo historiográfico” em relação ao Golpe.

Carlos Zacarias, por sua vez, abriu sua intervenção com uma definição de “revisionismo”, baseada em dois elementos mutuamente relacionados: a) Motivação política da formulação teórica; b) Falta de responsabilidade com as fontes históricas. Esses elementos se combinam nas formulações de Daniel Aarão, que, apesar de ter participado de um dos grupos de resistência à ditadura, o MR-8, tornou-se um dos maiores defensores das teses revisionistas na academia. Segundo o palestrante essas formulações tem como objetivo “dividir as responsabilidades” da ditadura entre a esquerda e a direita, a partir da afirmação sem provas de que a esquerda estava preparando um golpe no Brasil, e de que “a sociedade apoiou o regime militar”, sempre de maneira reificada, objetificada, encarando a sociedade como algo uno e indivisível, sem recortes de classe social.

Demian Bezerra dedicou a maior parte de sua intervenção à crítica desta ideia, de que a sociedade consensuou com a existência do regime militar. Segundo Demian, essa ideia se baseia numa comparação equivocada entre as ditaduras fascistas, que se baseavam na “mobilização” da população em torno dos símbolos fascistas, e as ditaduras latino-americanas, que, pelo contrário, eram “anti-mobilizadoras”, pois surgiram para combater o crescimento das manifestações de trabalhadores, camponeses, entre outros setores oprimidos.

Entrevistado pelo Esquerda Diário, Demian falou que O revisionismo é uma memória adequada ao atual regime político brasileiro, principalmente do ponto de vista dos arranjos políticos que foram criados na década de 90 com o PSDB e com o PT. Tanto os governos do PSDB quanto os governos do PT contém em sua coalizão membros da oposição quanto os artifices da propria ditadura, durante o período de hegemonia desse regime - hoje ele [o atual regime] pode estar entrando em crise, essa hegemonia - uma memória que coloque uma visão amenizadora do passado editorial e, principalmente, uma memória que distribua igualmente uma responsabilidade entre os derrotados no golpe e aqueles que lutaram durante a ditadura. A isso, Demian deu o nome de “anistia historiográfica”, com objetivo de legitimar que ainda haja políticos da ditadura no poder hoje, inclusive na base aliada do PT.

Comentando sobre sua participação na Comissão Nacional da Verdade, Demian afirmou:

Essa comissão se formou a partir de uma condenação que o Brasil teve na Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia e o Estado foi obrigado a formar essa comissão da verdade muito tempo depois do fim da ditadura. A comissão teve muitas dificuldades em relação a sua efetividade pois ela não conseguiu realizar grandes sessões públicas, ela não se preocupou em ser um espaço de catarse e de disputa de memória. Quando elaborei junto com outros autores o relatório final sobre trabalhadores e os empresários tinhamos um trabalho de gabinete, como se fosse um trabalho acadêmico, e pesquisadores muito bons tanto na qualidade de suas pesquisas quanto no ponto de vista ético de construir uma memória de combate a ditadura militar se envolveram nesse trabalho mas nós não tivemos os recursos necessários no sentido de publicização desse trabalho. Uma publicização para fazer uma disputa de memória, geralmente quando a mídia abriu espaço foi para os autores que tem essa posição revisionista e que hoje tem hegemonia no espaço acadêmico.

O PT justifica a presença de setores ligados à ditadura militar nas Forças Armadas, e mesmo como base do governo federal com as figuras de Sarney e Maluf, por conta da "reconciliação nacional". Para isso, montou uma Comissão da Verdade que justamente mantém impunes todos os responsáveis políticos e civis pelas torturas, perseguições e assassinatos a milhares de trabalhadores e militantes da esquerda.

Esta Comissão da Verdade petista está solidamente fundada na Lei da Anistia de 1979, ou seja, no pacto nas alturas que garantiu a impunidade dos generais-ditadores e de todos os agentes de repressão citados no próprio relatório. A disputa pela memória é política também, e deve vir com a punição de todos os responsáveis pelos crimes estatais na ditadura e a abertura completa dos arquivos das Forças Armadas, algo que o PT de Dilma se negou a fazer e deve vir pela organização social dos trabalhadores.




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