Teoria

DOSSIÊ TROTSKI - 76 ANOS

O general Dmitri e o “eterno revolucionário” Trotski

O texto abaixo é parte do dossiê em memória aos 76 anos do assassinato de Léon Trotski, ocorrido no dia 21 de Agosto de 1940. Por que o general stalinista Dmitri precisou escrever uma biografia de Trotski no nosso tempo? Por que precisou tachar Trotski de “eterno revolucionário”?

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 18 de agosto| Edição do dia

No mínimo, o general Dmitri Volkogonov é um personagem curioso. Tendo sido soldado de profissão do Exército Vermelho, coronel no regime Brejnev, ele pertenceu à elite da burocracia militar stalinista dos anos 1980; participou do golpe de Estado de 1991 que selou o destino da União Soviética, foi assessor direto e conselheiro de Defesa do presidente Boris Yeltsin, portanto fez parte do grupo que pôs abaixo a chamada “cortina de ferro”.

Essa foi a penúltima proeza do general.

Mas a última, que aqui nos interessa, é sua obra literária: ele redigiu a primeira biografia em grande escala de Trotski publicada na Rússia, em 1992. General de confiança dos golpistas, assumiu o papel de responsável pela abertura e classificação dos arquivos secretos da cúpula stalinista, começando pelos arquivos da NKVD, polícia secreta do stalinismo.

De posse de documentos inéditos de Trotski, sua nova biografia dele, prontamente traduzida nos Estados Unidos, recebeu o título de “Trotski – o eterno revolucionário”.
Considerando o passado político-militar de D Volkogonov, seu perfil, que esperar de sua biografia?

Muito provavelmente não será uma biografia para resgatar o autêntico Trotski.

De fato. E ela entra no mesmo sentido geral, inclusive de mais duas biografias igualmente volumosas, que ele irá escrever sobre Lenin e também Stalin [esta publicada no Brasil, pela Record em 2004]. Sua linha é mostrar que todos eles são farinha do mesmo naipe, isto é, uma espécie de “pais fundadores” do terror de Estado, do Estado-Moloch, Stalin mais que os outros; mas não se procure em Dimitri objetividade histórica, mesmo ele qualificando Stalin como devoto de um “marxismo grotesco” e outros elogios.

O curioso, no entanto, é que começando pelo título da biografia [“eterno revolucionário”], e por mais que sua preocupação seja a de mostrar um Trotski contraditório, o fato é que a colossal figura de Trotski termina atravessando todos os poros do livro. A epígrafe que abre seu livro, de autoria de Berdiayev, já revela o quanto Trotski calou fundo na vivência do general, a partir do material pesquisado e, certamente do que ele viu e ouviu de Trotski. A epígrafe: “É fora de qualquer dúvida que Trotski está além e acima de todos os demais bolcheviques, exceto Lenin. Lenin é seguramente mais importante e mais poderoso. Ele é o cabeça da revolução, mas Trotski é mais talentoso e mais brilhante”.

Portanto, o mínimo que se pode dizer é que a força histórica do biografado abalou o general.

Mas não abalou seus objetivos e suas crenças. Seu pedigree stalinista prevaleceu, isto é, terminou guiando sua pena, suas avaliações.

Por isso depois de alegar que sua biografia vai tentar ser equilibrada [?!], nem tanto à direita e nem tanto Isaac Deutscher [com sua trilogia], o nosso chefe da comissão de abertura dos arquivos secretos do stalinismo vai pintar Trotski de todos os ângulos como um fundamentalista, ou um jacobino que seguia “fanaticamente à Ideia”, isto é, a revolução.

Aliás, o editor, que prontamente fez publicar esse livro em Nova Iorque, em 1996, já na abertura diz que esta obra vai revelar “contradições profundas e mortais em Trotski”, um “monomaníaco comprometido com a revolução comunista mundial”. Enfim, mais imparcial só o “escola sem partido” do Temer.

Tanto editor quanto autor, são homens de elite, liberais e homens da era da restauração [sendo o general-literato, politicamente, um dos dirigentes práticos da restauração burguesa na URSS]. O biógrafo não esconde, a certa altura, suas preferências políticas para aquele ano de 1917: pensa que a história russa teria sido melhor desenvolvida pelo menchevismo, que, afinal, era mais “democrático”. Ao passo que os bolcheviques, uns mais jacobinos, outros mais grotescos, eram homens ligados, como ele chega a acusar, “à indústria dos Gulags” [campos de concentração].

No entanto, mesmo que obviamente saibamos que esta jamais poderia vir a ser a biografia que Trotski merece, o fato é que pelas mãos do general-escritor vão escapando elementos que revelam um pouco do porque ele teve que cravar “eterno revolucionário” no título da sua biografia.

O tempo todo ele tem que insistir que está biografando um homem que não tinha a ver com o “grotesco marxismo” de Stalin. Trotski é diferente. Trotski, sim, tinha a convicção sincera de que o proletariado é quem poderia reformatar o mundo, diz. Literalmente: “O stalinismo emergiu como uma grotesca forma de leninismo, já o trotskismo, no plano teórico, pode ser visto como a mais radical forma de marxismo, e aplicável não apenas à Rússia mas integralmente à ´revolução comunista mundial”. [474]. Na página seguinte continua argumentando que “o trotskismo expressa os postulados marxistas em sua forma mais refinada. Como contrapartida a Stalin, Trotski formalmente rejeita o totalitarismo, embora não esteja claro como a ditadura do proletariado poderia ser aplicada em tais circunstâncias. Portanto, o trotskismo foi uma tentativa utópica de combinar ditadura e democracia [...] e representa a utopia de um marxismo radical na Rússia”.

Aqui o biografado se mostra mais forte e abertamente rompendo a lógica do biógrafo. [Afinal o que pode ser menos totalitário que uma democracia dos trabalhadores, que é vem justamente a ser a ditadura do proletariado?]

Nos momentos mais “pessoais” em que ele foca o biografado, Volkogonov vai reconhecer que não dá para descrever Trotski em “preto e branco”, até porque – argumenta Dmitri - Trotski combina o espírito do revolucionário russo, com sua radical dedicação ao extremo jacobinismo, disposição de servir “à Ideia” e desprezo pela mediocridade. Mas não interessa, Trotski para ele, teria sido chefe de uma “congregação de fanáticos” e ponto.

Por que? Nos perguntemos. Ele explica mais adiante: porque Trotski tinha uma “fé fanática no marxismo e na revolução”. Ah bom. E continua: “quanto mais Trotski profetizava a revolução, mais efêmera ela ficava”. [Digamos de passagem que o general fez o que estava ao seu alcance, como soldado profissional do exército stalinista – e agora com a pena - para que a revolução fosse “efêmera”].

Mas prossigamos: então Trotski vivia intoxicado pela ideia marxista? Sim, diz ele, e deixa escapar que “o poder tóxico da Ideia cativou não apenas Trotski mas milhões de outros”.

Agora atenção: observemos que aqui o general, sem se dar conta, mudou de escala. O refinado, anti-medíocre, “mais talentoso e mais brilhante” revolucionário do país de Dmitri, dirigia uma multidão de milhões e milhões de... fanáticos. No sertão da Bahia o fanático Conselheiro dirigiu apenas, talvez, alguns milhares de “fanáticos”, mas Lenin e Trotski dirigiram milhões em uma revolução que abalou o mundo e até hoje reverbera tão profundamente na alma humana que o livro do general [ó eterna ironia da história] vendeu, de imediato, um milhão de exemplares. Ao menos um milhão. Onde? Apenas na ex-União Soviética.

A não ser que Dmitri imagine a Rússia de hoje meio que insiste em ser uma “terra de fanáticos”, temos um problema insanável nas avaliações de Dmitri.

Enfim, triste sina a desse pobre conselheiro especial de Defesa: apesar de todos seus esforços em mostrar que Trotski era um líder que “acreditava fanaticamente no advento da revolução mundial”, e que sua morte/assassinato é um monumento “à efêmera ideia da revolução mundial”, e que Trotski é um dos fundadores do Moloch russo etc etc, a verdade é que a cada poro do seu livro uma figura colossal irrompe e se impõe e começa a por em dúvida ao leitor mais atento sobre quem será o “efêmero” nessa história toda.

Ao final, fica-se com a impressão de que se fosse possível executar a mágica de uma lipo para deixar de ouvir as onipresentes “impressões” de Dmitri, com seus devaneios sobre a utopia reformista [ele chega a lamentar em suas páginas que é uma pena que Trotski, tão brilhante, não tenha sido um reformista], teríamos uma enorme quantidade de páginas onde o biografado caminha com as próprias pernas e inegavelmente, nos fascinaria a todos os inquietos. Trotski, não Dmitri.

Senão vejamos.

Procurando mostrar o quanto Trotski era um homem de paradoxos [seja lá a que paradoxos o general se refira], ele cita que, meses antes de ser assassinado, Trotski fez seu testamento onde registra que “Quaisquer que sejam as circunstâncias da minha morte morrerei com uma inabalável fé no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro me propicia, mesmo agora, tal poder de resistência que nenhuma religião jamais poderia me oferecer”. E conclui que é esse mesmo Trotski que vai escrever no Manifesto pela IV Internacional que “A essência do nosso programa pode ser expressa em duas palavras: ditadura do proletariado”. Sem esta fórmula, agrega o general, “o completo programa da revolução mundial viria abaixo”. [461].

O paradoxo é que Trotski luta por um governo dos trabalhadores? Onde está o paradoxo?

No entanto, a certa altura Volkogonov, finalmente, nos esclarece um dos paradoxos que o incomoda em Trotski. Diz: “Trotski era um homem de paradoxos. Embora um advogado convicto da necessidade de métodos radicais para resolver os problemas sociais, econômicos e espirituais, ele também lutou, simultaneamente, pela democratização do regime no partido”. [272]

Onde aflora o principismo e a qualidade política de Trotski, Dmitri vê “paradoxo”.
Volkogonov prossegue; “Um outro paradoxo era a desproporcional relação entre a popularidade de Trotski e o número dos seus apoiadores. Durante a revolução e a guerra civil, seu nome era conhecido em todo o país e muito além das fronteiras. Ele era visto como o ídolo e o símbolo da revolução, e admiradíssimo pela sua energia, sua versatilidade como líder militar, oficial de Estado, político, orador das multidões, jornalista e advogado incansável da revolução mundial. Parecia como se esse verdadeiro construtor da revolução fosse capaz de unir milhões através dos seus infatigáveis esforços”. [272]

Muito bem dito, Volkogonov [faltando acrescentar que Trotski foi um estrategista militar genial, general]. Acabou-se o suposto paradoxo: Trotski magnetizava milhões em defesa da democracia proletária, do partido leninista, guiado por uma profunda fusão com o potencial da humanidade para varrer com a lacra capitalista. Melhor impossível.

A título de conclusão podemos dizer que embora continue nos faltando a biografia à altura do biografado, é fora de dúvida que um homem que, como Lenin e tantos e tantos outros de sua geração, dedicou sua vida pela construção de um governo dos trabalhadores [democracia proletária], lutou pela regeneração do partido, pela construção da IV Internacional, e era dotado de uma colossal fé no ser humano conquistou tal lugar e é tamanha fonte de inspiração para os jovens mais inquietos de hoje – como foi para minha geração – que podemos dizer sem risco de errar: os generais da restauração passam, são efêmeros, mas a caravana da revolução mundial continua seu curso, até o dia em que não precisemos mais de nenhuma das taras da civilização fundada na propriedade privada, inclusive, naturalmente, de guerras e de generais.

G Dantas
Brasília 18/8/16

Referência – VOLKOGONOV, Dmitri, 1996. Trotsky: the eternal revoluvionary, New York, Free Press.




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