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PALESTINA

O futebol palestino e a solidariedade internacional

Manter a paixão pelo futebol na Palestina é um combate cotidiano, combate que tornou visível sua situação e ganhou apoio internacional.

sexta-feira 26 de julho| Edição do dia

O futebol é a paixão mais popular do mundo. Um esporte que é praticado com alegria por milhões de pessoas, desde os mais jovens até os mais velhos. Esporte que é acompanhado pela televisão ou indo ao estadio, torcendo pela sua equipe favorita e esperando com ansiedade vê-la marcar um gol. Uma paixão que nos acompanha toda a vida.

Na Palestina essa paixão tem um conteúdo muito distinto e a mantê-la é um combate cotidiano. Desde 1967 as forças israelenses mantêm ocupadas as regiões da Cisjordânia e um bloqueio na Faixa de Gaza, cercada como se fosse um campo de concentração gigante com cerco militar. Milhares de palestinos nos campos de refugiados dependem da ajuda humanitária para sobreviver sob o sibilar dos misseis israelenses. Inclusive, a zona da Cisjordânia foi declarada por um estudo da Universidade de Berkeley como a região com mais gás lacrimogêneo derramado sobre a terra. Sob essas condições os palestinos desfrutam da essência do futebol que pode praticar-se com uma bola e um gol armado com os escombros. Uma forma de aproveitar as capacidades humanas que, para os palestinos, transformou-se em uma trincheira de resistência.

Por isso, o Estado de Israel tenta constantemente quebrá-los. Proíbe seus campeonatos, prende, tortura e assassina jogadores e árbitros e em vários dispararam contra seus pés ou joelhos. Israel bloqueia as travessias de fronteira para que não possam treinar e retêm as seleções masculina e feminina para impedi-los de competir em torneios internacionais.

Além disso, os bombardeios sistemáticos transformaram em pó as casas de seus familiares e amigos. Como aconteceu na última grande ofensiva, “Operação Escudo Protetor”, em 2014, que custou a vida de mais de três mil palestinos, entre eles 550 crianças e 32 atletas de diversos esportes. Nessa ocasião, um míssil cegou o melhor meio-campista da seleção palestina, Ahed Zaqout.

Entretanto, através do futebol os palestinos conseguiram amealhar solidariedade internacional, tornando visível a situação que vivem cotidianamente. Uma situação sobre a qual que a FIFA não tomou providências nem se posicionou.

Os Aida Celtics

O Campo de refugiados de Aida (Aida Camp), na Cisjordânia, encontra-se na primeira linha de expansão e incursão israelense. Tem sete mil metros quadrados e é o lar de seis mil palestinos. Ali se joga futebol diariamente, com alguns espectadores sentados em banquinhos de madeira. Ao redor eleva-se uma muralha de 3 metros de altura, com torres de vigilância onde estão centenas de soldados israelenses vigiando cada movimento dos jogadores. Essa muralha separa as crianças palestinas de um grande espaço aberto onde eles costumavam jogar. Está rodeado por uma grande quantidade de assentamento, considerados ilegais pelo direito internacional, e que Israel construiu para expandir seu domínio territorial sobre Jerusalém. O exercito, nas suas incursões, ataca sistematicamente os centros onde os palestinos se reúnem para treinar e aprender a jogar futebol, não há um só local seguro. Não estão a salvo nem sequer aqueles que se convertem em grandes jogadores, são alvos preferenciais do exército.

Um franco-atirador do exército israelense atirou nos dois joelhos de Mohammed Khalil, do Al Salah FC, uma equipe da Faixa de Gaza em abril desse ano, destruindo sua carreira esportiva. Em 2009, o atacante da seleção palestina Mahmoud Sarsak foi preso e torturado em Israel durante três anos sem ser julgado nem ser acusado de nada. Sarsak empreendeu uma greve de fome de 96 dias antes de ser liberado, no meio aos pedidos da Anistia Internacional, de Noam Chomsky e do ex-jogador francês Eric Cantona, entre outros, para libertá-lo. Em Gaza, Sarsak foi recebido como um herói e se converteu em um símbolo da repressão ao esporte palestino.

Nesse contexto, nasceu uma equipe com as cores verde e branco, o “Aida Celtic”, inspirado no Celtics FC de Glasgow, na Escócia, que expressou diversas vezes seu apoio a Palestina. Agora o está fazendo novamente com uma iniciativa em nome do Centro Lajee, um centro cultural para jovens no campo de refugiados, que deu como resultado essa equipe do Oriente Medio com fortes vínculos com uma das equipes mais conhecidas da Europa.

O Celtic FC e seu apoio a liberdade da Palestina

A equipe escocesa tem uma longa trajetória de apoio aos povos oprimidos do mundo. Foram historicamente criticados por politizar o esporte, por levar sua solidariedade a lugares onde o esporte é uma ato político.

Em 2016 os torcedores desafiaram a UEFA durante uma fase classificatória para a Champions League, o mais importante campeonato de clubes da Europa, onde enfrentavam a equipe israelense Hapoel Be’er Sheva. O organismo diretor do futebol europeu ameaçou ao clube com graves sanções se aparecessem símbolos políticos, uma vez que anteriormente a “Brigada Verde”, a ala esquerda da torcida do Celtic, havia exibido uma bandeira com o rosto de Bobby Sands, ex-combatente do Exercito Republicano Irlandês (IRA) que morreu na prisão em uma greve de fome contra o governo de Margareth Thatcher.

Na partida contra a equipe israelense, os fanáticos, encabeçados pela Brigada Verde, levantaram milhares de bandeiras palestinas. Foi um ato de solidariedade dos mais espetaculares do esporte no século, sendo a bandeira palestina um símbolo mundial de resistência para todos os povos oprimidos.

O clube foi multado por esse ato de “rebeldia” e a torcida, em vez de arrecadar fundos para pagar a multa, lançaram o #MatchTheFineforPalestine, uma campanha onde arrecadaram mais de 200 mil dólares para serem repartidos entre o Lajee Center e a organização beneficente médica Aid for Palestinians.

Este apoio está intimamente ligado a história do clube. Em 1887 foi fundado por um sacerdote católico, para arrecadar fundos para os pobres migrantes irlandeses em Glasgow, que fugiam da pobreza extrema e da fome na Irlanda, resultado de anos de crises após a Grande Fome de 1845-1849 das relações rompidas com a Inglaterra a partir de 1870 devido a disputa por autonomia. A comunidade irlandesa, majoritariamente católica, foi discriminada por uma escócia presbiteriana que era hostil ao fluxo massivo de migrantes que cruzavam o Mar da Irlanda. Os irlandeses, através do Celtic, tiveram logo um time de futebol que alcançou o nível esportivo de qualquer outro na Escócia e até da Europa. Foi o primeiro clube britânico e o único escocês a ganhar uma Champions League, em 1967.

O fato de ter suas raízes em um povo oprimido deixou uma marca que os torcedores do Celtic jamais esqueceram, por isso as bandeiras palestinas tem sido um simbolo de resistência no estádio durante décadas. E inclusive Glasgow tem uma longa relação com as lutas internacionais. John McClean e Red Clydesiders, que apoiaram a revolução bolchevique de 1917, os muitos habitantes de Glasgow que se uniram as Brigadas Internacionais contra Franco na Espanha da década de 30 ou os sindicalistas que deram refúgio para chilenos que fugiam de Pinochet.

O apoio da Brigada Verde ao Aida Celtic e a luta palestina pela autodeterminação continua essa tradição. Uma luta heroica que necessita dessa solidariedade para romper o afogamento brutal ao qual está submetido. O futebol permite que eles se sintam livres.




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