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O funk, os evangélicos e o tráfico: o que a Netflix quer com a periferia?

A série "Sintonia", produzida pelo Kondzilla e a Netflix, retrata a vida de três jovens na periferia de São Paulo, se desenvolvendo por três caminhos: o funk, a religião e o tráfico. Existem várias cenas muito interessantes nessa primeira temporada, mas fica a pergunta: o que a Netflix quer com a periferia de SP?

quinta-feira 29 de agosto| Edição do dia

"Sintonia" já entra com força nos bairros de periferia de São Paulo depois de forte propaganda da Netflix e do próprio Kondzilla, que possui um dos maiores canais de música do mundo no YouTube. Mas o que a série tem de progressista sobre a vida na periferia de São Paulo? E o que deve nos deixar com o "pé atrás"? Quais os possíveis caminhos que a série pode tomar e qual imagem o KondZilla e a Netflix querem transmitir? Como você já deve ter visto, vamos ter uma pancada de spoilers aqui: Se você não assistiu ainda, não vai "dar uma de emocionado" nos comentários.

1 - Quem vive boa parte do seu dia a dia no transporte público da grande SP já deve estar acostumado a ter os ouvidos "marretados". E não estamos dizendo aqui sobre todos aqueles que ganham a vida fazendo o seu corre de vagão em vagão, mas sim da própria CPTM, que de dois e dois minutos apita: "90% dos usuários reclamam do comércio ilegal, não compre!". A duvidosa estatística - quem nesse mundão já viu alguma estatística terminar certinho em zero? - desmorona a cada produto que sai de cada vagão. Inclusive quem nunca viu a reação do trem quando o rapa pega alguém? "É trabalhador!", "Deixa os menino trabalhar!". Apesar de não entrar tanto quanto poderia nesse conflito, a série coloca nas primeiras cenas a informalidade do trabalho através de Rita, que sustenta sua vida marretando no transporte público de SP. A informalidade, retratada através da marretagem no começo da série, e inclusive a criminalização e a perseguição ostensiva por parte das companhias de transporte e da Polícia Ferroviária (PF), é uma forte realidade dos jovens e que vem crescendo a cada novo passo dos ataques da reforma trabalhista. As reformas do governo vêm jogando os jovens cada vez mais para a informalidade, seja nos aplicativos como Rappi e Ifood, mas também no comércio informal e na marretagem nos ônibus e trens. 

Leia também: Quem são os jovens que têm suas vidas arrancadas pelos lucros da Rappi, Glovo, Ifood e UberEats?

2 - A série também abre nas suas primeiras cenas o conflito entre todo jovem que tem de escolher entre a vida de adulto, trabalhando no que conseguir para se sustentar, ou seguir o seu sonho, o que na série aparece na esperança no mundo do funk. Nesse universo aparecem as barreiras das produtoras, os plágios e como é o dinheiro que define para onde as coisas vão. Doni é um menino que teve um pouco mais de condições na vida por ser filho de um casal de comerciantes evangélicos e seu sonho é fazer sucesso virando MC. O interessante nesse quadro é que o caminho da música aparece justamente na vida de Doni, que tem melhores condições econômicas e isso permite que ele “possa” lutar por uma escolha, tendo mais chances de alcança-lo, diferentemente de Rita e Nando.

3 - Outra marca importante da série é que em nenhum momento a polícia é retratada com bons olhos, muito pelo contrário. "O que é certo é certo, maninho, a gente é igual você, só que do outro lado": é o que diz um policial ao Nando enquanto estão negociando um valor da lojinha do “irmão Badá” para sua liberdade. A polícia - sempre interpretada por atores brancos - aparece como uma organização que coloca medo na periferia, é externa e só age por interesses próprios. É muito forte sua ligação com o tráfico: em vários momentos a série mostra como é o tráfico que cuida da parte baixa, da venda de drogas e dos problemas cotidianos da periferia – como as brigas entre os moradores, comerciantes, etc – e a polícia age por cima, recolhendo sua parte e administrando por fora. 

4 - O tráfico - sempre interpretado por atores negros - e o crime são partes marcantes da série. Todas as cenas de Nando se alçando nesse mundo se destacam do restante da série. Aqui também aparece uma sensação que todo mundo também tem, de que na periferia de São Paulo "a coisa é mais organizada", o tráfico tem sua estrutura montada, sua hierarquia, suas lojinhas e seus funcionários muitas vezes "de menor", recrutados a partir da miséria e do sonho de rapidamente mudar de vida. Em vários momentos parece inclusive que Nando trabalha para uma empresa e a cada bom serviço prestado vai subindo de cargo. As engrenagens destruidoras do futuro da juventude nas periferias giram movidas por duas correntes de transmissão, a polícia e o tráfico.

5 - Por último, a fé. Rita ao longo da sua história vai se envolvendo em problemas e acaba em uma situação que teve de escolher entre fugir ou ficar na proteção de uma amiga de sua mãe, que é pastora. É aí que começa todo o terceiro caminho da série: a igreja evangélica. Rita no primeiro momento rebate tudo que a pastora Sueli diz, inclusive enfrenta a moral religiosa de que a mulher deve obedecer seu marido em uma cena rápida em que ela enfrenta um bêbado que queria bater na esposa pois “estava com espírito no corpo”. Mas Rita muda completamente sua visão da igreja quando percebe a quantidade de dinheiro que ela movimenta em uma cena muito boa. Ela anda pelos corredores da igreja e se encanta com a agitação do trabalho ao redor do dinheiro recolhido nos dízimos, se encanta com o som das máquinas contadoras de notas. A partir daí, Rita se deslumbra com esse mundo e passa a querer ser pastora. Não por Deus, nem pela fé, nem pela vontade de ajudar as pessoas, mas pelo dinheiro, pelo poder de influência que quem está lá em cima pregando tem. O pastor, vendo essa ambição de Rita, passa a ajudá-la e diz que não há problema algum nisso. Dessa forma, a série retrata como a ambição pelo sucesso e o dinheiro é um valor muito bem aceito na atual moral evangélica. Diferente de boa parte do texto do Novo Testamento e das passagens atribuídas a Jesus - "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar na porta do céus" –, as igrejas atuais se baseiam muito mais no Velho Testamento e defendem a Teologia da Prosperidade, em que o sucesso material é um resultado da glória de Deus, e não mais um dos 7 pecados. 

Mas a gente tem que tomar cuidado. Tudo o que grandes produtoras criam pensando no sucesso de vendas, normalmente tem algum ideal, algum objetivo por trás, uma moral para influenciar nossa visão sobre as coisas e para comprar nossa mente. "Sintonia" retrata muito bem partes importantes da vida na periferia de São Paulo e diz muitas verdades sobre esses três caminhos que a juventude tenta seguir para fugir da vida de miséria, mas a série deixa vários caminhos em aberto e algumas coisas com que a gente deve se indagar:

Um destaque muito importante é que, diferente da maior parte das outras séries da Netflix nos últimos tempos, "Sintonia" coloca só em segundo plano as contradições da questão da mulher e da questão negra. Essas questões poderiam ser muito melhor aproveitadas na série. A verdade é que não se entende muito bem por quê não desenvolve isso. Parece que os produtores devem acreditar que essas coisas de racismo e feminismo são coisas de classe média e ainda que na periferia não tem tanto isso, o que está longe de ser verdade. A latência da questão negra, na série, é forte e poderia ser muito mais explorada, da mesma forma que todo o universo da vida de Rita poderia passar muito mais pelos conflitos de gênero. 

O momento que a série tenta pegar é o do funk ostentação, que estourou em SP e de certa forma tomou o lugar do Rap, que tinha força na periferia e em seu conteúdo colocava a contestação dos problemas sociais. O funk ostentação aparece como uma espécie de espelho e de propaganda das novas condições de consumo na periferia possibilitadas pelo crescimento econômico e as políticas que favoreciam o crédito na época dos governos do PT. O jovem passava a ter como exemplo alguns poucos jovens que conseguiram seu sucesso relâmpago na ostentação, e isso virou um grande mercado de sonhos em que as grandes marcas de carros, motos, roupas e bebidas se jogaram com tudo.

De certa forma, o funk ostentação é uma expressão da miséria ao contrário: é expressão da ansiedade por sair da marginalidade, mas não de forma contestatória ao sistema capitalista que gera essa marginalidade. Pelo contrário, a saída apresentada é a partir da exaltação do consumo e, ao mesmo tempo, acaba sendo a própria propaganda falsa e ilusória desse mundo de consumo.

Em um momento de crescimento econômico, uma política reformista de crédito e incentivo ao consumo, sem que políticas educacionais fortes o suficiente para aumentar a percepção dos jovens sobre esses ideais de consumo e seu papel ativo de transformação política nas periferias, levou a que a mais difundida manifestação cultural nesse local fosse diretamente a homenagem aos principais símbolos do capitalismo, num verdadeiro culto às mercadorias de luxo e à mercantilização do corpo das mulheres.

Isso inclusive afastou muitos jovens da realidade das críticas sociais e de outros gêneros do funk, que se desenvolveram em menor grau, mas chegaram a aparecer por volta de 2013, no calor dos protestos de junho: como o funk realidade e o funk contestação. Mas o funk ostentação começa a cair no mercado da indústria cultural porque a crise econômica não está dando mais espaço para a ostentação. A série esboça, no final, um início de crítica ao conteúdo desse funk, mas não desenvolve muita coisa. Expressão disso é quando Doni diz que quer cantar as coisas que ele vive, "as coisas da favela".

Isso pode ser um sinal de que a série ainda pode entrar na crítica ao funk ostentação, mas não dá para saber se é por aí que os produtores vão querer caminhar. O próprio Kondzilla, em entrevista, diz estar querendo se desvencilhar do funk ostentação. Mas, vamos ver...

Será mesmo que “a favela venceu”?

Kondzilla, em uma premiação de uma revista famosa, deu suas palavras de agradecimento, terminando com a frase, “a favela venceu!”. Mas será que é isso mesmo?

KondZilla é um dos maiores canais de música do mundo, ele cresceu a partir do Youtube e de todo o fenômeno de ilusão que o funk ostentação gerou na vida de milhares de jovens de periferia. Ao mesmo tempo em que a internet abriu todo um novo espaço para que jovens possam mostrar a riqueza da suas batidas e a força que pode ter sua música no mundo, já surgiram também aqueles que tomaram esse espaço para si e vivem da esperança de que todos um dia possam ser o que os grandes MC’s foram e o que KondZilla é.

Na verdade, o que surge são novos Silvio Santos, novos Pelés, novos exemplos para que a juventude siga cada dia trabalhando mais, não desistam do capitalismo e nunca se afastem de uma visão empreendedora de futuro. O caminho que a série parece querer seguir é esse, de que se você tem gana e garra, como Nando, Rita e Doni, você pode vencer os desafios e superar a condição de vida na favela.
Mas o que toda estatística mostra cada dia mais é que exemplos assim estão cada vez mais raros na crise e que isso não passa de mais uma forma de iludir o jovem e evitar que este se revolte contra o sistema capitalista. Ou seja, quem venceu foi o KondZilla, com sua produtora que ganha milhões do sonho da juventude, não a favela.

Só a mudança do sistema capitalista é que pode de fato dar um futuro diferente para a juventude na periferia. Só assim seria possível dizer de verdade que a favela venceu.




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