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O fim da década no Chile: divórcio entre as instituições e a população

Termina uma década de grandes fatos políticos e da luta classes que provocaram uma contundente queda na confiança nas instituições. Uma década que também cresceu a brecha entre um punhado de grandes empresários cada vez mais ricos e mais miséria e falta de direitos aos despossuídos.

quarta-feira 1º de janeiro| Edição do dia

Chile acordou. Este grito que vociferam dezenas de milhares em cada manifestação relata o abrir dos olhos de milhões que estão cansados de mais de 30 anos de misérias que o modelo econômico neoliberal trouxe consigo, e as instituições de Estado que se encarregaram de proliferar as desigualdades e os abusos para a maioria da população trabalhadora.

Neste marco temos que situar a derrubada da aprovação das instituições do regime, fato marcante em dezenas de pesquisas de opinião na última reportagem da edição de domingo do jornal La Tercera.

Nesta reportagem é mostrado como uma gama transversal de instituições tem sofrido uma baixa sustentada e profunda em sua aprovação desde 2010 até agora.

Destacam o caso dos Carabineiros [polícia chilena] por casos de corrupção, subtrações e repressão, que passou de um 61% de aprovação em 2010 para 35% este ano.

Outra derrubada marcante foi o da Igreja que viu sua aprovação chegar a 19% no final de 2019, perdendo 26% em uma década. Outro perda foi sentida pela Procuradoria que em 10 anos perdeu 14%, alcançando os mesmos 19%.

O Congresso, por sua vez, marcado por legislar a favor de um punhado de poderosos empresários e contra as grandes maiorias também marcou uma aprovação de 19%.

Cabe destacar que esta pesquisa do jornal La Tercera se apoia, entre outros, nos resultados das enquetes da empresa CADEM, de Roberto Izkison, conhecido por sua proximidade de Sebastián Piñera e do mundo da centro-direita, e que são dezenas as enquetes que refletiram esta queda, em alguns casos até mesmo de forma mais pronunciada.

A que se deve este fenômeno?

As e os estudantes. Protagonistas da primeira explosão

Para responder essa pergunta primeiro devemos nos deter nas mobilizações estudantis de 2011. Ali é pontuado o primeiro “antes e depois” na política do Chile, quando as e os estudantes, motivados principalmente pela reivindicação de educação gratuita, laica, não sexista, bem como expressando questionamentos ao autoritarismo e à repressão do Governo de Piñera, e à repressão do Carabineiros, entram em cena questionando as instituições do regime, tanto a educação de mercado como a polícia, que foi responsável pelo covarde assassinato do secundarista Manuel Gutierrez.

A força das estudantes e dos estudantes nas ruas foi um rebuliço para o Chile daquele momento, com as manifestações multitudinárias que tornaram visível aquilo que a “democracia” tinha se empenhando em manter guardado sob sete chaves.

Nessa conta também entra o questionamento à Igreja, ligado ao milhares de casos de abusos sexuais que explodiram no Chile a partir do escandaloso caso do ex-padre Karadima, que teve uma ridícula condenação de “oração e penitência” pelo resto de sua vida.

Mas o questionamento também adquiriu outras escalas. A política mudou e os políticos do regime entraram na mira. É aqui que o efeito dominó levou a trazer à luz uma série de casos de corrupção que escancaram a qualidade da “democracia” sobre a qual o Chile estava construído e deixaram nus as relações entre os partidos tradicionais e os grandes empresários, como nos casos SQM e Penta. Milhões para os empresários, como no caso Corpesca, no qual o deputado do Jaime Orpis, do partido UDI, apresentou uma lei praticamente redigida pelas empresas pesqueiras, e estas empresas o financiavam para manter seus interesses e o próprio governo.

Definitivamente várias coisas podem ser resgatadas desses estudantes que resolveram sair as ruas lutando pela educação gratuita. Uma delas é recuperar os métodos que tinham sido anunciados pelas e pelos pinguins, como as marchas, ocupações, assembleias e enfrentamentos com a política. Mas também o questionamento à educação de mercado como um pilar herdado da ditadura, e que seja dito, deixar aberta a porta para rasgar o véu dessa democracia pactuada, onde a Constituição, as leis, as privatizações de todos recursos naturais são parte dos grilhões arrastados a cada dia por milhões de pessoas no Chile, tudo isso para beneficiar os Piñera, os Matte, os Angelini, os Luksic, os Larraín, os Edwards, entre outros.
Mobilizações parciais e o descontentamento latente

Definitivamente o estouro dos estudantes daquele ano de 2011 revolveu a consciência de milhões de pessoas, o que demonstra que diferentes lutas parciais do movimento operário, como a paralisação portuária do ano de 2013, a luta dos professores “indignados” que se rebelaram contra suas paupérrimas condições de trabalho, salários precários e suas direções sindicais como fortes críticas da base de professores a Jaime Gajardo (PC), que dirigia o sindicato Colégio de Professores naquele momento. As direções atuavam sempre que podiam para desmobilizar para manter os acordos e tranquilidade do governo Bachelet, traindo a base.

Por outro lado, nos anos de 2017 e 2018 as mulheres despertaram contra a violência machista devido ao aumento dos casos de feminicídio no Chile e em diferentes países em nível internacional, lutando também por uma educação laica e não sexista, na qual a Igreja não tenha nada que dizer nem decidir, lutando por anticoncepcionais gratuitos e aborto legal para que que as mulheres tenham opção de decidir e não morram na clandestinidade. Com mobilizações históricas, com milhões de mulheres nas ruas, questionaram assim outro dos pilares herdados da ditadura: a penalização do aborto, o controle e a repressão aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e das dissidências sexuais.

A esta longa corrente de heranças pinochetistas da “democracia pactuada” deve ser somada os Carabineiros do Chile. Expressão disso foi o covarde assassinato de Camilo Catrillanca, membro da comunidade Mapuche, baleado nas costas em 14 de novembro de 2018 e que foi depois de morto acusado pelos Carabinero e pelo próprio ministro Chadwick como um ladrão, um delinquente. Tal como na ditadura, os meios de comunicação tradicionais, o Governo e os Carabineiros lançaram uma enorme campanha de montagem para encobertar o assassinato.

Também deve ser somado o caso Huracán, e fundamentalmente o Paco-Gate [ou Coxinha-gate, em tradução livre] quando foi descoberto que 28,3 bilhões de pesos foram roubados pelo Alto Comando dos Carabineiros, demonstrando que isso era uma prática institucional estabelecida. A este caso também se agregam centenas de denúncias de irregularidades, abusos e repressões que se multiplicaram pelas sistemáticas violações aos Direitos Humanos praticadas nas últimas semanas.

A explosão social entre o velho e o novo Chile

Não é possível pensar hoje em dia em nenhuma análise que se refira à distância entre as instituições e a população sem levar em consideração todos esses fatos pontuados anteriormente, e que se há algo nessa década marcada por mobilizações é o divórcio entre as instituições e a população e que a “democracia” que hoje conhecemos no Chile foi construída a favor de um Chile dos ricos, dos poderosos, dos empresários. Um Chile neoliberal que em mais de 30 anos não teve nada a nos oferecer a não ser miséria e uma profunda desigualdade.

É sob essa corrente de acontecimentos históricos que a década voltou a ter sua expressão radicalizada neste 2019, que tornou-se a principal mobilização de massas vivida no país desde o retorno da democracia.

Entretanto, ainda está colocado o desafio de que essa explosão social não seja desviada institucionalmente novamente por estas mesmas instituições desgastadas e deslegitimadas, como o próprio Parlamento, através de um ardiloso processo constituinte, organizado para que nada mude, controlado pelos partidos tradicionais e com poder de veto da direita e dos grandes empresários.

Para que isto não aconteça é preciso de propor derrotar esse processo constituinte mentiroso, exigindo da Mesa de Unidade Social e das centrais sindicais que convoquem um plano de mobilização e uma paralisação nacional na perspectiva de erguer uma verdadeira greve geral para derrotar esse processo constituinte mentiroso e conquistar uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que possa discutir tudo, e onde nenhuma instituição deste velho regime esteja acima dela, para assim debater uma saída favorável às grande maiorias trabalhadoras.




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