Gênero e sexualidade

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O feminismo de Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, publicou um artigo na revista Glamour em que reflete sobre a igualdade, a luta das mulheres e o que significa hoje ser feminista. Obama é feminista?

Celeste Murillo

Argentina | @rompe_teclas

quarta-feira 17 de agosto| Edição do dia

Comecemos pelas verdades que disse Obama: as mulheres conquistaram muitos direitos ao longo da história. E isso é motivo de admiração, especialmente no país desenvolvido que foi o último a reconhecer o direito de voto às mulheres. O que Obama deixa de lado é que tais direitos foram conquistados com a mobilização e a luta – inclusive o sufrágio feminino que, longe das imagens da senhora de anáguas e chapéu, incluiu marchas, piquetes, e a prisão de muitas das que lutaram. Os direitos não foram o resultado do "desenvolvimento e avanço" da democracia; ao contrário, em mais de uma oportunidade sua conquista implicou o questionamento do que se chama de democracia, como quando as sufragistas denunciaram: "Nós mulheres dos Estados Unidos dizemos que os Estados Unidos não são uma democracia".

Em seu artigo, Obama reflete sobre os papeis de gênero, sugere que não devemos julgar as mulheres por exercer livremente sua sexualidade e fala da necessidade de acabar com o assédio e o machismo. Todos bons objetivos e lutas necessárias. Mas se olharmos de perto veremos que ele não fala de medidas ou políticas em grande escala que poderiam, e deveriam, ser impulsionadas por um governo encabeçado por alguém que se autodenomina feminista.

Em um tempo no qual o feminismo se concentrou nas ONGs e nas agendas oficiais, e se distanciou da luta nas ruas e nos locais de trabalho onde estão a maioria das mulheres, é conveniente e cômodo dizer que o feminismo é uma escolha pessoal, uma forma de se viver, e não um movimento contra a opressão.

A versão do feminismo que Obama quer para suas filhas é justamente uma que encarne apenas o que esta sociedade aceita. Por isso, Obama não diz nada sério sobre as batalhas cotidianas das mulheres: o direito ao aborto sob ataque ou as desigualdades monstruosas que vivem as mulheres em geral, especialmente as negras e latinas. Muito menos fala das guerras que ele mesmo, como comandante-chefe do Exército dos EUA, empreende em nome da "Guerra ao terror", e se traduzem em violações massivas, destruição e massacre para as mulheres de países como Iraque, Afeganistão ou Iêmen.

Os discursos e silêncios do presidente de um país desigual

Obama termina seu artigo dizendo: "É disso que se trata o feminismo no século XXI: da ideia de que quando todos somos iguais, somos mais livres". Pareceria um aceno às melhores ideias, se não soubéssemos que seu partido (Democrata) controlou o Congresso durante alguns anos e que ele esteve na Casa Branca por quase uma década, período durante o qual não se avançou no sentido da igualdade que faria mais livres todas as pessoas.

Direito ao aborto. Durante os dois mandatos de Obama as restrições ao direito ao aborto avançaram em muitos estados. Em sua maioria impulsionadas pelos republicanos, mas sem atos de resistência por parte do presidente. O número de estados hostis ao direito ao aborto cresceu desde 2000, atingindo seu pico em 2011 (durante a presidência de Obama). No ano 2000, apenas 13 estados tinham restrições e medidas contra o direito ao aborto; em 2010 eram 22 e em 2013, 27 (Guttmacher Institute).

Obama diz que as mulheres terão a oportunidade de votar em uma mulher, mas se esquece de mencionar que o candidato a vice-presidente de Hillary Clinton é abertamente contra o direito ao aborto. Como governador do estado da Virgínia, Tim Kaine particiopou da criação da lei que obriga as mulheres que desejam interromper sua gestação a um exame de ultrassom (no qual se ouvem os batimentos cardíacos do feto), medicamente desnecessários, como forma de criar obstáculos para esse direito.

Cuidado infantil e licenças. O cuidado infantil universal é uma demanda histórica, junto com a licença-maternidade remunerada, especialmente entre as trabalhadoras, que são metade da força de trabalho nos EUA. A falta de espaços onde suas crianças possam ficar e ser cuidadas é um dos motivos mais importantes pelos quais as mulheres deixam de trabalhar fora de casa, e não por escolha própria. É a primeira vez nos últimos vinte anos que aumenta a quantidade de mulheres (29%) que ficam em casa pelo custo do cuidado infantil. Os gastos semanais nessa área aumentaram mais de 70% desde 1985 (Pew Research Center, segundo pesquisa de 2011). Além disso os EUA são o único país desenvolvido onde não existe licença-maternidade remunerada.

Salários. A lei de igualdade salarial esteve entre as promessas de campanha de Obama e hoje compõe a plataforma de Hillary Clinton. Mesmo que a lei tenha sido bloqueada pelos republicanos, os democratas de Obama nunca se importaram em adiar esse direito em troca de negociações parlamentárias. As mulheres recebem hoje um salário equivalente a 77 centavos para cada dólar recebido pelos homens. E isso não é apenas uma demanda feminista, mas uma desigualdade que afeta diferentes setores: Em 40% dos lares com crianças menores, a principal sustentação da família é a mulher. Isso sem contar o enorme abismo racial que amplifica ainda mais essa desigualdade no caso de mulheres negras ou latinas.

Ninguém nos entregou ou entregará nada

Muitas feministas saudaram as declarações de Obama por representar o "feminismo do século XXI". É inegável que o que disse o presidente do país mais poderoso do mundo signifique um reconhecimento do impacto que têm tido as lutas das mulheres pela conquista de seus direitos. No entanto é igualmente inegável que o "feminismo de Obama" pouco tem a ver com a luta de milhões de mulheres por seus direitos mais urgentes. "Nunca ninguém nos deu nada", já sabiam as sufragistas do início do século XX, e também as militantes do movimento de libertação dos anos de 1970. As democracias capitalistas toleraram e reproduziram a opressão às mulheres durante anos (modernizando o necessário), e as ações do governo de Obama, mais que suas palavras, o confirmam. Todos os direitos conquistados, inclusive aqueles que reconhece Obama, são frutos da mobilização, mas as mulheres sabem que não foram o suficiente para acabar com a desigualdade e a violência. Essa certeza e a mobilização independente de qualquer governo é o verdadeiro feminismo do século XXI, e o único caminho real para a emancipação das mulheres e o fim de toda opressão.

Tradução: Heitor Carneiro




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