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O falcão memorioso e os dias ruins de Donald Trump

Claudia Cinatti

O falcão memorioso e os dias ruins de Donald Trump

Claudia Cinatti

Sobre O quarto onde aconteceu. Um livro de memórias da Casa Branca, John Bolton, Simon & Shuster, 2020.

Junho veio com más notícias para Donald Trump. Sua campanha pela reeleição segue pendente, não apenas nas pesquisas - na maioria das sondagens, Joe Biden tem uma vantagem de 10 a 14 pontos, mesmo no "rust belt" - mas também no mundo real. O ato de relançamento em Tulsa, Oklahoma, fracassou miseravelmente.

Impossível esconder os enormes espaços vazios no estádio. Tampouco havia multidões do lado de fora ou telas gigantes. A explicação para esse fracasso, que pegou o presidente de surpresa e provocou sua ira, ainda está sendo discutida para não repetir o erro pois o forte da campanha ainda está por vir. Algumas razões parecem óbvias, como o clima anti-Trump levantício ou a pandemia. No entanto, o fato de ser em parte devido a uma travessura dos centennials usuários do TikTok, que reservaram todos os lugares, fala por si mesmo do grau de decadência em que se encontra o partido republicano em sua versão trumpista.

Parece que não só a realidade e a luta de classes, mas também a indústria editorial conspiraram para que Trump seja um presidente de mandato único.

Em finais de junho, a publicação de The Room Where It Happened. A White House Memoir, de John Bolton, se somou à crise sanitária causada pelo coronavírus - que vai ao seu segundo surto quando ainda não foram esgotados todos os efeitos do primeiro - à recessão econômica e uma rebelião nacional contra o racismo e a violência policial, despertada pelo assassinato de George Floyd. Neste livro, o enésimo sobre a situação caótica na Casa Branca, o ex-Assessor de Segurança Nacional de Trump faz um relato detalhado do que viu nos 17 meses em que esteve no cargo.

O livro teve uma recepção ambígua na mídia liberal norte-americana que se equilibrou entre a oportunidade de atingir Trump mais uma vez e o incômodo de dar crédito a um personagem como Bolton, um falcão desenfreado que carrega grande parte da responsabilidade pelas guerras no Iraque e no Afeganistão, dois desastres que aprofundaram a decadência da liderança imperial dos Estados Unidos. Por outro lado, ele se recusou a testemunhar no fracassado processo de impeachment contra o presidente. Mas além da correção política, The Room... foi um presente para a campanha democrata e também para os republicanos que atuam na galáxia difusa do "never Trump” e que tentarão a sorte após o fracasso de 2016. Bolton se somou pela direita a essa tribo, mas ao contrário de seus companheiros moderados, tampouco votará em Joe Biden, segundo declarou em uma extensa entrevista na ABC News.

A publicação de The Room ... foi adiada por vários meses, dando tempo a Bolton para incluir algumas linhas de apuração sobre a resposta desastrosa de Trump à crise do coronavírus. E, a propósito, tentar justificar que ele também não ouviu os avisos de que isso poderia acontecer, apesar de as pandemias serem consideradas ameaças à Segurança Nacional e, portanto, eram de responsabilidade de sua área.
O manuscrito foi minuciosamente revisado, censurado pela Casa Branca para proteger segredos de Estado e processado. No entanto, a disputa na justiça, que Donald Trump perdeu no último momento, e a descarga de raiva pelo Twitter no círculo íntimo do presidente contra o ex-funcionário do bigode grosso - que foi chamado de traidor, maluco, incompetente, mentiroso, Inimigo de todos os seres vivos do planeta, e seguem os elogios - acabaram tendo o efeito oposto.

Além da resistência da burocracia estatal, Bolton teve que lidar com a denúncia pública do compositor Lin Manuel-Miranda. O criador de Hamilton, o musical super badalado da Broadway que se converteu em um símbolo contra o racismo, o acusou de roubar o título de uma de suas músicas.

Deixando de lado esses pequenos tropeços, e que não é o que se chamaria uma grande obra literária, The Room ... rapidamente subiu ao topo de vendas no ranking da Amazon e compete com a novela psico-familiar de Mary Trump, a sobrinha deserdada do presidente de iminente aparição, que ameaça prejudicar a imagem de Trump em um registro muito mais popular.

É verdade que a exposição do cotidiano caótico da Casa Branca não tem nenhuma originalidade. Bolton tem definições envenenadas, mas neste momento elas já parecem rotineiras: que Trump não está qualificado para o cargo, que ele acredita que pode governar confiando em relacionamentos pessoais, ou que não tem uma "grande estratégia" em política externa e seu pensamento parece um "arquipélago de pontos" em vez de uma totalidade coerente.

Também não fornece nada de extraordinário que não possa ser encontrado em livros semelhantes ao seu, como Furia e Fogo, de Michael Wolff, e Medo. Trump na Casa Branca por Bob Woodward, o jornalista de Watergate, que descreve detalhadamente o "clima hobbesiano" (Bolton dixit) instalado no mais alto escalão do poder mundial. O próprio presidente fornece material inesgotável em sua atividade diária, de conferências de imprensa a sua conta no Twitter. Portanto, além de algumas pérolas de Trump - que era "maneiro invadir a Venezuela" (cap. 8) ou perguntar se a Finlândia fazia parte da Rússia (cap. 5) - não há maiores novidades. Na verdade, o conteúdo mais suculento do The Room... havia vazado em doses convenientes para jornalistas formadores de opinião e para o "círculo vermelho" do establishment. Com o qual, no momento de seu aparecimento, as principais revelações já eram conhecidas.

Mas mais do que o conteúdo, o que causou comoção é o acontecimento em si mesmo. E não é pra menos. Nem mesmo em tempos de crises institucionais agudas, como no final do governo Nixon, um funcionário de cargo altíssimo havia publicado um relato tão devastador de um presidente ainda em exercício, o que fala por si da podridão que corrói o sistema político burguês.

A Casa Branca lançou uma operação de controle de danos, embora o dano ao barco trumpista provavelmente já esteja na linha de flutuação.

Crise orgânica

Antes de fazer uma leitura sintomática do conteúdo - outro método de abordagem é impossível para as mais de 500 páginas que possui o The Room - vale a pena perguntar por que um conservador veterano como Bolton se transformou em spoiler da campanha republicana. Existem várias hipóteses sobre isso.
Uma é econômica - se comenta que ele recebeu um adiantamento de US$ 2 milhões pelo livro - embora, para dizer a verdade, o homem não passe necessidades: trabalha como colunista permanente na Fox News, onde é amigo da casa, além de outros lugares.

A outra é pessoal. O relacionamento com Trump terminou da pior forma, e é plausível que o livro tenha algo de compensação simbólica. É evidente que o livro tem um estilo arrogante. Bolton exagera seu papel, primeiro na campanha eleitoral de 2016 e depois na equipe de transição de Trump. Ele supervaloriza sua passagem por três administrações republicanas - Reagan e os dois Bush. Ostenta o apoio de setores pró-Israel (judeus e evangélicos), cubanos, venezuelanos e americanos taiwaneses, defensores da "Segunda Emenda" (leia-se milícias, National Rifle Association etc.) e conservadores de direita em geral. E ele invoca a seu favor H. Kissinger, que é como o nome próprio do interesse nacional imperialista.
Mas, embora a carteira e o narcisismo sejam motivos gravitantes em si mesmos, o livro tem um objetivo eminentemente político, que é reivindicar a ala dura da política externa, em particular os neoconservadores partidarios das "guerras preventivas" e do unilateralismo frente aos supostos "moderados", que buscariam recompor a "ordem liberal multilateral" que garantiu a preeminência norte-americana por décadas.

Nesse sentido, The Room deve ser lido como um raio-x das divisões profundas da superestrutura político-estatal, isto é, das tendências à crise orgânica abertas com a Grande Recessão de 2008 e aprofundadas pela presidência de Trump.

Uma aliança tática com data de validade

Do início ao fim, The Room ... é um apelo a favor da estratégia de guerra que Bolton milita há décadas, convencido de que os Estados Unidos têm poder suficiente para agir sozinhos, sem as restrições impostas pelas instituições da ordem "multilateral", como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde Rússia e China têm poder de veto.

Bolton discute contra o senso comum de Washington que considerava que nos primeiros 15 meses Trump esteve contido por uma série de fatores moderadores, em particular, os chamados "adultos na sala". Essa gangue de "adultos" era composta pelos três militares que ocupavam posições centrais - John Mattis, HR McMaster e John Kelly - e membros do establishment, como Steven Mnuchin, o banqueiro "globalista" que ainda está encarregado do Tesouro. Segundo esse consenso, essa etapa de moderação instável, que coincidiu com a hegemonia débil dos generais, terminou quando foram substituídos por funcionários leais ao presidente.

A interpretação de Bolton é exatamente o oposto. De acordo com sua percepção, esses "adultos" só alimentavam as teorias da conspiração de Trump e sua base eleitoral, e que em última instância eram o que o impedia de cumprir o que prometera aos eleitores. Entre essas promessas da campanha de 2016 estavam: a retirada do acordo nuclear com o Irã; retirar-se do acordo climático e ... tornar a América grande novamente (o famoso MAGA).

Antes de integrar o gabinete, Bolton se encarregou de expor suas diferenças com o governo Trump. Para o Irã e a Coréia do Norte, propôs a receita de "guerra preventiva" e "mudança de regime", apesar do fiasco no Iraque e no Afeganistão. Esse intervencionismo não coincidiu com a base eleitoral de Trump, que havia comprado a promessa de acabar com as "guerras eternas" e estava mais próxima do isolacionismo. Apesar dessas diferenças manifestas, o unilateralismo de Bolton estava em sintonia com o "America First" de Trump.

Com Bolton, a política externa imperialista tornou-se mais dura e ofensiva, mas não mudou a orientação geral. E isso colocava um prazo de validade na associação entre "dois policiais maus", piada que Bolton atribui a Trump.

Retrospectivamente, Trump usou essa aliança efêmera com os neoconservadores para terminar de liquidar o que restava do "multilateralismo" de Obama. Bolton foi útil para retirar os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, e também dos acordos sobre limitação de armamento nuclear com a Rússia, que datavam de antes do final da guerra fria. Mas ele não estava disposto a concretizar as guerras com as quais Bolton sonhava. Aliás, Trump ironizou que se Bolton ainda estivesse no governo, os Estados Unidos estariam lutando a sexta guerra mundial.

Na lista de erros de Bolton, lutam pelo primeiro lugar a cúpula de Hanói (para a qual ele não foi convidado) com Kim Jong Un; o retroesso no último minuto para lançar um ataque militar contra o Irã em resposta ao abate de um drone em junho de 2019; e política errática na Síria, onde Trump decidiu não competir militarmente e deixar os dividendos da "pax" para a Rússia, Irã e Turquia.
O homem de bigode grosso arrancou alguns frutos. Por exemplo, ele frustrou uma reunião com o Talibã que Trump e Pompeo estavam negociando para por fim a uma guerra que está prestes a completar 20 anos. E aumentou consideravelmente a hostilidade contra a Rússia.

Na Venezuela, Bolton e outros ilustres direitistas como Marco Rubio, que devem seus postos ao antro cubano-venezuelano de vermes de Miami, estiveram por trás da tentativa de golpe da esquálida oposição contra o governo Maduro, liderada por Juan Guaidó. Como você pode ler em seu livro (cap. 9, “Venezuela Livre”), se tivesse sido bem-sucedida, permitiria uma maior ofensiva imperialista contra a América Latina. Sobre isso se relaciona a reivindicação de Bolton da Doutrina Monroe (América para os americanos) e o discurso diante dos veteranos da invasão da Baía dos Porcos (o homem não perde uma) em que definiu Cuba, Venezuela e Nicarágua como a "troika da tirania", emulando o fatídico "eixo do mal" de George W. Bush.
Segundo o relato de Bolton, Trump, que era favorável à invasão pura e simples da Venezuela, comprou o plano golpista, embora considerasse Guaidó basicamente um tolo e nunca tivesse acreditado totalmente na divisão das Forças Armadas Bolivarianas. Na hora de assumir o fracasso, Bolton responsabiliza a direita venezuelana e a falta de vontade guerreira da Colômbia.

O palácio e a rua

De tudo o que ele descreve nos 15 capítulos de seu livro, há duas revelações que têm o efeito de uma bomba.

Bolton afirma ter estado presente durante a conversa telefônica em que Trump pede a seu colega ucraniano, Volodymyr Zelensky, que acelere as investigações sobre casos de corrupção envolvendo o filho de Joe Biden como condição para liberar os 400 milhões de dólares em ajuda militar quando ele estava em guerra de baixa intensidade com a Rússia (cap. 14). Por causa desse escândalo, revelado por um "delator" do aparato de inteligência, os democratas iniciaram o fracassado processo de impeachment no qual Bolton se negou a testemunhar.

O outro assunto quente é a instrumentalização da guerra comercial com a China para fins eleitorais, o que vai de taxações à prisão de um CEO da Huawei. Segundo Bolton, durante a cúpula do G20 em Buenos Aires, Trump teria pedido a Xi Jinping que o ajudasse a vencer as eleições, aumentando a compra de soja e trigo, particularmente dos estados que poderiam dar-lhe o segundo mandato, em troca de que estava disposto a negociar taxas e outras medidas punitivas (cap. 10). Isso é um golpe na estratégia "anti-China" de Trump para vencer as eleições.

No entanto, existem outros fatores muito mais decisivos do que o registro da atividade diária de um burocrata que poderia selar a sorte do experimento político de Trump. O assassinato de George Floyd por parte da polícia racista foi o gatilho que colocou em atividade um imponente movimento de massas. Segundo uma nota do New York Times, entre 15 e 26 milhões de pessoas (sim, você leu corretamente) teriam participado das mobilizações iniciadas no começo de junho. Essa mudança radical de situação inclui várias manifestações da luta de classes (greves espontâneas de jovens precários "essenciais", de fábricas sindicalizadas etc.) e de novos fenômenos políticos que são prenúncio de radicalização. É certo que há uma atividade febril do Partido Democrata para evitar esse cenário e trazer tudo para o terreno eleitoral. Mas também parece que é muito difícil que um movimento tão profundo desapareça com a vitória, a essa altura bastante provável, de Biden. Esse é o principal medo dos republicanos, dos democratas e da classe dominante imperialista.

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Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti
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