ÁFRICA DO SUL

O extraordinário movimento estudantil sul-africano: um exemplo aos explorados do mundo

Durante os últimos dias, como escrevemos no Esquerda Diário, desenvolveu-se um potente ressurgir do movimento estudantil sul-africano, que atuou como caixa de ressonância contra todas as desigualdades e injustiças do regime pós-apartheid. Nessa nota, queremos demonstrar seus traços mais avançados.

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

quarta-feira 11 de novembro de 2015| Edição do dia

Anticolonialista

No começo do ano, o antecedente do forte movimento #FeesMustFall, que são as recentes manifestações estudantis contra o aumento nas taxas de inscrição, matrícula e alojamento, foram a campanha e a mobilização "Rhodes must fall" (Rhodes deve cair). Refere-se a uma campanha para retirar uma estátua de Cecil John Rhodes da explanada da Universidade da Cidade do Cabo (UCT), uma das mais prestigiosas da África do Sul.

Cecil Rhodes foi um empresário, político e colonizador britânico. Grande defensor do imperialismo britânico, fundou o país que, quando da sua morte, levaria seu nome: Rodésia, cujo território está atualmente dividido entre Zâmbia e Zimbábue. Foi também fundador da influente Fundação Rhodes. Além disso, fundou a companhia De Beers, que na atualidade controla 60% do mercado de diamantes brutos do mundo e que já chegou a comercializar 90%. Suas ânsias imperialistas não tinham limites, queria "pintar o mapa de vermelho (britânico)", e declarou: "todas essas estrelas... Esses vastos mundos que se mantêm fora do alcance. Se pudesse, anexaria outros planetas".

Em março, um estudante lançou excrementos contra sua estátua, desse nefasto personagem que doou terrenos à universidade. A estátua, no centro das instalações, havia sido objeto de protestos estudantis desde sempre, mas dessa vez foi diferente. O Dr. Max Price, vice-chanceler da universidade, afirmou que estava surpreendido pela reação sustentada contra a estátua, pois as manifestações anteriores haviam sido efêmeras. "Conectou-se com a alienação que sentem os estudantes negros; e uma estátua é a forma perfeita de articulá-la", explicou, "a cultura do lugar se sente branca. A arquitetura, inspirada em Oxford e Cambridge, é europeia. Obviamente, o idioma de ensino é o inglês. O que almejamos e o que aspiramos a ser são as universidades de elite dos Estados Unidos e Europa".

A estátua foi vista como um símbolo do passado opressivo da África do Sul, sob o colonialismo e o apartheid, por isso a campanha "Rhodes Must Fall" rapidamente se transformou em um protesto geral pela necessidade de transformação das universidades. Os estudantes alcançaram sua primeira meta ao obrigar a universidade a retirar a estátua de Rhodes.

Após vermos nos recentes acontecimentos ucranianos a queda de estátuas de Lenin, de maneira reacionária, essa ação radical é uma golfada de ar fresco para todos os revolucionários e antiimperialistas do mundo.

Porém a luta dos estudantes não é apenas simbólica, pois em sua pauta de reivindicações no movimento recente, se exige uma transformação universitária e a descolonização - equidade racial, uma cultura do campus diferente, uma reforma curricular que inclua temáticas africanas e suas tradições, incluindo história africana, filosofia, lutas anti-coloniais e o pós-colonialismo, assim como a demanda por mais professores indígenas africanos (há apenas cinco, de mais de 250 professores seniores na UCT).

Um movimento estudantil pró-operário

A outra cara do movimento #FeesMustFall é como este se ligou e se uniu estreitamente à campanha e demanda conhecida como #EndOutsourcing, que exige acabar com a terceirização na Universidade. Isto é, a demanda para que todos os trabalhadores super-explorados por companhias terceirizadas, que realizam distintos serviços, trabalhem diretamente na Universidade com melhores condições de trabalho.

Pela primeira vez, os estudantes formaram uma aliança sustentável com os trabalhadores em alguns campi, e puseram em primeiro plano as demandas destes junto a suas. No processo, algumas importantes conquistas para os trabalhadores foram logradas, sobretudo o "insourcing" (a contratação pela Universidade) e a provisão para os filhos dos trabalhadores de ajuda financeira até que se graduem em Wits (Universidade de Witwatersrand), a outra grande instituição universitária do país (que teve entre seus alunos Mandela), e a Universidade da Cidade do Cabo, e possivelmente outras instituições.

Para que se veja o enorme salto na consciência dos estudantes, vejamos o seguinte comunicado do movimento estudantil dessas Universidades, Wits Fees Must Fall: "Após três semanas de ação de protesto dos estudantes nas instituições de educação superior de todo o país, caracterizada por vários incidentes de violência policial e pela brutalidade da segurança privada no campus de Wits, essas vitórias são testemunho da crença nos princípios do movimento de que não se podem resolver os problemas dos estudantes pobres e da classe trabalhadora negra sem resolver os problemas dos trabalhadores negros marginalizados no campus".

Contudo, mais surpreendente, uma vez conseguida essa vitória parcial e tendo claro que a Universidade não é uma ilha na África do Sul em crise e com um dos níveis de desigualdade social mais altos do mundo, disseram no comunicado de vitória que: "Por último, o insourcing na UCT não é suficiente em um contexto nacional onde a maioria das instituições públicas subcontrata trabalhadores. Esperamos que esse passo fortaleça os trabalhadores e aliados em outras universidades e instituições públicas para trabalharem juntos, com protestos, paralisações e outras ações, para conquistar o acesso ao quadro efetivo de funcionários".

Conscientes das manobras das direções de cada faculdade na aplicação dessas medidas, já que o acordo conquistado foi firmado sem consultar o conjunto dos trabalhadores pela direção local do Sindicato de Trabalhadores da Saúde, da Educação e outros filiados (NEHAWU, por sua sigla em inglês), e que todos os trabalhadores não estão filiados a esse sindicato, os estudantes já criaram a campanha #ReallyEndOutsourcing (#RealmenteAcabarComATerceirização) dizendo que "mais do que nunca aqueles invisibilizados pela sociedade necessitam de nosso apoio".

Partes do acordo ainda permanecem ambíguos, como os benefícios médicos, os incrementos do fundo de aposentadoria, assim como o salário mínimo e outras cláusulas que a UCT vai oferecer aos trabalhadores uma vez que sejam incorporados à Universidade.

Parte de seu caráter pró-operário profundo foi a homenagem, antes que começasse o movimento, ao massacre dos 34 mineiros em Marikana em Agosto de 2012.

Tática e estratégia na luta pela verdadeira libertação do povo negro

Contudo, esses protestos também demonstraram uma nova relação saudável entre os estudantes brancos e negros, com os brancos reconhecendo que era principalmente um protesto dos negros e que eram os estudantes negros que teriam que dirigir. Os protestos demonstraram uma consciência do privilégio associado com o fator de ser branco na África do Sul. Os estudantes brancos reconheceram sua participação desigual na aliança. Em alguns casos, puseram seus corpos a diante, na linha de frente, o que demonstra sua vontade de sacrificar-se como escudos humanos entre a polícia e os estudantes negros, os quais, supõe-se, mais propensos a serem atacados.

Isso desequilibrou as autoridades e a polícia acostumada a reprimir as massas negras, como demonstrou tragicamente o recente massacre de Marikana. Essa relação no interior do movimento estudantil é produto da experiência dos mesmos com o regime do pós-apartheid: a realidade é que, ainda que o governo político "apenas para brancos" possa haver terminado, a dominação branca, em todas as suas manifestações, simplesmente não se evaporou, e a opressão racial continua.

Essa aliança estudantil progressista parece fazer justiça ao que Trotsky defendia a respeito da revolução permanente na África do Sul, quando dizia que: "...a república sul-africana surgirá antes de tudo como uma república ’negra’; certamente isso não exclui a total igualdade aos brancos ou as relações fraternais entre ambas as raças; dependerá fundamentalmente da conduta que adotarem os brancos. Mas é óbvio que a maioria predominante da população, liberada de sua dependência escravizante, porá sua marca no Estado". É essa coincidência plena do problema racial o que parecem haver compreendido os estudantes brancos com suas atitudes valentes frente aos protestos e suas relações diante da maioria de seus camaradas de classe negros.

Esse grande movimento, que está desenvolvendo uma enorme experiência, seguirá dando o que falar. No seguinte vídeo, poderão ver algo do fervor e do entusiasmo libertador de suas lutas:




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