Política

DEBATE COM A ESQUERDA

O estranho atraso do MES de Luciana Genro em perceber o golpe institucional

Após meses aberto o processo de impeachment, com diversos setores denunciando o golpe institucional evidente, como não é um ataque ao PT, mas principalmente aos trabalhadores e à juventude. O grupo de Luciana Genro (MES), parece ter percebido o óbvio apenas nessa quarta-feira, após consumado o processo do golpe e com atos de rua contra o governo golpista de Temer.

Fernanda Montagner

São Paulo

quinta-feira 1º de setembro| Edição do dia

O aparente atraso da percepção dessa tendência do PSOL é resultado de uma política que só foi falar contra o impeachment aos 45 do segundo tempo, quando no dia 17 de abril após o show de horrores do senado mostrou por “A mais B” o caráter reacionário do golpe, não podiam mais relativizar. O que não impediu a corrente de Luciana Genro de após o impeachment continuar com a mesma posição, semelhante à de Marina Silva e da Rede, organização pró-golpe financiada pelo banco Itaú e pela Natura, levantando a política de eleições gerais.

Em texto que divulgaram há seis meses, afirmavam categoricamente que não havia um golpe em curso, e sim apenas um discurso de medo do petismo “Não, não vai ter golpe. O que sim pode ter é o impeachment. Sim, sem dúvida Temer está conspirando para entrar no lugar de Dilma.”, compactuando com o discurso da direita que o impeachment é um processo normal da democracia, independente dos interesses envolvidos por trás dele, independente de que seus autores são a direita mais privatista, homofóbica, machista e latifundiária escravocrata do país. Depois, continua embelezando a Lava Jato “Primeiro alerta. Há um golpe sim em preparação: um golpe contra a Operação Lava Jato. Um golpe pactuado entre PMDB e PSDB para tirar Dilma e abafar toda a corrupção, que começa a chegar neles com força. Nisto há acordo entre governo e PSDB. Ambos querem acabar com a Lava Jato, a diferença é que o PT quer fazer isso derrotando o impeachment, apelando para a unidade pela democracia”.

Assim o MES não só apoia a Lava Jato - uma orientação pró-imperialista que beneficia grandes monopólios petroleiros internacionais - como diz que existe um golpe contra esta operação que é peça chave do golpe institucional. Para essa “esquerda lava jato”, não importa por quais mãos um governo caia, e no caso escolhem apoiar as mãos de um judiciário golpista, arbitrário e ligado ao imperialismo.

Qualquer tentativa de delimitar-se do PT apoiando-se numa Lava Jato, mesmo que se volte também contra os golpistas ou que inclusive ajude a remover o governo Temer, não só se faz funcional aos mecanismos capitalistas de administração de novas crises políticas, mas também termina fortalecendo o papel autoritário do poder judiciário como árbitro para a solução de crises que colocam em cheque a estabilidade do regime burguês.

Em meio às eleições municipais, a candidata do PSOL no Rio Grande do Sul se limitou em declarar: “Hoje é um dia triste para a democracia, estamos vendo se consumar a posse de um presidente que não teve votos. Por isso defendi e defendo eleições gerais”. Se por um lado evita a denúncia direta que foi sim um golpe, por outro defende uma álgebra contraditória ao falar de eleições gerais.

O que parece o mais democrático, na verdade não é a possibilidade de novas eleições, que hoje está colocada sob duas opções: ou um novo impeachment, agora de Temer, e no caso também comandado pelo judiciário e pelo senado cheio de corruptos alheios e contrários aos interesses da população. Ou pela cassação da chapa de Dilma e Temer ainda esse ano, para convocarem novas eleições, pensando que essa segunda opção estaria colocada se Temer não cumprir à risca a pressão da burguesia nacional e internacional de realizar reformas trabalhistas, na previdência e no regime eleitoral tornando-o mais restrito à esquerda.

Ou seja, de duas uma, segue sendo uma política adaptada aos golpistas e aos seus interesses, em nenhuma das duas opções se fortalece uma independência política da juventude e dos trabalhadores; pelo contrário, fortalece a Lava Jato e os métodos arbitrários que foram parte fundamental do golpe institucional, e que se preparam para se voltar contra a população, como vimos na dura repressão dessa quarta-feira.

Depositar esperanças em um processo do judiciário para por fim à corrupção é fortalecer os setores golpistas da sociedade e os privilégios dessa camada de juízes e do STF. E por outro lado, ao falar em eleições gerais, para além de não apresentar um programa claramente delimitado dos golpistas, é funcional à uma política de desvio de eventuais mobilizações das massas. Porque com eleições teríamos um novo ajustador legitimado pelas urnas como reclama mais uma vez a Folha de São Paulo no seu editorial dessa quinta-feira.

Da mesma forma, durante todo esse ano essa política do MES não serviu para preparar a juventude e os trabalhadores para se enfrentarem com o golpe, não realizaram nenhuma exigência de luta às centrais sindicais, nem foram capazes de chamar o impeachment pelo seu verdadeiro nome, que é golpe institucional, e dar assim o sentido de urgência que a situação exige. Combater a direita e seu golpe de forma independente do PT, que abriu esse caminho com seus ajustes, uma independência que também é necessária frente a todas variações patronais, o que não é bem a política do MES, sempre buscando um aliado no PPL, e na Rede de Marina, portanto no Itaú e na Natura.

Em meio às eleições municipais e ao grande rechaço popular ao golpe, Sâmia, candidata a vereadora de São Paulo pelo MES, resolveu falar em golpe, concordando com a candidata a prefeita pelo PSOL, Luiza Erundina. A aparente, e atrasada, mudança de opinião sem sombra de dúvida está ligada à pressa em fazer esquecer o seu golpismo latente através do autoritarismo judiciário, e a dialogar com o setor progressista que odeia a direita e vê o golpe como um ataque, sem que isso mude a política de fundo desse partido, que é seguidista do golpismo de Marina Silva e funcional ao fortalecimento da Lava Jato. Como se fosse possível lutar contra Temer sem lutar contra Moro, ou como se fosse possível ter uma esquerda que é independente do PT, mas não de Marina Silva.

Ou seja, o grupo de Luciana Genro, segue por sua linha a tradição petista de uma esquerda que ignora o elemento da independência de classe. Frente à profunda crise política no Brasil, e à crise com os principais partidos do regime, nós do MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores) colocamos todas nossas forças para nos ligar a juventude e aos trabalhadores, que saíram nas ruas ontem, que estão sofrendo com o desemprego e os cortes, para construir uma força de esquerda anticapitalista que combata a direita, mas também seja independente do PT, que foi o partido que não só abriu espaço para os golpistas, como era sujeitos dos ataques, e por isso incapaz de lutar contra o golpe.

Nesse momento que a juventude mostrou que tem força para responder ao golpe, é necessário que as centrais sindicais e estudantis, que até agora impediram qualquer luta contra os golpistas, preparem um plano de luta, rompendo com a paralisia petista, só é possível construir uma verdadeira resistência fazendo um novo "Junho", completamente independente do PT. Ao mesmo tempo que nossas candidaturas para vereadores estão colocadas a serviço de ser uma voz anticapitalista que expresse e seja parte das lutas, para construir uma alternativa política à esquerda que resista ao golpe e aos ataques e se coloque contra esse regime de subornos e reacionário.




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