Cultura

LITERATURA

O escritor: sua época e outras épocas

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 28 de junho| Edição do dia

Existem momentos na história da literatura em que os escritores se esforçam para entender sua época. Não é aquele esforço isolado, aquela voz baixinha que resmunga ou olha com complacência para a realidade. É uma vontade criadora apoiada na necessidade de intervir no processo histórico e logo de entender a própria história. Edmund Wilson no seu clássico ensaio A Política de Flaubert (1937) , nos diz que entre os autores realistas do século XIX, havia um intenso interesse pela história. Ainda que muitos realistas e naturalistas não fossem pessoas de esquerda, autores progressistas, o interesse pela história os aproximava dos grandes problemas humanos. É este interesse pela condição humana que leva um escritor a pensar sua época e outras épocas nas suas contradições fundamentais. É o que escritores e críticos da geração de Wilson, tentaram realizar ao longo dos anos 30.

O escritor francês Gustave Flaubert, objeto de análise no referido ensaio de Wilson, não era lá muito politicamente avançado: ele não endossava as ideias socialistas. Porém, em obras como Madame Bovary e A Educação Sentimental, existe no retrato realista a hostilidade ao burguês. Segundo Wilson: (...) "Flaubert tinha mais em comum com o pensamento socialista de sua época e foi talvez influenciado por ele mais do que algum dia se permitiria confessar. Nos seus romances,, nunca é a nobreza, cuja mediocridade não se distingue da burguesia, e sim os camponeses e os trabalhadores que figuram como pedra de toque para ressaltar a mesquinhez e a capciosidade do burguês"(...).

É Ainda Wilson que traça um curioso paralelo entre Flaubert e Marx: (...) "Quando assim procedemos, damo-nos contra de que Marx e Flaubert partiram de pressupostos muito semelhantes e foram impelidos por objetivos morais quase igualmente irredutíveis. Ambos detestavam implacavelmente o burguês, e ambos estavam decididos, ao preço de qualquer sucesso mundano, a manter-se fora do sistema burguês"(...). O repúdio pela sociedade burguesa, leva um escritor a assumir diferentes posturas estéticas: tanto a rebeldia individualista na poesia de Baudelaire quanto o retrato realista na prosa de Flaubert, são posturas importantes para pensarmos formas de oposição artística . No caso dos autores que possuem perspectiva histórica e compactuam com a análise e o projeto político de Marx, a maneira de narrar os fatos num romance nunca flutua no vazio. Estes escritores olham para além das aparências sociais: eles aprendem e ensinam sobre aquilo que eles observam/analisam.

O mesmo podemos afirmar quando tais autores dirigem sua atenção para o passado: para um escritor de esquerda(e não basta ser realista para ser de esquerda), não interessa “ a nostalgia do exótico “. O escritor de esquerda olha para sua época e para outras épocas tendo como referencial as lutas das classes exploradas e dos segmentos sociais oprimidos. Ele não quer saber se Cleópatra e Marco Antônio formavam um belo casal, mas sim compreender as condições de vida dos camponeses e escravos no período. Ele não quer louvar o Parteton mas sim dedicar sua atenção às mãos anônimas que o construíram. Ou seja, os oprimidos de ontem e de hoje são os protagonistas nas obras literárias. No plano da prosa isto demanda enredos que permitem olhar com criticidade e desprezo o mundo das classe dominantes. Como salientou Walter Benjamin, a estética naturalista de Zola conseguiu representar a França dos anos 60 do século XIX, porque Zola desprezava a sociedade burguesa.

Se o realismo de Flaubert e o naturalismo de Zola podem ser adquiridos em qualquer sebo ou livraria, existem autores contemporâneos que herdaram tais procedimentos estéticos à luz das conquistas expressivas da modernidade, e que não são tão conhecidos pelo público brasileiro. Pensemos por exemplo no escritor norte americano James T. Farrell. Nascido numa família trabalhadora de origem irlandesa-católica, em Chicago, Farrell foi durante os anos 30 um escritor engajado. Segundo ele, “ a maior conquista no mundo era ganhar por si mesmo o direito de dizer: eu sou um artista “. Sua obra prima é a trilogia Studs Lonigan: Young Lonigan(1931), The Young Manhood De Studs Lonigan(1934) e Judgment Day(1935). São retratos inovadores dos irlandeses de classe média baixa no South Side de Chicago.

Nota-se na obra de Farrell a fusão entre o realismo e o naturalismo, além da inserção da técnica do chamado fluxo de consciência. É curioso como o interesse pela história e pelos problemas concretos da população, foram marcas no trabalho de boa parte dos escritores dos anos 30, em várias partes do mundo. Diante do quadro desolador da crise econômica internacional, os intelectuais sentiam a necessidade de não apenas fotografar os problemas decorrentes da grande depressão: tais intelectuais/escritores lutavam por transformações políticas. A sensibilidade literária é fundamental para refletirmos sobre a crise da sociedade capitalista. É o que Farrell faz especialmente no terceiro livro de Studs Lonigan(ou seja, Judgment Day).

A classe dominante não pode dizer quem ela é e o que ela faz com os trabalhadores. A literatura é um caminho que permite expor o que os capitalistas ocultam. Os escritores de esquerda, de ontem e de hoje, sabem quais são as necessidades históricas da sua época(e de outras épocas).




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