Teoria

FORÇAS ARMADAS / GOLPE DE 64 NO BRASIL

O encouraçado Potemkin no Brasil de 64 e os herdeiros do torturador Ustra

Gilson Dantas

Brasília

sábado 17 de agosto| Edição do dia

[crédito de imagem: site historytoday.com]

O espectro da Revolução Russa, quem diria, anda rondando generais brasileiros.

Eis que mais um deles, agora o general Rocha Paiva, se ocupa da Revolução Russa.

O último a fazer isso, e o de mais alta patente, foi o general Villas Boas, chamando a atenção para Trotski: “Trotsky foi um líder revolucionário, goste-se ou não dele. Era um prosélito poderoso em favor da revolução e também um homem da ação. Ao mesmo tempo em que escrevia compulsivamente, formava o Exército Vermelho”.

Pois é. Não se trata de que o então chefe do Exército brasileiro morra de amores por Trotski, tudo ao contrário, mas sua declaração tem significado especial, analisado, em seu tempo, pelo Esquerda Diário.

Agora temos mais um general, Luiz Rocha Paiva, que para argumentar contra a anistia a militares que foram contra o golpe de 64, recorre a acontecimentos da história da revolução russa de 1905.

O general Rocha, prefaciador do livro do notório torturador Ustra, atualmente, dá as cartas na Comissão Nacional de Anistia [ou da Verdade], e seu papel naquele órgão tem sido essencialmente protelatório, partindo da sua convicção ideológica de que é “terrorista” todo aquele que se opôs à ditadura militar. Nas mãos dele e de funcionários de Bolsonaro, esse órgão funciona hoje como uma comissão da vingança contra quem foi perseguido pela ditadura militar.

Nesses dias, o general da Comissão foi além, assumindo abertamente que militar que foi contra o golpe não pode ter anistia aceita.

A verdade é que em 1964, grande número de militares de média e baixa patente se levantaram contra o golpe. Havia sublevação em marinheiros, sargentos, na base das Forças Armadas, todo um setor que buscava aliança com os metalúrgicos, tudo isso no marco de uma situação revolucionária [diante da qual o partido de mais peso em trabalhadores, o “partidão”, o PCB, diretamente sabotou aquela potencial aliança, que incluía elementos de auto-organização, entre operários e militares sublevados].

Qual o argumento do general Rocha?

O general da Comissão da verdade, ao declarar seu voto contrário a qualquer anistia a militares antigolpe de 64, argumentou que o Exército, em 1964, estava diante de um encouraçado Potemkin em marcha.

[De fato, havia, naquela revolução russa, um processo revolucionário de decomposição da base das Forças Armadas e que poderia fugir ao controle da cúpula militar capitalista, daí a metáfora].

A imagem que ele usou [do “risco Potemkin”] é forte e cheia de significados: com esse navio, militares se rebelaram contra o regime e se lançaram a apoiar a Revolução Russa, lutaram em armas contra seus superiores, se somaram à revolução em curso que, derrotada ali, iria triunfar em 1917.

O general Rocha foi além.

Nas suas palavras, ele diz que “se lembrou de ter visto pela televisão, como ´um guri de 12 anos´, o motim de fuzileiros navais dentro do sindicato dos metalúrgicos no Rio de Janeiro”, foi enfático:

"Na televisão, eu vi os fuzileiros cercando e sendo aliciados pelos marinheiros que estavam dentro do sindicato, jogando os fuzis no chão, entrando e aderindo ao movimento. Aquilo parecia o ’Encouraçado Potemkin’ no Brasil", disse Rocha [...].

"Esses amotinados não são vítimas de perseguição política, não estavam em ato político. Eles estavam em uma rebelião que comprometeria toda a hierarquia e a disciplina", disse o general, autor do prefácio do livro de uma das edições do livro de Carlos Alberto Brilhante Ustra, "A Verdade Sufocada".

Revoluções tendem a decompor a base militar e baixa oficialidade das Forças Armadas; mais de uma vez isso aconteceu, como se viu em Portugal em 1974, com formação de órgãos semi-soviéticos com setores do exército.

O general bolsonarista entendeu isso claramente [parece ter feito seu dever de casa].

O que se vê, portanto, é que, por um lado, o setor mais reacionário dos generais, consegue ter alguma noção do risco de uma situação revolucionária para o sistema. E sabe, como soube o golpismo cívico-militar de 64, que o inimigo é a classe trabalhadora [e uma aliança sua com setores militares]. Eles têm consciência, portanto, de que esse era o problema sensível e estratégico em 64.

Mas e do outro lado? A esquerda de mais influência hoje, tem a mesma lucidez [de classe]? Ou, à semelhança do PCB de 64, ainda não aprofundou até o final o tema estratégico?

Quando se ouve depoimentos da esquerda petista e stalinista de hoje sobre 64 [vide depoimento da professora Anita Leocádia, do Rio] o que costuma prevalecer é a ideia de que o problema de 64 foi o de que a esquerda errou em tentar radicalizar um processo que não era radical. Na sua opinião, a saída estava em continuar articulando com Jango, coisa que o partido operário de mais peso na época realmente fez, praticando a estratégia derrotista de conciliação de classe.
Na estratégia da esquerda stalinista de então, não há o momento Potemkin.

Para os generais reacionários sempre há.

Para estes, a revolução proletária é, historicamente, atual.

Na outra ponta, o que faz a esquerda de mais peso? Ela, de fato, pauta a atualidade da revolução proletária [para além de comemorar a Revolução Russa nas datas históricas]? Ela tem uma estratégia que leva em conta a revolução como um processo concreto, a insurreição, o novo poder, o Estado de novo tipo, proletário e democrático?

A questão atual é: terá a esquerda – incluindo a direção do PSOL, a chamada esquerda petista – tirado as conclusões do próprio golpe de 64? E a burocracia sindical, a CUT, por exemplo, qual tem sido sua estratégia contra o moderno golpismo que vem mais abertamente desde 2016, atacando direitos dos trabalhadores? No real, ela vem reeditando ou não a política da negociação nas alturas, da resistência passiva?

A política de negociar pelas vias parlamentares, sem trazer para o centro do palco a auto-organização, a aliança operário-estudantil, sem criar volume de forças com política de independência de classe, pode levar a outra via que não seja derrotas? Não foi essa política a que deu passagem ao golpe militar de 64?

É ou não é atualíssimo um debate de estratégias, que considere uma política de unidade de ação pela base para golpear a nefasta burocracia sindical e fazer a classe trabalhadora avançar com força própria?

Ou, voltando aos generais: ao se remeter ao Potemkin, eles sabem o quanto é sempre real um Potemkin em uma situação de levante de massas, sendo este o grande risco para suas posições reacionárias e a manutenção da ordem burguesa.
Tem ficado evidente que o risco da revolução, o risco do pensamento de Trotski [general Villas Boas] já integra o pensamento estratégico dos donos do poder.

E de parte da esquerda de mais visibilidade? Com que perspectiva trabalhar?

Pensamos que aquilo que destacadamente aparece na pauta, para uma reatualização da própria esquerda, é - inspirando-se no legado da Revolução Russa, de tantas revoluções – levantar organismos pela base [em estudantes, trabalhadores]; é desenvolver uma estratégia com centro de gravidade fora do parlamento, que use o parlamento à maneira do PTS na FIT-Unidade na Argentina [como ponto de apoio para o movimento de massas]. Para desenvolver alas revolucionárias nas oposições sindicais, na UNE, em todo lado onde seja possível construir volume de forças. Com o programa que articule medidas imediatas, transitórias, com o fim da dívida pública e medidas contra o desemprego, a miséria, com confisco dos grandes monopólios imperialistas.

Se faz necessária uma esquerda que não inclua nos seus objetivos qualquer tipo de “unidade” política com a burguesia [os PSB, PTB, PT, partidos de conciliação de classe] e, ao contrário, que se lance a construir a força da classe trabalhadora e seus aliados, para assegurar um governo dos trabalhadores e povo pobre.

Uma esquerda que promova o debate estratégico até o final, a partir de experiências históricas como foi a de 64 aqui.

Esses generais pró-imperialistas e golpistas já entendem o poder pedagógico e estratégico da Revolução Russa.

Cabe à esquerda mais consciente se colocar à altura dos desafios atuais, levando em consideração que os tempos para a apropriação político-estratégica daquele legado se aceleram.




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