Cultura

ESQUERDA DIÁRIO ENTREVISTA

O dramaturgo Lucas Moura e Felipe Scalzaretto, ator da peça Centreville

segunda-feira 29 de agosto| Edição do dia

Em um momento ímpar da história brasileira, enfrentamo-nos hoje com o golpe institucional em curso, levado a frente para retirar direitos sociais e abrir caminho para ataques nunca vistos nas leis trabalhistas. Viver esse momento hoje nos leva ao passado de combate ao regime ditatorial e por conquistas salariais e de vida, arrancadas com muito enfrentamento à ditadura nos anos 60, 70 e início dos 80. Assim se constituiu o Centreville, com milhares de famílias ocupando casas e impondo sua presença na cidade de Santo André. Trabalhadores e trabalhadoras que mostraram coragem e determinação para garantir para si próprios e suas famílias uma garantia de futuro.

ED: Qual a relação da peça com a realidade atual do país?

Quando começamos a construir a peça ainda não existia no horizonte a perspectiva do impedimento, mas começamos a escrevê-la enquanto acompanhávamos toda a realidade política do país. Toda vez que mudava o cenário político, acompanhávamos e mudávamos toda a dramaturgia junto. A luta do Centreville é muito política e quando acontece o golpe e o Temer assume o poder, o contexto é outro, hoje já são vários dias de golpe e a influencia que o próprio PMDB teve durante o processo no Centreville faz com que tenhamos outra abordagem dramatúrgica sobre a peça.
Começamos por uma pesquisa mais pura sobre o processo de luta, e os acontecimentos políticos fazem o processo dramatúrgico como um todo mudarem. Durante os ensaios, paramos várias vezes para debater politicamente, sobre várias coisas que estavam acontecendo. Houve ensaios que paramos para debater sobre pronunciamentos, ou mesmo quando grampearam o telefone do Lula. Fomos nos embrenhando na história da luta política do Centreville e como ainda hoje ela ainda reverbera, então vemos como toda a história vai se redimensionando depois do golpe. Ficávamos pensando, sempre depois de varias discussões em meio aos ensaios, como seria contar essa história de luta popular hoje, em meio a esse turbilhão político, falar de algo que demonstra esse poder do povo.

ED: Como surgiu a ideia da peça e qual a importância de apresentá-la ao público neste momento?

No meio dessa corja nojenta de políticos, apresentar essa história é muito importante. Sempre morei no Parque Marajoara, bairro vizinho do Centreville, então sempre ouvi comentar sobre as histórias do Centreville, e conversando com o pessoal do bairro, várias senhoras contam histórias da época de luta, contra a polícia e contra a ditadura. Isso tudo voltou à minha cabeça, quando estudava dramaturgia e um professor me apresentou um livro de um escritor chamado Christian Dunker. No livro “Mal estar, sofrimento e sintoma, uma psicopatologia do Brasil entre muros”, ele analisa o Brasil como um grande condomínio, o jeito que pensamos de forma condominial e conservadora, e ele analisa os efeitos e o mal estar disso nos brasileiros. O autor tem uma frase que eu gosto bastante, o contrário de mal estar não é bem estar, é simplesmente estar, e isso eu acho que tem tudo a ver com a questão da moradia. Ele usa como alegoria o filme Alphaville, do Godard, uma cidade onde as pessoas não têm mais sentimentos, e é algo terrível. Aqui, no Brasil, reproduziram essa distopia em Barueri/SP, onde construíram esse condomínio, e o Centreville surge com esse modelo, quando eu vi isso aí, toda a ideia veio à minha cabeça, então eu chamei todo mundo e fizemos o projeto em um dia, entregamos e passamos.

Tínhamos ideia de analisar hoje o que é o Centreville e o seu projeto inicial, dessa distopia até essa utopia ao molde desses caras. Analisamos a ditadura de forma que sejam ridicularizados, justamente mostrando que o povo tem o poder, e eles não. Pensar isso hoje, nesse novo contexto político, é muito louco, porque na peça fazemos referências o tempo todo entre o período da ditadura militar e o período atual, por isso a memória é nosso ponto de vista mais atual.

ED: À partir da própria história do Centreville, vocês puderam acompanhar a atuação do PMDB na política brasileira. Como vocês enxergam essa atuação, desde a perspectiva do golpe?

A relação com o PMDB é retratada em uma das cenas que mostra a desapropriação do Centreville, em 1986, onde o PMDB vem ao Centreville, com o discurso de defesa da democracia. Para nós, que somos de esquerda e analisamos esse contexto, buscamos relacionar o que eles diziam na época, para expor as contradições destes mesmos que orquestraram o golpe, de modo a mostrar às pessoas que não são de esquerda, a atuação que eles têm até hoje. O texto conta com diferentes pontos de vista e opiniões de toda a equipe. Não é só contar a história do ponto de vista da história. É lembrar o que foi, mas com base no que somos e pensamos hoje. Olhar para trás e perceber esse movimento do PMDB daquela época e de como é até hoje, expondo a discrepância do discurso, e o poder que utilizam sobre isso, que é bastante momentâneo, como num jogo de xadrez, que estrategicamente pensam seus interesses e quem irão sacrificar em meio a essa manutenção de cargos e poder. Nessa analogia, somos os peões, mas também a grande massa, que percebendo seu poder de opinião, sobre o que foi, o que está acontecendo e o que pode vir a ser. O que esperamos é internalizar essa crítica com esse trabalho, poder criar um espaço de discussão com as pessoas, onde possam inclusive discordar da gente, mas entender a necessidade de ter opinião e se posicionar, de modo a prevalecer um regime democrático, e não de um governo golpista.

ED: A memória coletiva é um fator importante na hora de contar a história de um povo. E a peça “Centreville” cumpre também esse papel de registrar a memória. Qual a importância disso para as pessoas que não acompanharam o processo de ocupação do bairro?

A memória ganha uma dimensão muito grande devido o momento atual que vivemos, onde fantasmas de outro período retornam com uma roupagem diferente. Resgatar a memória de luta, especificamente na região do ABC, que foi palco de uma forte resistência, torna-se ainda mais importante, no sentido que essa luta do Centreville seja redimensionada no futuro. Não queremos só retratar o passado, mas mostrar que a história se repete, e o povo deve sempre resistir frente a um governo autoritário.

Nós que estamos próximos aos 30 anos e militamos e lutamos, de certo modo, nos cansamos em algum momento, mas retratar o passado e ver outras expressões de resistência, bem como vimos a ocupação de secundaristas, por exemplo, faz retornar esse espírito, esse ânimo de que a história é viva e a galera ainda está lutando no país, e isso dá uma energizada. A própria E. E. 16 de julho é nosso principal foco, porque os próprios jovens da região não sabem da luta, e foi aí que decidimos que é para lá que a gente vai, para resgatar essa memória. Inclusive, durante um debate recente que houve na peça, uma garota expôs uma situação de tentativa de abuso dentro de uma ocupação na escola, e houve forte mobilização que impediu a violência; coletivamente reconheceram a gravidade do ocorrido, e a necessidade de se discutir sobre e rechaçar atitudes como estas, ainda mais em meio a esses espaços de lutas coletivas.

Queremos mostrar desse processo aos moradores que vivenciaram isso, como uma homenagem mesmo e um reconhecimento da importância dessa luta, mas o principal foco é reavivar essa memória, e apresentá-la a quem não a conhece; ainda mais nesse período em que se retoma o conservadorismo na sociedade. É onde se faz necessário falar mais alto do que essa ultra direita que vem surgindo fortemente, instaurando um regime do medo, do silenciamento. Mas que, ainda assim, a gente não pode perder a confiança de que as coisas precisam mudar, de que não podemos fugir da luta, temos de resistir, e não nos calar.

ED: Como você enxerga a atuação das mulheres dentro desse processo, sobretudo neste momento em que a presidente Dilma passa por um processo de impedimento?

Bem como noutras importantes lutas, as mulheres foram grandes protagonistas, e buscamos explanar bastante isso. Se existe utopias hoje, elas têm vozes de mulher, é no acreditamos muito. Vemos também, nesse período de golpismo que não conta com a presença de nenhuma mulher, recolocar-se de maneira bastante clara o símbolo do patriarcado brasileiro. E as lutas das mulheres hoje é a luta de todos, é para onde devemos apontar.
Eu não acredito que tirar a Dilma do poder decorra apenas dos ditos crimes de responsabilidade, ainda que tenhamos inúmeras críticas ao PT, elas se intensificam com um machismo enraizado que repudia o fato de ter uma mulher no poder.

ED: Qual a lição que a luta do Centreville traz para as pessoas hoje?

Pode soar anarquista, mas precisamos pensar a proteção do Estado como uma forma de controle. Quando percebemos, como na luta do Centreville, que podemos nos organizar sem a intervenção do Estado, é aí que ocorrem as verdadeiras mudanças. E o que falamos é que, quando os moradores não tinham nada, nem uma garantia por terem perdido tudo, eles ficaram sem esperança, mas também sem medo. E o fato de não terem nada, impulsiona a se movimentarem e resistirem para novas conquistas.




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