Política

GOLPE CONSUMADO

O discurso de Dilma e um diálogo com os que estão contra o golpe

Dilma fez um discurso dentro do Palácio do Planalto e outro do lado de fora para alguns poucos milhares de apoiadores após a suspensão de seu cargo.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

quinta-feira 12 de maio de 2016| Edição do dia

Dilma fez um discurso dentro do Palácio do Planalto e outro do lado de fora para alguns poucos milhares de apoiadores. Dentro, colocou atrás de si os ministros e ao lado os principais senadores e deputados. Do lado de fora, as principais figuras petistas ao seu lado, com Lula (que não apareceu dentro), Rui Falcão, Mercadante e outros.

Dilma denunciou novamente que se trata de um golpe, que o que está em jogo seria a democracia e as conquistas sociais, destacando entre elas o pré-sal. Do lado de fora, agregou a denúncia nominal a Eduardo Cunha e que não aceitou chantagens e que por isso veio o impeachment.

Apresentou-se novamente como mulher, dialogando em especial com as mulheres do lado de fora, que soube enfrentar dificuldades, da tortura, do câncer e agora da injustiça, o que no palco de fora com alguns poucos milhares de apoiadores agregou “injustiça e traição”.

Disse que o governo dela não cometeu nenhum ato repressivo contra movimentos sociais e reivindicatórios indicando que Temer vai fazer isso. É verdade que Temer vai fazer isso, sendo natural para um governo que visa impor uma agenda dura de ataques e que seguramente vai enfrentar resistência. Isso já expressou no anúncio de um ministério absolutamente reacionário e de que vai fortalecer o peso das Forças Armadas nas Olimpíadas e que vai retomar o cargo extinto por Dilma em outro de “inteligência”, o “Gabinete de Segurança Institucional”. No entanto, se trata de cinismo Dilma dizer que não cometeu “nenhum ato repressivo”, tendo sido quem fez a lei anti-terrorista, quem cortou ponto de diversos grevistas como das universidades federais e ecetistas, quem mandou a Força de Segurança Nacional nas obras do PAC que se levantaram contra a superexploração como em Jirau e que mantém as tropas no Haiti e apoia as UPPs.

Em seu discurso, Dilma quis expressar que não está “entregando a luta”, dizendo desde o começo que se trata de uma “suspensão” do mandato, que “vai lutar para exercer o mandato até o fim, em 31/12/2018”. Disse que “luta contra o golpe é longa, pode ser vencida e vamos vencer”.

No entanto, fez questão de marcar claramente a estratégia petista ao dizer aos que são contra o golpe para “nos manter unidos, mobilizados e em paz” e que “vai resistir por todos os meios legais” e que “vai mostrar ao mundo” o golpe. Trata-se da estratégia de exercer uma “oposição responsável”, que pode até aumentar o tom dos discursos, tentando resgatar a faceta petista de partido que defende as demandas dos trabalhadores e do povo pobre, fazendo oposição parlamentar a alguns ataques, mas que não vai colocar centro na mobilização e sim na oposição parlamentar, eleitoral, jurídica e diplomática internacional (dizem que pode vir a recorrer a OEA e Corte Interamericana de Direitos Humanos), ou seja, “em paz”.

A todos que estão contra o golpe, mobilização que nós do MRT e do Esquerda Diário somamos todos os nossos esforços para fortalecer, fazemos uma consideração e um chamado.

Chegamos até aqui porque o PT no poder reproduziu os mesmos métodos corruptos, a busca de alianças com setores reacionários, a imposição da paralisia nas organizações do movimento de massas e nos sindicatos e adotou o programa neoliberal. Desde quando se instaurou o processo de impeachment, a estratégia foi não impulsionar um plano de luta efetivo a partir dos sindicatos que pudesse barrar o golpe, o que só poderia se dar se ligado a luta em defesa dos direitos e contra os ajustes. Somente alimentou a ilusão de que iriam barrar o golpe na Câmara e agora vociferam que foram “traídos”. A traição é um método típico daqueles que não tem nenhum escrúpulo e não poderia ser diferente com estes símbolos do reacionarismo do país. O número baixo do lado de fora do Planalto na saída de Dilma expressa novamente como o PT não quis e não pode seguir mobilizando setores de massa contra o golpe porque desmoralizou este movimento com sua estratégia apostar nas negociatas, manobras jurídicas e showmicios. O objetivo central é se preparar para as próximas eleições de maneira “responsável”.

Nosso chamado é para não ter nenhuma ilusão nessa estratégia petista ou em mobilizações sérias das direções governistas. Isso só pode se dar com um movimento que se fortaleça muito em base a solidariedade e triunfo das lutas em curso. A juventude está se colocando na vanguarda da luta, com uma onda de ocupações de escolas, greves e agora ocupação de universidades como na Unicamp e cursos como Letras e educação da USP, na linha de frente da greve das universidades estaduais paulistas que começa hoje também no Sintusp. Também estão em curso outras greves de trabalhadores contra os ataques.

Partindo de constituir essa força pela base, insistimos na exigência que as centrais sindicais (como a CUT e a CTB) revejam seu estratégia de "showmícios" que não leva a lugar algum e que construam mobilizações, paralisações e greves. Que os trabalhadores devem fazer essa exigência dos sindicatos, para nos mobilizarmos com tudo contra esse governo golpista e os ajustes e ataques mais duros que pretende fazer.

Nosso chamado é para que todos aqueles que se colocaram contra o golpe, que voltem suas forças para que essas lutas triunfem e para colocar de pé um grande movimento nacional contra o governo Temer golpista e os ataques deste e de todos os governos que a partir de agora vão vir com sua agenda ainda mais dura de ataques.

Não haverá resolução dos problemas do país com a Lava Jato, nem com uma reforma política controlada por cima como anunciam o próprio Renan e outros reacionários, nem com as eleições gerais, pois sem mudar as regras do jogo, só poderá servir para dar fôlego a um regime em crise. Só poderemos encarar os problemas estruturais do país em base a uma mobilização que parta da luta contra os ataques dos governos e da luta para colocar abaixo esse governo golpista, que enfrente o conjunto da corja de políticos burgueses e corruptos do país e imponha uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana, como parte da luta por um governo dos trabalhadores.




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