Política

LAVA JATO

O dia das escancaradas "convicções" tucanas da Lava Jato: novos cenários na crise?

Hoje a Lava Jato escancarou suas conexões tucanas. Seguindo anúncio do ministro da justiça, o tucano e repressor Alexandre de Moraes, a operação foi conduzida hoje tendo exatamente como alvo quem ele parecia indicar ontem: Palocci, ex-ministro petista. Esse mostrar das plumas move novas contradições e pode ter sido um passo arrogante de ala que está vitoriosa. Achando-se imbatível pode provocar novo embaralhamento das cartas na crise política.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 26 de setembro| Edição do dia

Foto: Sérgio Moro recebendo prêmio da LIDE, entidade empresarial presidida por João Dória Junior, candidato tucano à prefeitura de São Paulo

A operação Lava Jato como boa operação midiática teve um "spoiler". Quem deu o spoiler foi o ministro da Justiça, o tucano Moraes. Vitoriosos no golpe institucional, e entre tantos perdedores nas eleições municipais, o tucanato está bem localizado, liderando São Paulo e Belo Horizonte com chances de ir ao segundo turno em Porto Alegre.

Vitoriosos, porém arrogantes, acham que são imbatíveis e escancaram algumas pegadas suas na operação, podendo abrir novos jogos na crise política nacional. Aumentando a falta de legitimidade da operação, a certeza de sua arbitrariedade podendo provocar novas movimentações que podem ser contraditórias a alguns interesses tucanos.

Desculpas esfarrapadas de coincidência

Alexandre de Moraes foi a público hoje tentar se explicar que só teria sido informado às seis horas da manhã. Mas não foi esse o tom que adotou ontem. Ele chegou a afirmar, em evento do parceiro de golpe, o MBL, que "Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim".

Ele declarou isso em Ribeirão Preto, terra de Palocci, onde, em meio à campanha eleitoral, prometia reviravoltas. A PF, de prontidão, a Lava Jato no batente, cumpriram o prometido.

Porém tiveram que se explicar diversas vezes no dia de hoje: como não informaram nada a ele, como são um força republicana e independente, e outros contos como uma "coincidência", que tornam a história do Papai Noel mais crível.

As plumas não só tucanas, mas imperiais da operação

Não é novidade a relação política da operação com o tucanato e com quem o tucanato é citado, oficialmente como representante de alguns interesses, os EUA. Beneficiário político, não faltam denúncias das relações pessoais de Sérgio Moro com os tucanos e com a Shell, de quem inclusive o tucano nas Relações Exteriores, José Serra seria quase um lobbista oficial segundo consta nos cabos diplomáticos vazados da embaixada ianque em Brasília, Sérgio Moro, tal como parte do MPF foi treinado em cursos pela Agência de Estado americana, como denunciamos aqui .

Em tempos que todos ovacionavam a operação Lava Jato, primeiro porque a população se cansa de ver tanta corrupção, com a mídia erguendo Sérgio Moro a um patamar de anjo vingador, e até mesmo correntes de esquerda a defendendo, como várias vezes polemizamos neste diário com o grupo de Luciana Genro no PSOL, o Esquerda Diário trazia em numerosos artigos denúncias de como a operação era não só arbitrária em seus objetivos, ligados ao imperialismo (poupando empresas internacionais e favorecendo monopólios), como trabalhava (em um de seus cenários) com umatentativa de reedição da "mãos limpas" para alterar o regime partidário e trocar um sistema de corrupção por outro. Buscamos resumir algumas denúncias neste artigo.

Eis que a partir de ontem surgiu a prova, inconteste dos nove, não só enriquecem nas operações os operadores da Lava Jato como tem suas ações conhecidas e anunciadas pelos tucanos!

Essa relação levantada por tantos ficou escancarada e provavelmente deve precipitar algumas reviravoltas no jogo político da crise nacional.

"Lava Jato tucana", "Lava Jato mãos limpas", ou um meio do caminho inevitável?

Até o momento, com a exceção de Eduardo Cunha uma vez consumado o golpe institucional na Câmara, nem o STF nem a Lava Jato tem se movido para além de atingir o PT. Muito pelo contrário, a lista da Odebrecht que motiva a prisão de Palocci teria mais de 300 políticos, incluídos, é óbvio, tucanos, do PMDB, do DEM. Porém nenhuma ação foi tomada contra estes.

A novidade que apontaria uma contradição nesse caminho de uma Lava Jato exclusivamente tucana (ou anti-petista) está na decisão de Teori de autorizar investigação contra Temer, FHC e Aécio e nas novas declarações de Janot se insurgindo contra a anunciada (e gravada!) ação do PMDB pela anistia do caixa 2 e implosão da Lava Jato.

Cresce a falta de legitimidade da Lava Jato. Ela parece escancarar sua múltipla arbitrariedade: processual ("sem provas, mas com convicções" e powerpoint), de alcance (blindando empresas estrangeiras, blindando Eike, blindando tucanos repetidas vezes, a mais recente ao ignorar denúncia de Eike contra eles e repressiva (desde prender em hospital a advogar pelo fim do habeas corpus), a Lava Jato e o poder judiciário precisarão, ainda mais cobrir as pegadas que Moraes deixou hoje.

Para avançar em seu anunciado objetivo contra o PT, sobretudo contra Lula, a Lava Jato precisa recuperar algo de sua legitimidade, daí que entra a decisão de Teori. Pode ser que Teori seja parte de uma ala que jogue por uma "mãos limpas", ou seja afetar o conjunto do regime partidário e com maiores ou menores níveis de anistia aos políticos e corruptos, se contentar em erguer um novo sistema político e novos esquemas de corrupção desta vez com o aval do judiciário. Pode ser que não chegue a tanto, e seja mera manobra legitimadora do golpe principal desferido ao PT. Porém para legitimar é preciso acertar outros. Aí entra a tendência intermediária com uma certa probabilidade.

Se a Lava Jato para ganhar credibilidade precisar afetar tucanos e o PMDB, as movimentações para anistia dos corruptos e blindagem do governo de Temer devem aumentar. Gerando contradições, como já ocorreram entre Janot e o congresso ou mesmo o governo. Podem os midiáticos procuradores recuarem de sua cruzada? Uma cruzada que ainda por cima lhes rende um bons tostões? Ir "até o final" arrisca ser uma empreitada que desperte muita oposição fora os riscos políticos, e portanto da luta de classes em um país semeado de desemprego e descontentamento com um governo que quer lhe arrancar direitos. A pecha de corrupto a Temer poderia ser a gota d’água?

Uma crise que não fecha

Essas indefinições e algum nível de probabilidade de generalização da Lava Jato prometem abrir novos capítulos da crise política que possam envolver até mesmo sacrifícios tucanos.

Na hora do sacrifício, petistas e tucanos se unem. Na hora de exigir ataques à representação da esquerda ("reforma política") e ataques aos direitos trabalhistas e sociais, também. Mas a guerra interna dos tucanos por procuração, entre Doria e Matarazzo, e com Aécio assistindo à distância à conflagração paulista, promete se esquentar se este caminho for adotado. Pode ser que até mesmo essa "bola fora de Moraes" tenha sido um serviço a Alckmin, com Serra e Aécio citados na Lava Jato?

Em meio à crise política cada partido, incluídos o judiciário e da mídia, se acha o salvador da pátria, e cada fração de cada partido se acha a dona da verdade eterna. Um salve-se quem puder anunciado. Entre o tudo ou nada que aparece na mesa como uma jogada possível, erguem-se vozes pelo pacto como a de Renan Calheiros, presidente do Senado. Uma proposta que pode ter seus cálculos políticos e até mesmo de sapiência para preservação da estabilidade social buscando preservar o PT como partido da conciliação de classes e, portanto do freio à luta da classe trabalhadora, mas também não deixa de ser o único cálculo de preservação que resta ao próprio Renan no mata-mata nacional.

Essa movimentação de Renan já lhe rendeu raivoso editorial do Estado de São Paulo que pede sua cabeça. O ataque de Fausto Silva da Globo a Temer e os frequentes editoriais do "imortal" Merval Pereira no Globo por uma "mãos limpas", mostra como também no partido midiático, passado o impeachment, os caminhos não conduzem ao mesmo lugar. Aí também há fontes de instabilidade e dissenso.

Os sindicatos e suas direções, tão vilipendiados pela elite, são seus garantidores em última instância

Em meio a tantas contradições o país vai às urnas domingo. O resultado de antemão parece ensejar contradições. Espera-se um PT perdedor em grande escala mas uma fragmentação dos vitoriosos digna de nota. Fragmentadas as forças, fragmentados os discursos, não parece vir daí a recomposição do regime.

Para maiores detalhe da análise dos prognósticos do quadro eleitoral, leia essa matéria de André Augusto.

Se no front político, da mídia, das urnas não parece vir a recomposição do regime político, há outras fontes de instabilidade. Segue o desemprego. Cresce uma vontade de se opor a tantos ataques anunciados. A burocracia sindical, ciente do problema, tem atuado pra dividir os "dias de luta" entre dias gerais (22), e dias metalúrgicos (29), enquanto segue a dura greve dos bancários, uma categoria que tal como petroleiros o governo Temer e as patronais estão trabalhando para dar um exemplo, rebaixando salários e direitos.

Para completar a obra, a burocracia sindical, as mais poderosas sendo aquelas ligadas ao ex-governo do PT, como a CUT e CTB, e a golpista Força Sindical, não constroem nas bases nenhuma ação para que a classe trabalhadora, insatisfeita com as ameças de reforma trabalhista (possibilidade de jornada de 12hs) e da previdência, tome em suas mãos esta luta, o que exige assembleias democráticas, coordenação entre as lutas, organização na base, o que ela não pode fazer para manter seu controle férreo sobre os rumos do movimento.

Entre uma direita raivosa que agora começa a formular em seus planos de (contra) reformas uma reforma sindical, e por outro lado a necessidade de lutar, a burocracia sindical também deverá experimentar, tal como todo regime político do país, algum nível de divisão entre alas se estas tendências continuarem a operar (e tudo indica que continuarão).

Profusão de conjunturas e inimigos, tirar lições

Diariamente, nas múltiplas conjunturas de um país em crise política, econômica e social, há lições a tirar. A mais importante delas é a batalha por erguer uma esquerda anticapitalista, que supere a experiência com o PT que abriu caminho à direita com os ajustes, com a conciliação com a mesma direita, e que escolheu não resistir com a força da classe trabalhadora ao golpe.

Uma esquerda que tire essas lições precisa batalhar pela independência política da classe trabalhadora. Isso passa por se opor a todos projetos patronais, menores ou maiores como Rede, PPL, PSB, PDT, etc. Mas também a forças para além da política partidária, por onde também operam os interesses da elite e do imperialismo, como é o caso da Lava Jato. Levar essa ideia a sua última conclusão também passa por reinventar a relação da esquerda brasileira com o movimento operário (e não somente sua parcela minoritária, o "movimento sindical"), sabendo golpear junto quando for progressivo mas batalhar contra a burocracia sindical e seu freio à ação da classe trabalhadora. Batalhar para recuperar os sindicatos para que organizem democraticamente a base, que unam as fileiras da classe trabalhadora, categoria a categoria, incluindo os "invisibilizados" terceirizados.

Essa é a batalha cotidiana do Esquerda Diário e que é continuada no terreno eleitoral pelos editores e colunistas do mesmo que são candidatos a vereador em São Paulo, Campinas, Santo André, Contagem e no Rio de Janeiro.




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