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ELEIÇÕES ARGENTINA

O debate presidencial: um ponto de inflexão na campanha eleitoral de Nicolás del Caño

O contraponto entre os seis candidatos a presidente se transformou em um grande feito político acompanhado e debatido por milhões. Nicolás del Caño, candidato da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FIT-U na sigla em espanhol), foi um dos ganhadores e utilizou a oportunidade para difundir massivamente as ideias da esquerda frente à crise, em polêmica com o resto dos partidos.

Fernando Scolnik

Buenos Aires | @FernandoScolnik

quinta-feira 17 de outubro| Edição do dia

As repercussões do debate presidencial do último domingo ainda continuam, e provavelmente seguirão durante um tempo a mais, já que o mesmo se transformou em um grande fato político.

Segundo diversas pesquisas publicadas, a discussão entre os candidatos teve mais de 30 pontos de audiência ao vivo, alcançando milhões de pessoas por este meio, enquanto que outros milhões se interaram das repercussões, e fragmentos dos mesmos através dos jornais, rádios e redes sociais.

A polêmica entre os diferentes espaços políticos se transformou em tema de conversas entre amplas franjas da população e se ouvem muitos casos de pessoas que mudaram sua intenção de voto no próprio domingo, ou sobre pessoas que estavam indecisas e se convenceram de alguma opção.

Entre os ganhadores do debate está Nicolás del Caño. Para além do que seja o resultado eleitoral no domingo, dia 27 de outubro, a figura aproveitou a oportunidade para utilizá-la como uma grande tribuna para se dirigir a milhões com as ideias da esquerda. Em uma campanha muito desigual, porque a esquerda faz a campanha “no pulmão” contra os aparatos milionários do restantes dos partidos, foi uma ocasião para difundir amplamente as posições da Frente de Esquerda.

Em termos de números, basta ler o informe da consultora Scidata sobre a repercussão do debate nas redes sociais, publicado pelo jornal Clarín, que menciona entre outras coisas que “Nicolás del Caño fez uma grande surpresa, porque seu nome chegou a mais de 14 milhões de contas pessoais”. O estudo também destaca que além disso o candidato chamou a atenção com 71% de comentários positivos dos usuários em diálogos nas redes sociais.

Este impacto é o que explica que funcionários, dirigentes e trolls dos outros espaços políticos tenham iniciado uma bateria de ataques contra Del Caño. Assim o fez Eduardo Valdés, por exemplo, candidato da Frente de Todos ligado ao Papa Francisco, pelas denúncias do candidato da esquerda no debate, não apenas pelo aborto mas também defendendo a separação da Igreja e do Estado. Os “trolls” do macrismo historicamente dirigidos por Marcos Peña também estão fazendo seu jogo.

Os ataques contra a esquerda demonstram na verdade o temor que os partidos das classes dominantes tem das lutas pelos direitos dos trabalhadores, das mulheres e da juventude que, para além de toda sua demagogia de campanha, atacarão aqueles que cheguem ao poder. Lembremos que Del Caño se destacou no debate deixando símbolos que causaram grande impacto, como o pedido de um minuto de silêncio pela luta do povo equatoriano, seu punho no alto com o pañuelo verde pelo direito ao aborto livre, seguro e gratuito, ou sua denúncia sobre Macri como “lambe-botas” dos Estados Unidos na América Latina, sinalizando ao mesmo tempo o papel de Massa da Frente de Todos apoiando a estratégia imperialista na Venezuela.

Dito isso, passemos para repassar o central da estratégia do candidato da esquerda no debate, para entender o que incomodou tanto alguns.

O Equador e o FMI, um espelho no qual Argentina precisa se enxergar

O bloco temático sobre “Relações Internacionais” concentrou importantes definições estratégicas que desenham o futuro do país.

Nicolás del Caño usou a ocasião habilmente para mostrar solidariedade com o povo equatoriano na sua luta contra o “mega-pacote” de ajuste à mando do FMI, explicando ao mesmo tempo que a crise no país irmão antecipa de certa forma os problemas que atingirão a Argentina se não rompe com este organismo internacional, como propõe a esquerda.

Se estes anos sob o macrismo já deixaram uma grande crise para as grandes maiorias, a realidade é que o Equador demonstra que os planos com o FMI sempre terminam iguais. No nosso país, nada bom pode ser esperado do futuro, em um contexto de desaceleração da economia internacional e com uma dívida pública que não é apenas ilegal e ilegítima, mas também impagável. A crise no país sulamericano também adianta as novas exigências que o FMI fará ao próximo governo argentino quando queira renegociar a dívida.

A conclusão disso é que, contra a demagogia eleitoral do restante dos partidos, o povo trabalhador no nosso país tem que se preparar para enfrentar com os ataques que virão com os métodos da luta de classes, como fizeram as massas no Equador que conseguiram uma primeira conquista, conseguindo com sua enorme combatividade que o aumento dos combustíveis fosse anulado. Também, com um programa para que a crise seja paga pelos capitalistas, para que contra todas as armadilhas do regime, seja dada uma saída de fundo à serviço das grandes maiorias. Por essa perspectiva é necessário fortalecer hoje a esquerda no país e no Congresso.

Frente a esta defesa, os trolls do kirchnerismo começaram a atacar Nicolas Del Caño logo após o debate por ter pedido um minuto de silência em solidariedade com a luta do povo equatoriano (algo para ser ressaltado sobre este ponto é que as estatísticas de Google mostraram como na Argentina, depois desta ação do candidato da Frente de Esquerda, entre as palavras mais procuradas estavam Equador e FMI, ou seja, gerou grande interesse sobre o tema).

As razões para este ataque são muito simples de serem entendidas, já que o candidato da esquerda colocou sob a mesa um tema sobre o qual Alberto Fernández optou permanecer calado no debate, já que Lenín Moreno foi o candidato que havia sido apoiado no Equador por Cristina Kirchner; e também porque antecipa as consequências de não romper com o FMI; porque contra o pedido de Alberto Fernández e dos burocratas da CGT de “evitar as ruas”, o Equador demonstra como se enfrentam os planos de ajuste; e porque na política internacional este espaço política não mostra muito latinoamericanismo da “Pátria Grande”, pelo contrário importantes candidatos seus como Sergio Massa se subordinam aos Estados Unidos em temas como a Venezuela, preparando o terreno para uma maior ingerência imperialista na região.

Para maiores contradições da Frente de Todos, dois dias após ter permanecido calado sobre este tema no debate, e depois de Nicolás del Caño instalar este tema entre milhões, Alberto Fernández e Cristina Kirchner tiveram que parar de alegar distração e twittar sobre a situação no Equador, apenas quando a repressão do regime atacou uma das suas aliadas no país irmão. Evidentemente, o candidato da esquerda tinha razão.

Economia: Del Caño revelou que Macri não fez o desastre sozinho, mas que o peronismo foi cúmplice

O grande mérito de Nicolás del Caño neste ponto foi tirar Alberto Fernández da comodidade de sua demagogia.

O candidato da Frente de Todos optou por uma estratégia muito fácil no debate: denunciar o desastre sofrido por milhões de pessoas sob o macrismo, apostando em capitalizar o descontentamento nas urnas como o único que pode ganhar de Macri.

No entanto, Nicolás del Caño cortou com doçura dizendo verdades: “Macri não fez este desastre sozinho, aqui existiram cúmplices, legisladores e governadores que hoje estão na Frente de Todos e que quando tiveram que escolher, escolheram os bancos contra os aposentados, e votaram todas as leis das quais Macri precisou contra o povo trabalhador”. No mesmo sentido, o candidato da esquerda despiu a mentira do Pacto Social, proposta pela Frente de Todos como suposta saída da crise, junto com os que foram cúmplices de Macri como também foram as burocracias sindicais.

Em contraposição a estas propostas, Del Caño combateu o senso comum que as vezes querem instalar a respeito de que “todos perdemos” e denunciou que nesta crise também existem grandes ganhadores como os bancos ou as empresas privatizadas, que são eles que tem que pagar.

Para isso fez propostas programáticas como o não pagamento da dívida pública aos especuladores, a criação de um banco estatal único, a nacionalização de todos os recursos estratégicos sob controle dos trabalhadores e usuários ou a revogação de todas as leis que nos últimos anos foram aprovadas contra o povo trabalhador.

Também interpelou o restante dos candidatos opositores a respeito de se estão dispostos, por exemplo, a anular os aumentos exponenciais das tarifas de água, luz e gás (tarifaços) ou as medidas tomadas contra os aposentados durante o macrismo. O silêncio do restante dos polemistas frente a este questionamento foi muito eloquente e claro.

Uma grande tribuna pelo direito ao aborto e a separação da Igreja e do Estado

Neste bloco temático o candidato da esquerda não apenas levantou as demandas das mulheres, saudando o Encontro Plurinacional de Mujeres e Dissidências que naquele momento acontecia em La Plata, mas também utilizou o espaço para mostrar o duplo discurso de Alberto Fernández, cuja Frente de Todos está ligada à Igreja.

Um dos momentos mais emotivos do debate aconteceu quando Nicolás del Caño levantou seu braço com o pañuelo verde pelo direito ao aborto no pulso. Estou convencido de que as mulheres voltarão a sair para as ruas e que será lei”.

Somente aí Alberto Fernández teve que sair outra vez de uma situação incômoda e dizer que é necessário “tender” à legalização do aborto.

Mas uma vez mais foi Nicolás del Caño quem revelou as contradições: a realidade é que para além das palavras, nas chapas da Frente de Todos entraram muitos deputados e senadores “azuis” ao Congresso Nacional, fanáticos inimigos dos direitos das mulheres. E também tem como prepoderante neste armado político governadores como Juan Manzur, que obrigou uma menina de onze anos que havia sido estuprada a parir.

Contra eles, Del Caño exigiu também a separação da Igreja e do Estado e a plena implementação da Educação Sexual Integral.

Uma bandeira firme em defesa da educação, da saúde e da juventude

Nesta parte do debate, Del Caño deixou três ideias evidentes: a defesa dos trabalhadores da saúde e da educação, contra todos os governos que os culpabilizam quando são os que todos os dias colocam seus corpos em jogo; a necessidade de reverter a herança menemista na educação que todos mantiveram vigentes; e que a saúde e a educação públicas só podem sair da crise deixando de pagar a dívida aos especuladores, atacando a fuga de capitais, e o negócio dos laboratórios no caso da saúde.

Uma vez mais, o candidato da esquerda teve que denunciar aqui não apenas os ataques do macrismo, mas também o duplo discurso da Frente de Todos, que falou de educação enquanto seu governador Arcioni em Chubut vem atacando os professores e trabalhadores do estado há meses, contra seus salários e com repressão.

Por último, Del Caño utilizou seu encerramento para denunciar a situação da juventude, que é a que mais sofre a precarização e que tem enormes dificuldades para estudar pelas suas condições de vida. Nicolás defendeu que a técnica e o conhecimento poderia não apenas acabar com a fome e o desemprego, mas também reduzir a jornada de trabalho, para que todos possam estudar.

Para encerrar

Para finalizar, diremos como balanço que Nicolás del Caño soube utilizar de forma muito hábil um espaço para se dirigir a milhões com as ideias da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, tomando um fato da política latinoamericana como a crise equatoriana para mostrar as consequências às quais leva o FMI, a necessidade de romper com esse organismo e os métodos da luta de classes para enfrentar estes planos. Deste modo, combinou a perspectiva para qual a esquerda se prepara junto aos pontos programáticos fundamentais para que os capitalistas paguem pela crise, em contraposição polêmica com os partidos patronais, principalmente o Juntos por el Cambio e a Frente de Todos.




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