Sociedade

TRAGÉDIA EM MARIANA

O crime continua: água tratada de cidade de Minas causa doenças

Após o crime ambiental cometido pela Samarco na região de Mariana/MG, em novembro de 2015, que acabou com a bacia do Rio Doce, boa parte da fauna local e matou trabalhadores e moradores da região, ainda se sente as consequências da tragédia. A água tratada que abastece a cidade de Governador Valadares está contaminada e pode causar doenças degenerativas e neurológicas na população.

Pammella Teixeira

Belo Horizonte

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Na manhã da última terça-feira (9), foi divulgado um laudo técnico do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sobre a qualidade da água tratada do Rio Doce, que é distribuída à população de Governador Valadares (MG). De acordo com esse laudo, a água que chega às residências apresenta um nível elevado de alumínio e coliformes totais, além de turbidez acima do limite estabelecido pelo Ministério da Saúde.

O documento foi solicitado pelo MP e feito no dia 5 de julho deste ano, mesmo dia em que a empresa Samarco, cujos donos são a Vale e a BHP Billiton, também fazia um laudo da água do rio. O promotor Leonardo Diniz Faria explica que em dezembro de 2015, um outro laudo do Ministério Público já havia apontado o nível elevado de alumínio na água. No novo relatório, o percentual de concentração da substância é de 0,64 ml/l, quando o permitido pelo Ministério da Saúde é de até 0,20 ml/l.

O promotor Evandro Ventura afirma que o laudo da Samarco apresenta um resultado completamente diferente da nova análise e que houveram problemas na coleta da água. “O laudo da Samarco diz que o alumínio está em conformidade. A engenheira ambiental do Ministério Público também acompanhou essas coletas. Ela deixou bem claro que dois aparelhos que foram utilizados para a coleta dessa água não estavam com a calibração devida; um deles teve que ser substituído por um aparelho do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto).”

O defensor público da união, Hendrikus Simões Garcia, participou da divulgação do documento e afirmou que, na terça-feira (9), uma ação civil pública contra a Samarco seria ajuizada. “Nós não podemos permitir que a população continue consumindo essa água. O laudo aponta autos índices de alumínio em hospitais, escolas. Então hoje, a Defensoria Pública da União, junto com o Ministério Publico Federal, irá ajuizar uma ação civil pública para que a população volte a receber água mineral até que a água volte a ser própria para o consumo”.

Os promotores esclareceram ainda que o alumínio encontrado na água não estava presente no Rio Doce, mas que passou a ser encontrado após a chegada da lama de rejeitos, vinda de Mariana (MG), por causa do rompimento da barragem do Fundão, responsabilidade da Samarco.

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Doença de Parkinson, Alzheimer, osteoporose e alterações neurocomportamentais

A situação pode causar doenças degenerativas e neurológicas a longo prazo, como doença de Parkinson, Alzheimer, osteoporose e alterações neurocomportamentais. O laudo, teve como base amostras colhidas de 13 locais em Valadares, incluindo escolas públicas, condomínios residenciais e hospitais, e aponta que, em 11 deles, o nível de alumínio está acima do permitido e que o metal presente na água bruta não é eliminado durante o tratamento.

Sabe-se, além de ser também falado no documento, e não há dúvida sobre os efeitos crônicos à saúde humana causados pela ingestão constante de alumínio. O laudo do MP revela que “em um dos trabalhos científicos mais completos sobre o tema (Rondeau et al., 2008), foi constatado que, a partir de valores superiores ou iguais a 0,1 mg/L de alumínio na água produzida para abastecimento público, o risco de demência e declínio cognitivo aumenta. Ademais, inúmeros estudos demonstram que a presença do alumínio na água, em concentrações superiores ao padrão de potabilidade, pode contribuir para o aparecimento de algumas doenças no organismo humano”

Se a ação civil pública entrar em vigor, a Samarco poderá pagar multa de R$ 10 milhões por dia, caso descumpra a decisão, podendo recorrer na Justiça. A ação será ajuizada na comarca de Governador Valadares.

O promotor de Justiça Leonardo Diniz Faria destaca que, após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, foi verificado que os níveis de alumínio estavam muito elevados na captação do rio Doce. “Considerando que os rejeitos das barragens apresentam em sua composição elevadas concentrações desse metal, é bem possível que o alumínio tenha sido transportado ao longo do rio Doce, ocasionando alterações na composição química em diversos trechos desse curso d’água, conforme a direção dos ventos, os índices pluviométricos e a vazão do rio. Além disso, o laudo aponta a substituição do coagulante polímero de acácia negra pelo sulfato de alumínio como outro motivo para a elevação dos níveis do metal na água.”

Diante dessas evidências científicas, o laudo afirma ainda ser imprescindível que o Saae adote as medidas necessárias para a adequação do parâmetro, tanto na saída das ETAs quanto na rede de distribuição. “O laudo recomenda ainda que sejam constantemente monitorados os parâmetros de alumínio, manganês, ferro, cor aparente, turbidez, pH, sólidos dissolvidos totais, Escherichia coli, coliformes totais e cloro residual livre, na saída das ETAs de Valadares e em pontos estratégicos de toda a rede de distribuição do município. Para entendermos, a quantidade permitida pelo Ministério da Saúde é de 020 mg/L; na primeira medição em alguns pontos da cidade, foi revelado que a quantidade presente do metal seria de 064 mg/L. E mesmo sendo realizada a retrolavagem nos tanques do Saae, o novo teste apontou a presença de 037 mg/L”, complementou Faria.

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