Cultura

ENTREVISTA EXCLUSIVA

O cemitério mostra as diferenças de classe das cidades, Juliana Rojas sobre ’Sinfonia da Necrópole’

O Esquerda Diário publica entrevista exclusiva com a cineasta Juliana Rojas sobre o filme 'Sinfonia da Necrópole' que tem pré-estréia nesta terça-feira dia 12 às 20h na Cinemateca de São Paulo.

terça-feira 12 de abril de 2016| Edição do dia

O que te motivou a filmar "Sinfonia da Necropóle"?

É uma ideia que tenho faz tempo, desde a época da faculdade pois eu sempre gostei de visitar cemitérios. Quando eu viajo, eu gosto de conhecer cemitérios de outras cidades e outros países porque acho que dá pra entender bastante da história de um local visitando o cemitério. Você pode saber se teve guerra, ditadura, as diferenças das classes sociais. Sempre tive vontade de fazer um filme no cemitério onde o cemitério fosse justamente um microcosmos, mostrando as pessoas que trabalham lá pois eu me interesso por isso também pelas pessoas que trabalham nestes locais que tem certa solenidade como cemitérios, hospitais, geralmente não se enxerga muito essas pessoas. Queria fazer um filme sobre as relações destas pessoas, pois tem uma organização e uma hierarquia dentro do próprio cemitério, tem o diretor, o administrador, os coveiros, jardineiros, queria mostrar essas pessoas no filme. Depois escrevi um argumento sobre isso e sempre foi um filme que quis fazer com tom leve, uma comédia de situações, mas também com uma certa ironia, uma crítica a estas relações de trabalho. Mas quando comecei a pesquisa pra escrever o roteiro veio a idéia de ser um musical e também de falar sobre a questão da reurbanização dentro do cemitério.

O filme pode ser encarado como uma divertida crítica à especulação imobiliária na cidade de São Paulo. Como você vê essa questão?

Tive conhecimento desta questão sobre reurbanização dos cemitérios porque na cidade natal da minha mãe o cemitério estava passando por isso, a cidade cresceu, o cemitério era pequeno, então estava gerando esse problema que não tinha mais onde enterrar as pessoas. Aí as pessoas começaram a ficar estressadas com isso. As pessoas mais velhas tinham medo de morrer e não ter onde ser enterradas por exemplo. E aí o cemitério queria expandir mas não conseguia comprar o terreno de trás. Eu nunca tinha pensado nisso, no fato de que se a cidade cresce o cemitério também tem que se adaptar a esse crescimento urbano. Quando estava em São Paulo vi que isso era comum em cemitérios grandes, que de tempos em tempos fazem um recadastramento, pra ver quais túmulos estão abandonados, buscam contato com a família e se ninguém dá notícias eles consideram o túmulo abandonado e realocam pra abrir espaço pra mais túmulos, pra poder gerar novos jazigos. Achei uma situação muito interessante pois tem a ver com a realidade das grandes cidades. Percebi também uma diferença de classe que você via pela qualidade dos túmulos. Tem uma parte mais rica que tem túmulos de mármore, com estátuas, e lá no fundo tem túmulos mais simples, túmulos abandonados que provavelmente é de gente que já não tem mais família. Achava interessante como se espelhava a geografia da cidade de São Paulo. Juntei esta questão com a idéia das músicas, pois acho que ajuda uma ferramenta lúdica para as pessoas embarcarem, mais como uma alegoria, pois a gente está falando de cemitério mas quer falar de outra coisa. E também porque é uma ferramenta de distanciamento épico, que eu gosto muito quando é usado no teatro, nas peças de Bretch e outras montagens que seguem a dramaturgia épica, e quis fazer isso no filme também pra ter os personagens como narradores do filme.

A história também é marcada por um contorno de classe, uma vez que a maioria dos personagens são trabalhadores. Que público você espera atingir?

O filme ainda não foi exibido comercialmente mas já participou de vários festivais no Brasil e no exterior com diferentes públicos. Foi exibido numa praça na cidade de Tiradentes, com crianças e idosos. Foi exibido no cemitério da Consolação no último sábado. Então já foi exibido pra diferentes tipos de público e está funcionando bem pra várias pessoas, percebi que as crianças tem gostado muito, foram falar com os atores na exibição em Tiradentes. Achei bem legal, pois é um filme diferente dos outros que já fiz, é mais leve, mas as pessoas percebem a crítica que o filme quer fazer. É um filme capaz de agradar um público mais amplo e vamos ver como vai ser o desempenho dele nos cinemas, pois é difícil ficar em cartaz nas salas comerciais. É muito importante o boca a boca das pessoas e que compareçam na primeira semana de exibição.

Terror e humor já são uma marca dos seus filmes. Qual foi a inspiração pra agora aliar a estes dois gêneros o musical?

A inspiração tem duas vertentes. Uma é o teatro de Bretch, com as músicas de Kurt Weill, ele usa muito humor, o distanciamento épico e músicas para contar as histórias. Tem esta influência, até por eu ter acompanhado processos da Companhia do Latão que trabalha com teatro épico. A outra vertente é algo lúdico que trago desde a infância que é eu gostar de desenhos musicais principalmente os desenhos da Disney e estes desenhos são musicais mas misturam vários gêneros. Branca de Neve, Bela Adormecida, etc, tem partes que são dramas, partes que são assustadoras, partes que são comédia. Então sempre tive vontade de fazer um filme assim e finalmente surgiu um projeto que eu pudesse desenvolver isso.

Quer fazer mais alguma consideração aos leitores do Esquerda Diário?

Convido todos os leitores do Esquerda Diário a ir na pré-estréia que é aberta ao público na Cinemateca e também pra conferir o filme nos cinemas. Haverá algumas sessões nos CEU´s, isso é bem legal e espero que o filme circule por aí pra chegar nas pessoas que estão fora do eixo do centro de São Paulo. E convido todos a curtir a página do Facebook onde publicamos todas as informações do filme.

Pré-estréia de "Sinfonia da Necrópole" dia 12/04 às 20h na Cinemateca de São Paulo. Largo Senador Raul Cardoso, 207. Haverá shows e food truck.




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