Internacional

GOVERNO TRUMP

O caso Kushner e o “pesadelo russo” do governo de Donald Trump

Artur Lins

Estudante de História/UFRJ

terça-feira 28 de março de 2017| Edição do dia

Nesta segunda (27), o Comitê de Inteligência do Senado convocou o assessor e genro de Donald Trump, Jared Kushner, a prestar depoimento sobre suas suspeitas reuniões com altos oficiais russos. Ainda em dezembro do ano passado, Kushner havia se reunido com o embaixador russo, Sergey Kislyak, em Washington, e depois com um responsável da administração do banco estatal de desenvolvimento também russo, chamado Vnesheconombank.

A administração Trump vem sofrendo ataques tanto da oposição quanto dos departamentos de segurança nacional, como o FBI, justamente pela sua relação bem próxima com embaixadores e representantes de alto escalão do governo russo.

Durante a administração Obama, os EUA se preparava para impulsionar uma política exterior contra as intenções geopolíticas da Rússia, isso devido especialmente às ambições do governo russo na questão ucraniana (que terminou com a anexação da Crimeia contra a vontade do governo norte-americano) e na guerra civil síria com a intervenção russa em defesa e cooperação com o ditador Bashar al-Assad, o que também vai contra as ambições imperialistas norte-americanas na região.

O governo de Obama estava preparando novas sanções à Rússia por suspeitas de interferência do governo russo nas eleições presidenciais, porém a nova administração de Trump chegou com um discurso diferente, ao contrário da anterior, dessa vez apoiando e estimulando a consolidação de relações bilaterais com o governo de Putin. Porém, Trump ainda não possui sólida base para governar e suas ambições geopolíticas encontram obstáculos no interior do governo.

As investigações do FBI e as informações que estão vazando sobre os encontros de personalidades do governo Trump com os representantes do governo russo geraram fricções internas e instabilidade para o governo do multimilionário.

Em fevereiro, o assessor de segurança nacional, Michael Flynn, renunciou ao seu cargo de alto escalão no governo, depois que a imprensa burguesa e opositora (The Washington Post) a Trump ter revelado que Flynn manteve contatos “suspeitos” com as autoridades russas e mentiu a seus superiores a respeito desse encontro.

O motivo central dessas investigações é a suspeita dos serviços de inteligência dos EUA que o Kremlin interviu com espionagem cibernética nas eleições presidenciais norte-americanas com o objetivo de prejudicar a campanha de Hillary Clinton e favorecer a chegada de Trump ao comando da Casa Branca.

Não só os serviços de inteligência, mas também o Judiciário agiu contra as ambições de Trump desde o início de seu mandato, como foi o caso do veto de juízes contra o decreto imposto pelo governo para impedir a entrada de imigrantes e nacionalidades oriundas de países africanos e do Oriente Médio nos EUA.

O depoimento de Jared Kushner convocado pelo Senado também é um recado para os objetivos do governo Trump que ainda não está consentido pela oposição à sua administração. Kushner foi nomeado como chefe do futuro Escritório de Inovação Americana, um departamento criado com o objetivo de incorporar a “mentalidade empresarial à Casa Branca”, sem amarras burocráticas e que atuaria em parceria direta com grandes empresas.

E os primeiros aliados que Kushner supostamente procurou foi justamente o banco estatal russo, que coincidentemente sofreu sanções fiscais da administração Obama depois da intervenção russa na Ucrânia, e em que o presidente do banco, Sergey Gorkov, é uma figura muito próxima a Putin.

O “pesadelo russo” mostra bem claramente o quanto o governo de Trump ainda busca se consolidar, tentando angariar apoio na base de governo e também nas instituições do Estado, para poder aplicar seu programa de cunho nacionalista, isolacionista e xenófobo que venceu nas eleições.

No entanto, a vitória do multimilionário significou a vinda de um período de incertezas para a geopolítica mundial e também para o desenvolvimento econômico dos EUA a longo prazo, o que está se materializando nesses casos de crise política interna da administração Trump.




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