Teoria

A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.9

O capitalismo, em perspectiva histórica e econômica, é um sistema decadente: por que?

Gilson Dantas

Brasília

sábado 13 de janeiro| Edição do dia

Continuando a nota anterior, seguimos no tema da crise capitalista. Considerando, naturalmente, que estamos na vigência de uma grande crise de recessão mundial arrastada, desde a queda daquele grande grupo financeiro em 2008 [Lehman Brothers].

A respeito do problema da crise, vale um primeiro destaque: embora ela traga como consequências desemprego, miséria, violência e privações sociais, tais elementos não significam crise para o capital: antes de mais nada, tais elementos de destruição de emprego, de forças produtivas, são seu caminho natural de superação das suas crises (tal é sua “racionalidade”).

Para o capital, para a economia do capital, a desigualdade econômica ou, por exemplo, o desemprego e o aumento da miséria, a rigor, não significam crise. Ou, em outros temos, mais adequados, a economia capitalista “necessita” tornar mais graves e mais agudas a miséria dos trabalhadores e a destruição de meios de produção, ou não sai da crise; queremos com isso dizer que a regra e a lógica imanente da economia capitalista, mais ainda em sua fase imperialista, oligopolista, é a de que a saúde do capital depende da miséria social e do agravamento da desigualdade.

Crise, para o capital, é outra coisa: é interrupção da acumulação do capital, é queda nos investimentos por conta de sua baixa rentabilidade.

Por outro lado, do ponto de vista histórico – mas também da teoria econômica – tem se observado que as contradições engendradas por cada grande crise têm se acumulado no longo prazo, em escala histórica, tornando mais dramáticas as dificuldades globais para o sistema seguir acumulando capital. E principalmente tornando mais destrutiva a saída de cada crise.

É crescente a dificuldade secular de o sistema encontrar rentabilidade para o capital, à medida em que a economia se tecnifica, torna-se mais produtiva e, por isso mesmo, ocupa menos mão-de-obra, como foi citado e jamais será demasiado reiterar .

[Sobretudo é importante reiterar essa ideia diante do senso comum dominante, o qual naturaliza historicamente ao capitalismo, e imagina o sistema como evoluindo, reciclando-se na condição de um processo que tem futuro, que sempre “se sai bem” das crises e que tem potencial para conduzir os homens e mulheres a outro futuro histórico que não seja o horror, o holocausto ou a barbárie].

Diante desse processo, como tentativa de saída da crise, os donos da economia e o Estado capitalista tratam de criar contra-tendências e medidas anti-cíclicas em cada conjuntura, sendo a mais importante delas o aumento da taxa de exploração da mão-de-obra. Existem outras como a busca de novos mercados mundiais, aumento do crédito e gastos militares, sempre na perspectiva de recriar um ambiente que recupere a rentabilidade perdida no último auge da fase de prosperidade.

Se tais contra-tendências não alcançarem a economia produtiva, se não recriarem condições para o lucro, não há como retomar a prosperidade. Esse tem sido o conteúdo da história do capitalismo e o retrato, por exemplo, de todas as décadas após o boom do pós-II Guerra Mundial.

Crise e declínio

De alguma forma, portanto, pode-se olhar para o século XX através da sua instabilidade econômica, das crises da economia mundial e verificar, através desta ótica, a lógica e os vai-e-vens de um mercado mundial, de um todo orgânico econômico internacional, que não mais reencontra seu equilíbrio instável a não ser por um período e, mesmo assim, sem auto-sustentação, destruindo potencial e capacidade produtiva sempre em larga escala. As crises são cada vez mais profundas e a ampla prosperidade menos significativa, com crescente massa de pobres e desempregados. E com crescente concentração de renda em escala global.

Neste ponto da análise é importante ter presente aquela ideia de equilíbrio instável nos movimentos, transformações e forma de funcionamento dessa totalidade capitalista, a economia mundial.

É de importância metodológica o entendimento de que as tendências (e o equilíbrio instável ou dinâmica) da economia internacional operam ou se realizam através de três fatores (ou processos) em permanente interação: a economia, as relações entre as classes e as relações ente os Estados na esfera mundial.
Esse é o método, que na abordagem da economia mundial foi formulado por Trotski, cujo argumento é citado por Bach (1999: 9):

“O equilíbrio capitalista é um fenômeno complicado; o regime capitalista constrói esse equilíbrio, rompe com ele, reconstrói e rompe de novo, ampliando, no processo, os limites do seu domínio. Na esfera econômica, estas constantes rupturas e recuperações do equilíbrio tomam a forma de crises e booms. Na esfera das relações entre classes, a ruptura do equilíbrio consiste em greves, lock-outs, em luta revolucionária. Na esfera das relações entre Estados, a ruptura do equilíbrio é a guerra, ou, mais surdamente, a guerra das tarifas aduaneiras, a guerra econômica ou bloqueio. O capitalismo possui então um equilíbrio dinâmico, o qual está sempre em processo de ruptura ou restauração. Ao mesmo tempo, semelhante equilíbrio possui grande força de resistência: a prova melhor que temos disso é que o mundo capitalista ainda existe”.

Segundo este foco de Trotski, a economia mundial pode ser vista como uma unidade em movimento contínuo, em equilíbrio dinâmico ou em movimento, determinado pelas esferas entrelaçadas dos elementos políticos (subjetivos; da luta de classes), os “estritamente” econômicos e aqueles da tensão e conflito entre os Estados. É essencial levar em conta esse método de análise, que ganha ainda mais força e enorme poder explicativo na era do capitalismo imperialista, dos monopólios. E onde prima o elemento político.

Ainda como parte da argumentação anterior, sobre a tendência do sistema a crises mais profundas, também à estagnação, e referindo-se ao surgimento do capitalismo dos monopólios e ao início do século XX, Mandel formula uma apreciação que guarda toda atualidade, a respeito da natureza parasitária que o sistema vai assumindo:

“O capitalismo dos monopólios, capitalismo da época de limitação da produção, de redivisão dos mercados, de redivisão do conjunto do mundo conquistado pelo capital, restringe consideravelmente o desenvolvimento das forças produtivas. A tendência ao desperdício se impõe por sobre as tendências da poupança. O capitalista deixa de ser um revolucionário no terreno na expansão da produção para converter-se em um conservador. As crises se prolongam e se sucedem mais rapidamente a partir do século XX. O capitalismo dos monopólios se converte cada vez mais em um freio para o desenvolvimento das forças produtivas. A partir de agora sua natureza parasitária surgirá diante do mundo em uma época histórica nova e cheia de convulsões: a época do declínio capitalista, a época das guerras, das revoluções e das contrarrevoluções” (1972: 57).

Antes da I Guerra havia um semilivre jogo das forças econômicas. Dali em diante a intervenção estatal (política econômica, e militar) passa a jogar um papel superior a antes. A própria regularidade dos ciclos menores, de investimentos industriais também se vê alterada, a economia continua sob o comando de suas leis tendenciais, mas a política, a intervenção política, dá a última palavra. A importância da política sobre a economia cresceu na fase decadente imperialista do capitalismo (CASTILLO: 1998b).

E aqui vale arriscar uma primeira conclusão: se tomarmos no longo prazo, o capitalismo do século XX – e mais ainda o do século XXI – ele não será mais aquele que funcionava através de uma curva de crescimento, histórico e orgânico.

O sistema acumula contradições, envelhece. Deixou completamente para trás sua fase de desenvolvimento orgânico. Estabilizações, recuperações, taxas de crescimento continuam ocorrendo, mas dentro de um processo histórico de declínio.

[O que não significa que a produção mundial, inclusive a produção dos principais países, fique estancada. Ou que não haja, aqui e ali, focos de crescimento, como foi o caso recente da China. Mas tudo isso anda detrás das possibilidades oferecidas pela técnica moderna. E a taxa de crescimento do produto bruto mundial se desacelera no largo prazo].

No século XX, ocorreram fases de crescimento global, mas a última e maior delas foi completamente excepcional (nas condições devastadoras da II Guerra e após o crack de 1930) e as pequenas recuperações que se sucederam, como, por exemplo, a recuperação do início dos anos 90, rapidamente cedeu e, como todas elas, mostrou durar menos que a fase da crise. Tudo ao contrário dos ciclos de antes da I Guerra que eram parte de um crescimento geral e orgânico do sistema.

Portanto, e sintetizando, ao conformar seu mercado mundial, ao estruturar-se mundialmente e a partir das grandes corporações imperialistas, com seus tentáculos mundiais, o sistema parece ter entrado, ao mesmo tempo, em sua fase de declínio.

Continua entrando regularmente em ciclos conjunturais de crescimento e crise – neste caso teremos curvas cíclicas de curto prazo – inseridas em uma curva mais global – que não poderia ser classificada como cíclica já que seu sentido geral é his-toricamente declinante (visível, pela taxa de crescimento do produto mundial bruto e, sobretudo, pelo acúmulo de desequilíbrios e de desproporções) e o crescimento se apresenta como enormemente parasitário e destrutivo (como veremos, mais detidamente, em outra nota).

[Continua na Nota n.10, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: www.comstol.info/2016/07/ekonomika e www.lombardiletter.com] ]

Referências:
BACH, Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, Ceip L Trotsky, p. 9-29.
CASTILLO, Christian, 1998b. “Keynesianos” superlight de los ´90. Estratégia Internacional, n.7, marzo/abril 1998, Buenos Aires.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista. México: E Era.

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.




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