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GOLPE EM MIANMAR

O ativismo LGBT contra o golpe em Mianmar: “Nas passeatas nos dizem que deveríamos ter nossos direitos”

O golpe de Estado que levou o governo de Mianmar a uma junta militar e teve como resposta mobilizações massivas, também contou com manifestações na rua de diversidade sexual.

sexta-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

“Todos nós viemos aos protestos para apoiar uma causa maior.” foram as palavras de Maung Soe, ativista LBGTQI e fundador da organização CAN Myanmar. Min Khant, uma drag queen de 21 anos, da cidade de Yangon, afirma: “as pessoas nas passeatas nos dizem que deveríamos ter nossos direitos.”

Desde 1° de fevereiro, uma junta militar assumiu o governo de Mianmar e prendeu Aung San Suu Kyi, a principal figura política do país, que deveria assumir a presidência naquele mesmo dia.

A resposta não tardou a vir e até hoje o país está atravessado por mobilizações de centenas de milhares de pessoas nas ruas, greves gerais e o desenrolar de um movimento de desobediência civil que desafia a cúpula militar. Durante o fim de semana, duas pessoas foram assassinadas pela polícia, elevando o número de vítimas a seis pelas mãos das forças repressivas.


Com greves e mobilizações massivas, cresce o rechaço ao golpe de Estado em Mianmar

Maung Soe afirma que, no dia 8 de fevereiro, participou de uma manifestação de LGBTQs na cidade de Mandalay que foi reprimida pela polícia com hidrantes de incêndio e balas de borracha. “Estamos preocupados que possamos ser alvo das forças policiais e de quem é contra os protestos”, disse ele.

Motivos para se mobilizarem não faltam, a perseguição estatal que escalou com o golpe foi respaldada pela própria legislação em vigor sob o governo anterior de Aung San Suu Kyi. De acordo com o relatório Homofobia de Estado, de 2020, da ILGA (sigla em inglês para Associação Internacional de Lésbicas e Gays), “o artigo 377 do Código Penal (Lei No. 45/1860) tipifica como delito ‘o coito carnal contra a natureza’”, o que pode levar a uma pena máxima de 10 anos de prisão.
Além disso, o relatório assegura que “segundo os ativistas, as pessoas LGBTs, especialmente as pessoas trans, são alvo do artigo 35c da Lei de Polícia, também conhecida como “Lei das Trevas”, que permite autoridades a deter alguém com o rosto coberto ou “disfarçado” de outra maneira.”

“A questão dos direitos LGBT nunca foi uma prioridade, nem mesmo para o governo civil” declara Maung Soe. A participação de LGBTQIs nas mobilizações populares contra o golpe não se traduz em um apoio acrítico a Aung San Suu Kyi e seu partido, a Liga Nacional pela Democracia (LND).

“As pessoas LGBT estão protestando em seus saltos e agitando bandeiras arco-íris em todo o Mianmar” diz Min Khant. A repressão e perseguição da junta militar, que inclui cortes temporários de telefones celulares e conexão à internet, está longe de intimidar os manifestantes. A última segunda-feira foi o maior dia de protestos até agora, incluindo uma greve geral.

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Na vanguarda da resposta ao golpe se encontram jovens e mulheres trabalhadoras, muitas delas dos setores mais precários como as fábricas têxteis, impulsionando protestos e enfrentando a repressão. Não é coincidência, Mianmar é um país que oferece condições de exploração muito vantajosas para os empresários, o salário médio diário não ultrapassa três dólares.

É nesse marco que se forja a solidariedade entre os distintos setores que confluem na luta contra os militares, os ativistas LGBTQI impulsionaram uma carta durante o processo onde chamam apoio aos trabalhadores estatais que levam adiante os protestos: “Dado que nós, LGBTQIs, temos um histórico de participação ativa no ativismo político do passado, queremos anunciar que neste golpe militar, apoiaremos o povo e os funcionários do governo que estão iniciando as campanhas de desobediência civil.”




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