Internacional

ANÁLISE

O atentado em Nice e a guerra contra o terrorismo

Pela terceira vez em 18 meses, a França foi cenário de um atroz atentado que deixou um saldo de 84 mortos e mais de 200 feridos. As coordenadas espaço-temporais deste novo ataque tem um alto conteúdo simbólico: ocorreu em 14 de julho, o Dia da Bastilha, em Nice, o coração da Costa Azul e emblema da indústria turística francesa.

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

sábado 16 de julho de 2016| Edição do dia

Pouco se sabe até agora, exceto que o autor deste brutal ataque, Mohamed Lahouaiej Bouhlel, é um homem jovem franco-tunisino, que entrou num caminhão de várias toneladas, disse à polícia que precisava fazer um delivery de sorvetes para contornar a segurança e atravessou ziguezagueando a toda volocidade a Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses), atropelando centenas de pessoas.

Até o momento nenhum grupo terrorista do espectro do islamismo radical reivindicou o atentado como próprio. Diferente dos massacres da redação do semanário Charlie Hebdo e no teatro Bataclan, que eram conhecidos pelos serviços de inteligência e estavam sob vigilância por suas relações com grupos islamistas radicalizados, neste caso se trata de uma pessoa com antecedentes de delitos menores, aparentemente sem laços com o Estado Islâmico (ISIS) ou alguma outra organização do tipo.

Com o passar dos dias, a primeira versão dos serviços franceses, que aponta a ação de uma pessoa “autorradicalizada”, pode mudar. Mas inclusive se não se encontram relações diretas entre o ISIS ou Al Qaeda e o ataque do caminhão, a chave deste feito repudiável devem ser buscadas na participação da França na “Guerra contra o terrorismo” dirigida pelos Estados Unidos, que hoje tem seu principal capítulo na Síria e no Iraque. Também de suas intervenções militares em suas ex-colônias no mundo islâmico – desde a Líbia até o Mali.

Nos últimos meses, com a redobrada ofensiva militar da coalizão anti-ISIS sob comando americano, os bombardeios regulares da Rússia e a ação das milícias do Iran para sustentar o regime de Assad, o Estado Islâmico vem retrocedendo. Foi expulso de cidades importantes, seja por seu valor simbólico, como Palmira, ou por seu valor estratégico como Falluja (o coração sunita do Iraque). Com parte do território perdeu a exploração de zonas petroleiras, imprescindíveis para as finanças do califado, em particular, para sustentar seus combatentes. Agora está sob assédio em Mosul, a segunda cidade de maior importância do califado. Justamente horas antes do atentado, em um discurso com tons triunfalistas tomando conta da situação, Hollande havia anunciado que aumentaria o compromisso militar francês para a recaptura de Mosul por parte do governo iraquiano.

Provavelmente, estas condições adversas tenham influído na decisão do ISIS de adotar uma tática similar a da Al Qaeda e exportar o terror dos subúrbios chiitas de Bagdad às capitais ocidentais.

Esta formação reacionária com ideologia medieval tem um moderníssimo manejo de redes sociais, de onde se dirige aos milhões os muçulmanos, sobretudo os mais jovens, que vivem humilhados em países ocidentais e que só necessitam de seu ódio e algum elemento da vida cotidiana, como um caminhão, e escolher um “branco e brando” para desatar um massacre e provocar um alto impacto.

As intervenções imperialistas francesas no exterior têm sua contracapa na crescente estigmatização que sofre a comunidade muçulmana na França – uma das mais numerosas da Europa ocidental com quase 5 milhões de pessoas – condenada a uma vida de gueto nas chamadas “banlieus”, onde abundam a pobreza, a violência policial, a vida precária e o racismo estatal.

A França está entre os primeiros lugares na lista de países ocidentais de onde partem jovens para combater as fileiras do ISIS ou Al Qaeda. Em fins de 2015, as autoridades estimavam que havia uns 600 cidadãos ou residentes franceses na Síria e no Iraque que haviam se alistado no ISIS, a maioria jovens e adolescentes. E uns 200 que logo após seu treinamento haviam retornado ao país.

Como acontece em outras grandes cidades francesas, Nice é um território de agudos contrastes e forte polarização. Esta pérola da Rivera francesa é também um dos centros de maior índice de radicalização de jovens muçulmanos e um reduto forte da racista e xenófoba Frente Nacional.

Os bairros onde vive sua populosa comunidade muçulmana voltaram a ser um terreno fértil para recrutadores de combatentes para as filas do ISIS e Al Qaeda. Também registra uma taxa de desocupação de 15%, enquanto a média do país é de 10%.

Como nos atentados anteriores, a resposta do presidente “socialista” F. Hollande é escalar as medidas “securitárias” no plano interno e o militarismo no exterior. E de modo a apelar à “unidade nacional” com a esperança que o atentado distenda o clima de luta contra a lei trabalhista que tenta impor seu governo e que despertou a resistência imponente de trabalhadores e jovens. Mas dificilmente pode se recompor e fazer frente à investida da direita tradicional e da extrema direita da Frente Nacional de Marine Le Pen, que com um discurso de mais punho de ferro tentarão capitalizar esta crise nas próximas eleições presidenciais de abril de 2017.

Este ataque aprofundará a polarização. Irá reforçar, sem dúvidas, o discurso antiimigrante, xenófobo e islamofóbico que agitam os partidos da extrema direita europeia e que vem celebrar o triunfo do Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia. Mas também pode abrir o caminho ao surgimento de um movimento contra as guerras imperialistas que criam as condições para o surgimento de organizações aberrantes como o Estado Islâmico no plano externo e que a nível doméstico tem sua contrapartida no racismo e o ataque às liberdades democráticas elementares.




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