Teoria

ESPECIAL ROSA LUXEMBURGO: ÁGUIA DA REVOLUÇÃO

O assassinato de Rosa Luxemburgo e a Revolução Alemã

Uma vida lutando pela revolução contra o imperialismo e as burocracias operárias reformistas.

terça-feira 15 de janeiro| Edição do dia

Tradução: Patricia Galvão

Texto original publicado no portal La Izquierda Diario Argentina. Veja o texto original aqui

A vida da revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo foi marcada por acontecimentos revolucionários, desde o início de sua militância aos 15 anos em Varsóvia, até seu assassinato, em meio a Revolução dos conselhos operários na Alemanha em 15 de janeiro de 1919.

Grande oradora, polemista e teórica marxista, combateu a maior parte de sua vida. Se enfrentou contra o imperialismo e colocou toda a sua energia em organizar a classe trabalhadora contra a guerra e a barbárie capitalista, mas ao mesmo tempo batalhou contra as burocracias reformistas que nasceram no seio dos sindicatos e dos partidos operários como a Socialdemocracia Alemã (SPD). Sua grande polêmica teórica com Eduard Bernstein no início do século XX, compilada em seu livro Reforma ou Revolução, continuou nas obras como “Greve de massas, partidos e sindicatos”, ou no Folheto de Junho”, que denunciava a traição histórica da socialdemocracia ao apoiar a guerra imperialista.

Clara Zetkin escreveu sobre sua grande amiga, depois de sua morte: “No espírito de Rosa Luxemburgo o ideal socialista era uma paixão avassaladora que tudo arrastava. Uma paixão que tomou a razão e o coração, que a devorava e a movia a criar. A única grande e pura ambição dessa mulher ímpar, a obra da sua vida, foi preparar a revolução que haveria de deixar o caminho aberto para o socialismo. Poder viver a revolução e participar de suas batalhas era para ela uma felicidade suprema...”

Os últimos quatro anos de sua vida (desde janeiro de 1915 a novembro de 1918), Rosa Luxemburgo reclusa nas celas das prisões alemãs, exceto por um breve período. Na prisão, atravessou momentos de intensa angústia, mas se recuperou e encontrou flashes de imensa alegria e otimismo. Sua rica correspondência é dirigida a seus amigos mais próximos e a seus camaradas. São cartas poéticas e cheias de sentimentos, combinadas com profundas reflexões políticas.

As notícias da revolução de fevereiro de 1917 na Rússia e a queda do czar chegam ao seu cárcere e lhe despertam seu entusiasmo. Rosa acredita que a Revolução Russa é um acontecimento de alcance histórico universal, que deixará marcas ao longo dos séculos. Em setembro de 1918, esboça um artigo de análise com muitos elementos críticos sobre a política de Lênin e Trotski. Quando escreveu, contava com pouca informação sobre o que estava acontecendo na Rússia, já que a imprensa tentava evitar que chegassem as notícias aos operários alemães. Ao sair da prisão, decidiu não publica-lo, já que em muitas questões já estava mudando de opinião. Ainda assim, o conjunto das críticas ali expressas, que décadas mais tarde foram reproduzidas de forma descontextualizadas, a fez no marco de uma reivindicação profunda sobre o papel histórico do partido de Lênin, em contraposição ao papel da socialdemocracia ocidental.

“Nesta situação a tendência bolchevique cumpriu a missão histórica de proclamar desde o começo e seguir com firme consequência as únicas táticas que podiam salvar a democracia e impulsionar a revolução. Todo poder às massas operárias e camponesas, aos sovietes: este era, com certeza, o único caminho que poderia ter a revolução para superar as dificuldades. Esta foi a espada que cortou o nó górdio, tirou a revolução do seu estreito beco sem saída e abriu um amplo caminho em direção os campos livres e abertos. Por isso, os bolcheviques representaram toda a honra e a capacidade revolucionárias que faltava à socialdemocracia ocidental. Sua Insurreição de Outubro não somente salvou realmente a Revolução Russa, também salvou a honra do socialismo internacional.”

O que mais angustiava Rosa era o tempo perdido na prisão, não poder participar de forma direta dos acontecimentos históricos. Logo isso iria mudar. Em novembro de 1918, os marinheiros da frota alemã ancorada em Kiel se motinaram, iniciando a Revolução Alemã. O movimento se expande, com motins de soldados e greves gerais, levando à queda do Kaiser. Em 9 de novembro se proclama a República duas vezes: o social democrata moderado Scheidemmann anuncia a República burguesa, enquanto Karl Liebcknecht, dirigente da Liga Espartaquista junto com Rosa, chama a construir uma República Socialista Alemã dos Trabalhadores. Se formas conselhos de operários e soldados em todas as cidades e libertam os presos políticos. Rosa é libertada nesse mesmo dia e se dirige à Berlim onde assumirá a direção do periódico espartaquista Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha).

A revolução está no início, a vanguarda operária é imatura e o interior do país mais atrasado, ao passo que os socialdemocratas moderados conseguem se colocar a frente dos conselhos operários para desarma-los por dentro. O governo republicano fica nas mãos da socialdemocracia do SPD – encabeçados por Scheidemann, Noske e Ebert – que integram o ministério da USPD, o partido dos socialdemocratas independentes de Kautsky. O objetivo é evitar o avanço da revolução, para o qual se estabelece um pacto com o Estado maior militar e os Freikorps (bandos paramilitares organizados por capitães e soldados desmobilizados do exército do Kaiser). A ordem é liquidar sem pestanejar a ascensão dos trabalhadores e desarticular as organizações revolucionárias. Noske vocifera que lhe cabe atuar como o “cão sanguinário” e Ebert declara que “odeia a revolução como a peste”. Estão decididos a impor a ordem em Berlim varrendo os dirigentes revolucionários espartaquistas e acabando com os conselhos da classe trabalhadora. Naqueles dias, o governo publica artigos e declarações na imprensa responsabilizando os espartaquistas por semearem o caos e os distúrbios, acusando-os de querer entregar a Alemanha aos bolcheviques. Era final de dezembro, Rosa e seus camaradas são duramente perseguidos e se vêm obrigados a atuar na clandestinidade, mudando todos os dias de domicílio. Nessas condições, em 31 de dezembro de 1918, os militantes da Liga Espartaquista, junto a outros grupos revolucionários, fundam o Partido Comunista Alemão.

Nos primeiros dias de janeiro os operários revolucionários de Berlim se enfrentam massivamente com as tropas governamentais, traídas desde os batalhões mais conservadores, depois de uma provocação lançada pelo governo. Ocupam edifícios públicos e as sedes de vários periódicos, como o Vorwärts (o principal jornal socialdemocrata). Em uma ação sem a devida preparação, grupos revolucionários se lançam a insurreição, mas são derrotados. O governo socialdemocrata e o Estado maior militar aproveitam a ocasião para esmagar a vanguarda operária.

A noite de 15 de janeiro, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo sãodescobertos e detidos por um destacamento da Freikorps. De acordo com uma testemunha, Rosa “levou uma pequena mala com alguns livros” acreditando que passaria outra longa temporada na prisão. Levados para o Hotel Eden, sede do corpo de atiradores da Guarda da Cavalaria, são brutalmente golpeados. Rosa é interrogada pelo capitão Pabst, que depois de falar ao telefone com Noske, decide “elimina-la”. Quando Rosa é arrastada escadas abaixo recebe socos e pontapés no estômago. Ao sair pela porta, o soldado Runge a golpeara na cabeça com seu fuzil. Agonizante, a carregam em um carro, onde o tenente Vogel atira em sua cabeça. Seu corpo foi jogado da ponte no Canal Landwehr, afundando nas águas sombrias. Uma fotografia da época mostra os soldados responsáveis pelo seu assassinato comemorando no dia seguinte.

Dois dias depois, o Vorwärts publicou um comunicado oficial redigido por Scheidemann no qual se justificava pelo assassinato de ambos revolucionários: “Há muito tempo que Liebcknecht e a senhora Luxemburgo haviam deixado de ser socialdemocratas porque para os socialdemocratas as leis da democracia contra aqueles que os ameaçam são sagradas. Essa rebelião (...) é a causa pela qual devíamos e devemos combate-los”.

O corpo de Rosa foi achado no canal quase cinco meses depois. Sua amiga Mathilde Jacob o reconheceu por causa das luvas, vestido e seu medalhão. Em junho, milhares de trabalhadores participaram de seu enterro, o que se transformou em uma grande manifestação de rua e seus restos mortais foram depositados ao lado de Karl Liebcknecht. Em meio a forte repressão, Leo Jogiches se negou a abandonar Berlim depois da morte de Rosa, obcecado em investigar e denunciar o que havia acontecido. Em fevereiro publicou um artigo descrevendo todos os detalhes do dos assassinatos, identificando cada um dos responsáveis. Foi preso e assassinado na prisão em 10 de março de 1919.

Um dia antes da sua morte, Rosa havia escrito “A ordem reina em Berlim”. Ali assinalava o papel da socialdemocracia e a sucessão de “vitórias parlamentares” articuladas com uma estratégia reformista que preparou o caminho da capitulação histórica frente a ordem imperialista: “As lutas revolucionárias são justamente o oposto às lutas parlamentares. Na Alemanha tivemos, ao longo de quatro décadas, sonoras “vitórias” parlamentares, íamos precisamente de vitória em vitória. E o resultado de tudo isso foi, quando chegou o dia da grande prova histórica, quando chegou o 4 de agosto de 1914, uma aniquiladora derrota política e moral, um naufrágio inédito, uma bancarrota sem precedentes”.

Com a repressão iniciada pelo governo socialdemocrata e pelo Estado maior, milhares de operários revolucionários foram assassinados e outros milhares presos. Em meados de janeiro de 1919, a derrota da revolução já era inevitável, mas Rosa estava convencida de que suas lições, assim como os ensinamentos da queda da Comuna de Paris e outras lutas da classe operária, permitiram preparar a vitória futura da revolução.

“Mesmo em meio a luta, em meio ao clamor de vitória da contrarrevolução os trabalhadores deverão fazer o balanço do acontecido, terão de medir os eventos e seus resultados segundo a grande medida da história. A revolução não tem tempo a perder, a revolução segue avançando até seus grandes objetivos, mesmo por cima das tumbas abertas, sobre as “vitórias’ e as “derrotas”. A primeira tarefa dos combatentes pelo socialismo internacional é seguir com lucidez suas linhas de força, seus caminhos. (...) ‘A ordem reina em Berlim!’ Lacaios estúpidos! Suas ordens estão construídas na areia. A revolução amanhã já ‘se levantará de novo e com um estrondo até o alto’ proclamará, para seu terror, entre o soar das trombetas: Eu fui, eu sou e eu serei!!

O governo socialdemocrata desempenhou o papel de polícia do império, abrindo caminho para a República de Weimar, uma ordem “democrática” estabelecida sob o sangue da vanguarda trabalhadora para salvar o capitalismo de sua ruína. No entanto, como Rosa previu, a revolução não deixou de se levantar, com o estrondo alcançando o alto, ao longo do século seguinte. Com seus acertos e também avaliando seus erros, o legado revolucionário de Rosa Luxemburgo e Karl Liebcknecht, há 100 anos de seus assassinatos segue tendo enorme vigência na atualidade.

Veja também: Rosa Luxemburgo, a rosa vermelha do socialismo

Rosa Luxemburgo: Pensamento e Ação

A Boitempo e Edições Iskra lançam uma biografia inédita de Rosa Luxemburgo em Português no centenário de seu assassinato. Obra de Paul Fröhlich, seu companheiro de militância, retrata a vida da mulher que “terá sido a maior dirigente revolucionária mulher do último século” desde a sua infância até o seu assassinato. Assim como analisa suas mais importantes obras, retratando cada uma das batalhas que deu em defesa do marxismo e do socialismo em oposição à barbárie capitalista.

Aqui no Esquerda Diário, publicaremos diariamente textos de e sobre Rosa Luxemburgo e um Dossiê Especial no dia 15 de Janeiro, centenário de sua morte.

Acompanhem no Esquerda Diário nosso Especial: “Rosa Luxemburgo, águia da revolução” e também os lançamentos da Biografia que faremos em todo o país!




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