Juventude

ANÁLISE

O ascenso do socialismo millennial

Esta é a capa da The Economist, revista semanal especializada em economia, sua última edição dando conta do que denominam como o “ressurgimento da esquerda” entre os jovens.

segunda-feira 18 de fevereiro| Edição do dia

A afirmação pode parecer exagerada, especialmente se se têm em conta alguns êxitos eleitorais da reação como a chegada ao governo de Donald Trump, as extremas-direitas na Europa ou Bolsonaro e os governos de direita da América Latina. Mas o semanário inglês não faz mais do que reconhecer, com um pouco de demora, de uma nova geração que nasce para a vida política sob as condições da crise orgânica, produto da crise de 2008.

”Depois do colapso da União Soviética em 1991, a disputa ideológica do século 20 parecia ter terminado. O capitalismo teria vencido e o socialismo se converteu em um sinônimo de fracasso” começa afirmando o artigo da The Economist, talvez relembrando aqueles anos nos quais os intelectuais neoliberais pregavam “o fim da história”. Mas nada é para sempre e muito menos sob condições criadas por um sistema de decadência.

“O socialismo está de volta porque se formou uma incisiva crítica sobre tudo que tem ido mal nas sociedades ocidentais” sentencia o artigo. Para confirmar, apontam alguns dados “Muitos dos novos socialistas são millennials. 51% dos estadounidenses entre 18-29 anos tem uma visão positiva do socialismo, segundo coloca Gallup. Nas primárias de 2016, mais pessoas jovens votaram em Bernie Sanders que em Hillary Cinton e Donald Trump somados. Quase um terço dos eleitores franceses menores de 24 anos votaram pelo candidato de extrema esquerda nas eleições presidenciais de 2017.

O renovado interesse de uma importante parte da juventude pelas ideias socialista explicam em boa medida o venenoso ataque de Trump durante um discurso sobre o Estado da União. “Estados Unidos nunca será um país socialista” condenou o presidente, enquanto uma parte dos democratas aplaudiram raivosamente o juramento renovado, passando o recado a Bernie Sanders, que se apresenta como um setor que propõe uma abstrata revolução política e um “socialismo democrático” em oposição ao establishment do Partido Democrata.

Junto a aparição de Sanders, avançaram novas candidaturas como a de Alexandria Ocasio-Cortés, uma congressista recém eleita que se diz ser socialista democrática e se transformou em uma sensação. O semanário inglês também destaca Jeremy Corbyn, atual líder do Partido Trabalhista, que surgiu como a renovação após anos de um trabalhismo marcado pela direitização impressa por Tony Blair. Nestes casos surgiu um movimento militante que reuniu milhares de jovens, Momentum em torno da candidatura de Corbyn, Our Revolution para impulsar Sanders dentro da interna Democrata ou o crescimento do DSA estadounidense, um partido socialdemocrata reformista que se viu revitalizado e que hoje tem mais de 50.000 membros
Nem Sanders, nem Corbyn representam um problema para a classe dominante já que estão longe de fazer uma revolução, propondo não muito mais que algumas políticas parecidas com o New Deal e a volta das políticas de reformas que deram os “Estado De Bem Estar” europeus. De qualquer forma cumprem um papel importante como contenção da crise e possíveis rupturas à esquerda que possam surgir das suas organizações.

Mas o que demonstram é um fenômeno político que promete ter dimensões e consequências históricas. Uma geração que nasce para a vida política mais próxima da crise capitalista e do esgotamento da hegemonia neoliberal que da queda do muro de Berlim e 1989 e o triunfalismo capitalista que o seguiu. Muitos jovens que vêem como o capitalismo lhes coloca frente a uma vida pior que a dos seus pais, trabalhos precários e perda de direitos. Uma parte desta juventude organiza ondas de greves como as professoras, as de trabalhadores das redes de fast-food ou as greves contra a precariedade das “economias colaborativas” como Amazon. São sintomas de uma situação que está mudando, feitos novos que não aconteciam há décadas.

Isso não é a única novidade global, existe o avanço de setores reacionários que buscam fortalecer-se como produto das condições surgidas da crise, como espelha a tentativa de golpe na Venezuela. Mas o despertar político de uma nova geração é uma boa nova, criando um terreno fértil para as ideias realmente revolucionárias, que tem o potencial de mudar verdadeiramente a história.




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