Sociedade

ELEIÇÕES 2018

O apoio crítico de Mano Brown ao PT: “eu não gosto desse clima de festa”

A fala de Mano Brown no ato pró-Haddad no Rio de Janeiro tem rendido polêmicas. O rapper afirmou que o PT se afastou das bases e não consegue mais comunicar com a periferia e que sendo assim, “quem falhou vai pagar”. Muitos petistas ficaram insatisfeitos, enquanto Bolsonaro de forma totalmente cínica tentou tirar proveito do desabafo de Brown para sua campanha de extrema direita.

quinta-feira 25 de outubro| Edição do dia

É verdade que faltou na fala do Mano Brown mais uma critica feroz contra Bolsonaro e o que ele representa, faria diferença agora para fortalecer os que entendem o que está em jogo. Só por isso Bolsonaro pode, cinicamente, fazer um vídeo tentando se utilizar das criticas do Mano Brown ao PT a seu favor. O candidato do PSL agradece pela verdade que Mano Brown expôs e reafirma que o PT errou “e errou muito”, dizendo que ele está indo na mesma linha que Cid Gomes. Mas ele é um músico e não um político e, não é demais lembrar, por tudo o que representa está no lado oposto ao de Bolsonaro e na alça de mira de policiais que querem mais liberdade para matar o povo pobre e negro nas periferias.

Uma semana atrás Mano Brown afirmava em show que “precisamos tirar o pensamento escravagista, o nosso pensamento de escravo tem que sair, o país é nosso, a maioria é nossa, não jogue seu voto fora, Bolsonaro é o caralho”. Em uma entrevista alertava expressamente “o cara que pregar justiça na rua, o cara que prometer austeridade, cadeia, é o que está sendo mais votado, mas quem é que vai preso? Essa lei vai cobrar quem na real? (...) O próprio povo não sabe onde ele está votando, ele tá votando no inimigo dele, no inimigo do filho dele”.

A fala de Brown, ao contrário da de Cid Gomes que equivale a uma punhalada pelas costas enquanto o Ciro está autoexilado na Europa, expressa a perplexidade de amplos setores com o que está acontecendo e como um candidato como Bolsonaro ganhou tanto peso mesmo nas periferias. É um desabafo, um grito de alerta, ainda que cheio de contradições.

É verdade que o PT perdeu o poder de comunicação com a periferia. Mas por quê? A direita se fortaleceu, Dilma sofreu um golpe institucional que se aprofundou com a prisão de Lula, que rechaçamos desde o primeiro momento e seguimos rechaçando, e tudo isso debilitou o PT. Mas o PT perdeu mesmo a capacidade de comunicação por que faliu, com a revolta da juventude em 2013 e com a crise econômica de 2015, sua estratégia de conciliação de classes e seu programa de melhoras graduais na vida do povo, dentro do aceitável para a burguesia. Fez parte de ataques importantes contra as massas negras para quem Brown dedica suas músicas. Triplicou a terceirização, manteve e aumentou as tropas brasileiras no Haiti.

Durante os anos que Lula governou, em base ao crescimento econômico pode encher os bolsos dos capitalistas ao passo em que fazia pequenas e gradativas melhoras no nível de vida da classe trabalhadora e do povo pobre. Ao mesmo tempo, fez todas as concessões ideológicas e democráticas que podia ao setores conservadores. Abriu mão da luta no campo dos costumes, aderiu de corpo e alma a ideologia do empreendedorismo enquanto ela levava ao fortalecimento eleitoral do lulismo. Fez a vontade dos militares, da Igreja Católica e dos pastores evangélicos em todas as questões importantes. Se abraçou no que existe de mais corrupto na elite e na política brasileira.

A crise capitalista, como era inevitável, bateu às portas do Brasil e a marolinha virou tsunami. Já não existia espaço para satisfazer a todos. O segundo governo Dilma, no pouco tempo que teve de vida, foi um governo mentiroso, de ajustes contra a base social que o elegeu, traindo as promessas da própria campanha, aplicando um programa de ajustes que incluiu cortes de verbas na saúde e educação, restrição ao seguro desemprego e auxílios do INSS e a mudança de lei para a exploração do petróleo, em favor dos interesses das multinacionais. As prisões, já superlotadas de jovens não julgados, viram sua população crescer mais de 20% sob o governo de Dilma, metade deles sem julgamento. Esses ataques à sua base social, porém, não satisfizeram as elites que pediam um ajuste mais rápido e estrutural.

Tiraram a Dilma via golpe institucional para avançar ainda mais nos ataques. O PT continuou tentando ser porta voz da conciliação dos interesses das massas com a burguesia, numa espécie de jogo duplo, apostando em negociações e não na mobilização. Em 28 de abril, a partir da greve geral que paralisou o país contra a reforma da previdência de Temer, poderia ter se desenvolvido um processo de luta que barrasse a reforma trabalhista aprovada meses depois, mas o PT apostou em desgastar o movimento esperando que com a impopularidade de Temer retomaria a presidência nas eleições. Grave erro. Foi nessa lógica que as centrais sindicais traíram a greve geral convocada para 30 de junho. Mais uma vez o golpismo avançou e acabou com a esperança conciliatória do PT. Desmoralizando sua própria base ao entregar cada uma das posições sem luta e cedendo todos os espaços para a direita, o PT foi impotente para barrar o caminho do fortalecimento da extrema-direita.

Quando Brown afirma que “se errou vai ter que pagar, quem errou vai ter que pagar” é compreensível que ele está falando ali de frente para Haddad, Manuela D´avilla e o aparato petista, mas deixar de fazer o contraponto com o outro lado, que ele mesmo fez tão bem em outros momentos, é justamente o que permite Bolsonaro tentar se utilizar da sua fala de maneira cínica. Quem vai pagar essa conta, ao fim e ao cabo, não são os dirigentes petistas, é a classe trabalhadora mesmo, o povo da periferia, o povo negro, até mesmo os votantes de Bolsonaro. Do lado de lá se levantam ameaçadoramente as forças da caserna e da perseguição política, da censura, da tortura, a serviço de reduzir novamente o povo brasileiro à condição de escravo. Com toda a cegueira do PT, o problema não é que este deixou de entender ou mesmo de se comunicar com o povo, da mesma forma que Bolsonaro vai ganhar não por que entende o povo. A cegueira do PT corresponde ao caráter utópico que tem seu programa num momento de crise capitalista. O clima não é de festa, ainda que o PT insista com os atos festivos. É preciso enfrentar a extrema direita com a força da mobilização da classe trabalhadora, e essa mensagem não será comunicada pelo PT.

É preciso mobilizar e organizar aqueles que já compreendem o que significará um provável governo Bolsonaro, e se preparar para resistir frente aos profundos ataques que virão. Não podemos esperar que o PT vá corrigir seus erros, e uma das coisas que o desabafo contraditório de Brown expressa é que existe espaço para que amplos setores da base petista tirem conclusões pela esquerda frente a impotência do PT para combater a extrema direita. Desde já é preciso agrupar e organizar o maior número de trabalhadores e jovens em comitês de base nos locais de trabalho e estudo e também nos bairros, exigindo da CUT e da CTB que multipliquem por milhares esses comitês de base em todo o país para podermos virar o jogo e enfrentar as forças da reação que se levantam de forma ameaçadora.




Tópicos relacionados

Eleições 2018   /    PT   /    Lula   /    Sociedade   /    Música   /    Cultura   /    Política

Comentários

Comentar