Cultura

POESIA

O alvo do genocídio é preto

Mãe preta, solidão ardente.

segunda-feira 14 de novembro| Edição do dia

os policiais invadiram o barracão,
querendo saber onde estava o carlão,
eu disse que eles não deveriam mais voltar aqui não,
porque o carlão só ia voltar se fosse em outra encarnação.

eles me perguntaram: - como assim?
- COMO ASSIM, O QUÊ? eu respondi. eles querem me ver possuída...
o carlão passou pro lado de lá, bateu as botas,
me deixou sozinha,
betinho,
vitor,
douglas,
eu e os meus filhos,
meus filhos e eu.

sabe qual é a dor de ser mãe?
é a dor de saber que a pele dos seus filhos
vale o preço do genocídio.
pele preta pra essa porra de brasil.
ser preto é ser ruim,
ser preto é ser ladrão,

ser preta é ficar na solidão,
é ver seu companheiro atrás das grades,
é ver seu companheiro talvez pela última vez
todos os dias

um dia após o outro, a gente vai ficando assim,
com vontade de desistir
confiando em que um dia as coisas vão melhorar,
mas aí, vem vocês...
e me perguntam: onde está carlão?
mas eu é que pergunto: o que vocês fizeram com amarildo,
com josué, com toninho e admilson?
eles moravam ali nas casinhas
agora a casa deles é outra.

- tão no endereço errado.




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