Cultura

LITERATURA

O Quinze de Rachel de Queiroz, Retrato de uma Grande Seca

Quando se fala em Seca, “O Quinze” de Rachel de Queiroz, publicado pela primeira vem em 1930 é uma grande referência, a obra apresenta com maestria os detalhes de uma retirada e as dificuldades enfrentadas por uma família nessa dura jornada.

domingo 18 de setembro| Edição do dia

A história se passa durante a grande seca de 1915 que assolou o Nordeste brasileiro em geral, e o interior do Ceará, especificamente, onde Dona Maroca das Aroeiras, dona das terras, no caso de não chover até dia de São José, 19 de março, estaria dispensando os serviços do seu vaqueiro. Isso significaria para o Chico Bento e sua família, um duro caminho a enfrentar, saindo dos arredores do Quixadá até até a capital Fortaleza.

E assim começou a jornada de Chico Bento e sua família, que foi obrigado a deixar tudo “morrendo de fome e de seca!”. Ele, a mulher Cordulina, a cunhada, Mocinha, cinco filhos e uma burra. “O pequeno ia no meio da carga, amarrado por um pano aos cabeçotes da cangalha […] De vez em quando, levantava a mãozinha aos olhos, e fazia rah! Rah! ah! Ah! Numa enrouquecida tentativa de choro […] Conrdulina chegava-se a burra para o consolar, ajeitava-lhe o chapéu de pano na cabeça […] Chico bento fechava a marcha, com o cacetete ao ombro, do qual prendia uma trouxa”.

O grupo de retirantes “Na primeira noite, arrancharam-se numa tapera que apareceu junto da estrada, como um pouso que uma alma caridosa houvesse armado ali para os retirantes […] O vaqueiro foi aos alforjes e veio com uma manta de carne de bode, seca, e um saco cheio de farinha, com quartos de rapadura dentro […] Já as mulheres tinham improvisado uma trempe e acendiam o fogo. E a carne foi assada sobre as brasas, chiando e estalando o sal”.

Em dia posterior, na estrada, encontraram-se com outro grupo de retirantes dispostos a comer carne de bicho morto de doença encontrado na estrada, Chico Bento em toda sua solidariedade indagou “–E vosmecês tem coragem de comer isso? Me ripuna só de olhar… […] Chico Bento alarou os braços, num gesto de fraternidade: –Por isso não! Aí nas cargas eu tenho um resto de criação salgada que dá para nós. Rebolem essa porqueira pros urubus, que já é deles! Eu vou lá deixar um cristão comer bicho podre do mal, tendo um bocado no meu surrão! […] Realmente a vaca já fedia […] E o bode sumiu-se todo… Cordulina assustou-se: –Chico, que é que se come amanha? A generosidade matuta que vem na massa do sangue, e florescia no altruísmo singelo do vaqueiro, não se pertubou: –Sei lá! Deus ajuda! Eu é que não havera de deixar esses desgraçados roerem osso podre...

A solidariedade teve seu custo, logo “Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarada nudez das latas raspadas”. A retirada não é fácil, é muita estrada, é muita fome, ainda mais se tratado de crianças. Josias, filho do casal não sobrevive a jornada, em sua fome comeu uma raiz, mandioca crua, que crua é mesmo que veneno, logo adoeceu e não teve reza que desse jeito. “Lá tinha ficado Josias, na cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai […] Ficou em paz, Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz […] Cordulina, no entanto, queria-o vivo. Embora sofrendo, mas em pé, andando junto dela, chorando de fome, brigando com os outros...”.

Após a triste despedida, seguiram sempre seu caminho “Dia a dia, com forças que iam minguando”, “Só talvez por um milagre iam aguentando tanta fome, tanta sede, tanto sol”. A burra que os acompanhava, não se sabe como de tão magra que estava, para que não morresse simplesmente “Chico Bento julgou melhor trocá-la por qualquer cinco mil-réis, que ser forçado a abandoná-la por aí, meio morta, em algum pedaço de caminho. Um bodegueiro, em Baturité, lhe ofereceu 6$000. E deixaram a companheira de tantas léguas amarrada a uma estaca de cerca, a cabeça pendendo do cabresto, a cauda roída e suja batendo as moscas das pisaduras”.

Mais adiante na estrada, depois de dias de fome, “De repente, um bé!, agudo e longo, estridulou na calma. E uma cabra ruiva, nambi, de focinho quase preto, estendeu a cabeça por entre a orla de galhos secos do caminho, aguçando os rudimentos da orelha, evidentemente procurando ouvir, naquela distensão de sentidos uma longínqua resposta a seu apelo […] O animal soltou novamente seu clamor aflito. Cauteloso, o vaqueiro avançou um passo. E de súbito em três pancadas secas, rápidas, o seu cassetete de jucá zuniu; a cabra entonteceu, amunhecou, e caiu em cheio por terra. Chico Bento tirou do cinto a faca, que de tão velha e tão gasta nunca achara um tostão por ela. Abriu no animal um corte que foi de baixo da boca até separar ao meio o úbere branco de tetas secas, escorridas […] E o vaqueiro, batendo com o cassetete no cabo da faca, abriu ao meio criação morta”, seria a chance de alimentar aos seus.

A vergonha veio na forma de “Um homem de mescla azul vinha para eles em grandes passadas. Agitava os braços em fúria, aos berros: –Cachorro! Ladrão! Matar minha cabrinha! Desgraçado! […] Chico Bento, tonto, desnorteado, deixou a faca cair e, ainda de cócoras, tartamudeava explicações confusas […] Dentro de sua perturbação, Chico Bento compreendeu apenas que lhe tomavam aquela carne e que seus olhos famintos já se regalavam, da qual suas mãos febris já tinham sentido o calor confortante […] Caindo quase de joelhos, com olhos vermelhos cheios de lagrimas que lhe corriam pela face áspera, suplicou, de mãos juntas: –Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de carne, um taquinho ao menos, que dê um caldo para a mulher mais os meninos! Foi pra eles que eu matei! Já caíram com a fome! –Não dou nada! Ladrão! Sem-vergonha! Cabra sem-vergonha! […] Antes se abateu mais, e ele ficou na mesma atitude de súplica. E o homem disse afinal, num gesto brusco, arrancando as tripas da criação e atirando-as ao vaqueiro: –Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como você fez, dar-se tripas é até demais!”.

E foi assim que “num foguinho de garrancho, arranjado por Cordulina com um dos últimos fósforos que trazia no cós da saia, assaram e comeram as tripas insossas, sujas apenas escorridas nas mãos”.

Outro filho do casal seguiu seu rumo separado do grupo, acabou se perdendo. Chico Bento “bateu à porta, enquanto Cordulina se sentava no chão, na beirada do alpendre. Lá dentro, uma voz de mulher disse baixinho: –Abre não, menina, é retirante… É melhor fingir que não ouve… Chico Bento escutou; e em sua voz lenta explicou, dolorida: –Não vim pedir esmola, dona; eu careço é de ver o delegado daqui… Um homem de cachimbo no queixo mostrou a cara na meia porta: –Está falando com ele. O que é? Chico Bento ficou um instante encarando o homem, reconhecendo-o. Mas o delegado, impaciente, repetiu a pergunta: –O que é que você queria? –Eu vim falar ao senhor mode um filho meu, que desde ontem tomou sumiço. Nós ficamos na estrada, eu assim, variando, muito fraco… e ele veio até aqui. Quando de manhã cacei o menino, não teve quem desse notícia. –E como ele é? –Assim comprido, magrinho, a cara chupada… está dentro dos doze anos […] –Não tenho jeito a dar não, meu amigo… O menino, naturalmente, foi embora com alguém… Um rapazinho, assim sozinho, muito gente quer. Cordulina ouvia confusamente o que diziam, e chorava baixinho. Desanimado, Chico Bento sentou-se na mesma beirada de tijolo, junto à mulher.

Em meio ao mar de sofrimento e desesperança, o delegado meio que conhecendo Chico Bento em meio a sua desgraça perguntou “–Donde você é? A voz cansada soou fraca: Eu sou filho natural de Iguatu, mas faz muito tempo que morava pras bandas do Quixadá. O homem procurou arejar a memória: –Nas terras de Dona Maroca? –Inhor sim, nas Aroeiras… O delegado abriu a porta e saiu para o alpendre: –Bem que eu estava conhecendo! É meu compadre Chico Bento!

Conhecendo o delegado as coisas mudam “O delegado convidou: –Entre, compadre! Essa é a comadre? Adeus, comadre, entre também! Cadê meu afilhado? Será esse que fugiu? Cordulina entrava, puxando por um dos meninos, e respondeu: –Inhor não… O seu afilhado era o Josias, morreu na viagem… O homem chamou a mulher: –Eh! Doninha! Venha falar com uns conhecidos! Entre comadre, ela está na cozinha. Vá entrando!”. Eles então tiveram sua primeira refeição decente em muito tempo, e graças a amizade de alguém “importante” seguiram a viagem de trem até Fortaleza.

Em Fortaleza eles se alojaram no Campo de Concentração, isso mesmo havia um campo onde os refugiados da seca eram alocados de maneira precária e recebiam ração para não morrerem de fome.

Conceição, uma personagem central no livro, que devido ao recorte que fizemos para a análise focada na retirada da família acabou ficando de fora até então, os achou em péssimas condições. “Foi realmente com dificuldade que os identificou, apesar de seus olhos já se terem habituado a reconhecer as criaturas através da máscara costumeira com que as disfarçava a miséria”. E a criança que “que lhe pendia do colo, e que agora a trazia tão magra, tão magra que nem uma visagem, que nem a morte, que só talvez um esqueleto fosse tão magro...

Tendo encontrado velhos conhecidos, a própria Conceição e sua vó, Chico Bento “Tristemente contou toda a fome sofrida e as consequentes misérias […] a morte do Josias, naquela velha casa de farinha, deitado junto de uma trave de aviamento, com a barriga tão inchada como a de alguns paroaras quando já estão para morrer […] E aquele caso da cabra, em que — Deus me perdoe! — pela primeira vez tinha botado a mão em cima do alheio... E se saíra tão mal, e o homem o tinha posto até de sem-vergonha, e ele tão morto, tão sem coragem, que o que fez foi ficar agachado, aguentando a desgraça […] Depois era a fuga do Pedro, e aquela noite na estrada em que a mulher, estirada no chão, com o Duquinha de banda, todo o tempo arquejou, variando, sem sentidos, como quem está para morrer.

Tendo chagado a Fortaleza sua vida não melhorou, continuavam a passar necessidades, continuavam marcados pela seca. A muito custo Chico Bento conseguiu um duro trabalho numa barragem que estava sendo construída, “Só de longe em longe parava para tomar fôlego, sentindo o pobre peito cansado e os músculos vadios”, ao menos através do suor de seu trabalho “Ele trazia um pão, rapadura e um pouco de café” o que gerou certo “alvoroço da meninada que o acolheu, e lhe arrebatou as compras, [isso] bem lhe pagou as tristes horas do dia, curvado sobre a pá, em tempo de morrer de calor e cansaço...

Conceição, na condição de madrinha de Duquinha o menino mais novo, insistiu em adotá-lo, a certo contragosto dos pais, que acabaram cedendo diante da possibilidade, mesmo que mínima, de que ele sobrevivesse.

Aquela situação não era sustentável, viver no Campo de Concentração tinha que ser provisório, Chico Bento então consultando Conceição sobre qual o próximo rumo a família deveria tomar, as opções incluíam o Norte, em pleno ciclo da borracha, e também o Maranhão, mas ambas foram descartadas devido a dificuldade de vida em ambos os lugares. São Paulo foi a opção apresentada e acolhida, afinal havia “Trabalho por toda parte, clima sadio... Podem até enriquecer...”. Não sem curso Conceição conseguiu as passagens em terceira classe em um Navio, “Cordulina não chorava mais. Na véspera, quando fora despedir-se do Duquinha, parece que esgotara as lágrimas; e com os olhos secos olhava fixamente as ondas que iam e vinham, batendo nos pilares de ferro […] Chico Bento fitava o navio, escuro e enorme, com sua bandeira verde de bom agouro, tremulando ao vento do Nordeste, o eterno sopro da seca. Sentia com que um ímã o atraindo para aquele destino aventuroso, correndo para outras terras, sobre as costas movediças do mar”.

E assim foi o destino de uma família, que vítima não só da seca, mas também da estrutura fundiária excludente, sofreu ao longo da dura retirada, sofreu também pela falta de acolhimento e estrutura na cidade. Essa obra, provavelmente a mais popular de Rachel de Queiroz, é marcante e juntamente com outras apresentou ao Brasil, com profundo realismo, essa situação não tão conhecida, a época, um Nordeste diferente daquele dos Barões do açúcar, um Nordeste onde a chuva determina a sobrevivência dos rebanhos de bichos e homens. Sobrevida, porque Vida mesmo o modo de produção não permitia.

Hoje vivemos praticamente uma reedição dessa grande seca, estamos vivendo uma das maiores estiagens da história da região Nordeste, e mesmo que mais de 100 anos nos separe da trágia retirada pela qual passou Chico Bento acompanhado de sua família, ainda amargamos esse problema que é primeiramente social, e depois climático. Mesmo que os mais pobres não precisem enfrentar uma retirada, nos mesmos moldes, não passam incólumes as grandes secas, sendo vitimas daqueles que lucram de diferentes formas com a estiagem.




Tópicos relacionados

Literatura   /    Cultura

Comentários

Comentar