Teoria

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O Primeiro de maio de 1968 na Praça da Sé: rebeldia operária no dia do trabalho

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

As reflexões que apresentamos são sínteses desenvolvidas na minha tese de doutorado defendida pela Unesp-Marília em agosto de 2015: Movimento operário e sindicalismo em Osasco, São Paulo e ABC paulista: rupturas e continuidades. As entrevistas realizadas com operários de Osasco, São Paulo e ABC paulista estão disponíveis aqui.

Antecedentes do Primeiro de maio - as disputas entre pelegos e combativos no MIA

O arrocho salarial, o crescente aumento do custo de vida e a repressão foram base para um amplo descontentamento no chão de fábrica. A inflação em 1967 foi de 26,5% e em 1968 de 26,7%. Frente a isso, o operariado ensaiava respostas ao golpe de 1964 e a política salarial que lhe foi imposta pelas armas. Mesmo as direções sindicais pelegas, que atuavam como linhas auxiliares da ditadura, se viram obrigadas a ouvir as reivindicações que vinham de suas bases para poder controlá-las. Foi em meio a tal processo que se criou o MIA. Conforme caracterização de um grupo trotskista que atuou no MIA, esta agrupação de sindicalistas atuava
como uma organismo nacional dos pelegos, era uma tentativa dos burocratas sindicais de assumirem a direção das movimentações que, cada vez mais, lhes escapavam das mãos; tomarem as rédeas do processo, para conduzirem os trabalhadores para a luta reformista. Para aplaudirem Sodré na Praça da Sé. (Organização Comunista 1º de Maio, Algumas considerações sobre a formação da direção revolucionárias do proletariado, 1971).

Os principais sindicatos paulistas participavam do MIA; o Sindicato Metalúrgico de São Paulo, presidido por Joaquinzão pelego, Sindicato Metalúrgico de São Bernardo do Campo, presidido por Afonso Monteiro da Cruz, Sindicato dos Bancários, presidido por Frederico Brandão (do PCB), Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, presidido por Ibrahim, Sindicato Metalúrgico de Campinas, Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos e o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

A direção do MIA programou 5 assembléias nos principais centros operários do Estado: a primeira foi realizada em São Paulo, sob a direção de Joaquinzão pelego, a segunda em Santo André, a terceira em Osasco, a quarta em Campinas e a última em Guarulhos. Foram todas assembléias lotadas com centenas e milhares de operários. Em cada uma delas expressava-se a tensão entre os pelegos e os combativos liderados por Osasco. Conforme nos relatou Elias Stein, um dos principais dirigentes da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo e que participou daquele movimento:

O MIA era uma mistura de Partidão, pelego, oportunista e gente sem ideologia nenhuma... Eles estavam reagindo a uma pressão debaixo, da peãozada que não se conformava de ver o salário cada vez perder o valor né, todo mês. A inflação não era essas coisas... Sei lá, mas devia estar uns 30% ao ano e os reajustes vinham 10%, 5%. E o governo é que decretava o aumento né, aumento não, reajuste, aí ele dava quanto queria. Isso aí é que levou o pessoal a pressionar o sindicato para fazer alguma coisa. Aí aparece o Movimento Intersindical Anti-arrocho, mas ele durou pouco tempo porque logo rachou né. Veio de cima, mas veja bem, pressionado pelas bases. Mas logo rachou porque tinha o pessoal do Partidão, os pelegos e a esquerda radical que estava lá em Osasco, principalmente. Olha, eu acho que era só lá [em Osasco] viu, que tinha uma direção sindical assim, combativa, ligada com grupos de esquerda. (Entrevista - Elias Stein).

As oposições sindicais, que já dispunham de certa coesão em 1967, engajam-se nesse movimento para disputar hegemonia contra os pelegos e propagandear outro programa.

A atuação de Osasco no MIA

No início da década de 1960 foram formadas duas comissões de fábrica na Cobrasma de Osasco, uma clandestina composta por operários de esquerda independentes e a Comissão dos 10, organizada por militantes católicos da ACO e JOC que impulsionavam a FNT (Força Nacional do Trabalho). O trabalho interno feito pelas duas comissões encontrou grande aceitação pelo operariado da Cobrasma, com isso, esses operários calcularam que tinham chances de vencer as eleições sindicais para a gestão do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco em 1967. Formou-se então a Chapa Verde, composta por membros da FNT e do grupo de esquerda, esta chapa promove uma verdadeira campanha militante e vence a eleições com cerca de 90% dos votos dos operários da Cobrasma, fábrica que contava com 4.000 operários. Organizando-se pela base, por meio de comissões, grupos de fábrica clandestino e um Sindicato militante, uma ampla camada de operários passou a orbitar em torno do Sindicato. Essa camada era chamada de Vanguarda de Fábrica, estima-se que esta chegou a organizar cerca de 1000 operários entre julho de 1967 e julho de 1968. Quando o Sindicato de Osasco passa a intervir no MIA, leva esse bloco metalúrgico para a disputa no meio sindical paulista.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, presidido por Ibrahim, acabou sendo uma tribuna pela qual se expressava a voz das oposições sindicais no interior do MIA. Essa atuação combativa defrontava-se contra a ampla maioria dos dirigentes do MIA. Segundo Ibrahim (1972):

Nós que representávamos a oposição de esquerda dentro do movimento sindical, ficamos isolados dentro do MIA desde o começo. Entretanto, nucleamos as oposições sindicais e passamos a ser o seu porta-voz no MIA. Nessa fase, chegamos a criar uma frente organizada de oposição sindical. Dentro do MIA, defendíamos a necessidade de agitar as palavras de ordem de organização pela base, formação de Comitês de empresa e greve contra o arrocho. (IBRAHIM, 1972 - Entrevista à Unidade e Luta).

Ainda que a perspectiva defendida pelo Sindicato de Osasco fosse minoritária entre os sindicatos, a base que participava das assembleias do MIA podia ser disputada. De acordo com Espinosa (que foi operário na Cobrasma), em entrevista que nos concedeu, a assembleia realizada em Osasco, em janeiro de 1968: "Encheu. Encheu o sindicato. Ficou muita agente do lado de fora. Umas 2 mil. Ali dentro cabia umas 900 pessoas, apertadas, no salão. Não é despropositado falar em 2 mil". (Entrevista - Espinosa). E continua:

Em todos os lugares onde o Ibrahim chegava, era o Ibrahim, quer dizer, era recebido com festa cada vez maior, porque Osasco passou a ser um símbolo. Era o único lugar em que a Oposição sindical estava no poder. Os demais sindicatos que integravam o MIA, eram descontentes, dissonantes com o Joaquinzão, com o Metalúrgicos de São Paulo, mas não chegavam a ser uma oposição. Os bancários, por exemplo, estava o Brandão, que era do Partidão, inclusive chegou a ser Deputado do Partidão, mas era a própria moderação. (...). A gente acaba vocalizando mais as oposições. Então, as oposições, cada vez mais, passam a vir a Osasco. Osasco vai se transformando em uma Meca das oposições sindicais. (...). De outro lado, o MIA também tinha uma relação com o movimento sindical, com o Joaquinzão, etc. Então o MIA radicalizava. Dentro do MIA a radicalização era puxada por Osasco. Osasco aglutinava as oposições. Mas o MIA também dialogava com o Joaquinzão, com a pelegada. Então, a proposta do Primeiro de Maio de 1968... Bom, o que aconteceu em novembro [de 1967], a proposta aprovada pelo MIA era de 35% de aumento ou greve. Houve um aumento de 2 ou 3% dentro do arrocho, e a greve não aconteceu porque não havia organização. Sofre uma frustração generalizada [na data base de 1967. (Entrevista - Roberto Espinosa).

Nessas assembléias do MIA, as relações entre os dirigentes pelegos e os operários combativos não eram nada amistosas. Na primeira delas, realizada no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, os pelegos tentam impedir Ibrahim de fazer uso da tribuna. Quando se realizou a assembleia em Osasco, os pelegos não quiseram fazer uso da palavra. Por fim a última assembleia realizada em Guarulhos terminou com uma implosão.

As cinco assembleias tiveram como um de seus desdobramentos a organização de um ato em comemoração ao Primeiro de maio, sendo que os pelegos queriam realizar um ato com representantes da ditadura e os operários combativos exigiam a realização de um Primeiro de maio independente. Segundo Ibrahim (1972):
Surgem duas linhas, a do MIA e a nossa. Os dirigentes sindicais do MIA defendiam a realização de um ato com a participação do governador Sodré. O Ministro do Trabalho, Franco Montoro, etc. Nós nos opusemos. Achávamos que no 1º de maio deviam participar apenas os trabalhadores, que não tinha nada que convidar "autoridades", para descaracterizar a manifestação e não aparecermos comprometidos com o governo. Resolvemos discutir o problema em Osasco. (IBRAHIM, 1972 - Entrevista à Unidade e Luta).).

Em meio às discussões em Osasco, definiu-se pela participação no ato da Praça da Sé como uma postura própria, por um Primeiro de maio independente e pela expulsão dos representantes da ditadura. A intervenção do Sindicato de Osasco e dos militantes de oposição deu o tom para os eventos daquele ano. Depois das greves em Contagem, a classe operária de Osasco havia ganho novo ânimo. As bandeira de luta contra o arrocho, "lei anti-greve" e "Minas é exemplo de luta" darão a tônica das oposições naquele Primeiro de maio de 1968 na Praça da Sé.

O Primeiro de Maio na Praça da Sé

A partir do Sindicato Metalúrgico de Osasco organiza-se um grande bloco operário que levaria as posições defendidas pelo Sindicato dos Metalúrgicos, comissões de fábricas e comitês clandestinos, que convergiriam com a militância operária e as oposições sindicais que lutavam contra o peleguismo e a ditadura. Segundo Ibrahim, além das centenas de operários de Osasco que se dirigiram para o ato: "organizamos em Osasco um grupo de segurança, que lotou um ônibus. Ele ia armado de porretes, barras de ferro, ovo podre, etc, e deveria tomar o palanque junto com alguns setores das oposições sindicais certas organizações revolucionárias". (IBRAHIM, 1972).

As oposições que vinham se auto-organizando desde o golpe militar, compondo o MIA como um fórum de contatos entre os operários combativos, conseguiram intervir qualitativamente no ato e mudar os rumos daquela atividade. Naquele Primeiro de Maio, uma quarta feira, confluiriam todas as organizações que combatiam a ditadura. Conforme nos relatou Anízio Batista, dirigente histórico da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo:

O Primeiro de Maio na Praça da Sé era muito importante na época da repressão, porque quando nós tínhamos o Primeiro de Maio, canalizava todo o trabalho nosso, em termos de agitação (...). Naquele tempo não podia nem falar de centrais sindicais. Mas nós canalizávamos todos os trabalhos de oposição e o pessoal mais avançado do movimento sindical na Praça da Sé. Foi aonde a gente deu uma pedrada no Abreu Sodré [risos]. (Entrevista - Anízio Batista).

Duas formas de sindicalismo chocam-se, por um lado a do sindicalismo pelego que coaduna com a ditadura militar e o patronato, que arbitra por cima das bases em negociação com autoridades governamentais e administrativas. Por outro lado, havia a atuação sindical estruturada sobre as comissões de fábrica. De acordo com o relato de Espinosa, o evento foi cuidadosamente preparado em Osasco:

O Primeiro de Maio também teve esse negócio de uma preparação, de núcleos, que estão um dentro do outro, em que cada núcleo mais fechado você tem uma coisa mais radicalizada. Então, o Primeiro de Maio foi preparado pelo conjunto do movimento sindical, incluía os pelegos, Joaquinzão, os pelegões tradicionais. E o MIA participava disso. Dentro desse movimento, do movimento sindical, foi negociado, quem falaria, quantos falariam, falariam dois ou três do MIA. Um dos que falaria pelo MIA seria o Ibrahim. Foi negociada a ordem da... Isso no movimento sindical geral. O MIA, além dessa participação geral, se reunia à parte. Então o MIA falava da radicalização dentro da... Depois de começada a manifestação. Algumas pessoas do MIA, sabiam da ocupação [do palanque], agora dentro do MIA, o pessoal de Osasco, o grupo de Osasco se preparou taticamente, para a ocupação, para tomar o palanque. Então, esse grupo do Dori, Dori depois integrou a ALN e morreu lá em Presidente Altino. (...). A casa dele foi cercada, ele tentou fugir pelo telhado, foi abatido, caiu do telhado no quintal, morto. O Dori era da construção civil em São Paulo. O Dori conseguiu porretes, esse porretes serviram para... Você colocava cartazes. Na hora você tirava o cartaz, tinha uma puta de um porrete com prego na ponta. Ele também conseguiu umas duzentas barras de fio de telefone, que você dobra e é um cassetete. Então, Osasco, nós preparamos o seguinte, Osasco mandou, se eu não me engano, 9 ou 19 ônibus, que foram para a Praça das bandeiras, o pessoal concentrou lá. As lideranças, para as lideranças não tinha ônibus, foi todo mundo de trem. Eu por exemplo, fui com uma barra de fio amarrada aqui na cinta, chegar na hora e tirar. Vamos até a Praça Júlio Prestes. Aí fomos a pé, até a Praça da bandeiras. Lá juntamos, então, de Osasco tinha entre 900 e 1000 pessoas. Tinham outras pessoas de Osasco que foram soltas. E esses 1000 de Osasco, é a Vanguarda de Fábrica e a Vanguarda estudantil, ou seja, era o pessoal nosso. Bom, pra você ter uma ideia disso, só para a VPR foram 80 quadros de Osasco. Osasco dobrou o número da VPR. Osasco deu expressão à VPR. (Entrevista - Roberto Espinosa).

João Joaquim, que era operário da Cobrasma, estava com um grupo de operários que chegou antes na Praça da Sé para averiguar o contingente policial e militar que estava de prontidão para assegurar a realização do ato. Cerca de 300 policiais faziam a segurança do Ato:

Quando nós chegamos lá na Praça da Sé, primeiro a gente fez uma ‘operação fria’, um grupo foi na frente, deu uma olhada, viu, pelo o tamanho do palanque... Uma ‘operação fria’, você vai, faz um levantamento, uma pesquisa, aí você fala: ‘oh pessoal, ta chegando repressão’, ou não: ‘Olha, o negócio está fácil, não tem polícia’. Nós fomos lá às cinco, seis da manhã, sete horas, porque [o ato] foi às nove. Aí você via aquele palanquinho pequenininho, e a cada dez metros, cinco metros, tinha um cara com um fuzil, baioneta, polícia mesmo... Aí a gente já falou: ‘Olha, a coisa vai ser pesada mesmo”. Aí quando chegamos, por volta de oito e meia, mais ou menos, antes das nove, aí a gente já percebeu que a coisa ia ser feia. E quem estava comandando o palanque eram os pelegos mesmo. Um tal de Brandão que era dos Bancários, acho que era Frederico Brandão, Joaquim dos Santos Andrade, dos metalúrgicos né, tinha um tal de Paixão também, que era de Guarulhos, e outros... (Entrevista - João Joaquim).

Em publicação de 1972, Ibrahim afirmou que estavam preparados para enfrentamentos mais agudos com as forças repressivas do governo militar-burguês: "Fizemos um levantamento de todas as entradas da Praça da Sé e dispusemos em cada uma um grupo de segurança, com bomba molotov para enfrentar a polícia. (Desse esquema se encarregaram o grupo de Marighella e o grupo dos sargentos, que mais tarde se transformariam na ALN e VPR)". (IBRAHIM, 1972).

A ditadura militar assegurou toda estrutura midiática, policial e militar na Praça da Sé para garantir que o evento fosse realizado. Aquele Primeiro de Maio seria uma forma de forjar uma aparente harmonia entre dirigentes sindicais, operários e governo ditatorial. Era uma propaganda que fabricava a artificialidade de uma faceta democrática do Regime. Como relembra Cloves de Castro, que também militou na Oposição: "Bom, aí a gente entra na Praça da Sé e o palanque montado, certo, você via uma puta cobertura da mídia, entendeu... Cobertura da mídia, do lado direito, a câmera de televisão". (Entrevista: Cloves Castro). De acordo com o relato de Espinosa, as delegações de Operários de Osasco são recebidas com entusiasmo pelos trabalhadores presentes na Praça:

[...]. Osasco, 900 a 1000 se concentram na Praça da Bandeira, vamos em passeata na Praça da Sé... Na Praça da Sé o pessoal estava se concentrando, estava ali... Aquele clima no ar. Quando chega esse grupo de Osasco, com poucas pessoas da Frente [Nacional do Trabalho], eu até acho que o João Joaquim devia estar nesse grupo. Quando esse grupo chega, e entra na Praça da Sé: ’35% ou greve!’, ’greve já!’, com cartazes, agitando... Quer dizer, aquilo pega fogo, certo... O pessoal fala em 12 mil, não cabia isso. Praça da Sé... No máximo cinco ou seis mil. Metade do que falam. Hoje é maior, hoje caberia. Hoje cabe até uns 40, 50 mil. Mas na época não cabia isso. Mas era bastante. E também não estavam todos ali, estavam nas imediações, chegando... Mas ali dentro uns 5 ou 6 mil... E quando Osasco chega, mil entram no meio de 5 mil, quer dizer... É uma alavanca né... Aquele negócio se levanta, e o pessoal de Osasco vai, atravessa e cerca o palanque. Aí você começa a dizer: ’Vamos tomar o palanque!’. O plano era tomar o palanque quando o Ibrahim falasse, ou, se não desse nesse momento, quando o Abreu Sodré falasse. O Abreu Sodré não podia falar, esse era o plano, mas nem sempre acontece como você quer. Primeira coisa, o Ibrahim não chegou a Praça da Sé. O Ibrahim não participou. (Entrevista - Roberto Espinosa).

O número de participantes daquele ato são imprecisos. A maior parte dos entrevistados fala de 10.000 participantes, mas há também os que falam que chegou-se a 15.000 manifestantes. A organização do ato, bem como a intervenção dos operários e militantes de Osasco durante o evento na Praça da Sé, colocou em cena uma camada considerável de operários combativos que estavam dispostos a enfrentar-se política e fisicamente contra as forças militares e policiais da ditadura. Naquele dia, as delegações de Osasco tomam a linha de frente, armados com bastões de madeira, cabos de aço e barras de ferro, dispõem-se cara a cara com o palanque prontos para o enfrentamento com as Forças Armadas que faziam a segurança do ato. Começa o empurra-empurra que redunda em enfrentamento, atiram ovos, uma pedrada na cabeça de Abreu Sodré, um discurso dos militantes de Osasco e incendeiam o palanque.

Foto 1 - no palanque: Abreu Sodré pede calma ao operariado
Fonte: https://solidariedadesocialista.files.wordpress.com/2011/05/palanque-dos-pelegos-1-maio1968.jpg

Waldemar Rossi, que foi um dos principais dirigentes da Oposição Metalúrgica de São Paulo, relata que a imagem da massa operária furiosa avançando contra o palanque deixou-o impressionado: "Levou pedrada... Um pedaço de madeira pegou na cabeça dele e eles saíram de gatinho [engatinhando]. Eu tenho uma imagem, ainda hoje, daquela massa furiosa derrubar o palanque, tocar fogo no palanque. Me impressionou... É aquilo que é a massa furiosa" (Entrevista - Waldemar Rossi). Como recordou João Joaquim:

(...) Quando abriram o evento, a primeira pessoa que apresentaram foi o Roberto de Abreu Sodré, que era o governador, aí depois foi o Brandão [Presidente do Sindicato dos Bancários e militante do PCB], Joaquim dos Santos Andrade. Aí nós falamos que o Ibrahim, Osasco, não subia no palco de pelego, e demos uma vaia na turma: ’Operário sim, pelego não!’. Aí, nós tínhamos o projeto de tomar o palanque. Estava combinado, a esquerda lá, o sindicato, algumas reuniões clandestinas. Então, fizemos um jogo de avançar todo mundo para o palanque, e tomar o palanque logo que os pelegos subissem. Aí, isso aí funcionou. Só que na primeira ida [para cima do palanque], a gente foi reprimido violentamente, cassetete... A gente recuou, demos alguns passos para trás, assim como quem fosse embora. Mas, tinha até um projeto, de que se caso a gente não conseguisse [tomar o palanque], a gente virar as costas para o palanque e fazer um outro ato. Mas aí, na segunda ida que a gente foi, aí, tal, saiu pelego até pelo ladrão, policial caindo com o cassetete na mão e tal, e já tomamos o palanque. Aí foi quando, não sei de onde, veio uma pedra e bateu na cabeça do Roberto Abreu Sodré e ele se refugiou dentro da Catedral. Aí, teve assim, dois discursos importantes: teve um do Barbosa, que era uma liderança da AP [Ação Popular], do ABC, que, inclusive, com a repressão, ele foi embora para a Suíça e morou na Suíça muitos anos. E teve o discurso do José Cupertino de Novaes, que era da construção civil, inclusive era da Presbiteriana e era da AP também, era protestante e tal... E tem um detalhe, a gente não comenta muito em respeito até... Agora até a memória né... o Zé Ibrahim não veio no Primeiro de Maio, estava escondido. Então quem falou foi o Zequinha né, o José de Campos Barreto, mas ele falou na Praça da República. Porque, com esse alvoroço, o objetivo nosso era derrubar o palanque e por fogo no palanque. Então isso nós fizemos, assim, deu tudo certinho, e uma passeata. Tomamos o palanque, o Barbosa falou, mais o outro companheiro falou, o governador se refugiou dentro da Catedral, sangrando, e os pelego amparando o governador né, no colo [risos], então nós desmobilizamos os pelegos também né... Aí a palavra de ordem era descer pela XV de novembro e chegar na República, e deu certo também né... Organizamos e tudo... E, com a pelegada, com os policiais, os dedo-duro, filmando lá de cima dos prédios... E, a gente descendo em passeata. (Entrevista - João Joaquim).

Na imagem a seguir, registrou-se os momentos do empurra-empurra que culminou com a ocupação do palanque pelos militantes de Osasco e das oposições sindicais:

Foto 2 - Agitação e empurra-empurra na Praça da Sé
Fonte: http://memoriasoperarias.blogspot.com.br/

O acontecimento também nos foi relatado por Espinosa que participou daquela atividade:

Aí, o que eu me lembro, naquele burburinho, falou um sindicalista, falou um outro, acho que nem o Joaquinzão chegou a falar... Mas, aí, de repente, começou aquele mexe-mexe, se entendeu? E começa a balançar o palanque, de repente vem um... Ovos jogados no palanque, que atingem várias pessoas, um acerta o Abreu Sodré. E eles saem correndo do palanque, eles descem. Atrás tinha a escadaria para a Igreja, que era uma escadaria mais pronunciada do que hoje. (...). Antes era maior... Mas, aí, sobem todos correndo e entram... O Vandré [Músico] estava no palanque... Aí, eles descendo do palanque, uma outra turma sobe... E de repente, quem está com o microfone na mão: José Campos Barreto, não estava no plano. Aí o Barreto faz ali o discurso agitado, chamando para a greve, falando da ditadura, quer dizer, faz o discurso da cultura VPR, em que ele já estava, passa a palavra para o Neto, e fala mais um cara que é do ABC... Falam uns três. Aí eles convocam para a passeata, que também não estava prevista, até a Praça da República. Aí sai a passeata, na hora nós não tínhamos organizado uma segurança, quem estava na passeata, uma segurança mais ou menos organizada, era o José Dirceu da UEE, aí o pessoal da UEE começa a fazer a segurança da passeata, com uma posição, que era a posição da Dissidência do partidão [Dissidência Comunista da Guanabara-PCB]. Então, são eles que impedem que o CitiBank seja completamente quebrado, um cara que estava no meio da massa, eu conheci esse cara depois, o Barbosa, o Jessé, esse cara acabou quebrando o vidro do Citibank. Mas aí, os seguranças do José Dirceu impediram. Mais à frente nós passamos pela concentração da Guarda Marítima, a Guarda Marítima era a elite da Força Pública, aí eles impedem... Apesar disso, alguns dos porretes que sobraram, nós jogamos na Guarda Marítima, provocando a Guarda Marítima. Mas eles tinham ordem de não intervir (..), devia ser uns 120 ou 240 mais no começo, depois tinha mais se fosse preciso, claro, é o Estado né... Mas eles não reagiram à nossa provocação. A turma do Zé Dirceu, também, fazendo a segurança impediu que a gente se aproximasse mais. Mas a marcha continuou. Na Praça da República tinha um Coreto. Aí o Barreto sobe, na Praça da República, no Coreto, e o Barreto faz o discurso... Aí, esse discurso do Barreto, já é chamando para a revolução, para a derrubada armada da ditadura, chamando para a guerrilha no campo e na cidade, enfim. Um discurso que não estava nos planos, tá certo, não estava planejado. O plano era outro, era tomar o palanque na hora que o Ibrahim falasse, talvez fazer uma pequena marcha pelo centro, no caso, era feriado, não estava tudo cheio de gente, mas enfim, foi isso que aconteceu no Primeiro de Maio. (Entrevista - Roberto Espinosa).

De acordo com o relato de João Joaquim, essa passeata pelo centro, contava com cerca de 10.000 pessoas:

Essa passeata, eu calculei 10 mil pessoas. Uns falam mais e tal (...). Tinha uma organização muito boa porque tinha companheiros que queria confrontar e a gente falou: ’Oh companheiro, nosso objetivo é chegar na República, fazer um ato e tal, não aceitar provocação’. Mas mesmo assim, alguns companheiros mais exaltados queimaram bandeira dos Estados Unidos, ianques, deram pedrada lá no CITIBANK. E tem um fato interessante, quando nós chegamos lá na Praça do Correio, tinha um grupo de Marines, que era uma polícia treinadíssima, acho que da Marinha, tinha talvez uns 100 Marines estavam lá... E os companheiros exaltados, ameaçaram jogar umas pedras neles, uns pedaços de pau, e eles com os cassetetes e tal, e nós passamos. (Entrevista - João Joaquim).

Já tinham colocado fogo no palanque?

Assim que tomamos o palanque, já incendiamos o palanque, pusemos fogo no palanque!

Como vocês fizeram?

Não sei de onde, surgiu uma caixa de fósforos lá, um pouquinho de gasolina, aí os caras puseram fogo no palanque. E o palanque, destruiu o palanque, pegou fogo, queimou tudo. Aí que a gente sai organizado, desce a XV de novembro, e subimos a São João, e República, e da Republica, não teve repressão na República, interessante. Até, tinha uns irmãos lá, irmãos mesmo, uns crentes lá, que quando nós chegamos os coitados saíram correndo, não sabiam o que era aquilo. E lá sim, o Zequinha Barreto falou, o Zequinha, o Novaes falou. O Zequinha Barreto fez um discurso homenageando o Che Guevara: ’Uma das coisas que a gente... Não devemos esquecer, é da memória do maior líder da juventude latino-americana, Ernesto Che Guevara. E nossa luta, a partir de hoje, é organização ferrenha nas fábricas contra o arrocho salarial’. E depois de uma... O ato foi rápido, durou assim, tipo uns 40 minutos mais ou menos, uma hora. E o interessante é que tinha uns companheiros com um cartaz, né, ’Viva o Primeiro de Maio’, ’Abaixo o arrocho’, só que o cartaz era tipo 40, 50 centímetros e o suporte do cartaz era um porrete [risos], um pedaço de pau desse tamanho [faz gesto de altura, cerca de 1 metro e meio] e dessa grossura [gesto de espessura], era para defender mesmo. E a repressão acompanhou tudo de longe e não atacou a gente. Aí, a gente dispersou, já tinha uma palavra de ordem, não sair todo mundo junto, fomos pela Rio Branco, pela Duque de Caxias... (Entrevista - João Joaquim).

Depois de apedrejar Abreu Sodré e incendiar o palanque, a marcha de trabalhadores desfila triunfante pelo centro de São Paulo. Ocupam a Praça da República, fazem um ato relâmpago sem a influência dos representantes da ditadura e dos pelegos. Ali expressa-se o ânimo da luta contra o peleguismo, é uma ato dirigido pela esquerda militante operária. As ideias da luta armada também encontram espaço ali. Surpreendida pela audácia e radicalidade do operariado ali presente, as forças repressivas são pegas de surpresa e não sabem como reagir.

Os trabalhadores saem vitoriosos daquele ato, conquistam seus objetivos: expulsam o governador, impedem a continuidade do ato, demonstram que não estão dispostos a pactuar com as autoridades e representantes da ditadura ou com os sindicalistas pelegos.

Foto 3 - Os operários tomam o palanque
Fonte: http://memorialdademocracia.com.br/card/na-praca-da-se-o-dia-e-do-trabalhador

No ato, as ideias políticas das organizações e tendências militantes que se articulavam molecularmente, expressam o caldo de cultura daquele 1968. Na passeata operária podia-se ver cartazes com a imagem de Che Guevara. O êxito do Primeiro de maio projetou estadualmente os militantes operários das oposições, mas principalmente os trabalhadores de Osasco.

Um balanço do Primeiro de maio de 1968

No entanto, findado o episódio, os militares buscam punir o Sindicato de Osasco que despontava como representante das bases mais destacadas no estado. De acordo com o relato de João Joaquim:

Aí, na segunda feira de manhã, aliás, no dia seguinte, eu não sei se o Primeiro de Maio foi na... Me falha a memória se foi no domingo [foi em uma quarta-feira], mas só sei que no dia seguinte, tentaram prender dois companheiros nossos, o Adauto e o José Ibrahim, o Adauto eu não lembro totalmente o nome dele, eu sei que era Adauto, não sei se era José Adauto da Silva... Adauto, a gente conhecia como Adauto, trabalhava, se eu não me engano, na Brown Boveri... E chegaram lá [no sindicato] disfarçados e procuraram pelo Adauto: ’O Adauto está na fábrica, hoje ele não veio trabalhar’, mas não falaram que eram policiais, o José Ibrahim passou encostado, o José Ibrahim parecia um moleque... Ele era assim, um metro e sessenta de altura mais ou menos, no máximo 1 e 62, 1 e 58, acho que pesava uns 50 e poucos quilos, baixinho, magrinho e tal, a carinha de turco mesmo, do José Ibrahim, nos até chamávamos ele de Turquinho: ’Zé, você tem que dar corda, não fica por aqui hoje não!’. Foram no sindicato porque ele estava liberado. Aí, nós fomos, recebemos uma intimação para ir na Delegacia do Trabalho. (Entrevista - João Joaquim).

Toda a Diretoria do sindicato recebeu a intimação?

É, prestar um depoimento. Aí, nós fomos e tal, o Delegado do Trabalho de São Paulo chamava, era um General chamado Gaya, Ernesto Gaya, aí, ele tinha até um jeitão assim, de bom moço, sabe? Aí ele falou, que foi muito violento o Primeiro de Maio... Que nós deveríamos... ’Que tal, se a gente fizesse um acordo’. Ele tinha a intenção de afastar o Zé Ibrahim né. Aí, eu me lembro que o João Cândido fez reflexão assim: ’General, o Zé Ibrahim é um moço de 21 anos, está começando na luta, seria uma violência muito grande caçar, afastar o companheiro, que fez Senai, que trabalha, que nunca pensou em matar ninguém, está apenas na luta dos trabalhadores e tal. Eu sugeriria, e, nós, acho que todo mundo aqui tem a mesma opinião, de manter a Diretoria do sindicato intacta’. Aí ele ficou meio assim... E realmente, depois de uma semana, a coisa ficou mais leve, aparentemente. (...). E, a gente sabia que era irreversível a greve, começamos a conversar. (Entrevista - João Joaquim).
Como relatara Espinosa na entrevista que nos concedeu: "Quer dizer, foi um primeiro de maio emblemático, que rendeu cassação, cassação não... A suspensão do mandato da Diretoria por quinze dias". (Entrevista - Roberto Espinosa). Mesmo com o risco da cassação, de acordo com o relato de Stanislaw, militante e dirigente da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo que participou do ato, seria equivocado caracterizar o processo como esquerdista:

(...) A Diretoria do sindicato de Osasco [chapa verde], não tinha um ano, não tinha um ano ainda e já tinha tido ’paus’ assim (...). Então toda essa construção foi muito rápida... E fazer uma observação de que foi esquerdista, ou que foi precipitado, essa coisa toda, é meio problema. Porque foi também, era um momento de mudança, de renovação. Então era um momento que você ia trabalhar muito com a nova turma. Os novos companheiros, novos quadros, que tinham alguma resistência, que tinham alguma capacidade de organização dentro das fábricas mas não tinha ainda todo... O Sindicato de Osasco, nesse sentido, com a Diretoria [chapa verde], acaba tendo um papel importantíssimo porque acaba sendo uma articuladora do processo das lutas. Mas precisava também fazer a luta específica, a luta da sua base. Não adiantava gargantear sem apresentar a fatura, apresentar o processo de luta. Então essa questão da construção era uma coisa de duas mãos. Uma mão era trabalhar a luta política, na porta de fábrica, a luta da propaganda.. E outra coisa era a luta real, a conquista... Ia ou não ia quebrar o arrocho? Essa demanda é que fazia com que a luta dentro das direções... E era uma luta que estava começando a abrir as portas do sindicato para o movimento popular... O sindicato de Osasco ajudou muito, trabalhou muito, cedeu muito para ajudar as organizações que surgiam na época, [sociedade] amigos de bairro, conquistas populares... Então tinha todo um... O sindicato precisava ser de esquerda mesmo para absorver toda essa mão de obra, para não dizer ’não, aqui é a luta dos trabalhadores’, porque normalmente tem um pouco isso né... Separa o sindical... Podemos dar um carro e tal... Mas não nos misturamos... Então, a luta de 1968, o que ela trás de importante é que ela abriu um espaço muito grande para, vamos dizer assim, para a luta. Porque ela marca, ela marca, um enfrentamento com a ditadura... Que já vinha um pouco antes, com Contagem em abril... Contagem vem em abril... E influenciou, porque teve o problema do abono, dos 10% de abono que foi dado em 1968. Então, teve todo um processo de resistência... Mas é que em 1968, na quebra da relação com qualquer pretensão do governo de dar uma amainada... E essa coisa toda quebra né... Porque quando o Governador é tocado do palanque... Quando a pelegada já vai para lá... Acaba tudo... Acaba com tudo... Põe a luta em outro negócio. (Entrevista - Stanislaw Szermeta).
Em material da Oposição intitulado Nas raízes da democracia operária - a história da oposição sindical metalúrgica de São Paulo (GET/Urplan, 1982), analisa-se que: "A organização do dia 1º de maio de 1968 renovou os ânimos da Oposição Sindical. Foi outro momento em que a classe operária pôde se manifestar. Nesse acontecimento, houve um redespertar da consciência operária. Uma nova esperança começava a aparecer". (GET/Urplan, p. 26). Há um acúmulo de forças entre 1966 e 1968. O Primeiro de maio na Praça da Sé foi uma das expressões mais significativas de atuação política de enfrentamento com representantes da ditadura e contra os interventores sindicais. Foi uma demonstração da reorganização dos setores mais destacados do movimento sindical e operário.




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