DEBATES NA ESQUERDA

O PSOL deveria combater o movimento patronal dos transportes e o papel traidor da CUT

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quarta-feira 30 de maio| Edição do dia

O movimento dirigido pela patronal dos transportes, que cada vez mais mostrou seu caráter de direita, com uma demanda patronal e o caráter político marcado pelo pedido de “Fora Temer” pela direita, com intervenção militar, tem sido um teste para a esquerda, que em geral não tem passado à prova. Trata-se de um movimento que teve apoio em setores populares devido à traição da CUT e do PT que com suas traições deixaram a direita canalizar a insatisfação popular. Agora, frente à crise aberta, o PT segue sua linha abertamente eleitoreira, deixando os petroleiros numa greve sozinhos e centrando somente no discurso defendendo os tempos do PT na Petrobras e sua “política de preço”.

Após o anúncio da primeira tentativa de acordo feita por Temer, parte das correntes que compõem o PSOL via na continuidade dos bloqueios uma “resistência da base” contra a direção patronal da ABCAM. Nada mais falso. Para além da reivindicação de Bolsonaro e da intervenção militar que se disseminou em diversos bloqueios, há ainda uma articulação direitista reunida no auto-intitulado “Movimento Fora Temer” que almeja derrubar Temer pela direita, e que tem entre seus integrantes um ex-candidato a prefeito de uma cidade do interior de Minas pelo PSC, mesmo partido que até ontem abrigada Marco Feliciano e Bolsonaro, entre outros membros claramente patronais.

Junto a ele, estava o “rebelde” chamado “Chorão”, que mostrou que é amigo do Cabo Daciolo, deputado federal eleito pelo PSOL que foi exaltado pela esquerda como “bombeiro socialista” e que depois mostrou como defendia a intervenção militar e todo tipo de reacionarismo. Até Bolsonaro chamou a parar o movimento dos caminhoneiros que estava descontrolado pedindo intervenção militar e atrapalhava sua corrida eleitoral em outubro.

Frente a isso, a única posição de esquerda consequente seria combater as ilusões nesse movimento, e no seu programa pró-patronal, chamando a uma mobilização independente dos trabalhadores, o que só pode passar por uma luta política contra a traição das centrais sindicais.

Uma repetição acrítica da política do PT pelas principais figuras

Não foi isso o que se deu no PSOL. Por um lado tivemos o silêncio perturbador durante quase uma semana de ninguém menos que Marcelo Freixo, que seguiu sua campanha eleitoral como se nada estivesse acontecendo no país, isentando-se da responsabilidade como referência da esquerda que tem peso de massas no RJ. Mas vejamos o conteúdo. Freixo se alinhou com a política de Guilherme Boulos, assim como da direção majoritária do PSOL, que tem Ivan Valente como referência.

Repetem a política petista, que se negou a se delimitar do caráter reacionário do movimento e defenderam a política do PT de voltar a farsa de “política de preços” da época petista, mera entrega de dinheiro público aos acionistas privados da Petrobras, sem chamar uma mobilização independente, o que teria que passar pela denuncia e exigência à CUT.

Embelezam abertamente o período dos governos do PT, como se a política de interceder a partir do governo sobre o preço do petróleo. Isso é uma demagogia eleitoral. Não há como se colocar consequentemente contra a política de flutuação do preço do petróleo à mercê mercado internacional levada adiante por Temer e Pedro Parente, sobretudo num momento de crise econômica como hoje, sem defender que a demanda por uma Petrobras 100% estatal, com gestão dos trabalhadores e controle popular, sem ocultar que o PT também foi parte da corrupção na Petrobras e também abriu espaço pra privatização, como foi a Dilma votando a lei do Serra de exploração do petróleo. O que por sua vez exige uma posição de independência de classe, que levaria ao enfrentamento aberto com o movimento cada vez mais reacionário dos caminhoneiros e sua direção patronal, e não à unificação dos petroleiros.

Já a nota da executiva do PSOL e de diversas correntes do partido foi além, chamou “ativa solidariedade aos caminhoneiros” como se esses fossem “a defesa da democracia e da soberania nacional".

A executiva do PSOL terminou fazendo coro com o embelezamento desse movimento. Dizendo “reconhecer a legitimidade da reivindicação dos caminhoneiros pela redução do preço dos combustíveis e anulação dos aumentos praticados sob a política de preços livres”, a executiva do PSOL se furta de colocar abertamente que o programa dos caminhoneiros hegemonizado pela patronal em nada respondia aos anseios da classe trabalhadora e da população. Sua reivindicação nunca foi anulação do aumento dos combustíveis para todos. Agora setores à direita como o “Movimento Fora Temer” coloca a demagogia de que está contra a redução de todos os combustíveis, porque estão perdendo apoio nas redes sociais dado seu caráter de direita. Mas desde o início a pauta era garantir mais repasses de dinheiro dos impostos do povo para sustentar os lucros da patronal dos transportes. Algo que Temer concedeu, e que longe de uma imensa vitória para os trabalhadores como quer a esquerda entusiasta do movimento, valerá apenas para o diesel não tocando em nada as reivindicações de redução de gás e dos combustíveis para a população.

É preciso ter claro que a demanda deste movimento é mais repasse de dinheiro dos impostos do povo para aumentar os lucros da patronal dos transportes e já arrancou bilhões do orçamento público federal e estadual. Eles não levantam sequer as verdadeiras demandas dos caminhoneiros explorados, como seria o aumento de salários e direitos e a revogação da reforma trabalhista. Fica cada vez mais nítido que se colocam contra Temer, mas pela direita, reivindicando a intervenção militar, e outros setores da direção do movimento ligados aos partidos burgueses mais oligárquicos do país.

Por outro lado a ausência absoluta de qualquer luta política com as direções sindicais reunidas na CUT é mais uma demonstração da impotência deste setor do PSOL. Isso em um momento em que a FUP acaba de convocar uma “greve de advertência” dos petroleiros com data e hora para acabar, de apenas 72h com um feriado no meio. Não dizem uma palavra sobre a desmoralização dos trabalhadores semeadas pelos 13 anos de governo do PT, que manteve todos os compromissos com o imperialismo, e ainda transformou a Petrobras numa moeda de troca para negociação de cargos, abrindo caminho para que a direita e a Lava Jato patrocinada pelos EUA pudessem ganhar terreno se utilizando da corrupção.

Há também a ala entusiasta do movimento reacionário dos caminhoneiros, integrada pelas correntes internas Resistência, antigos MAIS-NOS (com quem debatemos aqui), ao lado do MES, que tal como o PSTU (com quem debatemos aqui) querem “disputar” esse movimento, apesar das reivindicações abertas por intervenção militar, odes ao Bolsonaro e ligação com partidos burgueses.

É curioso que hoje tanto as alas que foram abertamente golpistas em 2016, como o PSTU e o MES com sua defesa de “Lava a Jato até o final”, como as que se colocaram contrários como é o caso do Resistência, se reunificam mostrando que não tiraram as lições daquele processo, que indicava que nada pode vir de bom para a classe trabalhadora quando se combate os governos vigente sob a direção da direita e da patronal.

Todas essas posições estiveram na contramão da necessidade da classe trabalhadora, a começar dos petroleiros que necessitam de um programa e uma estratégia abertamente anti-imperialista para barrar a entrega da Petrobras, e do povo. É preciso combater, e não apoiar abertamente ou timidamente, a política do PT e as patronais dos transportes e ligar essa luta com a necessidade de estatização total da Petrobras sem indenização aos grandes acionistas, e sob controle dos trabalhadores. Isso deve avançar junto com a derrubada do decreto de Garantia da Lei e da Ordem, da revogação da reforma trabalhista e pelo direito do povo decidir em quem votar. Demandas que só se realizarão com a mais decidida independência de classe.

O PSOL repete o PT também no sentido de hierarquizar a campanha eleitoral enquanto a direita vai tomando as ruas com métodos radicais. Todos as suas alas estão, com mais ou menos entusiasmo, adaptadas ao movimento dos empresários de transporte abandonando, dando continuidade ao extermínio à independência de classe com a adesão ao Manifesto Unidade para Reconstruir o Brasil. É urgente construir uma esquerda antimperialista e com independência de classe. Essa é a batalha do MRT.




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