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O New Deal foi Racista?

Juan Cruz Ferre

O New Deal foi Racista?

Juan Cruz Ferre

Tradução: Pammella Teixeira

O New Deal é reconhecido historicamente por ter um viés anti-negro embutido. A revista Jacobin está tentando embranquecer isso.

Franklin Delano Roosevelt assina a Lei de Segurança Social em 14 de agosto de 1935.

No episódio de 25 de junho do Podcast Jacobin, os editores da revista Jacobin e os membros do partido Democrata (DSA, na sigla em inglês) Seth Ackerman e Micah Uetricht reiniciaram uma discussão há muito tempo resolvida sobre o New Deal de Franklin Delano Roosevelt (FDR): se o New Deal incluía elementos que reforçavam opressão racial ou não. O fato do New Deal incluir disposições anti-negro é compreendido por acadêmicos e ativistas políticos há várias décadas. Mas em seu zeloso esforço de erguer a imagem de Bernie Sanders, Ackerman e Uetrich se sentem obrigados a, não apenas colocar de lado as falhas de Sander, como também isentar seu principal ponto de referência político, FDR, e seus aliados temporários, os Democratas sulistas supremacistas brancos.

O New Deal foi o maior pacote de políticas governamentais implementado nos Estados Unidos. Entre outras medidas progressistas, deu aos trabalhadores o direito de se sindicalizar e criar o sistema previdenciário para os trabalhadores que se mantém até hoje. O governo apenas fez isso como uma resposta contra a pressão crescente e cada vez mais perturbadora dos trabalhadores, que estavam fazendo greves em todo o país, desafiando a polícia e fechando cidades inteiras. Mas, além disso, incluiu disposições que aprofundaram e reproduziram a opressão racial.

Preconceito Racial no New Deal

Ao discutir a dimensão racial do New Deal, é necessário definir o que significa “racismo”. Esse último é o temro coloquial que geralmente se refere a uma das duas situações: (1) O preconceito racial contra indivíduos que pertencem a certos rupos étnicos ou que tem certas características físicas (como a cor da pele escura). Por exemplo, pode-se acreditar que latinoamericanxs são preguiçosos, ou que xs negrxs são intrinsecamente mais propensos a cometer crimes. (2) A opressão racial, na qual certas comnidades são excluídas dos benefícios sociais e econômicos, ou tratadas como inferior em relação aos descendentes dos brancos europeus. Por exemplo, um empregador pode não contratar um mulçumano, ou um comércio pode excluir clientes negros. É fácil ver que o preconceito racial alimenta a opressão racial, e vice-versa. Considerando que o preconceito serve para justificar leis, regulamentos e políticas que prejudicam as minorias sociais, essas políticas, por sua vez, mantêm e reproduzem desigualdades, preconceito e segregação racial estruturais, em um ciclo vicioso que só pode ser confrontado ao denunciar todo o sistema social e econômico.

Chamar o New Deal de “racista” pode soar exagerado. Nós podemos, tão facilmente, acusar o programa de gastos públicos mais importante da história dos Estados Unidos? Em seu trabalho de referência “Formação Racial dos Estados Unidos”, Michael Omi e Howard Winant afirmam que “um projeto racial pode ser definido como racista se, e somente se, cria e reproduz estruturas de dominação baseadas em categorias essencialistas de raça.” As políticas do New Deal, tais como as de obras públicas ou segurança social beneficiou milhões de trabalhadores, mas não há como negar que seus principais programas incluíam cláusulas que prejudicam e excluem especificamente xs negrxs. É o caso do programa habitacional, administrado pela Administração Habitacional Federal (FHA, na sigla em inglês), pela Lei Wagner (ou Lei de Relações Trabalhistas Nacional) e pela Lei de Segurança Nacional.

O programa habitacional do New Deal era enorme e moldava as paisagens urbanas e suburbanas nos Estados Unidos, persistindo até os dias atuais. Funcionou como um programa de garantia de empréstimos – o que significa que a recém-criada FHA apoiou os emprésticos hipotecários oferecidos pelos bancos. Mas, para isso, a própria FHA assumiu a tarefa de avaliar a qualidade de cada hipoteca, ou seja, a probabilidade de que o empréstimo seria pago aos bancos. Para isso, eles usaram o infame método de negar as hipotecas em bairros negros ou mestiços. Como consequência, famílias negras foram trancadas em um duplo vínculo: lhes foram negados empréstimos para comprar novas casas em seus bairros, e foram excluídos dos bairros “brancos e financeiramente estáveis” por convênios restritivos racistas, que impediam os proprietários de vender suas casas a pessoas negras.

Simplificando, a FHA financiou o vôo branco, enquanto famílias negras continuaram confinadas a áreas urbanas cada vez mais deprimidas economicamente.
Mas Ackerman não acha que isso é suficiente para considerar o New Deal racialmente opressivo. Em sua opinião, a “metáfora” sobre “o racista New Deal… brotou na Academia.” Já pro final do episódio do podcast, Uetricht e Ackerman concluem que a FHA não introduziu a supremacia branca no mercado imobiliário. Em vez disso, apenas reproduziu e perpetuou a supremacia branca que já dominava o setor. Em um piscar de olhos, Ackerman conclui que o legado do New Deal contirbuiu mais para o fim da segregação nos anos 1960 e 1970 do que para a criação da segregação nos anos 1930.

A Lei Wagner e a Lei de Segurança Social estão ausentes nas análises de Uetricht e Ackerman, as quais foram, ambas, pilares do New Deal e incluíam clásusulas contra os negros: elas excluíram, explicitamente, trabalhadores rurais e domésticos e, portanto, excluíram a maioria dos trabalhadores negros no sul. Os Democratas sulistas exigiram que eles fossem excluídos em troca de seu apoio ao New Deal – sua composição supremacista branca não estava pronta para abrir mão de seus trabalhadores rurais e domésticos superexplorados.

O que Aconteceu com a Minha Revista de Esquerda?

Por que a Jacobin está saindo do caminho para justificar FDR e negar a ideia de que o New Deal incluiu medidas que aprofundaram e consolidaram a opressão racial? Após anos construindo um nome, como uma publicação marxista, com análises sólidas e políticas de esquerda intransigentes, a adoção sincera da política social-democrata e o mergulho profundo na campanha de Sanders trouxe uma mudança drástica no conteúdo que a Jacobin publica.

A enxurrada de artigos que dão apoio acrítico a Sanders, é combinada com o esforço conjunto para apresentar o senador de Vermont como mais à esquerda do que ele realmente é. Enquanto Sanders se integra cada vez mais ao Partido Democrata, a Jacobin continua o descrevendo como independente. Enquanto ele promete continuar o “legado inacabado” do New Deal, a Jacobin afirma que ele coloca uma visão para um Estados Unidos socialista.

Mas as alterações não param por aí. Há também o esforço de apresentar as referências históricas de Sanders de uma forma mais radical. Essa operação foi sintetizada na primeira resposta de Ackerman no Podcast:

O New Deal foi socialista?

Sim e não.

O que se segue é uma tentativa contorcida de Ackerman de encaixar o New Deal, ao menos parcialmente, numa categoria “socialista”.

Infelizmente, essa não é uma tentativa isolada de distorcer fatos históricos. Outros exemplos incluem uma interpretação grosseira de Rosa Luxembrugo, colocando-a praticamente como uma reformista, e, mais recentemente, uma tentativa de creditar Karl Kautsky pela triunfante Revolução Russa. Os esforços para reciclar o nome de Kautsky servem a um propósito político concreto que analisei em outro texto. Mas, vamos investigar mais detalhadamente os motivos para reabilitar FDR e o New Deal.

A Jacobin e os membros do DSA em torno dela (organizados pela primeira vez na convenção Momentum, depois na breve convenção da primavera, e agora, parcialmente representados na publicação The Call) mostraram uma política tipicamente reducionista das questões de classe, quando se trata de questões de opressão racial e de gênero. Essa política se expressa de diferntes formas: ao apontar para sindicatos como a solução para o machismo e racismo para retratar a luta contra essas opressões como uma tentativa traidora de “criar identidade para remodelar as demandas da classe trabalhadora até que sejam neutralizadas”. Ou seja, o espectro da Jacobin falhou em reconhecer a centralidade dessas lutas para qualquer projeto socialista. Como Warren Montag e Joseph Serrano explicam, “uma Esquerda que se nega a lutar contra o racismo e a xenofobia diretamente, aqui e agora, ou pior, que condema, em nome da luta de classes, aqueles que não tiveram escolha, mas resistir à opressão que eles enfrentam, só podem enfraquecer o tal movimento operário que eles afirmam estar no centro de suas políticas.”

Sanders, apesar de todas as suas propostas verdadeiramente progressivas e pró classe trabalhadora, compartilha esse ponto cego com a corrente da Jacobin no DSA. Sua relutância em apoiar medidas de reparação por causa da escravidão é o sintoma mais visível dessa fraqueza. Faz sneitdo: um plano de reformas sociais democráticas, todas extremamente necessárias e altamente progressistas, mas dentro dos limites do capitalismo, não podem realmente eliminar o racismo.

Mas vamos ser claros sobre uma coisa: a esquerda socialista precisa se diferenciar do feminismo liberal, do capitalismo negro e dos outros movimentos seccionais que não questionam o sistema capitalista e não vêem nas relações sociais capitalistas o terreno fértil para a contínua reprodução do racismo e outras opressões.

Nancy Fraser cunhou o termo “neoliberalismo pregressista” para descrever “uma aliança de correntes dominantes de novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ) por outro lado, e setores de negócios baseados em serviços e alta tecnologia ‘simbólica’ (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood) por outro lado.” Esse “simbolismo” também é frequentemente usado por poíticos, para atrair votos de comunidades de determinada raça. Assim vemos Kamala Harris, uma senadora negra da California, confrontando Joe Biden sobre a questão do ônibus escolar, ainda que, como procuradora-geral da Califórnia, ela foi diretamente responsável pelo encarceiramento de dezenas de milhares de pessoas não brancas. O mesmo vale para a bajulação de Robert “Beto” O’Rourke em relação aos votantes latinxs, ao falar um pobre espanhol no debate presidencial.

Em um nível mais geral, as demandas seccionais contra a opressão das mulheres, ou para o aprimoramento econômico das famílias negras, quando não estão baseados na perspectiva da classe trabalhadora, podem ser facilmente cooptadas pelo governo, organizações filantrópicas e políticos burgueses. Mas a esquerda reducionista aglutina o uso individualista e pós-moderno da identidade com qualquer luta contra o racismo e o machismo. Oas seus olhos, tudo é “política identitária”. Ao fazer isso, eles cometem um desserviço à esquerda socialista, crianda uma barreira separando o movimento negro, de mulheres e LGBTQ de um lado, e o movimento socialista do outro.

Militantes negros, latinos e asiáticos forneceram historicamente lideranças para os movimentos operário e socialista. Mulheres e a população queer são parte desse movimento também. Intolerância e discriminação contra eles são alguns dos maiores obstáculos para a organização entre os trabalhadores. Não é incomum que os trabalhadores carreguem preconceitos, dos quais os patrões e funcionários do governo estão prontos para tirar vantagem e fomentar, para então dividir e enfraquecer a classe trabalhadora. Os socialistas precisam combater esse preconceito e essas divisões enquanto lutam tanto por demandas de toda a classe quanto pelo fim das opressões raciais, de gênero ou orientação sexual. O reducionismo na classe prejudica o movimento operário e o movimento socialista ao ocultar esses fatos e se submeter essas lutas ao liberalismo, ao Partido Democrata e à indústria sem fins lucrativos.

A tentativa da revista Jacobin de amenizar o New Deal representa uma nova baixa para a publicação. Nos últimos anos, à medida que se tornou mais envolvida na campanha de Sanders, a linha editorial da Jacobin se deslocou significativamente à direita, e, consequentemente, se separa de uma perspectiva socialista. Sua decisão de buscar um projeto político que seja praticável “aqui e agora” é a real razão para pintar o New Deal em um quadro rosado (ou avermelhado?), justificando ou negando as falhas de Sanders e chamando um programa pregressista qualquer de “socialista.” O novo movimento socialista nos Estados Unidos tem expectativas maiores e merece um horizonte mais ambicioso pelo qual lutar.

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Juan Cruz Ferre

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