Internacional

BUENOS AIRES - REUNIÃO DO CONSELHO DE MERCADO COMUM

O Mercosul fecha as portas para a Venezuela

Em uma jornada retumbante, a Argentina assume a presidência do Mercosul em momento marcado pela cessação da Venezuela como membro do bloco e pela denúncia da chanceler Delcy Rodríguez de ser agredida pela polícia federal.

quinta-feira 15 de dezembro de 2016| Edição do dia

Os chanceleres da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai celebraram nesta terça-feira, em Buenos Aires, a XI Reunião Extraordinária do Conselho do Mercado Comum (CMC), em uma jornada marcada pela insistência da ministra das Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez, de comparecer ao encontro, ao qual não havia sido convidada e no qual, por fim, foi impedida de entrar.

Pela manhã, a chanceler havia dado declarações à imprensa indicando que “se insistirem em que eu não participe da reunião, entraremos pela janela, porque viemos defender os direitos da Venezuela”, após reunir-se com a argentina Susana Malcorra, quem insistiu que aquela se abstivesse de apresentar-se à reunião.

Essa foi a primeira reunião ministerial depois que, no último dia 02 de dezembro, os países fundadores do Mercosul comunicaram à Venezuela que ela deixava de exercer seus “direitos inerentes” como Estado parte, com um contexto mais político que as supostas argumentações de que a Venezuela violou o Protocolo de Adesão, embora esteja exercendo a presidência rotativa nesse momento. Uma decisão que teve o apoio da oposição aglutinada na chamada Mesa de Unidade Democrática (MUD) em momentos em que se vive uma tensão política interna.

O objetivo da sanção, perseguida há meses pelo governo da Argentina, do Brasil e do Paraguai, era o de enviar uma clara mensagem sobre o giro à direita que a região vive, isolando o governo da Venezuela e encorajando a oposição de direita do país.

A Venezuela, que se juntou oficialmente ao bloco em 2012, reitera que esta situação é ilegal, uma vez que, segundo o governo de Maduro, o país incorporou 95% da legislação que os Estados devem cumprir para sua adesão ao órgão. Para voltar a entrar no bloco, o governo de Maduro precisará renegociar os termos de sua adesão de acordo com as regras do Mercosul, mas tudo indica que se pode abrir um processo que dure anos e que os governos dos países fundadores do Mercosul acabem bloqueando de forma indefinida o reingresso da Venezuela ao bloco.

O fato de a Argentina ter assumido nesta quarta-feira a presidência formal pro tempore do Mercosul é um claro indicativo do cerrar de portas definitivo à Venezuela. O governo de Maduro vem denunciando o que chama de confabulação de uma Tríplice Aliança formada por Argentina, Brasil e Paraguai para tirar a Venezuela da instituição regional.

É por esse motivo que a chanceler Delcy Rodríguez declarava nesta quarta-feira em Buenos Aires, em uma mensagem no Twitter, que “Os chanceleres da Tríplice Aliança confabulados contra a Venezuela e o MERCOSUL se negam a dialogar com a Bolívia e com a Venezuela”, junto de uma foto na qual se vê uma mesa de reuniões oficial vazia, sem a presença dos ministros do Uruguai, Argentina, Brasil e Paraguai.

Ao mesmo tempo, o chanceler brasileiro, José Serra, colocou em sua conta da mesma rede social uma foto na qual se vê em outra sala junto de seus homólogos da Argentina, Susana Malcorra; Paraguai, Eladio Loizaga, e Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, com uma nota declarando: “Estou reunido com os chanceleres da Argentina, Paraguai e Uruguai, em Buenos Aires, para a XI Reunião Extraordinária do Conselho do Mercosul”.

Horas mais tarde, Delcy Rodríguez, assegurava que foi agredida por um policial em sua chegada à Chancelaria argentina e por um funcionário no interior do edifício, declarando se tratar de “uma vergonha pessoal” do presidente Mauricio Macri, tendo em vista o que havia acontecido na última reunião no Paraguai, onde o chanceler venezuelano o havia tratado por agente de interferência.

Em declarações à imprensa, a ministra explicou que a agrediram em “termos muito extremos” quando ela se prostrou diante da polícia. “Frente aos escudos levantei as mãos e disse: ‘sou a chanceler da Venezuela’, nesse momento não percebi e um policial me bateu, bem como em todo o restante de minha delegação”, declarou Rodríguez, adicionando, em seguida, que quando tentou entrar na sala em que se encontravam reunidos os chanceleres do Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, um funcionário a tomou pelo braço e a sacudiu.

Cinicamente, a chanceler argentina, depois de tomar a batuta do Mercosul e tirar a Venezuela do bloco regional, declarava que até então havia ocorrido uma série de coisas “que não facilitam e impõem limites” à integração interna, sendo portanto difícil “sair para vender no mundo se não houver integração intrarregionalmente”. Declarava-o justo no momento em que tiravam um país por motivos essencialmente políticos e não técnicos, e tomava a batuta de tal instituição regional.

De Havana, Cuba, onde se encontrava o Presidente Maduro por conta de ato de celebração do 12o aniversário da fundação do ALBA, este denunciava a agressão que teria sofrido a chanceler Delcy Rodríguez. Não se sabe ainda que contornos tomará a situação de terça-feira em Buenos Aires, mas Maduro já anunciou que tomará medidas políticas. O que fica claro é que tudo cria ainda mais tensão política entre os países do Mercosul e em particular com o governo de Macri.

Tradução: Eduardo Prachedes




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