Educação

RESPOSTA AO EDITORIAL

O Globo e seus maus passos contra os estudantes e trabalhadores

No RJ, o grupo Globo deixa claro o seu apoio ao projeto privatista que se constrói no Brasil, capitaneado pelo governo golpista do Temer e seu apoio à repressão do Estado contra as ocupações e as greves. O editorial do jornal O Globo de 18/05, com o título “Maus passos na educação fluminense”, considera positiva a nomeação de Wagner Victer como secretário da SEEDUC e defende a manutenção do sistema de avaliação meritocrática, o SAERJ e a bonificação de resultados numa lógica empresarial, como ferramentas pró-qualidade da educação que correm perigo devido a ação do SEPE e sequer mencionando que o fim do SAERJ também é pauta dos estudantes.

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT em 2016, é estudante da UERJ e professora da rede estadual.

Ronaldo Filho

Professor da rede estadual do RJ

domingo 22 de maio de 2016| Edição do dia

Foto: ato de professores e trabalhadores da educação do RJ/ Rita Frau

Victer é ex-presidente da CEDAE e da FAETEC que recebe um salário de quase 90 mil reais. Em sua gestão na CEDAE (2007 a 2014) reinou por um decreto que lhe dava amplos poderes para controlar a preço da água e coleta de esgoto, além de deixar sem água grande parcela da população, principalmente na Baixada Fluminense e sucatear a empresa ao ponto de ocorrerem acidentes fatais, como o que vitimou uma criança de 3 anos em Campo Grande. À frente da FAETEC demitiu profissionais e sucateou unidades levando a uma grave crise na instituição. Em ambas, abriu grande espaço para atuação de empresas privadas. Antes de sair do cargo cortou os salários dos profissionais da educação que estão em greve. O governo Dorneles/Pezão escolheu Victer para colocar uma mão mais dura no movimento e dar um fim na greve dos professores e nas ocupações das escolas. Não podemos permitir que este capataz do PMDB precarize ainda mais as condições atuais das escolas e impeça o avanço de nossas pautas.

A fundação Roberto Marinho, Falconi - Consultores de resultado e CAED são instituições privadas que obtém grandes benefícios ao defender este projeto para educação, que ganhou força no Rio durante a gestão do secretario Wilson Risolia, ainda no governo Sergio Cabral/PMDB, usando a bandeira da busca pela educação de qualidade, através de parcerias publico privadas que transferem renda pública para estas empresas e utilizam sua entrada no sistema educacional para moldar práticas, formas e conteúdos da educação de acordo com seus interesses empresariais.

A Falconi e o CAED são instituições privadas que operam a partir, respectivamente, da UFMG e UFJF. A primeira foi responsável pela implantação da GIDE (Gestão integrada das escolas) que utiliza o método PDCA* de gestão empresarial como ferramenta para atingir as metas fixadas para o IDERJ e IDEB (índices de qualidade escolar), que seguem padrões internacionais. O grupo Globo defenda a lógica da “meritocracia” e “atitude de dono” para incentivar os profissionais geridos por seu sistema, usa termos como “metas atingidas” para se referir ao aumento de aprovação de estudantes e “desvios” ao se referir a inadequação de estudantes aos padrões estabelecidos, desumanizando a gestão da educação. O favorecimento desta lógica na gestão da educação leva a fraude burocrática de resultados dos alunos que não representa as condições reais de ensino e aprendizagem nas escolas.

A segunda, o CAED, elabora o SAERJ e é responsável por produzir mais da metade das avaliações desta natureza para várias instituições do país, padronizando o sistema avaliativo, levando do Governo do Estado mais de 120 milhões por ano. Além de não considerar todas as disciplinas como parâmetro avaliativo, estar atrelado a uma política educacional que tanto responsabiliza os profissionais que trabalham sem estrutura adequada, subvalorizados, cada vez mais pressionados por demandas burocráticas, sem instrumentos didáticos nas escolas, é baseado em um sistema de bonificação de resultados que premia algumas escolas por resultados obtidos muitas vezes em esquemas fraudulentos das direções nas unidades escolares para produzir números favoráveis à obtenção das metas, aumentando a desigualdade entre unidades da rede. Além disso, as bonificações dividem a categoria e aumentam artificialmente o salário de uma ínfima minoria.

O SAERJ não considera a variedade de realidades educacionais que constroem a rede pública e todos os entraves enfrentados pelos estudantes, assim como este modelo de avaliação e gestão não questiona o tipo de qualidade defendida pelo grupo Globo, atrelada a uma ideia de democracia dos ricos. Esta defesa representa o atual método de manutenção e ampliação desta ordem excludente responsável pela chacina da juventude negra, da baixa qualificação e exclusão no mercado de trabalho da população, que relega a maioria da juventude negra e pobre os piores postos de trabalhos e da manutenção do país como dependente das demandas econômicas externas.

Os movimentos da educação não irão se calar diante da repressão

Em outra reportagem do dia 20/05 em seu jornal da tarde a Globo partiu da noticia da desocupação do Colégio Estadual Mendes de Morais para plantar um discurso de derrotismo sobre as ocupações e anunciou que o governo iria endurecer o tratamento aos movimentos em luta. Já na noite do mesmo dia aconteceram dois episódios de violência do Estado contra os estudantes. A violenta desocupação da SEEDUC pelo Choque na madrugada, que esperou que parte dos professores, que davam apoio, fossem embora e dos seguranças da SEEDUC durante todo o dia e na ocupação do C.E. Central onde estudantes foram atacados com bombas e spray de gengibre ao sentarem na frente de uma viatura que tentava levar preso um estudante.

Nos dois momentos os estudantes contaram com o apoio de professores que agiram de forma independente sem a presença do sindicato, ao se deslocarem para os locais, pressionando a polícia e providenciando socorro e alimento e denunciando tanto a postura repressiva e violenta do Estado quanto a inoperância criminosa da Coordenação Geral do SEPE e suas correntes, frente ao que acontecia com o movimento das ocupações.

As criticas do O Globo à ação sindical nada mais é do que uma tentativa de deslegitimar a luta das ocupações e da greve que já dura quase três meses, sofrendo duramente com a repressão do Estado, mas sem dar um passo atrás na luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade.

É preciso que os movimentos sociais e a esquerda, cheguem ao consenso de que é preciso unificar as lutas em curso, unir as escolas ocupadas, os professores em greve da rede estadual, a Faetec e a UERJ numa coordenação estadual da educação que derrote os ajustes de Dorneles/Pezão. A luta nas escolas ocupadas em todo o país estão dando uma aula de educação, questionando os atuais modelos de ensino, defendendo uma educação que não reproduza essa sociedade desigual, hipócrita e moralista. Essa luta se dá não só contra as forças repressivas do estado como o governo do Rio PMDB/PP, mas contra os ataques e ajustes em curso que estão vindo de forma acelerada para desmontar os serviços públicos e flexibilizar os direitos trabalhistas, defendido por mídias golpistas como o grupo Globo, mas também pela patronal FIESP para legitimar este governo golpista do Temer. A unificação e o desenvolvimento dessas lutas da juventude e da classe trabalhadora pode impor como resposta a crise política e econômica uma nova Assembleia Constituinte Livre e Soberana que permita a população decidir sobre os rumos do país, que responda as demandas como saúde e educação, estabeleça que todo político ganhe igual uma professora e que toda professora ganhe o salário mínimo calculado pelo Dieese e que possibilite desfazer as regras atuais do jogo e construí-las a favor dos trabalhadores e estudantes de todo o país.

*No cotidiano das escolas estaduais é comum encontrar a sigla PDCA (Plan, Do, Check, Act) nos murais da GIDE, justificada como um método de solução de problemas de caráter pedagógico, difundido inclusive para orientar a educação infantil. A caracterização não está errada, mas sim o contexto de aplicação deste método empresarial de gestão humana e financeira, que surge como desdobramento do movimento de Qualidade total na década de 80, introduzido no Brasil por Vicente




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