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NORDESTE

O Consórcio Nordeste e o monitoramento chinês

O Consórcio Nordeste pretende garantir o monitoramento da população da região através de parcerias público-privadas com empresas chinesas, assim como um projeto de conexão digital por fibra ótica nomeado Nordeste Conectado, também em mãos chinesas, enquanto a guerra comercial entre os Estados Unidos e a potência asiática não dá nenhum sinal de fim próximo.

terça-feira 8 de outubro| Edição do dia

(Sistema de monitoramento público via reconhecimento facial, na Bahia)

A economia chinesa vem se expandindo na região Nordeste. Dentre os principais negócios estão a construção de portos e uma rede de logística com ferrovias, gasodutos, empresas de energia e o maior destaque do Consórcio Nordeste: o Conecta Nordeste, a partir do qual, em projetos de privatização com mega empresas chinesas, pretende-se instalar uma rede de fibra ótica em toda a região. Esta novidade responde às necessidades urgentes da China, em meio à guerra comercial com os Estados Unidos.

Leia também: O que é o Consórcio Nordeste?

A crise de 2008 impôs uma necessidade central para a China, já que esta provocou uma desaceleração da sua economia: a imposição da alteração do padrão de seu crescimento, baseado até então na exportação de manufaturas de baixo valor agregado, sendo o “maior exportador”, enquanto os Estados Unidos se postulava como o “maior importador”. O fim desta dinâmica exigiu que a China se concentrasse na expansão do seu mercado interno e na exportação de alta tecnologia, parcialmente dominada unicamente por ela.

Quanto à direta intervenção em termos de produção da China até 2008, pode se observar uma alteração no padrão expansão de investimentos chineses no Brasil. anteriormente concentrada em commodities, vinculada à produção de alimentação, e à própria compra de terras, o que se altera mais fortemente a partir de 2008, direcionada ao controle da produção, tratamento e infra-estruturas vinculadas. A batalha pela preponderância tecnológica mundial é central na guerra comercial entre a China e os Estados Unidos.

No Nordeste, as “propostas de investimento” são um verdadeiro plano de monitoramento da região considerada mais opositora à Bolsonaro. A potência asiática (ainda em ascensão) faz propostas de investir no setor de TI, com a instalação de câmeras de monitoramento, cabeamento de internet e em serviços de saúde e educação as que recebem mais destaque dos próprios governadores. As empresas que oferecem esses serviços são as chinesas como a Huawei, ZTE, Dahua e Hikvision, banidas e consideradas uma “ameaça à segurança nacional” pelo governo americano de Donald Trump.

Essas empresas detém o monopólio do uso de tecnologias 5G, da qual se desenvolve não só uma avançada tecnologia de comunicação, como também da robótica e dispositivos de Inteligência Artificial, que constituem a chamada indústria “4.0”. Bolsonaro é um notório gerente dos interesses políticos de Trump e a burguesia norte-americana por ele representada, assim como notório porta-voz de ofensas xenófobas e racistas contra nordestinos, que se dão materialmente inclusive no repasse financeiro aos Estados e crimes de ódio. Bolsonaro tem interesse de frear os investimentos chineses, sobretudo no campo, um tema que tratamos com maior ênfase nesse artigo.

Os governadores do Nordeste são quem vem tomando a iniciativa nesses negócios com a China. O Consórcio Nordeste, apesar de toda demagogia ao seu redor, cumpre o papel de uma parceria comercial que se une para agenciar a penetração imperialista na região, seja ela europeia, como no Encontro Brasil-Alemanha, chinesa ou até norte-americana, com parlamentares do PCdoB, governo do Estado do Maranhão, votando a favor da entrega da Base de Alcântara.

(O governador da Bahia, Rui Costa (PT), em encontro com empresários chineses fechou um acordo de U$ 7 bilhões em parques industriais na Bahia. Foto do dia: 13/05/2019)

Supostamente querem implementar a partir da parceria comercial algumas medidas que possam amenizar a prática de guerras fiscais para atração de capital que marcou a região sobretudo nos anos 90. "Vamos trabalhar com todos os países que aqui queiram investir, e a China é quem tem melhores condições; os interesses do povo brasileiro vão prevalecer, independentemente das ideologias", afirmou o governador do Piauí, Wellington Dias (PT).

Governadores e representantes dos Estados da Bahia, Ceará, Paraíba e Pernambuco, por exemplo, já estiveram na China este ano; o governador do Piauí embarca em agosto e o Maranhão organiza mais uma missão empresarial para outubro.

A proposta do Consórcio é gerenciar o alcance desse sistema altamente invasivo e repressivo na região, usado na China para o governo monitorar cidadãos da minoria muçulmana na província rebelde de Xinjian, segundo reportagem da Folha de São Paulo.

Na Bahia e em Pernambuco o monitoramento facial já funciona desde as gestões passadas, tendo o município de Jaboatão (PE) começado a controlar a frequência de seus alunos por esse sistema. Em algumas cidades e sobretudo nos aeroportos desses estados já ocorre o monitoramento de quem entra e sai, no mais distópico modelo das “cidades inteligentes”. O sistema de reconhecimento facial usado pela Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-BA) é fabricado pela empresa Huawei. Foram investidos mais de R$ 18 milhões.

A transmissão desses dados também estará sob controle do semi-imperialismo chinês, os equipamentos são capazes de detectar expressões, tipo e cor de roupas usadas e idade aparente. O projeto Nordeste Conectado, que busca integrar toda a região com acesso à internet por meio de uma rede de milhares de quilômetros de fibra ótica, será por uma Parceria Público-Privada junto com Huawei e outras empresas.

Essa parceria com os governadores do Nordeste comporta à China o interesse de expandir o seu mercado para tecnologia, diante da retração do comércio mundial em crise e a renúncia dos EUA ao papel de importador em primeira instância.

Seriam os acordos firmados com esses governadores apenas um ensaio de negócios mais promissores em outras áreas na região, como em obras de infraestrutura de portos, no setor de energia elétrica, e em todo um sistema logístico de ferrovias e gasodutos? Um ensaio de uma aposta da China em se inserir no setor de serviços e TI do Nordeste, como parte do plano comercial da “Nova Rota da Seda” para o Brasil e a América Latina?

O interesse da China não se reduz ao monitoramento e comunicação, existe interesse na rede elétrica do Ceará, existe a proposta de construção de um parque industrial composto por siderúrgica, usina de energia e diversas unidades fabris, a exemplo de uma fábrica de cimento capaz de produzir anualmente 5 milhões de toneladas e até mesmo a revitalização do Porto de Aratu e a construção de uma cidade inteligente. A SPIC – State Power Investment Corporation pretende investir 4 milhões no Nordeste, dos quais 2 milhões serão no Rio Grande do Norte, em energia solar e eólica. Na próxima viagem à China está garantida o fechamento do negócio da duplicação da capacidade da fábrica de fibras ópticas ZTT, no Polo Industrial de Marechal Deodoro; e a instalação da GsPak, fabricante de embalagens longa vida, com um investimento de mais de R$ 170 milhões.

Uma das grandes contradições que a China enfrenta hoje para seu desenvolvimento enquanto potência, além da guerra comercial com os Estados Unidos e a ainda existente debilidade bélica, reside nas manifestações que há meses tomam Hong Kong, na fúria de uma juventude rebelada e criativa. O coordenador de Desenvolvimento Energético do Rio Grande do Norte, disse que eles fizeram “uma grande imersão na cultura chinesa” e conheceram a fundo o “modelo de governança que transformou um país numa potência econômica mundial, em tão pouco tempo”. O modelo de governança de censura e submissão a parâmetros de exploração que produzem suicídios em massa não atenderá aos nossos interesses.

A região Nordeste segue com os maiores índices de desemprego do país, com Bahia (17,3%) e Pernambuco (16%) na primeira e terceira posições respectivamente, das 20 cidades que mais demitiram até agora em 2019, 15 são nordestinas. Mas a saída para estas mazelas não será monitorar cada movimento de sua população com tecnologias avançadas ou entregar as riquezas e terrenos ao capital chinês. A afirmação do Economista Nivalter Aires ao Esquerda Diário urge: “A euforia (sobre o Consórcio Nordeste) segue injustificada, carece que no Nordeste se crie uma oposição verdadeira nessa história. Uma oposição que faça juz ao momento histórico que vivemos. Que coloque os anseios da população nordestina - trabalhadores, camponeses, povo pobre e estudantes - em oposição aos males que se viu últimos sete meses e os outros que poderão vir.”

Leia a entrevista com Nivalter Aires: “O problema nordestino não residia na seca enquanto fenômeno climático, mas sim enquanto fenômeno social”

Colocamos nossas pequenas forças na região à serviço de pensar, analisar e defender uma saída de independência de classe contra cada avanço imperialista disfarçado de desenvolvimento e cada mínima concessão disfarçada de mudança estrutural, quando na realidade as alternativas de conciliação só se comprovam mais incapazes de defender as necessidades da classe trabalhadora dia após dia. E convidamos todxs a fazerem o mesmo com o Esquerda Diário, principal portal digital da esquerda no país, capaz de chegar a milhões.

Para mais sobre as demonstrações de força bélica da potência em ascensão chinesa, clique aqui.




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