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TRIBUNA ABERTA

O Candomblé precisa falar sobre política e se posicionar contra o Bolsonaro

Neste cenário, temos um candidato à presidência que lidera as pesquisas de intenções de votos, no segundo turno. Sua principal ferramenta eleitoral é a disseminação e corroboração de ideias racistas, machistas, misóginas, xenofóbicas e LGBTfobicas, com declarações que incentivam a violência e políticas que propõem silenciar as minorias. Essas minorias não dizem respeito apenas a população LGBT, mas também a diversidade religiosa, entre outras.

quarta-feira 24 de outubro| Edição do dia

O Brasil passa por um período de extrema polarização no cenário político. As eleições, claramente manipuladas pelo poder judiciário e apoiada pelos seguimentos rural, empresarial e das forças armadas, atrás da cortina da moral e dos bons costumes, encobrem um projeto de país que abala a tão frágil e recente democracia brasileira.

Atualmente, há uma distorção na história brasileira e do mundo com a finalidade de eleger um governo de caráter ditatorial através da despolitização da população, pondo em risco o regime estabelecido pela Constituição de 1988.

Neste cenário, temos um candidato à presidência que lidera as pesquisas de intenções de votos, no segundo turno. Sua principal ferramenta eleitoral é a disseminação e corroboração de ideias racistas, machistas, misóginas, xenofóbicas e LGBTfobicas, com declarações que incentivam a violência e políticas que propõem silenciar as minorias. Essas minorias não dizem respeito apenas a população LGBT, mas também a diversidade religiosa, entre outras.

"Somos um país cristão, Deus acima de todos. Não existe essa historinha de Estado Laico, é Estado cristão e as minorias que forem contra que se mudem. Vamos fazer o Brasil para as maiorias! As minorias têm que se curvar às maiorias! As leis têm que existir para proteger a maioria e as minorias que se adequem ou simplesmente desapareçam.” (Jair Bolsonaro em Fev de 2017). (crivo nosso)

Mas, para compreender melhor a relação do resultado desta eleição e o Candomblé, é preciso recordar a história de resistência desta religião e desenvolver ao menos dois pontos frente ao, recentemente renomeado de intolerância para, racismo religioso.

O primeiro ponto é que incialmente o sincretismo religioso foi uma estratégia de preservação da fé utilizada pelos africanos escravizados no Brasil. Estes eram obrigados por seus senhores a cultuar imagens de santos católicos, e para não abrir mão de suas crenças colocavam os asés dentro das imagens de acordo com as características similares entre orixás e santos. Desta forma poderiam cultuar sem sofrer represálias.

O segundo ponto é sobre a influência das mulheres negras na defesa do culto aos orixás. O Candomblé vive até hoje por causa das lutas e estratégias políticas articuladas pelas mulheres negras, tais quais:

Mãe Aninha, do Ilê Axé Opô Afonjá, dedicou a vida para fortalecer o culto do candomblé no Brasil e garantir condições para o seu livre exercício. Segundo consta, por intermédio do ministro Osvaldo Aranha, que era seu filho de santo, Mãe Aninha provocou a promulgação do Decreto Presidencial nº 1202, no primeiro governo de Getúlio Vargas, pondo fim à proibição aos cultos afro-brasileiros em 1934 (Trecho retirado do Geledés, 2017)

Na Bahia, local onde historicamente a religião tem mais adeptos, o culto era tratado como caso policial até meados da segunda metade do século XX. Os anos de maiores intensidades das invasões policiais aos terreiros foram entre 1920 e 1930. Para o exercício das atividades litúrgicas exigia-se uma licença emitida pela Delegacia Estadual de Crimes contra os Costumes, Jogos e Diversões Públicas, derrubada somente em 2002.

Nessa época o delegado Pedro de Azevedo Gordilho (Pedrito), foi quem mais perseguiu o povo de asé. Era costumeiro, para este agente público fazer batidas nos terreiros, interromper as liturgias, prender os membros e confiscar seus objetos sagrados. Aqui, vale ressaltar que os filhos de santo em obrigados a carregar os seus atabaques no lombo até a delegacia.

Para que não pareça apenas uma lembrança de tempos remotos para os mais jovens que compõe esta religião, é importante trazer à tona que no Arquivo Público da Bahia, estão disponíveis para leitura os processos criminais que comprovam as violências e apreensão das peças sagradas. Atualmente, algumas encontram-se no Museu Afro Brasileiro e outras foram devolvidas para as casas de origem, como por exemplo a cadeira de Jubiabá restituída ao Terreiro de Táta Anselmo no ano de 2015. Também é possível pesquisar mais na plataforma do Coletivo de Entidades Negras.

Mãe Cotinha de Yèwá, do Ilê Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó, era integrante de um articulado grupo de mulheres negras, Partido Alto, e lutou na defesa e liberdade dos negros. Mãe Cotinha tinha inúmeras filhas de santo, que mais tarde viajaram aos mais diversos estados brasileiros e propagaram o Candomblé.
Ìyá Simplícia, sucessora de Mãe Cotinha, foi uma mulher muito batalhadora e protetora de suas filhas de santo, não permitiu que fossem exploradas pela elite racista da época. Para garantir os subsídios, ensinava-as a produzir os típicos quitutes baianos e sua única uma exigência era o retorno à escola.

Aqui, cabe um adendo interessante: as quituteiras no período escravocrata brasileiro, tiveram um papel fundamental na conquista de espaço na sociedade e na compra da alforria dos negros em situação de escravidão.
Iya Nilzete de Yemojá, sucessora e filha biológica de Mãe Simplícia, teve a gestão marcada pela determinação em assegurar a propriedade do terreiro que sofria forte especulação imobiliária.

Esta luta trouxe benefícios para o Candomblé baiano, uma vez que a repercussão e os esforços contribuíram para que no ano seguinte a Constituição do Estado da Bahia dispusesse, em seu art. 275, os seguintes termos: “É dever do Estado preservar e garantir a integridade, a respeitabilidade e a permanência dos valores da religião afro-brasileira’’. A legislação atual também reconheceu oficialmente o Candomblé como religião (Extraído do site Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó).

Mãe Stella de Oxóssi, muito conhecida pela luta por políticas de afirmação e defesa da cultura do povo negro no Brasil. Recebeu diversas honrarias pelo seu trabalho como fomentadora cultural.

É importante dizer que o candomblé é uma religião plural, constituída por diversos seguimentos sociais. Em sua construção existe à luta e a resistência do povo negro, a cultura e história indígena, e a força e o acolhimento à população LGBT, que estavam a margem da sociedade, assim como o candomblé. A força desta pluralidade é que movimentou esta religião.

Dados mais atuais relacionados com essas comunidades, que compõe as casas de asé espalhadas pelo Brasil, e são igualmente atingidas pelo discurso raivoso e preconceituoso do candidato à presidência em 1º lugar nas pesquisas do segundo turno serão dispostas a seguir:

Intolerância/Racismo religioso:

Um levantamento feito de 2015 até o primeiro semestre de 2017, o Brasil registra uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas e São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro lideram os casos (Ministério dos Direitos Humanos, 2017)
De janeiro a março de 2018, os casos cresceram em 56% no Rio de Janeiro em comparação com o primeiro trimestre de 2017. O tipo de violência mais praticado é a discriminação (32%). Depois, aparecem depredação de lugares ou imagens (20%) e difamação (10,8%). As religiões de matrizes africanas são os principais alvos: candomblé (30%) e, umbanda (22%). De 2017 até 20 de abril, foram registradas 112 denúncias e mais de 900 ações de atendimento (AGENCIA BRASIL, 2018).

Genocídio da população indígena:

Não é um segredo de Estado o genocídio indígena, todos nós já estudamos ou ouvimos falar ao menos uma vez sobre a perseguição a esses povos desde o “descobrimento” do Brasil. No relatório “Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – Dados 2016” do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) revelou que, só em 2016, foram 118 assassinatos, 106 suicídios e 735 casos de mortalidade infantil.
A mortalidade infantil se dá por falta de acessibilidade a saúde e morrem acometidos de doenças que tem tratamento, tais como gripe, sarampo e outras causadas pela desnutrição.

Dados do Ministério da Saúde (2014), apontam que o índice de suicídio entre indígenas é quase o triplo da média nacional. O Brasil registra 5,7 óbitos a cada 100 mil habitantes, enquanto que índice é de 15,2 dentro dessa população. Essas mortes (44,8%) ocorrem na faixa etária de 10 a 19 anos, 10 anos mais cedo do que o divulgado pelo panorama geral, em que os casos estão na faixa de 20 a 39 anos ao que corresponde aos casos registrados.

Esse alto índice de suicido entre os indígenas está vinculado discriminação, marginalização, colonização traumática e perda das formas tradicionais de vida (perda de terras para plantio e praticas da própria cultura)

LGBTfobia no Brasil:

Brasil é o país que mais mata LGBT no mundo, mata até mais que países do oriente médio em que ser LGBT é crime punido com a morte.
No Brasil, a homosexualidade não é considerada um crime perante a lei, mas a punição pelas mãos da sociedade também é a morte. A média de vida da população LGBT assassinada é de 27 anos para pessoas trans e travestis, 28 anos para lésbicas, 38 anos para gays e 42 anos para bissexuais.
Segundo um levantamento do Grupo Gay da Bahia, em 2017, foram 445 mortes de pessoas LGBTs. Houve um crescimento de 30% em relação a 2016.

No ano de 2017, foram 179 assassinatos de pessoas trans, sendo 169 travestis e mulheres transexuais e 10 homens trans. A ANTRA revela que no primeiro semestre de 2018, cerca de 86 travestis e transexuais foram mortas, vítimas do preconceito.
Recentemente, o número de notícias de ataques à essa população tem sido feita sob o ódio alimentado pelas falas do presidenciável Bolsonaro, que inúmeras vezes assumiu que é homofóbico e que gays não terão sossego em seu governo.

Nas universidades, suásticas e frases que relacionam Bolsonaro, ameaças de violência e morte para negros e LGBTS tem se espalhado pelo país.
Nos últimos dias desse mês de outubro cinco travestis foram mortas por eleitores de Bolsonaro, estas ações expressam a crença de que no possível governo Bolsonaro terão possibilidade de matar sem punições efetivas, tal qual uma nova Operação Tarântula que ocorreu no centro de São Paulo durante a ditadura militar, só que agora a nível nacional.

QUESTIONAMENTOS:

É necessário realizar um questionamento sobre o embranquecimento (ou recorte de raça) dentro da religião, para evidenciar os possíveis motivos pelos quais os membros do candomblé optam por um candidato que não tem pretensões de governar para todos, inclusive põe o Deus cristão acima do Estado Laico. Por que esses posicionamentos não são chegam aos ouvidos como ameaça, a uma religião historicamente perseguida às vistas grossas da sociedade e da justiça deste país? Essa votação massiva em Bolsonaro por membros do Candomblé, não perpassa o privilegio branco que se instalou em uma religião de raiz PRETA?

Sabe-se que essa religião pratica o culto a ancestralidade preta e aqui também cabe considerar a importância histórica dos indígenas, uma vez que esta é uma religião brasileira, o embranquecimento teria influenciado o fechar dos olhos e voto em um candidato que declara abertamente em suas frases racistas que quilombolas e indígenas não terão, em seu governo, direito a 1cm de terra? Estariam agora os membros do candomblé lavando as mãos sobre o genocídio que os indígenas sofreram e ainda sofrem?

Será necessário relembrá-los as raízes dessa religião e o respeito as conquistas políticas realizadas principalmente pelas Mães de santos?
Bolsonaro já defendeu a redução da licença maternidade e disse em programa de canal aberto que mulheres devem ganhar menos, pois engravidam. Também, não poupa xingamentos para mulheres que decidiram confrontá-lo. É possível afirmar que o machismo se instalou dentro uma religião que outrora teve avanços significativos de resistência pelas mãos matriarcais e hoje por possuir inúmeros homens na liderança, simplesmente ignora os posicionamentos machistas e misógino do candidato?

O candomblé tem uma história de acolhimento da população LBGT e tem uma relação de influência direta com o dialeto das travestis, denominado Pajubá. Mas, na atual conjuntura política parece fechar os olhos para esta característica da religião e vota em um candidato que propõe silenciar essa população na sociedade. Esse posicionamento vai de encontro com as relações estabelecidas historicamente?

E por fim, se mesmo após as lutas de nossos ancestrais, ainda hoje sofremos perseguição, temos nossos templos queimados e membros agredidos, em um governo que promete governar para maioria e tornar o país uma pátria em que Deus está acima de todos, cabe a nós compreender que certamente esse deus não é Olodumare e nem os orixás.

Este texto tem como objetivo possibilitar uma reflexão diante dos acontecimentos atuais sem esquecer nossa história. O Candomblé é feito de histórias e através delas temos exemplos e aprendizados para as diversas situações da vida. Diz um itan que Ogum ao sair para a guerra voltou em uma época de ritual onde todos deveriam permanecer em silêncio. Ogum no calor da guerra havia se esquecido desse ritual e ao ser ignorado por todos se encheu de ódio e cortou a cabeça dos que ali estavam. Um servo de Ogum ao chegar no local percebe o que havia ocorrido. Logo, comunicou a Ogum o por que ninguém lhe dava atenção. Envergonhado Ogum cavou um buraco e sumiu dentro da terra, foi a última vez em que foi visto.

O itan nos ensina a importância da reflexão e do autocontrole, e as consequências desastrosas da intolerância. Convido a reflexão mediante o exposto e o que nos ensina o Orixá, para um voto consciente e que respeite a existência, a vida daqueles que lutaram e lutam ao nosso lado.

Todos os links utilizados para esta fundamentação estão disponíveis abaixo:

Breve contexto histórico:

https://ocandomble.com/2016/03/08/a-origem-do-candomble-no-brasil/
https://www.geledes.org.br/mae-aninha-ialorixa-do-ile-axe-opo-afonja/
http://www.casadeoxumare.com.br/
http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/299-mae-stella-de-oxossi

Intolerância/racismo religioso

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-05/casos-de-intolerancia-religiosa-sobem-56-no-estado-do-rio
https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-registra-uma-denuncia-de-intolerancia-religiosa-a-cada-15-horas,70002081286
Genocídio Indígena:

https://noticias.r7.com/prisma/nosso-mundo/brasil-e-lider-disparado-no-genocidio-de-indios-na-america-latina-24042018
https://www.brasil247.com/pt/247/rs247/330308/%E2%80%98H%C3%A1-um-genoc%C3%ADdio-dos-%C3%ADndios-no-Brasil%E2%80%99.htm
https://revistatrip.uol.com.br/trip/suicidio-indigena-bate-recordes-morte-voluntaria-e-consequencia-de-uma-existencia-em-conflito
http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/154/sumula/morte-entre-criancas-indigenas
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-10/relatorio-do-cimi-aponta-que-118-indigenas-foram-assassinados-no-brasil-em
LGBTfobia:

https://segredosdomundo.r7.com/10-paises-onde-e-proibido-ser-gay-e-o-crime-e-punido-com-morte/
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/17/opinion/1526578355_596099.html
https://homofobiamata.wordpress.com/
http://www.justificando.com/2018/10/17/aos-gritos-de-bolsonaro-e-ele-sim-travesti-e-morta-no-centro-de-sp/
https://www.cartacapital.com.br/revista/1026/encorajados-por-discurso-de-odio-preconceituosos-saem-do-armario
https://antrabrasil.files.wordpress.com/2018/02/relatc3b3rio-mapa-dos-assassinatos-2017-antra.pdf
https://antrabrasil.org/2018/07/01/sao-86-pessoas-trans-assassinadas-no-primeiro-semestre-de-2018/




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