Educação

ELEIÇÕES CAPPF 2018

O CAPPF é dos estudantes! Manter nossa mobilização por um movimento estudantil combativo

Na última semana ocorreram as eleições para o Centro Acadêmico Professor Paulo Freire da Faculdade de Educação da USP. Em uma disputa apertada, a chapa Mandacaru, composta pelo MAIS, MSA e independentes, contando também com o apoio de correntes do PT, venceu por uma diferença de apenas 4 votos.

Flávia Toledo

São Paulo

quarta-feira 6 de dezembro| Edição do dia

Na última semana ocorreram as eleições para o Centro Acadêmico Professor Paulo Freire da Faculdade de Educação da USP. Em uma disputa apertada, a chapa Mandacaru, composta pelo MAIS, MSA e independentes, contando também com o apoio de correntes do PT, venceu por uma diferença de apenas 4 votos (um total de 131 votos). A chapa Uma flor rasgou a rua, composta por militantes da Faísca e independentes e que vinha sendo gestão há dois anos, contou com 127 votos, em sua maior eleição na Faculdade de Educação, a de maior quórum dos últimos anos.

Em uma campanha marcada por mentiras por parte da chapa Mandacaru e com apoio aberto, entusiasmado e comemorado das correntes do PT dentro da USP, o resultado final destas apertadas eleições foi definido pelos votos dos antigos diretores do DCE e de dirigentes e militantes do Levante Popular da Juventude, uma descarada manobra de utilizar um aparato militante que nunca aparece na Faculdade de Educação da USP para fazer valer como votos da licenciatura e, dessa forma, vencer as eleições.

É importante resgatar um pouco da história do CAPPF e do cenário atual das eleições. Em 2016 e 2017, as gestões do CAPPF foram compostas por militantes da Faísca e independentes, referendadas em eleições de chapa única com forte reconhecimento da base dos estudantes. Antes, a gestão de 2015 se esfacelou ao longo do ano, encerrando o triste ciclo de esvaziamento do movimento estudantil da FEUSP e de inexistência de um centro acadêmico. Então, o CAPPF estava justamente nas mãos de correntes do PT ou de correntes de esquerda, como o RUA, que compunham a gestão do DCE. Estas correntes também se aliaram ao PT para ganhar o centro acadêmico – em 2015, sua vitória também foi apertada, vencendo por 5 votos da chapa da Faísca e independentes. A marca dessa gestão foi o completo imobilismo.

Em 2016, recebemos uma entidade fantasma, com dívidas e que não estava presente no curso. Em poucos meses, a FEUSP chegou à vanguarda do movimento estudantil da USP, sendo o primeiro curso a aprovar greve em assembleia lotada. Neste ano, a FEUSP se consolidou como uma das faculdades mais importantes para o movimento geral da USP, e o CAPPF, de centro acadêmico desconhecido e inerte, se tornou uma das principais entidades da universidade, cumprindo o papel que o DCE – composto também pelo MAIS - se recusou a cumprir. Tudo isso foi fruto de um programa político que defende um movimento estudantil anti-burocrático, subversivo, democrático, contra o golpe institucional e independente do PT, que se baseia na auto-organização dos estudantes. Ou seja, a força dos estudantes da Faculdade de Educação (Pedagogia e Licenciaturas), livre do entrave de gestões imobilistas, mudou completamente a localização da FEUSP e do CAPPF no movimento estudantil.

As eleições começaram a se desenhar no início do segundo semestre deste ano. Enquanto o Conselho Estadual de Educação tentava impor a Reforma Curricular, uma espécie de “versão universitária” do Escola Sem Partido, aos cursos de licenciatura e pedagogia das três estaduais paulistas, infelizmente apenas uma entidade estudantil se dispôs a lutar: o CAPPF. Desde a primeira semana de aula a gestão A Plenos Pulmões incentivou a auto-organização dos estudantes e levou, sozinha, a discussão para 14 cursos de licenciatura no campus Butantã, distribuindo mais de cinco mil boletins informando sobre o ataque e chamando os centros acadêmicos e o DCE a mobilizarem contra mais essa investida da direita. Uma assembleia geral foi marcada e o CAPPF propôs uma paralisação geral dos cursos de licenciatura no dia 25 de agosto, proposta rechaçada pela então direção do DCE pela “falta de quórum” - ou falta de convocação. Foi deliberado, então, que um Conselho de Centros Acadêmicos fosse chamado para tratar do assunto. Nós, enquanto gestão, enviamos ao DCE a planilha que explicava o ataque para que fosse repassada aos centros acadêmicos, de maneira a preparar melhor a luta.

No dia do tal CCA, uma surpresa: a pauta da reunião magicamente deixou de ser a Reforma Curricular e passou a ser a mais falida de todas as campanhas por “Diretas pra reitor”, dois meses antes da escolha do novo reitor da USP. A planilha não foi encaminhada e a Reforma foi tratada como um assunto “pra depois das diretas”. O motivo? O “movimento” Nossa Voz, composto por PT, Levante Popular da Juventude e UJS, tinha lançado na mesma época um manifesto por democracia na universidade, dando início à campanha eleitoral pra DCE. Era preciso responder à campanha da chapa de oposição, e a então direção do DCE (Juntos, Rua, Mais, Vamos à Luta, UJC) optou por isolar a FEUSP nessa luta e ignorar todos os nossos pedidos por unidade contra o autoritarismo da reitoria e do CEE. Não mexeram um dedo para barrar a reforma.

Pior do que isso, apenas a política levada à frente pelo petismo, que dirigia os centros acadêmicos da FFLCH. Como de praxe, sua traição aos estudantes foi muito mais profunda. Na Letras, a direção do CAELL apoiou a reforma, dizendo que não era um ataque e que ela “poderia ser boa”. Depois de terem conseguido evitar que a Letras paralisasse junto à FEUSP em agosto, não conseguiram evitar a aprovação de uma paralisação contra a reforma na segunda assembleia chamada para debater a questão. Sua resposta foi um e-mail junto a alguns RDs pedindo desculpas à burocracia e pedindo para que essa postura “radical” não atrapalhasse o “diálogo” entre representantes discentes, a gestão e a diretoria da faculdade. Traíram, diretamente, centenas de estudantes que lotaram as duas assembleias e deliberaram legitimamente pela paralisação.

O resultado desse processo deixa claro o que significam tanto uma direção consequente com a luta, quanto a traição por parte de outras direções. Apenas na Pedagogia da USP a reforma foi barrada. No restante dos cursos, não. Para que as licenciaturas não tenham de ter seus currículos adequados a essa reforma reacionária, é urgente que os cursos sejam mobilizados, seguindo o exemplo da mobilização dos estudantes da Pedagogia em 2017.

Os dirigentes estudantis que apoiaram a reforma curricular ajudaram a eleger a Mandacaru

Chegou novembro, e com eles a temporada de eleições estudantis. A primeira foi a do DCE, vencida pela Nossa Voz (PT, Levante e UJS) por uma diferença, não de 4 votos, mas de 3000 votos contra a chapa da esquerda (PCB, MES, RUA, MAIS, entre outros). Na terceira semana do mês, as eleições para os centros acadêmicos começaram, e começariam aí as eleições para o CAPPF. Na mesma semana, no entanto, estava sendo chamada uma mobilização em defesa do HU pelos estudantes em greve da Medicina e da Enfermagem. Nós, da chapa Uma Flor Rasgou A Rua, propusemos que as eleições fossem adiadas. Para o MAIS e o petismo, a proposta foi considerada uma “desculpinha”. Para nós, o adiamento das eleições significava dar prioridade à luta em defesa do Hospital Universitário. Não isolaríamos os estudantes em greve, como fizeram as demais correntes do movimento estudantil com a FEUSP meses antes.

Enquanto estávamos organizando e contribuindo na luta em defesa do Hospital Universitário, a chapa Mandacaru, com protagonismo do MAIS, pediu, recebeu e agradeceu o apoio dos antigos diretores do DCE e do petismo para “tirar a Faísca do CAPPF”. E nos três dias de urnas abertas a FEUSP finalmente conheceu aqueles que estiveram à frente do DCE nos últimos sete anos. Pisando na faculdade pela primeira vez na vida, dezenas de militantes foram depositar seu voto na Mandacaru, recebendo seus atestados de matrícula da licenciatura das mãos de militantes do MAIS para que pudessem votar. Na sexta-feira, uma cena lamentável: um militante do Levante Popular da Juventude (diretor do CAELL, apoiador da Reforma Curricular) fez questão de lembrar, em alto e bom som, ao MAIS que era ele que estava levando os votos que garantiriam a vitória da Mandacaru.

Além do apoio do petismo, uma campanha baseada em mentiras marcou a eleição da Mandacaru. Desde dizer que nós só aparecemos na FEUSP pra pedir voto em eleições – uma mentira tão descarada quanto irônica, já que é o mesmo que se diz na FEUSP, nesse caso com razão, sobre a antiga gestão do DCE que fez parte e apoiou a chapa Mandacaru – até mentir sobre a Reforma Curricular, dizendo que o ataque não tinha sido barrado na Pedagogia. Até a urna ter sido fechada na quinta-feira, uma proposta feita pela própria chapa Mandacaru, foi utilizada de argumento contra a gente, insinuando aos estudantes que nós não queríamos que votassem. Enfim, uma campanha bastante problemática.

A FEUSP pode ser o principal polo de oposição ao burocratismo do DCE 2018

A forma como se deu a vitória da Mandacaru nestas eleições nos dá pistas de como será a gestão 2018 do CAPPF. Afinal, o apoio do PT não é “desinteressado”. Ele só foi possível porque essa chapa não se propõe a ser alternativa ao PT para mobilizar os estudantes contra os ataques golpistas dentro e fora da universidade. Como bem disse uma de suas integrantes, a chapa espera estar “de mãos dadas” com estas correntes petistas.

É no mínimo questionável que setores que compunham a gestão 2017 do DCE – Juntos, Rua, Mais, UJC – tenham se recusado a fazer unidade na luta com o CAPPF contra a reforma, apenas pela gestão ser composta pela Faísca, mas tenham saído com o discurso de “unidade” em processo eleitoral para derrotar a única gestão que mobilizou consequentemente os estudantes ao longo do ano, forçando o Conselho Estadual de Educação a recuar do ataque na Pedagogia.

Essas eleições nos deixam algumas lições. Em primeiro lugar, fica escancarada a necessidade de uma democratização radical das entidades. É preciso que um congresso de estudantes seja construído na FEUSP para que aprovemos a proporcionalidade na gestão do centro acadêmico, garantindo maior democracia e representatividade na entidade, fazendo com que os estudantes façam experiência com as diferentes posições existentes no movimento estudantil e impedindo que manobras como essa permitam que o centro acadêmico fique à mercê de correntes oportunistas como o MAIS, que não fez nenhuma oposição política aberta durante todo o ano e só apareceu pra disputar o centro acadêmico.

A FEUSP é, hoje, um dos principais setores do movimento estudantil da USP. Os estudantes que barraram a Reforma Curricular na Pedagogia e que estão dispostos a barrar também nas licenciaturas não abaixarão a cabeça para a burocratização do DCE pelo petismo e pela UJS.

É verdade que, se depender do MAIS e da gestão eleita para o CAPPF, a oposição à gestão burocrática do DCE em 2018 será ínfima. Afinal, como se opôr àqueles que garantiram a sua eleição? Mas os estudantes podem e devem exigir que as direções de suas entidades sejam consequentes. Se não forem, os estudantes têm força para superá-las.

Agradecemos a cada um dos 127 votos que recebemos nessa eleição. 127 votos em um programa político que se embate com o burocratismo, o imobilismo, que se enfrenta acadêmica e politicamente com a reitoria. Aos estudantes que votaram na chapa Mandacaru, colocamos estas reflexões para fortalecer a nossa luta e chamamos todos a se mobilizar. Pois ao contrário do que parte da chapa Mandacaru tem falado, o CAPPF não é de um membro desta nova gestão, é dos estudantes. A Faculdade de Educação não é de um membro desta nova gestão, é dos estudantes, trabalhadores, terceirizados e professores que fazem essa Faculdade funcionar há décadas.

A Uma Flor Rasgou A Rua seguirá na FEUSP, como sempre, defendendo um projeto de universidade a serviço dos trabalhadores que a sustentam e combatendo a direita e seus ataques. Por um movimento estudantil auto-organizado desde a base, anti-burocrático, aliado aos trabalhadores e que consiga levar adiante as demandas mais mínimas dos estudantes mas armando uma luta muito maior contra os monopólios da educação no Brasil que impedem que a juventude esteja nas universidades.

Mais do que apenas se mobilizar contra os inúmeros ataques que seguirão sendo jogados nas nossas costas, é preciso seguir com um projeto de centro acadêmico que marcou positivamente as gestões de 2016 e 2017. O CAPPF deve seguir apoiando os coletivos de combate às opressões existentes na faculdade, como o Coletivo de Diversidade de Gênero e Sexualidade e o Coletivo Negro da FEUSP, criados em 2017, e a Frente Feminista, que voltou a se articular também este ano. Também deve seguir no questionamento da produção do conhecimento na universidade. A quem ele se destina? Se dependesse dessa reitoria que congelou a contratação de professores e tem contratado em regime temporário, a tradicional Semana de Estudos Clássicos não teria acontecido em 2017. Ela só aconteceu pela concepção de universidade que a gestão A Plenos Pulmões defendeu, e que a Uma Flor Rasgou A Rua trouxe em seu programa, e pela ousadia de tomar pra si as demandas da faculdade, construindo uma forte semana acadêmica e uma peça de teatro assistida por mais de 300 estudantes.

Chamamos cada estudante que votou Uma Flor Rasgou A Rua pro CAPPF, Outra Margem pro CAELL e Primavera Nos Dentes pro DCE, cada estudante que quer resistir aos muitos ataques que virão a ser linha de frente do movimento estudantil no ano de 2018, se enfrentando com a Reitoria e com a direita, e a fazer uma forte oposição à nova gestão do DCE, que está nas mãos sujas do petismo e da UJS. Não aceitamos os enormes ataques, como a reforma da previdência e a reforma trabalhista, por parte do governo golpista de Temer, tampouco permitiremos que o movimento estudantil da USP seja massa de manobra para a campanha de Lula, e não aceitaremos dar nenhum passo atrás na democracia do nosso movimento. É preciso defender nossos métodos históricos por um movimento estudantil forte e aliado aos trabalhadores, e com certeza os estudantes da FEUSP serão fundamentais nesse processo. Devemos batalhar pela mais ampla unidade na luta, sem apagar nossas diferenças ou eliminar o debate político, para barrar os ataques. O CAPPF é dos estudantes!




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