ENTREVISTA COM O CINEASTA VLADIMIR DE CARVALHO / Brasília

O Brasil real e o Brasil formal, classe dominante e classe trabalhadora

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 30 de outubro| Edição do dia

Durante o evento anual do Quintas Urbanas/LOCCUSS, na UnB, em outubro de 2017, o Esquerda Diário teve oportunidade de entrevistar o prof Vladimir de Carvalho, ex-professor da UnB, cineasta, autor de vários documentários de valor inapagável para a classe trabalhadora brasileira, para a juventude de mais sensibilidade, como é o caso de Conterrâneos velhos de guerra, que conta a história da fundação de Brasília de uma maneira crítica e dialética; e que traz para o centro do palco a classe que, sob condições degradantes e de exploração do trabalho, levantou a moderna capital do país.

Na nossa perspectiva, simplesmente, não se pode entender a história real da criação de Brasília passando ao largo daquele documentário. A seguir, breve entrevista concedida ao ED pelo impactante prof Vladimir, que está na galeria dos autores que revolucionaram o documentário no Brasil [com Barra 68, por exemplo, sobre a invasão policial da UnB de 1968].

ED – Professor, seu filme para nós, que integramos o campo da crítica social, revolucionária, coloca a história de Brasília na perspectiva de quem construiu e de fato levantou a cidade, a classe trabalhadora; a pergunta é: por que você pensou em dar voz a quem, normalmente, não tem voz, por que você fez esse filme, Conterrâneos velhos de guerra?

Prof Vladimir de Carvalho – Veja, Gilson, o que aconteceu aqui, tudo tem origem, tem clima propício ou não, etc, então o que aconteceu aqui apesar da marquetagem, dos elogios de toda aquela coisa de que “vamos fazer a capital do país, no centro geográfico do país”, [desde] aquele momento, aquele projeto carregava um pecado original que foi, praticamente ao apagar das luzes, um ano antes da inauguração, em 1959, aqui, uma chacina de trabalhadores; isso é muito simbólico: [de um lado] a classe dominante e [do outro] a classe trabalhadora, [os trabalhadores] usados como se fossem escravos; tanto é que começo o filme [Conterrâneos...] com um poema do Brecht : quem é que levou as pedras para construir as pirâmides, a Babilônia etc?

Esse vácuo que existe, da exploração de uma classe pela outra, isso ficou patente [com Brasília] mesmo que seus criadores, seus artífices pensassem de uma forma diferente, como é o caso de Oscar Niemeyer; mas esse traço maculou a história de Brasília para sempre; houve aqui um massacre de trabalhadores durante a construção de Brasília, isso a gente vai levar sempre como alguma coisa emblemática da diferença [social] e da luta de classes.

ED - Aqui em Brasília é usual que a imagem de JK, Lúcio Costa etc seja vista de um ângulo determinado, o do elogio. Por que isso acontece na história de Brasília o tempo inteiro, muda geração, entra geração e eles continuam lá no Olimpo?

Prof Vladimir de Carvalho – Isso é o reflexo do que a gente chamou - isso vem de Machado de Assis - o Brasil real e o Brasil formal. O Brasil formal é o da classe dominante. O Brasil real é o que a gente vê, é o subdesenvolvimento nordestino, a miséria, é toda essa coisa que aparece como um fosso entre as classes e apesar do discurso. Eu tomo, por exemplo, o Oscar, homem assumidamente comunista, que pagou as contas do Luis Carlos Prestes, um homem generoso nas suas propostas humanitárias, digamos assim, e que se dizia um comunista. No entanto, talvez ele tenha sonhado que com a construção de Brasília, e esse traçado dessa cidade, essa arquitetura genial, fosse resolver o problema sócio-econômico e social e todas as mazelas. Deve ter sonhado com isso; e isso, aparentemente, aparece em Brasília. No entanto, se você olha hoje para Brasília o que foi ratificado foi uma divisão entre um eldorado e uma periferia terrivelmente discriminada, onde reside a pobreza, as contradições sociais todas; e uma pobreza tangida; Brasília hoje não mostra diferença em relação à qualquer cidade brasileira de grande porte, como Rio, São Paulo, Salvador, Recife, onde se desenvolve toda uma discriminação social, e na configuração da própria cidade.

Caso lhe interesse, o documentário Conterrâneos velhos de guerra consta do link:
https://www.youtube.com/watch?v=iDcz3Uw21wI&t=265s




Tópicos relacionados

Brasília   /    História

Comentários

Comentar