Gênero e sexualidade

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

O Brasil é um dos cinco países com maior índice de violência contra as mulheres

O recente caso da brutal agressão do bilionário empresário Lírio Parisotto (um homem que acumulou uma fortuna de US$ 2,4 bilhões explorando o trabalho alheio) contra a modelo e atriz Luiza Brunet, com quem tinha um relacionamento há cinco anos, colocou na mídia uma vez mais um debate que retrata a dura realidade das mulheres no país.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 5 de julho de 2016| Edição do dia

No caso de Luiza, foram quatro costelas quebradas e um imenso hematoma no olho em que recebeu um soco. Mesmo com toda sua fama e influência, suas denúncias foram rapidamente desacreditadas por grande parte da mídia e "comentadores de internet". Hoje, a Folha de S. Paulo e outros meios dão grande repercussão à defesa que Parisotto fez em nota, afirmando que já foi agredido por Brunet e teve que levar dez pontos. Seu amigo Paolo afirma cinicamente em um comentário: "Se fala tanto em violência contra a mulher. E a violência da mulher contra o homem?"
Esse tipo de mentalidade, que minimiza e relativiza a violência contra as mulheres, e culpabiliza as vítimas pelas agressões que sofrem, é inerente a uma sociedade capitalista e patriarcal, na qual o machismo tem um papel estrutural para manter a exploração, fazendo com que as mulheres exerçam o trabalho doméstico não remunerado e recebam os piores salários, ocupando os postos de trabalho mais precarizados.

Estima-se em 13 assassinatos de mulher por dia no país, colocando o país em quinto lugar no mundo em casos denunciados de violência contra a mulher, ficando atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia. Contudo, sabemos que os dados oficiais são imensamente inferiores à realidade, já que a maioria das mulheres não denuncia por saber que não pode contar com o Estado para lhes defender de seus agressores. Outro caso em que o Estado é responsável pela violência é o dos abortos clandestinos, quinta causa de morte materna no país, e que segue matando milhares de mulheres. Em treze anos de governo, o PT não deu um passo sequer no sentido de sua legalização.

E, se mesmo para Luiza Brunet, uma mulher branca, rica e famosa, há obstáculos para denunciar a agressão e obter justiça, as coisas são muito piores para as trabalhadoras. As estatísticas oficiais mostram que as mulheres pobres e negras são as principais vítimas de violência, que se manifesta não apenas com agressões físicas e trabalho precário: pesquisa feita pelo Instituto Vladimir Herzog e Instituto Patrícia Galvão com 2.300 mulheres de 14 a 24 anos mostra que entre as mulheres mais pobres 74% das entrevistadas afirmam ter recebido um tratamento diferente em sua criação, por serem mulheres; 90% dizem que deixaram de fazer alguma coisa por medo da violência, como usar determinadas roupas e frequentar espaços públicos; e 77% acham que o machismo afetou seu desenvolvimento.
Muitas organizações de esquerda limitam seu combate à violência às mulheres a dizer que devem denunciar discando 180. Mas as mulheres que sofrem agressões sabem que a polícia não tem nenhum interesse em ajudá-las, isso quando não são eles mesmos os agressores (basta lembrar o recente assassinato de Laura Vermont nas mãos de policiais a quem recorreu quando estava sendo agredida, um caso brutal de transfeminicídio). Uma pesquisa feita pelo próprio Senado mostra a consciência dessa impunidade: 30% das mulheres disseram acreditar que as leis do país não são capazes de protegê-las da violência doméstica. Para 23,3%, muitas vítimas não denunciam os companheiros à polícia por prever que eles não será feita justiça. Então, frequentemente a denúncia apenas piora sua situação, pois seus companheiros saberão que estão sendo indiciados e se tornarão mais agressivos, e o Estado burguês lava as mãos e deixa essas mulheres à mercê de seus agressores, o que frequentemente leva ao feminicídio.

Para levar a luta adiante, é necessário que essa questão seja tomada pelos sindicatos, entidades estudantis, de direitos humanos, associações populares etc., para construirmos campanhas e ações concretas de luta contra a violência às mulheres.O Estado capitalista é responsável por perpetuar essa situação, e a luta para acabar com a violência contra as mulheres passa por lutar pelo seu fim. Para que essa situação acabe, precisamos lutar por um plano emergencial contra a violência às mulheres, em que as entidades do movimento operário que inclua:

- Construção imediata de casas de abrigo emergenciais para mulheres em situação de violência, e um plano de moradias a curto prazo para que não sejam obrigadas a viver com seus agressores.

- Por subsídio estatal e licenças trabalhistas para as mulheres vítimas de violência.

- Criação e coordenação de equipes interdisciplinares para prevenção, atendimento e assistência a mulheres vítimas de violência.

- Impostos progressivos às grandes fortunas e fim do pagamento da dívida pública para custeio dessas medidas.

- Legalização do aborto garantido pelo SUS.

- Educação sexual e de gênero nas escolas.

Imagem: Luiza Brunet com o rosto machucado. Outras fotografias estão anexadas ao processo que a atriz move contra o seu ex-companheiro.




Tópicos relacionados

Violência contra a Mulher   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar