Gênero e sexualidade

NOVELA DA GLOBO

Num Brasil de muitos Ivans, Carol Duarte muda visual para fazer transição de gênero de Ivana

Na última terça, 22 de agosto, Carol Duarte mudou o visual para interpretar o processo de transição da então Ivana, homem trans da atual novela das 20h da Globo, A Força do Querer. Carol já gravou as cenas, que os portais estão dizendo que contarão com muita emoção e com o contraste de sentimentos da família do personagem, segundo O Globo, e irão ao ar na próxima semana.

Cássia Silva

estudante de Ciências Sociais na Unicamp e militante da Faísca

sexta-feira 25 de agosto| Edição do dia

FOTO: Estevam Avellar/TV Globo

Quem diria que antes de 2013 e suas manifestações uma pessoa real ou mesmo um personagem trans apareceria nas telinhas da televisão, ainda mais da Globo, que apoiou a ditadura? Quem diria que o horário nobre da maior empresa de comunicação do Brasil trataria de transexualidade? Casas, locais de trabalho, locais de estudo e redes sociais estão tomados pela discussão LGBT, porque um personagem trans tomou espaço de uma novela, no horário nobre da maior rede de televisão brasileira, cujas protagonistas são uma policial militar e uma chefe do tráfico.

Ao mesmo tempo que podemos ver a enxurrada reacionária e conservadora na internet, com comentários de cunho extremamente preconceituoso com pessoas trans e LGBTs num geral. Isso acontece em tempos em que a aceitação de pessoas como Bolsonaro, que defende tortura e estupro em rede nacional, é tremenda, e de manifestações absurdas racistas, fascistas nos EUA.

Passamos hoje por um contraste imenso entre a visibilidade que a rede Globo tenta mostrar para os setores oprimidos e a realidade vivida pelas LGBTs. Centenas de assassinatos e situações de violência, a maioria esmagadora de travestis obrigatoriamente na prostituição, escolas não dando conta de um ensino que não perpetue o preconceito, acesso precário à saúde de qualidade no Brasil.

A verdade é que as LGBTs ganham espaço de visibilidade pelo simples fato de que mesmo as empresas de hoje - como a Globo, a Avon, a Skol - não podem negar nossa existência. Como nos apoiamos nessa visibilidade conquistada em horário nobre para questionar toda a estrutura que torna nossa vida miserável nos dias de hoje? De fato, Carol Duarte é uma mulher cisgênera, se reivindica com o gênero em que foi registrada quando nasceu, interpretando a transição de um personagem trans, mas como reconhecemos essa visibilidade para questionar as instituições do capitalismo que legitimam essa violência para combater a LGBTfobia e conquistar uma vida plena? Não existe integração no capitalismo e direitos paulatinamente arrancados de suas instituições para nós. Enquanto aguardamos os próximos capítulos para assistir a transformação do personagem, aproveitemos o espaço de questionamento para enxergar os Ivans, outrora Ivanas, da nossa sociedade e exigir que eles sejam vistos também em trabalhos dignos e fora das situações de violência!




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