Sociedade

ABUSO SEXUAL

Novos escândalos de pedofilia na Igreja Católica

Arceburgo (MG), Monsenhor Enoque Donizetti, 65 anos. Ela, 14 anos. Frutal (MG), Padre Fabiano Santos Gonzaga, 29 anos. Ele, 15 anos. Santa Bárbara - MG, Padre Bonifácio Buzzi, 36 anos. Eles, 10 e 15 anos. Mariana - MG, Padre Bonifácio Buzzi, 42 anos. Ele, 9 anos. Três Corações - MG, Padre Bonifácio Buzzi, 57 anos. Eles, 9 e 13 anos.

sexta-feira 28 de julho| Edição do dia

A Polícia Civil iniciou uma investigação e abriu inquérito para averiguar crime de estupro de vulnerável após ter acesso a um vídeo que circula em redes sociais no qual uma menina de 14 anos, coroinha na Igreja de Arceburgo – interior de Minas Gerais (MG) –, aparece seminua, dopada e sendo obrigada a beijar o clérigo, Monsenhor Enoque Donizetti de Oliveira, 65 anos.

Além da garota ter confirmado os abusos após a mãe ter visto o vídeo, outros coroinhas da Paróquia confirmaram para os policiais que sabiam da situação de abuso da menina e que haviam comunicado o caso para a Diocese de Guaxupé. Inclusive a filmagem foi feita pela própria menina após orientação de outro coroinha para quem ela havia contado sobre os abusos.

Tendo mantido um silêncio cúmplice por todo esse tempo, com a desculpa de estar realizando “apuração interna”, a Diocese de Guaxupé foi obrigada a soltar um comunicado oficial, após o vazamento do escândalo, afastando o referido sacerdote com a cínica justificativa do “intuito de averiguar os possíveis fatos e acontecimentos”. Dom José Lanza Neto, bispo de Guaxupé não engana, somente deixaram de encobrir os abusos do padre após o alcance e a publicização do crime. Do contrário, porque não tomaram essa atitude antes, quando avisados pelos coroinhas?

De acordo com o relato da vítima, por duas vezes o padre lhe deu um comprimido rosa que a deixou sem forças, para então cometer os abusos, tendo o primeiro acontecido na própria paróquia após uma celebração ecumênica, em que o padre teria tirado a blusa da menina e a beijado. De acordo com a investigação o vídeo que circula nas redes sociais é de março deste ano e por ao menos duas vezes o padre haveria viajado com a adolescente para a cidade paulista de Mococa onde teria comprado lingerie para que ela usasse.

Em maio desse ano, o padre Fabiano Santos Gonzaga, de Frutal, no triângulo mineiro, foi condenado a 15 anos de prisão por obrigar um adolescente, com distúrbios mentais, a realizar sexo oral nele dentro da sauna de um clube em Caldas Novas. De acordo com o Tribunal de justiça de Goiás, o padre terá que cumprir a pena em regime fechado, porém o caso segue em segredo de Justiça e nenhum outro detalhe sobre a sentença e o processo foi informado. Também neste caso, a Arquidiocese de Uberada, da qual Frutal faz parte, somente comunicou o afastamento do padre após a divulgação do caso.

Em maio de 2016, outro escândalo, o padre Bonifácio Buzzi, 57 anos, teria abusado de duas crianças de 9 e 13 anos, na zona rural de Três Corações. Esse caso é ainda mais absurdo, pois o padre Bonifácio já trazia em seu histórico uma condenação de 1995 em que foi flagrado abusando de dois meninos com 10 e 15 anos em Santa Bárbara – MG, ficando quatro anos em prisão domiciliar. Em seguida, em 2011, foi condenado a quase 20 anos por manter relações sexuais com um menino de 9 anos depois de celebrar missa em uma Igreja em Mariana – MG, tendo sido colocado em regime semi-aberto após cumprir parte da pena.

Esse caso ficou famoso por ter sido citado no filme norte-americano Spotlight – segredos revelados, vencedor do Oscar de melhor filme de 2016, que revela como a Igreja católica acoberta abusos sexuais de crianças e adolescentes praticados por seus sacerdotes. Após essa terceira reincidência e prisão, o padre foi encontrado enforcado em sua cela. Mesmo assim, a Polícia Civil segue as investigações com o objetivo de apurar as responsabilidades pelo retorno do padre às atividades religiosas mesmo estando em regime semi-aberto pelo crime de pedofilia.

O filme Spotlight – segredos revelados, dirigido por Tom McCarthy, rendeu ao periódico o mais importante prêmio de jornalismo do mundo – o Pulitzer e cita as quatro maiores cidades brasileiras envolvidas em escândalos e acobertamentos de casos de pedofilia: Rio de Janeiro (RJ), Franca (SP), Arapiraca (AL) e Mariana (MG).

É importante ver que esses casos não são isolados, mas parte de uma realidade que envolve toda a Igreja Católica. Os próprios dogmas repressivos e a moral conservadora que a Igreja Católica impõe para seus fiéis, e principalmente para seus padres, dão a base do que leva alguns de seus sacerdotes a desenvolverem ações sexualmente violentas. O celibato e a castidade caminham contra as necessidades fisiológicas e vitais do ser humano e aqueles que não conseguem se submeter a esse auto-controle repressivo desta instituição, encontram nos coroinhas e nas crianças em situação de vulnerabilidade as vítimas perfeitas para a realização de seus acessos doentis.

Não é a toa que a alta cúpula da Igreja tenta a todo custo encobrir os casos de pedofilia, pois eles sabem que essas violências e abusos sexuais são consequências diretas da própria moral e dogmas conservadores que eles aplicam aos seus fiéis e padres. E que nenhuma exigência de auto-controle sexual e celibatário baseado na ideia abstrata de “amor em Cristo” é capaz de extinguir esse comportamento nefasto das fileiras da Igreja Católica, mas somente a transformação dos seus dogmas e moral reacionários e conservadores. Algo que a alta cúpula da Igreja não está disposta a abrir mão, pois é justamente o que permite a ela o controle social de seus fieis e, portanto, ser peça-chave para o Estado e a burguesia na manutenção do sistema de dominação capitalista.




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